Santa Maria Madalena, ou Maria de Magdala, conta-se entre as personagens essenciais dos relatos evangélicos da Paixão e da Ressurreição. Os Evangelhos apresentam-na como discípula de Jesus, presente na sua morte e junto do seu túmulo. Em João 20, é a primeira a encontrar o Ressuscitado e recebe a missão de levar a notícia aos discípulos. A sua memória foi, contudo, recoberta ao longo dos séculos por outras imagens, nomeadamente a de uma pecadora arrependida. Para descobrir o seu lugar no cristianismo, é necessário regressar à sua identidade nos textos e, depois, acompanhar a história das tradições que a associaram ao perfume, à penitência e aos santuários da Provença.
| Época | Século I |
|---|---|
| Origem | Magdala, localidade da Galileia, segundo o seu nome |
| Papel | Discípula de Jesus e testemunha da Ressurreição |
| Fontes principais | Lucas 8, Marcos 15–16, Mateus 27–28, João 19–20 |
| Atributos | Vaso de perfume, livro, túmulo vazio |
| Festa | 22 de julho, celebrada como festa desde 2016 |
Maria de Magdala entre as mulheres que seguem Jesus
O nome Maria Madalena indica a sua ligação a Magdala, localidade da região do lago da Galileia. O Evangelho segundo Lucas menciona-a entre as mulheres que acompanham Jesus e os Doze e que contribuem materialmente para a sua vida itinerante. Esta informação é importante: coloca Maria no seio de um grupo de discípulos ativos, e não apenas junto de Jesus nos seus últimos dias.
Lucas esclarece que dela tinham saído sete demónios. Esta fórmula pertence à forma como os autores bíblicos falam da libertação espiritual e da cura. Não permite reconstituir um diagnóstico médico nem fazer de Maria uma mulher que vivesse necessariamente no pecado. O texto não a apresenta como prostituta, embora essa identificação se tenha desenvolvido mais tarde numa parte da tradição ocidental.
A presença de mulheres que apoiam a missão de Jesus permite compreender melhor a composição dos grupos de discípulos. O relato evangélico não limita o círculo dos que o acompanham aos doze apóstolos. Maria de Magdala pertence a esse grupo e adquire um lugar particular nos testemunhos da Paixão.
Aos pés da cruz e junto do túmulo
Os Evangelhos relatam a presença de Maria Madalena no momento da morte de Jesus. Marcos menciona-a entre as mulheres que observam a crucifixão à distância e que sabem onde o seu corpo é depositado. Mateus e João situam-na igualmente no grupo das testemunhas destes acontecimentos, com diferenças próprias de cada narrativa. Os textos não apresentam exatamente a mesma lista de mulheres, mas a presença de Maria permanece constante.
Esta fidelidade durante a Paixão explica grande parte do seu lugar na memória cristã. Vários discípulos homens fugiram ou estão ausentes de alguns relatos, enquanto as mulheres observam os últimos momentos e se preocupam com o corpo de Jesus. É necessário ler estes episódios no seu contexto, sem transformar as diferenças de narrativa num retrato psicológico completo de cada personagem.
O túmulo torna-se depois o lugar de uma experiência decisiva. Os relatos pascais associam Maria aos primeiros anúncios de que Jesus está vivo. A sua identidade de testemunha não resulta, portanto, de uma atribuição tardia sem ligação à Escritura: pertence ao próprio centro da narrativa dos evangelistas.
A manhã de Páscoa segundo João
O vigésimo capítulo do Evangelho segundo João atribui a Maria de Magdala um papel particularmente desenvolvido. Ela dirige-se ao túmulo de manhã cedo e constata que a pedra foi retirada. Corre a avisar Simão Pedro e o discípulo que Jesus amava. Ambos vêm examinar o local e depois partem. Maria permanece junto do túmulo, a chorar.
Vê então dois anjos e encontra um homem que toma inicialmente pelo jardineiro. Quando ele a chama pelo nome, reconhece Jesus e responde-lhe «Rabbuni», termo que significa mestre. A cena é uma das mais célebres da arte cristã: o reconhecimento ocorre no diálogo, no momento em que o Ressuscitado se dirige pessoalmente a ela.
Jesus confia-lhe depois uma mensagem destinada aos seus irmãos. Maria anuncia, portanto, aos discípulos que viu o Senhor. Esta passagem fundamenta a sua designação tradicional de «apóstola dos apóstolos»: recebe a missão de transmitir aos próprios apóstolos a notícia da Ressurreição. O título não significa que seja retroativamente integrada nos Doze, mas que realiza um anúncio primeiro e decisivo.
Maria Madalena não é a pecadora anónima de Lucas
Uma confusão muito difundida associa Maria de Magdala à mulher anónima que entra em casa de Simão, o fariseu, chora aos pés de Jesus e os unge com perfume em Lucas 7. Este relato precede imediatamente a menção de Maria Madalena em Lucas 8. A proximidade literária não significa, contudo, que o evangelista identifique explicitamente as duas mulheres.
Outra figura aparece em João 12: Maria de Betânia, irmã de Marta e de Lázaro, derrama perfume sobre os pés de Jesus. Os Evangelhos distinguem os contextos destes acontecimentos. No Ocidente, várias interpretações foram progressivamente reunindo Maria Madalena, Maria de Betânia e a mulher anónima de Lucas 7, nomeadamente em alguns sermões antigos, entre os quais os de Gregório Magno.
Esta fusão marcou a pintura, a literatura e a pregação medievais, a ponto de apresentar Maria Madalena como uma cortesã convertida. Os textos canónicos não oferecem esta biografia. Ler os episódios separadamente permite respeitar melhor o lugar que cada mulher ocupa no relato evangélico e não fazer desaparecer o papel central de Maria como testemunha da Páscoa.
O vaso de perfume e a figura da penitente
O vaso de perfume tornou-se um dos atributos mais comuns de Maria Madalena. Evoca os relatos de unção e os aromas associados ao túmulo, que a tradição aproximou da sua pessoa. Na iconografia ocidental, aparece vestida com ricos tecidos, segurando um frasco ou ajoelhada junto de Cristo. Outras representações mostram-na isolada numa paisagem de penitência, acompanhada por uma caveira ou por um livro.
Estas imagens são testemunhos poderosos da história espiritual e artística da Europa. Nem todas são retratos fundamentados em episódios diretamente narrados nos Evangelhos. A caveira evoca a meditação sobre a morte; os cabelos longos e o vaso provêm de uma iconografia que associou várias personagens; o livro recorda a contemplação e o anúncio de Cristo.
A pintura do encontro no jardim, conhecida pela expressão latina Noli me tangere, segue outro registo. Representa Maria diante do Ressuscitado, que acaba de reconhecer. Esta cena torna visível o seu papel de discípula e mensageira, sem recorrer à identificação com a penitente da tradição medieval.
As tradições da Provença e da Sainte-Baume
A memória de Maria Madalena ocupa um lugar importante em vários santuários franceses. Em Saint-Maximin-la-Sainte-Baume e no maciço da Sainte-Baume, as tradições contam a sua chegada à Provença com outros discípulos, a sua pregação e, depois, um longo retiro dedicado à oração. Estes relatos ganharam uma dimensão considerável na Idade Média e contribuíram para o desenvolvimento de peregrinações.
Os Evangelhos e as fontes mais antigas não permitem estabelecer historicamente uma viagem de Maria de Magdala à Gália. A história provençal pertence à receção ocidental da sua figura, com textos, relíquias reivindicadas e santuários que devem ser examinados na sua própria cronologia. É, contudo, essencial para compreender a sua projeção em França.
Esta distinção entre os testemunhos evangélicos e as tradições regionais não diminui a importância cultural e religiosa dos lugares de peregrinação. Ajuda a situar o que pertence ao Novo Testamento e o que faz parte da história da devoção cristã ao longo dos séculos.
22 de julho e a dignidade de apóstola dos apóstolos
Maria Madalena é celebrada a 22 de julho no calendário romano. Em 2016, o Papa Francisco decidiu elevar esta celebração da categoria de memória à de festa, mantendo a mesma data. O decreto da Congregação para o Culto Divino recorda o seu lugar como primeira testemunha e mensageira da Ressurreição.
Esta alteração litúrgica não cria uma nova identidade para Maria. Valoriza mais a missão já narrada por João 20 e reconhecida na história da teologia cristã. O título de «apóstola dos apóstolos» resume o seu testemunho e recorda que o anúncio da Páscoa foi confiado, neste relato, a uma mulher que tinha seguido Jesus.
Para descobrir Santa Maria Madalena, os capítulos 8 de Lucas e 20 de João constituem uma primeira leitura decisiva. Mostram a discípula, a mulher que permaneceu junto do túmulo e a mensageira que anuncia o Ressuscitado. O seu legado surge então com maior nitidez, para além das imagens de penitência que marcaram vários séculos da tradição ocidental.
Fontes e referências históricas
Evangelhos: Lucas 8, 1–3 (as mulheres discípulas), Marcos 15 (a Paixão), João 20, 1–18 (o túmulo e o encontro com o Ressuscitado).
Textos a distinguir: Lucas 7, 36–50 (mulher anónima) e João 12, 1–8 (Maria de Betânia).
Santa Sé, decreto e explicação de 10 de junho de 2016 sobre a elevação da celebração de Maria Madalena à categoria de festa e o seu título de apóstola dos apóstolos.
Ilustração: Ticiano, A Madalena penitente (cerca de 1531), obra histórica de domínio público.






























