São Paulo não fazia parte dos Doze que acompanharam Jesus pelas estradas da Galileia. No entanto, as suas cartas constituem uma parte considerável do Novo Testamento e a sua missão transformou a história do cristianismo. Nascido no mundo judaico do Mediterrâneo oriental, inicialmente opositor dos discípulos de Jesus, Paulo tornou-se o anunciador apaixonado de Cristo ressuscitado. A sua vida é conhecida através dos seus próprios escritos, dos relatos dos Atos dos Apóstolos e da memória do seu martírio em Roma. As suas palavras sobre a fé, a liberdade, a caridade e a Ressurreição continuam a alimentar o pensamento cristão.
| Nome e origem | Saulo ou Paulo, natural de Tarso, na Cilícia |
|---|---|
| Época | Século I |
| Missão | Apóstolo das nações e fundador de comunidades |
| Fontes principais | Cartas de Paulo e Atos dos Apóstolos |
| Festas | 29 de junho com São Pedro; 25 de janeiro pela sua conversão |
Saulo de Tarso, um homem entre vários mundos
Paulo nasceu em Tarso, na Cilícia, no Oriente do Império Romano. As suas cartas mostram um homem formado no judaísmo do seu tempo, ligado às Escrituras e ao Deus de Israel. Os Atos dos Apóstolos apresentam-no como fariseu e sublinham a sua formação religiosa. O seu ambiente fazia parte de um mundo onde a cultura grega, a língua comum do Império e as tradições judaicas conviviam. Esta situação explica parte da sua capacidade de se dirigir a comunidades muito diferentes.
O livro dos Atos relata que Saulo aprovava a perseguição dos discípulos de Jesus e estava associado ao episódio da morte de Estêvão. O próprio Paulo reconhece, em várias cartas, a sua hostilidade inicial à Igreja. Este passado desempenha um papel importante na forma como compreende a graça: a sua vocação não lhe aparece como o coroamento de uma carreira religiosa, mas como uma intervenção de Cristo que muda o rumo da sua vida.
O nome Paulo não indica necessariamente uma cerimónia durante a qual Saulo teria recebido uma identidade inteiramente nova. Os dois nomes são compatíveis com a situação de um judeu que vivia no Império Romano. A passagem de Saulo para Paulo na narrativa dos Atos acompanha sobretudo o desenvolvimento da sua missão junto dos não judeus.
O encontro no caminho de Damasco
Os Atos dos Apóstolos relatam por várias vezes o acontecimento que ocorreu quando Saulo se dirigia a Damasco. Uma luz, uma voz e o encontro com Cristo ressuscitado transtornam o seu projeto. O futuro apóstolo fica cego durante algum tempo; depois, um discípulo chamado Ananias intervém para o acolher no seio da comunidade. O relato tornou-se um dos grandes modelos cristãos de conversão, porque apresenta um adversário que se torna anunciador.
As cartas de Paulo oferecem uma perspetiva complementar. Em Gálatas 1, fala da revelação do Filho de Deus e do chamamento para o dar a conhecer entre as nações. Insiste na iniciativa divina sem detalhar a estrada, a luz ou os companheiros de viagem. Estes dois tipos de testemunho não desempenham o mesmo papel: um constrói um relato contínuo; o outro exprime diretamente a consciência da sua missão.
Este acontecimento não leva Paulo a negar a existência de Israel ou o valor das Escrituras que conhece. Ele relê a sua formação e as promessas bíblicas à luz de Jesus Cristo. Esta continuidade e esta transformação explicam os grandes debates das suas cartas, nomeadamente sobre a Lei, a aliança, a fé e o lugar das nações no desígnio de Deus.
Viagens missionárias e comunidades do Mediterrâneo
Paulo percorre numerosas regiões do Mediterrâneo oriental, em particular a Ásia Menor e a Grécia. Os Atos situam-no em Antioquia, Filipos, Tessalónica, Corinto, Éfeso e noutras cidades onde a pregação cristã encontra meios religiosos, comerciais e sociais variados. Cada comunidade tem as suas tensões e questões. A missão não consiste, portanto, em repetir em todo o lado um discurso idêntico, mas em anunciar Cristo e acompanhar crentes confrontados com situações novas.
As cartas fazem ouvir esta presença pessoal. Paulo agradece, corrige, preocupa-se, pede notícias, organiza coletas e nomeia os seus colaboradores. Prisca e Áquila, Timóteo, Tito, Febe e outras figuras recordam que a sua atividade assenta numa rede de mulheres e homens empenhados na vida das Igrejas. É preciso evitar representar Paulo como um viajante solitário que teria fundado sozinho todas as comunidades cristãs do seu tempo.
O acolhimento dos não judeus sem a obrigação geral de adotar todos os costumes da Lei constitui uma questão decisiva. O encontro de Jerusalém relatado em Gálatas 2 e em Atos 15 marca uma etapa desta discussão. O desacordo de Antioquia entre Paulo e Pedro, relatado por Paulo, mostra a importância concreta da partilha da mesa, da identidade religiosa e da comunhão entre crentes de origens diferentes.
As cartas de Paulo e o nascimento de um pensamento cristão
Os escritos de Paulo contam-se entre os documentos cristãos mais antigos que chegaram até nós. Os investigadores reconhecem geralmente sete cartas como diretamente provenientes da sua atividade: Romanos, as duas cartas aos Coríntios, Gálatas, Filipenses, a primeira aos Tessalonicenses e Filémon. Outras cartas colocadas sob o seu nome pertencem à história da tradição paulina, havendo debates sobre o seu autor e a sua data. Esta distinção nada retira ao seu lugar nas Bíblias cristãs.
A primeira carta aos Coríntios mostra Paulo confrontado com rivalidades, desordens nas assembleias e questões sobre a Ressurreição. O célebre capítulo 13 sobre a caridade encontra-se no meio destes problemas: o amor de que fala não é uma simples emoção, mas o princípio que deve transformar as relações entre os membros de uma comunidade. A carta aos Gálatas insiste na liberdade em Cristo e na dificuldade de reconstruir barreiras que o Evangelho convida a ultrapassar.
Em Romanos, Paulo desenvolve uma reflexão ambiciosa sobre o pecado, a graça, a fé, a justiça de Deus e a relação entre Israel e as nações. As suas formulações alimentarão as grandes controvérsias teológicas da história ocidental. É necessário, contudo, lê-las de acordo com os seus destinatários e a sua situação: uma frase sobre a Lei ou as obras não pode ser separada do percurso argumentativo em que o apóstolo a coloca.
A cruz, a Ressurreição e a esperança
O centro do anúncio paulino é a morte e a Ressurreição de Jesus Cristo. Na primeira carta aos Coríntios, no capítulo 15, Paulo transmite uma profissão de fé antiga que enumera testemunhas do Ressuscitado. Ele próprio se situa nessa continuidade, recordando ao mesmo tempo a história excecional da sua vocação. A Ressurreição não é, para ele, um tema secundário: dá sentido à esperança cristã e à compreensão da vida nova.
A cruz, sobretudo nos primeiros capítulos da mesma carta, inverte os critérios habituais de prestígio e poder. Paulo não apresenta a vida cristã como uma ascensão social disfarçada. O seu próprio ministério desenrola-se no cansaço, nos conflitos, nas deslocações e na fragilidade. Este contraste entre a fraqueza humana e a ação de Deus repete-se em várias passagens das epístolas.
O seu pensamento associa também a esperança a uma exigência de solidariedade. A coleta para os crentes de Jerusalém, mencionada nas suas cartas, revela a importância de uma comunhão que ultrapassa as diferenças entre cidades e situações. Para Paulo, a fé recebida deve produzir efeitos concretos nas relações e na ajuda prestada aos outros.
O martírio romano e os atributos de São Paulo
A tradição cristã situa a morte de Paulo em Roma, durante o reinado de Nero, nos anos 60 do século I. Os Atos dos Apóstolos terminam com a sua presença em Roma, sem narrar a sua execução. A memória posterior atribui-lhe uma decapitação, geralmente relacionada com o seu estatuto de cidadão romano segundo os Atos. As grandes basílicas romanas consagradas a Pedro e a Paulo testemunham o lugar ocupado por estes dois apóstolos na memória da cidade.
Na arte cristã, Paulo traz geralmente um livro e uma espada. O livro evoca as suas cartas e o seu ensinamento; a espada remete para o relato do seu martírio e pode recordar a imagem bíblica da palavra de Deus. Os artistas dão-lhe frequentemente uma testa calva e uma longa barba, traços herdados de convenções antigas e não de um retrato autenticado.
O calendário romano associa Paulo a Pedro em 29 de junho e celebra a sua conversão em 25 de janeiro. Estas festas permitem meditar sobre dois aspetos complementares da sua vida: o testemunho apostólico até à morte e a transformação interior que o levou pelas estradas do mundo mediterrânico. O leitor descobre nas suas cartas um homem íntegro, movido por uma convicção que atravessa fronteiras sem fazer desaparecer a realidade dos desacordos e das dificuldades.
Fontes e referências
Textos de Paulo: Gálatas 1 sobre a sua vocação, Gálatas 2 sobre Jerusalém e Antioquia, 1 Coríntios 13 sobre a caridade e 1 Coríntios 15 sobre a Ressurreição.
Atos dos Apóstolos: Atos 9 sobre o caminho de Damasco, Atos 15 sobre o encontro de Jerusalém, Atos 28 sobre a presença de Paulo em Roma.
Bento XVI, audiência de 10 de setembro de 2008 sobre o apostolado de Paulo e audiência de 24 de setembro de 2008 sobre as suas relações com os apóstolos.
Ilustração: El Greco, São Paulo (finais do século XVI-inícios do século XVII), documento do domínio público.






























