Santa Clara de Assis não se limitou a seguir o exemplo de Francisco. Na Itália do século XIII, fundou e governou uma comunidade de mulheres, defendeu o seu direito a uma vida sem grandes posses e deixou escritos nos quais a sua voz continua reconhecível. Em São Damião, associou a contemplação de Cristo, a fraternidade e uma pobreza voluntária cuja aplicação exigiu longas negociações com as autoridades eclesiásticas. As suas cartas a Inês de Praga mostram uma mulher atenta às escolhas espirituais e institucionais do seu tempo.
| Vida | 1193 ou 1194 – 11 de agosto de 1253 |
|---|---|
| Origem | Assis, Úmbria |
| Fundação | Comunidade de São Damião, origem das Clarissas |
| Obras | Regra, Testamento, cartas a Inês de Praga |
| Festa | 11 de agosto |
| Canonização | 1255, por Alexandre IV |
A filha de uma família nobre deixa Assis
Clara nasceu por volta de 1193 numa família aristocrática de Assis. A sua infância decorreu numa cidade italiana onde as relações entre famílias nobres, mercadores e instituições religiosas estruturavam a sociedade. A pregação de Francisco de Assis, que escolheu a pobreza evangélica depois de renunciar às ambições da juventude, exerceu sobre ela uma influência decisiva.
Na noite que se seguiu ao Domingo de Ramos de 1212, segundo a tradição franciscana, Clara deixou a sua casa para se juntar a Francisco e aos seus companheiros. Ele recebeu-a na Porciúncula, onde abandonou os sinais da sua antiga condição. Passou depois por vários lugares de vida religiosa antes de se estabelecer em São Damião. A partida provocou tensões familiares, pois a escolha de Clara não correspondia ao destino matrimonial e social previsto para uma mulher do seu meio.
A importância do gesto não reside apenas na renúncia material. Clara queria viver o Evangelho segundo uma forma adaptada a uma comunidade de mulheres, com verdadeira autonomia espiritual e um compromisso com a pobreza que não dependesse da posição social. Esta intenção daria origem a uma obra original.
São Damião e as primeiras irmãs
A igreja de São Damião ocupa um lugar central na vida de Francisco e, mais tarde, de Clara. Foi em torno deste lugar que se formou a comunidade que viria a ser conhecida como a das Damas Pobres e, depois, como a das Clarissas. Juntaram-se a ela outras mulheres, entre as quais a sua irmã Inês. A sua vida era ritmada pela oração, pelo trabalho e pela entreajuda no seio de um mosteiro.
Clara exerceu durante muitos anos o cargo de abadessa. Não se limitava a propor um ideal: tinha de responder às necessidades das irmãs, organizar uma vida em comum, proteger a comunidade e manter as suas convicções num quadro eclesial exigente. O mosteiro feminino não podia viver exatamente como os irmãos que percorriam as estradas; era necessário criar formas estáveis de governo e subsistência sem abandonar o projeto de pobreza.
Os testemunhos do processo de canonização, recolhidos pouco depois da sua morte, permitem aceder ao olhar de mulheres que realmente partilharam a sua existência. Permitem ver, por detrás dos relatos extraordinários, uma superiora cuja vida decorria no contacto quotidiano com as outras irmãs.
O privilégio da pobreza e as negociações com Roma
A defesa da pobreza constituiu uma das grandes lutas de Clara. Ela pedia que a sua comunidade pudesse viver sem as grandes propriedades fundiárias que tradicionalmente asseguravam a segurança dos mosteiros. Esta iniciativa levou-a a reclamar o que a tradição chama de privilégio da pobreza, um reconhecimento jurídico do seu direito a não possuir coletivamente grandes riquezas.
Esta escolha suscitava dificuldades reais. As autoridades queriam proteger a estabilidade material das religiosas e garantir a sua subsistência. Clara, por seu lado, afirmava que a pobreza voluntária fazia parte da forma de vida recebida de Francisco e devia ser respeitada. O seu diálogo com o papado não era, portanto, um conflito abstrato entre liberdade e regra: dizia respeito à organização quotidiana de uma comunidade feminina.
A Regra de Clara recebeu a aprovação de Inocêncio IV em agosto de 1253, poucos dias antes da sua morte. É uma das primeiras regras monásticas compostas por uma mulher e oficialmente aprovadas pela Igreja. Este texto constitui um testemunho fundamental da sua personalidade e das suas convicções.
As cartas a Inês de Praga e o espelho de Cristo
Conservaram-se quatro cartas de Clara a Inês de Praga. Inês, princesa da Boémia, também escolheu uma vida de pobreza religiosa e trocava correspondência com Clara sobre as suas exigências. A correspondência é particularmente valiosa porque permite ouvir o pensamento de Clara sem passar exclusivamente pelos relatos escritos pelos seus admiradores.
Clara convidava Inês a olhar para Cristo como num espelho, desde a pobreza da manjedoura até à Paixão. Esta imagem da contemplação não incentivava a afastar-se do mundo, mas a deixar que a vida de Cristo orientasse as decisões, as relações e o uso dos bens. A linguagem é simultaneamente afetuosa, exigente e profundamente enraizada nas Escrituras.
As cartas mostram também uma solidariedade entre duas comunidades femininas distantes. Constituem um documento essencial para a história intelectual e espiritual das mulheres na Idade Média. Clara surge nelas como uma ensinadora capaz de aconselhar outra responsável religiosa com firmeza e delicadeza.
A custódia, os relatos de proteção e a iconografia
Um dos atributos mais conhecidos de Clara é a custódia, associada a um relato segundo o qual teria rezado diante da Eucaristia para proteger São Damião perante uma ameaça armada. Os testemunhos antigos mencionam o auxílio pedido a Cristo e a preservação da comunidade. A forma do objeto representado em algumas pinturas pertence, no entanto, a uma iconografia posterior: é necessário distinguir o relato da evolução do mobiliário litúrgico.
Clara é também representada com um livro, um lírio ou uma lâmpada. O livro evoca a Regra e a sua vida de oração; o lírio traduz a pureza; a lâmpada recorda a vigilância. O hábito pobre e os pés descalços remetem para o despojamento da primeira comunidade. Estes atributos permitem interpretar as imagens, preservando simultaneamente a dimensão institucional da sua obra.
Uma representação religiosa não substitui a leitura da sua Regra, das suas cartas nem dos testemunhos das irmãs. Estes documentos revelam uma mulher cuja memória não deve ser reduzida a uma cena de proteção miraculosa.
A morte de Clara e a posteridade das Clarissas
Clara morreu a 11 de agosto de 1253, após vários anos de doença, na comunidade de São Damião. O seu processo de canonização foi aberto rapidamente, e Alexandre IV proclamou-a santa em 1255. A memória da sua fundação espalhou-se por toda a Europa, onde nasceram e se desenvolveram numerosos mosteiros de clarissas.
O alcance desta tradição reside numa articulação singular entre vida contemplativa, pobreza e fraternidade. As irmãs não procuravam reproduzir exatamente as deslocações dos frades menores. Construíram uma forma de vida consagrada que partilhava o seu ideal evangélico, respondendo simultaneamente às limitações próprias de uma comunidade feminina estável.
A festa de Clara celebra-se a 11 de agosto. Os seus textos convidam a compreender a pobreza como uma liberdade ao serviço do amor de Cristo, e não como uma glorificação da miséria sofrida. A sua longa resistência para obter a aprovação da sua Regra continua a ser um dos capítulos mais notáveis da história religiosa medieval.
Fontes e referências históricas
Clara de Assis, Regra (aprovada em 1253), Testamento e Cartas a Inês de Praga, textos de primeira mão sobre a pobreza, a vida em comum e a contemplação.
Bento XVI, audiência geral de 15 de setembro de 2010 dedicada a Clara de Assis, com os testemunhos do processo de canonização.
Fontes hagiográficas: processo de canonização de Clara (1253), testemunhos das irmãs e primeiras vidas franciscanas, a comparar com os escritos de Clara.
Ordem dos Frades Menores, apresentação das fontes históricas originais de Clara de Assis e do movimento franciscano.
Ilustração: Pintor antigo, Santa Clara de Assis (antes do século XVI), obra histórica do domínio público.






























