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São Lucas
Saint Luc évangéliste peignant une icône de la Vierge Marie, tableau du Greco

Os santos

São Lucas

7 min de leitura

São Lucas está associado a duas obras essenciais do Novo Testamento: o terceiro Evangelho e os Atos dos Apóstolos. O primeiro narra a vida de Jesus, dando um lugar de destaque à misericórdia, aos pobres, à oração e a personagens de que outros relatos falam pouco. O segundo acompanha o anúncio da Ressurreição desde Jerusalém até Roma. A tradição cristã identifica o seu autor com Lucas, companheiro de São Paulo, e representa-o sob o símbolo do touro alado. Esta atribuição, as particularidades da sua escrita e o nascimento da sua devoção oferecem vários caminhos para descobrir o evangelista.

Época século I
Papel Evangelista segundo a tradição cristã
Textos Evangelho segundo Lucas e Atos dos Apóstolos
Atributo Touro alado, livro e, em certas ocasiões, instrumentos de pintura
Patronatos Artistas, pintores e profissionais de saúde
Festa 18 de outubro

Um autor que se dirige a Teófilo

O terceiro Evangelho começa com um prólogo singular. O seu autor explica que já foram compostos vários relatos e que deseja apresentar a Teófilo uma exposição ordenada, para confirmar o ensinamento recebido. As primeiras linhas testemunham uma vontade de organizar as tradições transmitidas sobre Jesus. Não se apresentam como a transcrição imediata de uma testemunha presente em cada uma das cenas narradas, mas como uma obra baseada na transmissão de testemunhos.

Os Atos dos Apóstolos também começam com uma dedicatória a Teófilo e remetem para o primeiro livro. Esta continuidade literária explica que as duas obras sejam frequentemente estudadas em conjunto sob o nome de «Lucas-Atos». O Evangelho termina com a Ressurreição e a Ascensão; os Atos começam com a missão dos apóstolos e a efusão do Espírito no Pentecostes.

A identidade exata de Teófilo não é conhecida. Pode tratar-se de um destinatário específico ou de uma figura que evoca, de forma mais ampla, aquele que ama Deus. Este nome, tal como as indicações do autor sobre o seu método, permite compreender a ambição da obra: transmitir a memória de Jesus e mostrar como ela se torna o fundamento de um anúncio levado a novos povos.

Lucas, companheiro de Paulo segundo a tradição

A tradição antiga associa o evangelista a um homem chamado Lucas em certas cartas do Novo Testamento. Colossenses 4, 14 menciona «Lucas, o médico amado», enquanto Filémon 24 cita um Lucas entre os colaboradores de Paulo. A segunda carta a Timóteo também contém uma alusão à sua presença. Estas passagens desempenharam um papel importante na identificação do autor cristão.

Nos Atos, algumas partes do relato das viagens de Paulo usam a primeira pessoa do plural, o «nós». Os leitores antigos viram nelas a recordação de um companheiro de viagem. Os especialistas estudam, contudo, a função literária dessas passagens e as condições em que os dois livros foram redigidos. Convém, portanto, distinguir a atribuição tradicional a Lucas das questões históricas ainda em análise relativas ao autor.

Lucas não figura entre os doze apóstolos nomeados nos Evangelhos. O seu título de evangelista designa o seu lugar na transmissão escrita da vida de Jesus. O nome de São Lucas pertence assim ao mundo das primeiras testemunhas cristãs, remetendo simultaneamente para uma obra literária cuja composição revela uma verdadeira cultura da escrita.

Os relatos da infância de Jesus e o lugar de Maria

Lucas narra o anúncio feito a Zacarias e, depois, o dirigido a Maria pelo anjo Gabriel. O seu relato do nascimento de Jesus apresenta Belém, os pastores e as palavras pronunciadas no Templo. Concede a Maria um lugar importante, nomeadamente através do Magnificat, hino de louvor em que a misericórdia divina é proclamada para com os humildes. Estas cenas exerceram uma influência imensa sobre a liturgia, o canto e a arte cristã.

O episódio dos pastores, que recebem os primeiros o anúncio do nascimento, manifesta uma atenção especial às pessoas humildes. Lucas apresenta também Isabel, Ana, a profetisa, e várias outras figuras femininas. Elas participam no acolhimento da palavra de Deus e no reconhecimento de Cristo. O relato não constrói apenas uma genealogia familiar: mostra uma comunidade de personagens que acolhem e transmitem uma promessa.

A tradição aproximou São Lucas da Virgem Maria e atribuiu-lhe antigos retratos da Mãe de Deus. Esta é a origem do seu patronato dos pintores e da representação do evangelista diante de um ícone mariano. A relação pessoal e os quadros atribuídos a Lucas pertencem a tradições artísticas posteriores; não são descritos no Novo Testamento.

O bom Samaritano, o filho reencontrado e a misericórdia

Várias das parábolas mais célebres do cristianismo encontram-se no Evangelho segundo Lucas. No capítulo 10, Jesus conta a história do bom Samaritano para responder a uma pergunta sobre o próximo. O homem ferido à beira da estrada recebe a ajuda daquele cujo grupo era mantido à distância. O relato desloca assim o olhar: o amor ao próximo reconhece-se num ato de auxílio e de responsabilidade.

No capítulo 15, as parábolas da ovelha perdida, da moeda reencontrada e do pai que acolhe o filho organizam um ensinamento sobre a alegria do perdão. A cena do filho que regressa depois de ter perdido a sua herança inspirou numerosas pinturas e meditações. Não é apenas uma história de indulgência: o pai, o filho mais novo e o filho mais velho revelam diferentes formas de viver a relação e de compreender a misericórdia.

Lucas insiste também na oração, no perigo do apego às riquezas e na inversão das situações sociais. Os relatos de Zaqueu e da mulher pecadora acolhida por Jesus dão a estes temas uma forma narrativa. A misericórdia não é apresentada como uma ideia abstrata, mas como uma relação que transforma as decisões e os comportamentos.

De Jerusalém até Roma nos Atos dos Apóstolos

Os Atos dos Apóstolos prolongam a narrativa, descrevendo os primórdios das comunidades cristãs. O capítulo 2 apresenta o Pentecostes, quando os discípulos anunciam Cristo a pessoas vindas de diferentes regiões. Pedro ocupa um lugar importante na primeira parte; depois, a obra acompanha sobretudo a missão de Paulo, as suas deslocações e os encontros que acompanham a difusão da mensagem.

Os relatos mostram uma Igreja confrontada com questões de identidade, justiça e abertura às nações. O encontro de Pedro com Cornélio, a reunião de Jerusalém e as viagens missionárias sublinham as transformações provocadas pelo acolhimento de crentes não judeus. O livro termina com a presença de Paulo em Roma, onde a proclamação do Evangelho prossegue apesar do seu cativeiro.

A dimensão geográfica não basta para explicar a estrutura dos Atos. O autor quer mostrar como o Espírito Santo guia a comunidade e torna possível o anúncio para além das fronteiras iniciais. A continuidade entre Jesus e as suas testemunhas constitui assim o verdadeiro fio condutor das duas obras.

O touro alado e as tradições artísticas

Na iconografia cristã, São Lucas traz um livro e é acompanhado por um touro alado. A atribuição dos quatro seres vivos aos evangelistas, resultante de uma leitura da visão de Ezequiel e do Apocalipse, consolidou-se na tradição ocidental. O touro remete, nomeadamente, para o início do seu Evangelho, com as funções sacerdotais de Zacarias e a linguagem do sacrifício.

A pena, o púlpito e o manuscrito designam o trabalho do evangelista. Noutros quadros, Lucas pinta Maria a segurar o Menino Jesus. Estas obras são particularmente interessantes para a história da arte cristã: associam o autor de um texto à tradição das imagens marianas, dando aos pintores um santo padroeiro da sua própria atividade.

Os símbolos iconográficos não permitem reconstituir o rosto histórico de Lucas. Ensinam ao espectador o lugar que lhe é atribuído na transmissão do Evangelho e na memória da Igreja.

A festa de 18 de outubro e a leitura das suas obras

São Lucas é celebrado a 18 de outubro no calendário romano. A sua memória está associada aos evangelistas, aos artistas e àqueles que exercem profissões de saúde, em relação com Lucas, o médico mencionado na tradição paulina. Estes patronatos prolongam a receção cristã do seu nome.

Para descobrir este autor, a leitura conjunta dos primeiros capítulos do Evangelho e do início dos Atos oferece um percurso esclarecedor. Mostra como os anúncios do nascimento de Jesus se prolongam no relato da missão apostólica. As parábolas do bom Samaritano e do filho reencontrado permitem depois explorar a sua escrita da misericórdia.

A memória de Lucas é assim dupla: a de um companheiro das primeiras comunidades segundo a identificação tradicional e a de um narrador que deu à vida de Jesus e aos primórdios da Igreja uma forma literária duradoura.

A relação entre o relato de Jesus e a história das primeiras comunidades pode ser aprofundada na ficha dedicada à Bíblia e à sua transmissão. Permite situar as duas obras atribuídas a Lucas no conjunto dos escritos recebidos pelas Igrejas.

Fontes e referências

Evangelho segundo Lucas: capítulo 1 (prólogo e anúncios), capítulo 10 (bom Samaritano) e capítulo 15 (parábolas da misericórdia).

Atos dos Apóstolos: capítulo 1 (dedicatória a Teófilo) e capítulo 2 (Pentecostes).

Testemunhos da tradição: Colossenses 4, 14, menção de Lucas, o médico; Ireneu de Lyon, Contra as heresias, III, 1, 1, para a atribuição antiga dos Evangelhos.

Ilustração: El Greco, São Lucas a pintar a Virgem (século XVI), obra ou fotografia histórica de domínio público.

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