Desde os primeiros séculos da Idade Média até ao esplendor do Renascimento, a história de França escreveu-se tanto à luz das crónicas oficiais como à sombra das práticas ocultas. Por detrás dos reis, das guerras e dos tratados, perfilam-se videntes, astrólogos, alquimistas, bruxas e sociedades secretas. Estas figuras marginais influenciaram, no entanto, decisões políticas e inspiraram os medos populares. Longe de ser uma curiosidade folclórica ou um simples contraponto à religião, o ocultismo teceu a sua rede por todos os recantos da sociedade francesa, do povo à corte, até fazer da nossa nação uma fortaleza desta ciência oculta. História.
Saberes medievais entre a fé e a bruxaria
Na época medieval, França vê coexistir a fé cristã oficial e uma multiplicidade de práticas ocultas nas tradições populares. Muito antes de existir o termo ocultismo (que só surgiria no século XIX), as artes «ocultas» – astrologia, magia, alquimia e adivinhação – fazem parte do quotidiano. Os camponeses consultam curandeiros, utilizam talismãs e encantamentos para se tratarem ou lançar o mau-olhado, enquanto bruxas (ou bruxos, ou magos) exercem secretamente a sua actividade nas aldeias. Estas práticas inscrevem-se na continuidade de antigas tradições pagãs (principalmente celtas e germânicas), que se foram misturando com o cristianismo ao longo dos séculos, entrelaçando-se com práticas mágicas orientais herdadas da Antiguidade.
Para a Igreja medieval, estas práticas populares representam um desafio. Durante muito tempo, as autoridades religiosas toleram parcialmente estas «ciências ocultas» praticadas à margem, sobretudo quando se trata de astrologia ou alquimia, entendidas como saberes provenientes da Antiguidade. Mas, a partir do século XIII, o tom endurece: a Inquisição alarga a sua perseguição aos curandeiros e bruxos, assimilando gradualmente as suas práticas à heresia. Uma viragem decisiva ocorre em 1326, quando o papa João XXII publica a bula Super illius specula, que assimila explicitamente os bruxos aos hereges. A bruxaria torna-se, a partir de então, um crime religioso: invocar espíritos ou preparar poções mágicas significa ameaçar a ordem cristã.
Neste contexto, surgem processos de bruxaria um pouco por toda a parte. Um dos mais célebres da Idade Média é o de Joana d’Arc. Em 1431, a Donzela de Orleães é julgada em Rouen por «heresia e bruxaria» – acusações amplamente políticas, com os juízes ingleses a procurarem desacreditá-la, retratando-a como uma bruxa inspirada pelo Diabo e não por Deus. É mesmo interrogada sobre a utilização de uma suposta mandrágora que teria possuído. Joana nega veementemente qualquer prática oculta e afirma que as suas vozes têm origem divina. Apesar da sua defesa, é condenada e queimada viva como relapsa, isto é, por ter recaído na bruxaria e na heresia. O seu suplício na fogueira, um dos mais célebres da Idade Média juntamente com o dos Templários, um século antes, ilustra o medo que então inspirava qualquer ligação presumida ao oculto. Aos olhos dos seus inimigos, Joana encarna esta ambiguidade medieval em que um fenómeno inexplicável – as suas vozes e as suas vitórias milagrosas – podia ser interpretado como milagre divino ou como bruxaria demoníaca.

Joana d’Arc a entrar em Orleães
Os processos de bruxaria multiplicam-se sobretudo no final da Idade Média e no início da época moderna. Circulam manuais de demonologia para orientar juízes e inquisidores. Em 1486, é publicado o tristemente célebre Malleus Maleficarum (o «Martelo das bruxas»), um tratado alemão que influencia toda a Europa. França não fica atrás: em 1580, o jurista francês Jean Bodin publica De la démonomanie des sorciers, uma verdadeira compilação sobre a bruxaria e os demónios. Esta obra, que define a bruxa como «qualquer pessoa que, através de meios diabólicos, procure conscientemente realizar algo», torna-se uma referência para a repressão judicial dos adeptos da magia negra. Bodin afirma aí a realidade dos sabás e dos pactos satânicos, e recomenda uma severidade implacável contra os bruxos, incluindo a tortura e a fogueira. As suas ideias terão um impacto imenso nas perseguições às bruxas em França, legitimando aos olhos dos tribunais a caça ao mal oculto.
Assim, da fogueira dos Templários ao suplício de Joana d’Arc, das curandeiras das aldeias aos demonólogos do Renascimento, a Idade Média francesa está longe de ser uma era de credulidade ingénua ou de ignorância total. Muito pelo contrário, o oculto está omnipresente. Fascina tanto quanto assusta. Por um lado, o povo continua a recorrer a práticas mágicas ancestrais para afastar o azar ou curar os males do quotidiano. Por outro, a elite eclesiástica desenvolve uma verdadeira demonologia erudita para combater aquilo que entende como uma ameaça infernal. Este jogo de atracção e repulsa pelo ocultismo marcará profundamente a sociedade francesa – e está longe de se limitar ao povo.
Astrólogos e alquimistas junto dos reis
Facto pouco conhecido, mas revelador: o interesse pelo ocultismo não se limita às casas dos camponeses – estende-se até aos castelos dos reis de França. Muitos soberanos e grandes senhores do reino recorreram a astrólogos, videntes ou alquimistas para orientar as suas decisões, desde a Alta Idade Média até à época moderna. Reis profundamente cristãos, como Luís VII, no século XII, ou Luís IX (São Luís), no século XIII, não hesitaram em consultar os astros tanto quanto os seus confessores. Esta presença do ocultismo no topo do Estado intensifica-se ainda no final da Idade Média: o rei Carlos V, o Sábio (1338-1380), rodeia-se de astrólogos e manda traduzir numerosos tratados de astrologia e alquimia para a sua biblioteca real. Chega mesmo a criar em Paris um colégio de astrologia. Algumas décadas mais tarde, o seu neto Carlos VIII tem como astrólogo oficial um certo Simon de Phares, que deixará uma crónica manuscrita sobre os mais famosos astrólogos do seu tempo.
É, contudo, no Renascimento que o esoterismo penetra verdadeiramente nos círculos do poder. A invenção da imprensa (por volta de 1450) abre à elite culta novas perspectivas: os textos herméticos da Antiguidade reaparecem, e os tratados de alquimia, cabala e astrologia circulam clandestinamente. O Renascimento alimenta, com efeito, um gosto pronunciado pelo oculto: os pensadores da época procuram reconciliar o saber antigo, a magia e a fé cristã. Em Itália, Marsílio Ficino e Pico della Mirandola estudam a magia celestial e a cabala para alcançar uma forma de verdade divina. Esta tendência chega a França: as cortes reais tornam-se palco de experiências esotéricas. Aí trocam-se almanaques astrológicos e grimórios, e debatem-se as propriedades misteriosas da natureza. A alquimia e a transmutação dos metais em ouro, bem como o elixir da imortalidade; a astrologia para prever o desfecho das guerras ou a saúde dos príncipes; a magia – branca ou negra – para as questões do quotidiano.

Catarina de Médicis
A figura emblemática desta aliança entre o poder e o oculto é, sem dúvida, Catarina de Médicis (1519-1589). Rainha de França no século XVI, Catarina é apaixonada por astrologia e magia. Rodeia-se de videntes e astrólogos, entre os quais o florentino Cosme Ruggieri, seu confidente, e o provençal Michel de Nostredame, conhecido como Nostradamus. Nostradamus, médico de formação, torna-se o astrólogo oficial da corte dos Valois: elabora os horóscopos do rei Carlos IX e publica, em 1555, as suas famosas Profecias, uma colecção de quadras enigmáticas destinadas a prever o futuro do mundo. Estes versos obscuros alcançam um enorme sucesso popular – serão reimpressos durante séculos – e fazem de Nostradamus o astrólogo mais célebre da história de França. Catarina de Médicis, por seu lado, consultava os seus astrólogos tanto sobre os assuntos de Estado como sobre o seu destino familiar. A lenda envolve-a numa aura inquietante: rainha italiana adepta dos venenos e das ciências ocultas, dizia-se que manipulava os cordelinhos nos bastidores para proteger o trono dos filhos. Embora a sua imagem de «rainha envenenadora» resulte em parte de propaganda hostil, é certo que Catarina levava magos à sua corte, experimentava remédios alquímicos e se interessava pelas artes divinatórias. Um episódio célebre conta que mandou construir um observatório privado em Paris para Cosme Ruggieri e que, juntos, praticavam sessões ocultas para conhecer o futuro da dinastia. Chega mesmo a afirmar-se que o astrólogo Ruggieri teria organizado rituais de enfeitiçamento através de uma dagyde – uma prática que consistia em prejudicar um inimigo torturando uma figura com a sua efígie –, tendo como alvo adversários políticos, e que só teria escapado graças à protecção de Catarina quando estes factos estiveram prestes a vir a público. A opinião pública da época estava convencida de que a morte prematura do jovem Carlos IX (de uma misteriosa tuberculose hemorrágica) resultara de um malefício relacionado com estas sombrias manipulações.
Ritual entre Cosme Ruggieri e Catarina de Médicis. Fonte
Entre as figuras que alimentam os mitos esotéricos do Renascimento, é também necessário mencionar Nicolas Flamel. Este burguês parisiense do século XIV (falecido em 1418) deixou a memória de um filantropo que mandou construir hospitais… mas os rumores fizeram dele muito mais do que isso. Pouco depois da sua morte, começou a espalhar-se que Flamel teria descoberto o segredo da pedra filosofal, a lendária substância alquímica capaz de transformar chumbo em ouro e conceder a vida eterna. A sua fortuna inexplicável, que consagrara a obras piedosas, serviu de ponto de partida para este mito. Ao longo dos séculos, Nicolas Flamel tornou-se o herói incontornável das narrativas alquímicas: foram-lhe atribuídos tratados esotéricos (apócrifos, publicados muito depois da sua morte), e romances e, mais tarde, filmes apresentaram-no como um imortal detentor do grande segredo. No século XVI, numerosos sábios e aventureiros lançam-se em busca da pedra filosofal, por vezes com o apoio discreto de grandes personalidades. O próprio rei Henrique II teria financiado oficinas de alquimistas, na esperança de encher os cofres do reino através da produção de ouro.
Nas altas esferas da sociedade francesa, a fronteira entre as ciências reconhecidas e as ciências ocultas mantém-se durante muito tempo permeável. No início do século XVII, um astrónomo tão sério como Johannes Kepler (autor das leis do movimento dos planetas) ainda pode praticar astrologia sem manchar a sua reputação. Para os eruditos do Renascimento, explorar as forças ocultas da natureza faz parte integrante da compreensão do mundo. Só no final do século XVI e, sobretudo, no século XVII, o fosso começa a abrir-se entre a ciência oficial e o esoterismo. O desenvolvimento do método científico, baseado na observação e na razão, leva uma nova geração de sábios a rejeitar os antigos compêndios ocultos, considerados demasiado marcados pela superstição. Em França, a criação do Observatório de Paris, em 1672, simboliza esta viragem: os astrónomos que aí trabalham recebem formalmente a proibição de elaborar horóscopos, passando a astrologia a ser excluída do domínio científico considerado sério. A partir de então, a astronomia observa as estrelas, mas já não pretende ler o destino no seu curso.
A sombra do oculto sobre a época moderna
Apesar do avanço das ideias racionalistas, o interesse pelo oculto continua a ser forte na sociedade francesa do século XVII. Simplesmente, torna-se mais clandestino. Em público, exibe-se um espírito cartesiano e ridiculariza-se a credulidade das gerações passadas. Mas, no segredo dos boudoirs, continuam a consultar-se adivinhas, a fabricar poções e a invocar espíritos. Perto do final do reinado de Luís XIV, esta face oculta da corte vem a público no que ficaria conhecido como o Caso dos Venenos. Este escândalo, que envolve a nobreza francesa entre 1679 e 1682, revela a dimensão insuspeita de uma rede oculta no próprio coração da capital. Uma investigação ordenada pelo rei mostra que «nobres, burgueses prósperos e o povo comum recorriam secretamente a adivinhas, então muito numerosas em Paris, para obter drogas e venenos, para missas negras e outros fins criminosos». Por outras palavras, todos os meios sociais – da cortesã ao artesão – recorrem aos serviços de bruxas e envenenadoras.

Catherine Deshayes, ou La Voisin. Fonte
A personagem central deste tenebroso caso é Catherine Deshayes, conhecida como La Voisin, uma cartomante e fornecedora de venenos que teria vendido os seus serviços a centenas de clientes. À sua volta gravitam magos negros, sacerdotes renegados que celebravam missas sombrias e uma rede de boticários corruptos. As revelações fazem a corte estremecer: entre as pessoas implicadas encontra-se a marquesa de Montespan, a própria favorita de Luís XIV. Segundo os testemunhos arrancados aos cúmplices de La Voisin, Madame de Montespan teria recorrido durante anos à magia – filtros de amor e missas negras – para conservar o afecto do Rei Sol e afastar as suas rivais. Teria mesmo encomendado o envenenamento de uma jovem rival demasiado em evidência, Mlle de Fontanges, e considerado drogar o próprio rei quando o seu amor começava a enfraquecer. Embora estas acusações não tenham podido ser formalmente provadas (Luís XIV, assustado com o escândalo, faria cessar as perseguições públicas assim que Montespan foi implicada), o caso revela aos olhos de todos a presença real do oculto no centro do poder, causando espanto, mas também validando a ideia de que sim, o oculto existe. Nos salões dourados de Versalhes, praticava-se também bruxaria – mas uma bruxaria venal e criminosa, feita de venenos destilados nas sombras. No total, a Câmara Ardente (o tribunal excepcional criado para a ocasião) realiza 210 sessões e profere 36 condenações à morte. A própria La Voisin é queimada na praça de Grève (actual praça em frente à Câmara Municipal) em 1680, levando consigo muitos segredos. Muitos dos grandes nomes citados durante a investigação (incluindo Montespan) escapam através do exílio ou de um confinamento discreto, tendo o rei preferido evitar a explosão pública do caso de Estado que representava. Não deixa, contudo, de ser verdade que a mais faustosa corte da Europa escondia no seu seio um verdadeiro mundo subterrâneo de magia, sacrifícios e pactos.
Para além deste escândalo retumbante, a época moderna assiste à persistência difusa das práticas ocultas. Nas zonas rurais do Antigo Regime, continuam a temer-se bruxos e feiticeiras. Ocorrem perseguições esporádicas às bruxas em algumas regiões de França – por exemplo, no País Basco, em 1609, onde, sob comissão do rei Henrique IV, o juiz Pierre de Lancre conduz uma repressão feroz e envia para a fogueira dezenas de pessoas acusadas de participar em sabás e de praticar magia negra. Do mesmo modo, na Franche-Comté ou na Lorena, surgem processos de bruxaria até cerca de 1650. Mas, pouco a pouco, o cepticismo do Iluminismo ganha terreno e estas perseguições diminuem.
Nos círculos intelectuais dos séculos XVII–XVIII, a época é mais favorável à experimentação científica. Algumas práticas ocultas transformam-se e renascem sob uma aparência mais «racional». É o caso de uma figura como o médico austríaco Franz-Anton Mesmer, que triunfa em Paris na década de 1780 graças ao magnetismo animal: um fluido invisível que canaliza em misteriosas sessões colectivas. Embora Mesmer rejeite o rótulo de mago, muitos vêem nele um curandeiro ocultista, herdeiro dos magnetizadores e astrólogos de outrora. Outros aventureiros esotéricos percorrem a Europa, fascinando as elites: o conde Alessandro Cagliostro, grande mestre de uma Egiptomania mística, seduz os nobres parisienses com os seus elixires e rituais antes de se ver envolvido no Caso do Colar da Rainha. Às vésperas da Revolução, o espírito racionalista convive, assim, com uma viva curiosidade pelo irracional. Não é por acaso que numerosas lojas maçónicas – surgidas em França por volta de 1725 – cultivam o gosto pelo esoterismo, multiplicando os símbolos alquímicos e as referências templárias nos seus ritos. Do mesmo modo, desde o final do século XVII circulam na Europa manifestos misteriosos atribuídos aos Rosa-Cruzes, uma fraternidade secreta adepta da sabedoria oculta. A própria Paris, em 1623, acordou coberta de estranhos cartazes que anunciavam a chegada destes Rosa-Cruzes invisíveis, «mestres da omnipotência» – algo suficiente para alimentar todas as lendas. Mesmo quando a ciência oficial se afasta dele, uma parte das elites continua a procurar no segredo das lojas o conhecimento oculto dos antigos magos.
O renascimento ocultista no século XIX
Após a tormenta revolucionária e o Império, a França do século XIX conhece um surpreendente ressurgimento do ocultismo. Na era do positivismo triunfante e da industrialização, muitos espíritos aspiram a mistérios mais profundos do que aqueles oferecidos pela ciência materialista. É neste contexto que nasce aquilo a que mais tarde se chamará «ocultismo», enquanto movimento de pensamento autónomo. « O ocultismo, enquanto corrente de pensamento, nasceu das ruínas das guerras revolucionárias e imperiais. Fez ouvir a sua voz em contraponto à da Restauração no primeiro terço do século XIX», analisa o historiador Jean-Pierre Laurant. Com efeito, desde as décadas de 1830–1850, Paris volta a ser um grande centro do esoterismo: os salões literários entusiasmam-se com o magnetismo, as ciências ocultas são reavaliadas à luz do romantismo e tenta-se fundar uma «epistemologia nova», que una misticismo e ciência.
Éliphas Lévi
É nesta época que a própria palavra «ocultismo» surge em francês (por volta de 1842). Um antigo seminarista chamado Alphonse-Louis Constant – mais conhecido pelo pseudónimo de Éliphas Lévi – publica em 1856 Dogme et Rituel de la Haute Magie, uma obra fundadora que estabelece as bases do ocultismo moderno, sintetizando cabala, tarot, alquimia e magnetismo. Éliphas Lévi proclama-se herdeiro de Paracelso e de Swedenborg, e afirma reconciliar a fé e a ciência através da magia. O seu sucesso é retumbante em toda a Europa. Em breve, formam-se círculos ocultistas estruturados: em 1888, o Dr. Gérard Encausse, conhecido como Papus, funda em Paris a Ordem Martinista e uma Escola Hermética. Define o ocultismo como «o conjunto das teorias, práticas e vias de realização derivadas da Ciência oculta». Sob a sua pena e a dos seus contemporâneos (Stanislas de Guaïta, Joséphin Péladan,...), o ocultismo francês da Belle Époque reivindica as suas raízes num cristianismo esotérico, apresentando-se como complemento da religião e não como seu inimigo.
Paralelamente, influências estrangeiras vêm alimentar este renascimento. A Sociedade Teosófica, fundada em 1875 por Helena Blavatsky, introduz em França ideias esotéricas provenientes do Oriente. Blavatsky, uma personagem extravagante, populariza a noção de uma tradição oculta universal que mistura budismo, hinduísmo, cabala e espiritismo. As suas obras encontram um público considerável e lançam as bases de correntes esotéricas do século XX, até ao actual New Age. Assiste-se também ao desenvolvimento do espiritismo através de Allan Kardec: comunicar com os espíritos por meio de mesas giratórias torna-se uma moda imperial (o próprio Napoleão III teria assistido a sessões). Tudo isto testemunha uma sede persistente de mistério na sociedade francesa, do mais humilde ao mais poderoso.
O século XIX encerra assim o ciclo desta longa história: o ocultismo, nunca erradicado, regressa à luz do dia, desta vez sob a forma de movimentos estruturados, revistas, lojas e ordens iniciáticas. O que outrora era clandestino ou reservado às cortes reais é agora exposto nas livrarias e nos salões parisienses. Em 1900, Paris é simultaneamente a capital das ciências racionais e das ciências ocultas, acolhendo congressos de psicologia e conferências de magia cabalística.
Assim, a história de França está ligada ao ocultismo, de forma íntima e indissociável, não para glorificar o irracional, mas para recordar que o desejo de desvendar os segredos da natureza e do destino é universal e intemporal. Este fio oculto, tecido ao longo dos séculos, faz parte do património imaterial da nação – uma parcela de sombra frequentemente escondida, mas nunca extinta, que continua a alimentar a curiosidade e a imaginação.
Fontes:
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Paul Lacroix, Sciences et lettres au Moyen Âge et à la Renaissance
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Processo de Joana d’Arc (transcrições históricas, nomeadamente a versão publicada por Jules Quicherat)
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Jean Bodin, De la démonomanie des sorciers (1580)
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Clavícula de Salomão (grimório medieval traduzido por S.L. Mathers)
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Simon de Phares, Recueil des plus célèbres astrologues et devins
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Pierre de Lancre, Tableau de l’inconstance des mauvais anges et démons (1612)
-
Robert Mandrou, Magistrats et sorciers en France au XVIIe siècle
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Arquivos do Caso dos Venenos (1679–1682), Câmara Ardente
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Michel de Nostredame (Nostradamus), Les Prophéties (1555)
-
Jean-Pierre Laurant, L’ésotérisme contemporain et ses lectures de la tradition
-
Éliphas Lévi, Dogme et rituel de la haute magie (1856)
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Papus (Gérard Encausse), Traité élémentaire de science occulte
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Dicionário crítico do esoterismo, dir. Jean Servier (PUF)














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