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Sabbat de Mabon

Roda do Ano

Sabbat de Mabon

13 min de leitura

Mabon celebra o equinócio de outono, quando o Sol atravessa o equador celeste e o dia se aproxima da duração da noite. No hemisfério Norte, a luz cede agora lugar: as noites tornam-se mais longas, as últimas colheitas juntam-se às reservas e a terra prepara-se para o repouso. O sabbat reúne a abundância visível e a estação escura que se aproxima.

A celebração reúne três fios que importa reconhecer. O seu momento é astronómico, o seu nome pertence à história moderna da Roda do Ano e o seu imaginário inspira-se numa notável narrativa galesa. À sua volta desenvolvem-se os costumes europeus do fim da colheita: o último feixe, a refeição coletiva, os frutos de outono, as contas saldadas e a proteção do lar antes do inverno.

Na Roda do Ano, Mabon segue-se a Lammas ou Lughnasadh e precede Samhain. Os primeiros frutos de agosto tornam-se uma colheita que se pesa, partilha e conserva. Os objetos da coleção Mabon acompanham este limiar: gratidão, equilíbrio, consagração dos frutos do trabalho e preparação para a metade escura do ano.

O equinócio e a entrada na metade escura

O equinócio de setembro ocorre por volta de 22 ou 23 de setembro. Nesse instante preciso, o centro do Sol atravessa o equador celeste de norte para sul. Os dois hemisférios recebem então uma iluminação comparável. No hemisfério Norte, este acontecimento dá início ao outono astronómico; no hemisfério Sul, dá início à primavera.

A palavra equinócio vem do latim aequinoctium, formado a partir de igualdade e noite. O dia e a noite aproximam-se da mesma duração, sem formarem duas metades perfeitamente idênticas. A refração atmosférica e o diâmetro aparente do Sol prolongam ligeiramente o dia. A igualdade exata, chamada equilux, ocorre alguns dias depois do equinócio de outono, consoante a latitude. O Met Office distingue claramente equinócio e equilux.

O Sol nasce perto de leste e põe-se perto de oeste. Depois desta passagem, o seu arco diário desce e as noites dominam até ao equinócio da primavera. A data varia de ano para ano e pode diferir consoante o fuso horário. O Royal Observatory Greenwich apresenta o movimento astronómico e as suas datas.

Este equilíbrio não é, portanto, um estado imóvel. Marca o instante em que a ordem se inverte: a luz, que dominava desde Ostara, passa a estar abaixo da duração da noite. Mabon ensina um equilíbrio vivo, comparável ao fiel de uma balança que ultrapassa o centro antes de prosseguir o seu movimento.

O equinócio é uma porta, não uma pausa. O dia e a noite encontram-se precisamente no momento em que a sua relação muda. O rito não procura imobilizar as forças presentes: reconhece aquilo que está a mudar de lado e prepara a pessoa para caminhar com a nova estação.

Como o equinócio recebeu o nome Mabon

Os primeiros autores da Wicca designavam esta celebração por expressões como «equinócio de outono» ou «sabbat de outono». O seu lugar já pertencia ao ciclo das oito celebrações, mas ainda não tinha o nome galês hoje difundido.

O nome Mabon entra no calendário pagão americano por volta de 1970, por iniciativa de Aidan Kelly. O seu trabalho de atribuição de nomes procurava dar aos equinócios e aos solstícios nomes capazes de corresponder aos quatro grandes sabbats sazonais. O historiador Ronald Hutton reconstitui esta etapa em «Modern Pagan Festivals: A Study in the Nature of Tradition».

Kelly escolhe Mabon ap Modron, personagem da literatura galesa medieval. O nome difunde-se depois nas publicações e nos calendários neopagãos, até se tornar a designação corrente do equinócio de outono numa grande parte da Wicca contemporânea. A tradição britânica conservou mais a expressão Autumn Equinox, enquanto outras correntes utilizam Alban Elfed.

Esta história confere à celebração o seu verdadeiro significado. Mabon é um nome ritual moderno, escolhido para ligar um momento solar a uma figura galesa de desaparecimento, cativeiro e regresso. A narrativa antiga e a celebração contemporânea correspondem-se sem se confundirem.

Mabon ap Modron, o filho raptado e reencontrado

Em galês, Mabon ap Modron significa Mabon, filho de Modron. O seu nome está ligado ao britónico Maponos, o «Grande Filho» ou «Filho divino», enquanto Modron corresponde a Matrona, a «Grande Mãe». Inscrições da Gália e da Grã-Bretanha atestam Maponos, que o mundo romano-celta aproximou de Apolo. O Mabon literário preserva a memória deste antigo casal entre a Mãe e o Filho.

A sua grande narrativa encontra-se em Culhwch e Olwen, um dos contos reunidos sob o título Mabinogion. Mabon é raptado à mãe quando tem apenas três noites de idade. Anos mais tarde, os companheiros de Artur têm de o encontrar, pois só ele consegue dominar o cão necessário para a caça do formidável javali Twrch Trwyth.

A busca recua no tempo através de uma cadeia de animais cada vez mais antigos. Os enviados interrogam o melro, o veado, a coruja e depois a águia. Cada um viu a paisagem mudar ao longo de uma vida desmesuradamente longa, mas nenhum conhece a prisão de Mabon. Por fim, a águia conduz os investigadores até ao salmão de Llyn Llyw, suficientemente velho para ter ouvido as queixas do cativo atrás das muralhas de Gloucester.

Levados pelo salmão, Cei e Gwrhyr chegam à prisão. Os guerreiros de Artur atacam a fortaleza, Cei derruba o muro e tira Mabon do calabouço. O filho arrancado à mãe reencontra o mundo e participa depois na caçada, montado no seu cavalo. O texto completo de Culhwch e Olwen na tradução de Charlotte Guest conserva cada etapa desta libertação; a tradução de Sioned Davies publicada pela Oxford University Press restitui hoje a força oral destes contos galeses.

O Mabon antigo surge, portanto, como um filho divino, um prisioneiro ilustre e um caçador libertado. A festa moderna encontra na sua história uma linguagem adequada ao declínio da luz: algo desaparece sob a terra ou atrás da pedra, atravessa um período de clausura e regressa quando a hora e os aliados estão reunidos.

A libertação de Mabon exige toda a memória do mundo. Nenhum animal possui sozinho a resposta. Cada um conduz a busca até uma testemunha mais antiga, até ao salmão que conhece a prisão. O relato faz da escuta, da paciência e da aliança os verdadeiros instrumentos do regresso.

Fim das colheitas, última paveia e São Miguel

As raízes sazonais de Mabon surgem nos costumes associados à conclusão das colheitas. A sua data dependia do clima, da região e do cereal, mais do que de um dia astronómico fixo. Quando a última carroça deixava o campo, o período de trabalho intenso dava lugar à refeição do fim das colheitas, chamada Harvest Home nas ilhas Britânicas.

O último cereal recebia uma atenção especial. Algumas hastes podiam permanecer de pé e ser cortadas mais tarde, durante um jogo de foices. Noutros lugares, o último feixe recebia o nome de «pescoço», «égua», «donzela» ou «rainha da colheita». A palha era atada, entrançada ou moldada e depois suspensa na casa ou no celeiro até ao ano seguinte. As coleções do Pitt Rivers Museum conservam vários destes troféus da colheita.

Na Cornualha e em Devon, a cerimónia conhecida como Crying the Neck erguia os últimos espigões acima do círculo dos ceifeiros. Os gritos percorriam as alturas e, depois, o feixe decorado regressava à quinta. O gesto proclamava que o cereal tinha sido recolhido e que o trabalho coletivo se mantivera até ao fim. O corte, o grito e a refeição formavam os três momentos de um final de colheita completo.

As vindimas seguem a mesma lógica através de outra matéria. O cacho maduro transforma-se em sumo, que depois é novamente transformado pelo tempo e pela fermentação. Uvas, maçãs, nozes, peras e abóboras pertencem à linguagem sazonal de Mabon porque amadurecem por volta do outono europeu. O sabbat acolhe assim a riqueza real do território, em vez de depender de uma decoração uniforme.

Nas proximidades do equinócio, o dia de São Miguel, a 29 de setembro, marcou durante muito tempo um limiar importante no calendário rural britânico. Michaelmas encerrava o ano agrícola, abria um novo período de contas e figurava entre os dias em que as rendas e os compromissos eram pagos. O arcanjo que derrota o dragão, munido de uma espada e de uma balança, trazia para a estação imagens de proteção, julgamento e justa medida.

As próprias amoras faziam parte do calendário de São Miguel. Uma tradição escocesa e britânica desaconselhava apanhá-las depois de 29 de setembro, data em que o diabo, expulso do céu, teria conspurcado as silvas durante a queda. O National Trust for Scotland apresenta este costume de Michaelmas. Recorda que a colheita tem um limite: chega um dia em que é preciso deixar de colher e deixar o resto ao mundo selvagem.

O significado espiritual e mágico de Mabon

Mabon começa por convidar a ponderar a colheita. Já não basta esperar nem mostrar os primeiros frutos: é preciso avaliar o que foi realmente produzido, recebido, perdido ou conservado. O sabbat apoia os balanços, o encerramento de um ciclo, o pagamento de uma dívida e o reconhecimento dos compromissos que deram frutos.

A gratidão assume aqui uma forma material. Uma colheita envolve a terra, o clima, o trabalho, as ferramentas, os conhecimentos e os laços humanos. Agradecer significa reconhecer esta cadeia e, depois, devolver uma parte do que foi recebido. A dádiva, a refeição partilhada e o apoio prestado a uma pessoa constituem gestos mágicos quando prolongam verdadeiramente a circulação da abundância.

O equilíbrio do equinócio favorece operações de justiça, conciliação e ajustamento. Uma balança ritual pode receber dois objetos que representem aquilo que damos e aquilo que recebemos, aquilo que conservamos e aquilo que libertamos, ou ainda o tempo dedicado ao trabalho e o tempo devolvido ao descanso. O objetivo não é tornar os dois pratos idênticos, mas restabelecer entre eles uma relação justa.

O relato de Mabon ap Modron abre um trabalho de libertação. Acompanha aquilo que precisa de sair de um confinamento, de recuperar o seu lugar ou de regressar à luz após uma longa espera. O salmão representa a memória que conhece o caminho; a pedra da prisão, o limite a quebrar; o cavalo e a caça, a ação que se torna possível após a libertação.

A última meda diz respeito à conservação das forças. O grão recolhido no celeiro, a fruta guardada num frasco e a palha suspensa ensinam a não dissipar toda a abundância no momento da festa. Mabon é adequado à proteção dos recursos, dos rendimentos, das reservas, do lar e da saúde antes dos meses mais frios.

A proximidade do dia de São Miguel reforça os trabalhos de defesa e discernimento. A espada corta aquilo que ameaça, a balança julga a proporção justa e o dragão vencido representa a desordem contida. Esta correspondência cristã não substitui o sabá: acrescenta ao limiar de setembro uma antiga força ritual, particularmente adequada à proteção da casa e à resolução de um assunto.

Como celebrar Mabon hoje

Observar a passagem solar

Observe o nascer ou o pôr do Sol no dia do equinócio. Oriente-se para leste ao amanhecer ou para oeste ao crepúsculo e, em seguida, marque a posição do astro na paisagem. Acenda uma vela clara e uma vela escura, uma de cada lado de uma taça de grãos. Nomeie a passagem concluída e aquela que começa.

Pesar a colheita

Coloque em dois tabuleiros, ou em dois pedaços de tecido, os símbolos do que o ano deu e do que exigiu. Uma semente pode representar um começo, uma moeda, um rendimento, um fio, uma relação, uma folha, uma obra concluída. Retire o que já não precisa de ser carregado e consagre o que merece ser conservado.

Partilhar uma refeição do fim das colheitas

Prepare uma refeição com alimentos realmente disponíveis na sua região: pão, maçãs, uvas, nozes, legumes de raiz, abóboras, mel, sidra ou sumo de fruta. Antes de comer, cada pessoa pode nomear uma ajuda recebida desde a primavera. Reserve uma porção para partilhar com uma pessoa, associação ou vizinho, em vez de a deixar como oferenda no exterior.

Formar um troféu da colheita

Entrance algumas hastes de trigo, cevada ou aveia perfeitamente secas, ou ate um ramo de folhas caídas. Pendure esta forma junto do local onde são guardadas as reservas. Representa o fruto protegido até ao próximo ciclo. Uma criação atual ganha força quando permanece simples e respeita a matéria disponível.

Seguir os animais de Mabon

Disponha cinco marcas para o melro, o veado, a coruja, a águia e o salmão. Para cada uma, formule uma pergunta mais antiga do que a anterior: o que vê hoje, o que guarda há um ano, o que guarda desde a infância, o que vem da sua linhagem, o que permanece sob todas estas camadas? Termine diante do salmão e escute a resposta que indica a prisão a abrir.

Proteger o lar antes do inverno

Limpe uma soleira, verifique uma reserva e repare um objeto útil. Coloque junto à entrada uma vela branca, uma maçã e uma representação de uma balança, espada ou chave. Peça proteção, equilíbrio e discernimento para a estação escura. A maçã será depois consumida e a vela apagada sem deixar resíduos no exterior.

Concluir com um gesto de restituição

Devolva um objeto emprestado, pague uma pequena dívida, agradeça a alguém ou partilhe uma parte das suas colheitas. Este gesto dá ao rito uma conclusão concreta. Mabon torna-se então uma celebração da relação: aquilo que amadureceu não fica encerrado, mas regressa numa troca capaz de alimentar o que vem a seguir.

As correspondências do sabat de Mabon

Estas correspondências reúnem o equinócio astronómico, o relato galês de Mabon ap Modron, os costumes europeus do fim das colheitas e os usos rituais da Roda do Ano contemporânea.

Correspondência Associação de Mabon
Data Equinócio de setembro, por volta de 22 ou 23 de setembro no hemisfério Norte
Lugar na Roda Entre Lammas ou Lughnasadh e Samhain; festividade solar do equinócio de outono na Wicca contemporânea
Nomes Mabon; equinócio de outono; Autumn Equinox; Alban Elfed em algumas correntes druídicas contemporâneas
Momento solar Passagem do Sol do norte para o sul do equador celeste; entrada do Sol em Balança segundo o zodíaco tropical
Figuras Mabon ap Modron e a sua mãe Modron na tradição galesa; São Miguel no calendário cristão de 29 de setembro
Animais do relato Melro, veado, coruja, águia e salmão como guardiões de uma memória crescente; cavalo e javali na caça de Twrch Trwyth
Elementos Terra para a colheita, as reservas e o regresso ao repouso; Água para o salmão, os frutos espremidos e a transformação
Direção Oeste nas correspondências rituais contemporâneas associadas ao poente, à Água e ao outono
Cores Ouro das colheitas, ocre, ferrugem, vermelho-escuro, castanho, verde-floresta e violeta da uva
Plantas Trigo, cevada, aveia, vinha, macieira, aveleira, carvalho, silva, hera e folhas de outono
Pedras Cornalina, granada, citrino, olho-de-tigre, jaspe vermelho e quartzo fumado nas correspondências esotéricas contemporâneas
Símbolos Balança, Sol poente, cesto cheio, última meda, foice, maçã, cacho de uvas, cornucópia, chave, espada e celeiro
Domínios mágicos Gratidão, balanço, equilíbrio, justiça, encerramento, partilha, libertação, conservação, proteção dos recursos e preparação
Oferendas Pão, maçãs, uvas, nozes, mel, cidra, sumo de fruta, vinho, cereais, a última porção da colheita ou uma dádiva alimentar

Precauções

Uma celebração de outono segura e moderada

Mantenha as velas num suporte estável, longe de palha, folhas secas, tecidos, crianças e animais, e nunca deixe nenhuma chama sem vigilância. Verifique se existem alergias antes de uma refeição partilhada e disponibilize sempre uma bebida sem álcool; o vinho ou a cidra alcoólica destinam-se apenas a adultos e devem ser consumidos com moderação. Não apanhe nem ingira qualquer fruto, cogumelo ou planta sem uma identificação segura. Respeite as propriedades privadas, as espécies protegidas e os locais frágeis, e adapte qualquer saída às condições meteorológicas e à rápida diminuição da luz.

Fontes e textos de referência

Observatório Real de Greenwich, « O que é e quando ocorre o equinócio de outono? » ; Met Office, « Compreender os equinócios e os solstícios » ; Ronald Hutton, « Festivais pagãos modernos: um estudo sobre a natureza da tradição », 2008 ; Sioned Davies, The Mabinogion, Oxford University Press, 2007 ; Culhwch e Olwen, tradução de Charlotte Guest ; Ronald Hutton, « O regresso das colheitas », em The Stations of the Sun ; Museu Pitt Rivers, « Troféus das colheitas » ; National Trust for Scotland, « Dia de São Miguel e tradições de Michaelmas ».

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