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Sabbat de Beltane

Roda do Ano

Sabbat de Beltane

12 min de leitura

Beltane abre o verão no antigo calendário gaélico. Celebrada na véspera de 1 de maio e durante o dia seguinte, a festa assinala a partida dos rebanhos para as pastagens, o regresso dos trabalhos da estação luminosa e a necessidade de proteger aquilo que deve alimentar a comunidade. O fogo, as flores, a água e o leite formam a sua linguagem mais antiga.

O sabbat não celebra apenas o calor ou o amor. Coloca a vitalidade sob proteção antes do seu pleno desenvolvimento. Os animais passam entre as fogueiras, as soleiras recebem flores, o lar guarda a sua água e a sua chama, enquanto as famílias zelam pelo leite, pela manteiga e pela sorte da casa. Beltane une assim o impulso de viver à responsabilidade de preservar aquilo que torna essa vida possível.

Na Roda do Ano contemporânea, esta festa torna-se também a celebração do desejo, das alianças, da fertilidade e da criação. Segue-se a Ostara, quando a semente recebe uma intenção, e antecede Litha, quando a luz atinge o seu auge. Os objetos da coleção Beltane podem acompanhar este impulso, enquanto os antigos gestos de maio lhe dão uma matéria sólida: uma chama mantida acesa, uma porta enfeitada com flores e uma promessa posta em prática.

O primeiro dia do verão gaélico

Beltaine pertence às quatro grandes festas sazonais da antiga Irlanda, juntamente com Samhain, Imbolc e Lughnasadh. Celebrada a 1 de maio, ocorre entre o equinócio da primavera e o solstício de verão. O antigo calendário gaélico reconhece nela o início de samrad, a estação do verão, enquanto Samhain abre, seis meses mais tarde, a estação do inverno.

A narrativa medieval irlandesa Tochmarc Emire, ou O Cortejo de Emer, apresenta Beltaine e Samhain como as duas grandes divisões do ano. Outro nome antigo, Cétshamain ou Cétamain, significa o início do verão. Esta estação anuncia-se por uma mudança decisiva na vida pastoril: os rebanhos deixam os arredores do lar para se dirigirem às pastagens de verão. University College Cork, edição e tradução de Tochmarc Emire.

Esta mudança abre um período fértil, mas também expõe o gado a doenças, acidentes e males atribuídos às forças invisíveis. O rito de maio protege, portanto, antes de celebrar. A comunidade não pede uma abundância abstrata: cuida dos animais, do leite, da manteiga, das colheitas futuras e dos laços que permitem ao lar atravessar a estação.

Na Roda do Ano wiccana, Beltane é classificado entre os quatro sabbats maiores ou festas do fogo. Conserva a data gaélica de 1 de Maio e acolhe depois motivos provenientes das festas de Maio britânicas e europeias. Este encontro explica a presença actual do mastro de Maio, das fitas, das coroas, das uniões rituais e das celebrações do desejo.

A porta da estação luminosa. Beltane não contempla a vida à distância. A festa faz sair o rebanho, abre o limiar, reúne a vizinhança e confia ao fogo aquilo que deve ser protegido antes de entrar no Verão.

De Beltaine ao fogo de Maio

As formas do nome incluem o irlandês antigo Beltaine, o irlandês moderno Bealtaine e o gaélico escocês Bealltainn. O francês e o inglês conservaram a forma Beltane, difundida nas obras dedicadas às festas sazonais. Na Irlanda, Bealtaine designa também o mês de Maio, o que mostra como a festa e a estação continuam ligadas na língua.

O Sanas Chormaic, glossário irlandês compilado a partir de materiais do início da Idade Média, explica Beltaine como um «fogo favorável» e descreve duas fogueiras acesas com fórmulas rituais. Os rebanhos eram conduzidos entre elas para os preservar das doenças do ano. Esta passagem constitui a referência mais antiga conhecida ao rito que deu a Beltane a sua imagem mais duradoura. Sanas Chormaic, edição de John O’Donovan e Whitley Stokes.

A interpretação popular «fogo de Bel» aproximou o nome do deus gaulês Belenos. Esta leitura alimentou a literatura esotérica moderna, mas a etimologia do nome continua a ser discutida. A festa irlandesa pode ser apresentada com rigor sem lhe impor um deus tutelar: os primeiros textos transmitem um nome, uma data, uma passagem sazonal e um rito do fogo orientado para a protecção do rebanho.

O historiador Ronald Hutton mostra que Beltane possui uma documentação medieval e moderna suficientemente rica para acompanhar a continuidade dos seus grandes motivos. Os fogos, a deslocação do gado e a abertura da estação quente ligam os textos antigos aos costumes registados na Irlanda e na Escócia. Ronald Hutton, «Beltane», em The Stations of the Sun.

Os dois fogos e a protecção do rebanho

O fogo de Beltane é um fogo de passagem. As duas fogueiras desenham um caminho central por onde os animais entram simbolicamente na nova estação. O calor, o fumo e as brasas estabelecem um limite protector entre os perigos do ano que terminou e o tempo das pastagens. Esta estrutura confere força ao rito: é preciso atravessar um espaço consagrado para receber protecção.

A língua irlandesa conservou a expressão idir dhá thine Bhealtaine, «entre as duas fogueiras de Beltane», para designar uma posição difícil entre dois perigos. A memória do rito ficou assim fixada numa fórmula quotidiana. Os arquivos do National Museum of Ireland também descrevem a passagem do gado através das brasas das fogueiras de maio, para preservar a sua saúde durante o ano.

A chama da lareira também fazia parte da sorte doméstica. Na véspera e no dia de maio, algumas casas evitavam dar fogo ou água, pois ceder um desses bens equivalia a deixar partir uma parte da sua prosperidade. O gesto revela uma conceção muito concreta do poder ritual: o fogo aquece, a água mata a sede, o leite alimenta, e cada um destes elementos deve permanecer disponível para a casa no momento da transição sazonal.

O gado recebia outras proteções. Podiam atar-se flores, fitas vermelhas ou argolas de tramazeira aos animais. O equipamento leiteiro recebia água benta, ferro ou uma brasa, enquanto algumas formas de manteiga ostentavam rodas solares, cruzes ou olhos protetores. Beltane vela, portanto, tanto pela produção como pelo animal: proteger a vaca equivale a proteger o leite, a manteiga e toda a economia da casa.

As flores, o arbusto de maio e a casa

Na véspera do dia 1 de maio, as crianças e as famílias apanhavam flores para as colocar nas soleiras, nos parapeitos das janelas, nos estábulos e nos objetos relacionados com o leite. As flores amarelas ocupavam um lugar privilegiado: prímulas, botões-de-ouro, calêndulas e tojos recordavam o brilho do sol e a chegada do verão. Os caminhos de flores também saudavam os vizinhos e exprimiam um desejo de sorte para a casa.

O arbusto de maio irlandês era instalado diante da lareira ou num espaço comum. Um ramo ou um pequeno arbusto, frequentemente um pilriteiro, recebia fitas, pedaços de tecido, flores e cascas de ovos coloridas guardadas depois da Páscoa. Os grupos da vizinhança podiam transportar o arbusto em procissão, pedir velas ou oferendas e, depois, queimar a decoração comum no final da festa. Representava a sorte partilhada e a identidade da comunidade.

O mastro de maio pertence a outro ramo destes costumes. Mais desenvolvido em Inglaterra e nas cidades, surge na Irlanda em zonas marcadas por essa influência. As fitas, a dança e os jogos juntaram-se depois aos Beltane wiccanos. O sabbat contemporâneo pode, portanto, acolhê-lo como herança das festas de maio, enquanto as duas fogueiras, o gado e o arbusto florido permanecem os sinais mais diretamente ligados ao mundo gaélico.

A água de maio complementa o fogo. As flores podiam ser colocadas no poço para proteger o recurso, enquanto o orvalho da manhã servia para gestos de beleza e cuidado. As plantas colhidas antes do nascer do sol recebiam um valor especial. Nestes costumes, a água não se opõe à chama: protege a frescura, a saúde e a continuidade da vida no momento em que o calor toma posse da estação. Museu Nacional da Irlanda, «Tradições e costumes do Dia de Maio / Bealtaine».

O significado espiritual e mágico de Beltane

Beltane celebra uma vitalidade que aceita entrar no mundo. Ostara nomeia a promessa e a germinação; Beltane exige a passagem à ação. O fogo revela aquilo que arde com constância, o que merece proteção e o que deve ser deixado para trás antes da estação de expansão.

A proteção continua a ser o seu primeiro domínio mágico. Diz respeito ao corpo, à casa, aos animais, aos recursos e às atividades que alimentam o lar. Passar simbolicamente entre duas chamas, duas velas ou duas lanternas permite assinalar esta entrada num novo período. O rito não exige vencer a natureza: procura uma aliança justa com as suas forças.

A fertilidade de Beltane vai além da mera procriação. Designa o poder de produzir, amar, criar, trabalhar e transmitir. Um projeto fértil produz resultados; um vínculo fértil torna cada pessoa mais viva; uma terra fértil responde aos cuidados que recebe. O sabá acolhe, portanto, os pedidos de amor e desejo, mas também os relacionados com a atividade profissional, a inspiração, a casa e a continuidade familiar.

As alianças ocupam um lugar importante nas celebrações atuais. Um casal pode renovar uma promessa, amigos podem afirmar o seu apoio, uma pessoa pode assumir um compromisso para com uma causa ou um lugar. O vínculo honrado em Beltane assenta no consentimento, na reciprocidade e na capacidade de cada um permanecer plenamente presente na união.

O fogo e a terra formam uma associação contemporânea coerente. O fogo transporta o desejo, a proteção e o impulso; a terra recebe essa força e confere-lhe duração. Juntos, transformam o entusiasmo em crescimento real. Os trabalhos de Beltane ganham, assim, ao incluir uma ação concreta que prolongue o rito após a extinção das velas.

Como celebrar Beltane hoje

A celebração pode começar na noite de 30 de abril com a preparação do limiar. Um ramo caído, uma planta em vaso ou um simples círculo de folhagem transforma-se num arbusto de maio. Fitas de tecido reutilizáveis, algumas flores cultivadas e cascas de ovos pintadas compõem uma decoração fiel ao espírito do costume. Cada elemento recebe uma palavra ligada à proteção, à saúde, ao amor ou ao trabalho do lar.

Duas velas colocadas a alguma distância uma da outra representam os fogos de Beltane. A pessoa permanece diante delas sem passar por cima nem entre chamas expostas. Nomeia aquilo que deixa para trás e, depois, o que deseja proteger durante a estação. Em seguida, avança entre os dois suportes quando a sua disposição o permitir em segurança, ou faz passar um objeto simbólico entre eles.

Pode seguir-se uma bênção doméstica. Uma água límpida recebe algumas flores não tóxicas e, depois, a taça é levada para junto da porta, das janelas e do espaço de trabalho. A mão traça um círculo sobre a água antes de cada desejo. O ritual dirige-se às realidades do lugar: paz na casa, estabilidade dos recursos, saúde dos animais, atividade próspera e relações leais.

A refeição confere ao sabat o seu caráter comunitário. Pão, bolachas de aveia, manteiga, queijo, leite, mel, ervas jovens e legumes da estação recordam a economia pastoril de maio. Uma parte da refeição pode ser oferecida a alguém próximo ou partilhada com a vizinhança. A hospitalidade faz circular a abundância sem abandonar a sorte do lar.

As fitas também podem servir para formular uma aliança. Duas cores são atadas em torno de um ramo conservado no interior, de uma coroa ou de um objeto ritual. Cada nó corresponde a uma ação recíproca claramente enunciada. Num trabalho amoroso, este gesto honra um vínculo escolhido e partilhado; não serve para constranger a vontade de outra pessoa.

Na manhã de 1 de maio, uma caminhada permite observar as flores, a atividade dos animais e a qualidade da luz. O orvalho pode ser recolhido numa superfície limpa para lavar as mãos ou tocar na testa. A festa termina com um regresso ao limiar florido. As velas são apagadas, os alimentos são partilhados e o compromisso da estação recebe a sua primeira ação.

As correspondências do sabat de Beltane

Referência Correspondências Significado
Data Noite de 30 de abril e dia 1 de maio Abertura tradicional do verão gaélico
Estado Festa sazonal gaélica e sabat maior na classificação wiccana Passagem para a estação luminosa, proteção e expansão da vitalidade
Nomes Beltaine, Bealtaine, Bealltainn, Cétshamain, Cétamain Festa de maio e início do verão
Tradições Irlanda gaélica, costumes irlandeses, escoceses e manqueses, festivais europeus de maio, Wicca e paganismos contemporâneos Encontro entre o calendário pastoral, a proteção do lar e as celebrações da estação luminosa
Coração ritual histórico Dois fogos, passagem do gado, partida para as pastagens, proteção do leite e da manteiga Saúde do rebanho, continuidade dos recursos e salvaguarda da casa
Presenças tradicionais Aos sí, poderes do lugar, família, vizinhança e rebanho Relações entre o lar, o território visível e as forças invisíveis de maio
Elementos atuais Fogo e Terra Proteção, desejo e impulso; crescimento, alimento e duração
Direção atual Sudeste Progressão em direção ao calor e ao zénite solar
Símbolos Dois fogos, soleira, arbusto de maio, fitas, coroa, orvalho e mastro de maio Passagem, proteção, sorte doméstica, festa comunitária e aliança
Animais Vaca, touro, abelha e animais das pastagens Subsistência, força, fertilidade, polinização e prosperidade do lar
Cores atuais Verde, vermelho, branco e amarelo solar Vegetação, vitalidade, proteção, leite e luz de maio
Plantas Espinheiro-alvar, tramazeira, prímula, botão-de-ouro, calêndula, tojo e feto Proteção da soleira, sorte da casa e acolhimento do verão
Fumigações atuais Zimbro, alecrim, olíbano e benjoim Proteção, purificação do lugar, calor e expansão
Minerais atuais Cornalina, granada, quartzo rosa e aventurina verde Vitalidade, constância, amor recíproco e crescimento
Alimentos Leite, manteiga, queijo, pão, bolo de aveia, mel e ervas jovens Recursos pastorais, hospitalidade, doçura e continuidade do lar
Trabalhos mágicos Proteção, amor, desejo, aliança, fertilidade, crescimento, prosperidade e coragem para agir Preservar a força vital e dar-lhe uma direção fértil

Fontes e textos de referência

Tochmarc Emire, edição e tradução reunidas pelo University College Cork ; Sanas Chormaic, edição de John O’Donovan e Whitley Stokes ; Universidade de Cambridge, Base de Dados dos Glossários Irlandeses Antigos ; Museu Nacional da Irlanda, « Tradições e costumes do Primeiro de Maio / Bealtaine » ; Museu Nacional da Irlanda – Vida Rural, O Projeto dos Costumes do Primeiro de Maio ; Ronald Hutton, « Beltane », em As Estações do Sol ; Ronald Hutton, « Festivais Pagãos Modernos », 2008.

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