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Os génios planetários entre história, invocação e usos

Os génios planetários entre história, invocação e usos

Desde que a humanidade ergue os olhos para o céu, os astros têm sido muito mais do que pontos luminosos na noite. Para os sábios desde a noite dos tempos, cada planeta era a sede de um poder vivo, dotado de vontade e carácter próprios. Estas entidades, chamadas génios planetários, eram invocadas, honradas e, por vezes, temidas, na esperança de obter o seu favor, pois só elas governam as forças do universo. Explicações.

Os génios planetários através das tradições

Desde a Antiguidade, os sete astros errantes – Saturno, Júpiter, Marte, Sol, Vénus, Mercúrio e Lua – estão associados a entidades espirituais ou divinas que os governam. Nas tradições antigas greco-egípcias e gnósticas, estes génios planetários surgem como poderes cósmicos que regem o destino e dificultam a ascensão da alma. Os gnósticos Ofitas (ramo do movimento gnóstico que atribuía um lugar central à serpente do relato bíblico do Génesis) identificavam cada planeta com um arconte: Saturno era dominado por Ialdabaoth, o Demiurgo “com rosto de leão”, Júpiter por Iao, Marte por Sabaoth, o Sol por Adonaios e Vénus por Astaphaios, Mercúrio por Elaios e a Lua por Horaios. Estes nomes, derivados de termos hebraicos para Deus, reflectem esta visão esotérica em que os planetas são povoados por espíritos ora benevolentes, ora hostis.

Na tradição hermética e neoplatónica, considera-se também que cada esfera planetária é animada por uma inteligência celeste emanada da Divindade e, por vezes, por um génio inferior (espírito) mais terrestre. O mago renascentista Cornelius Agrippa explica assim que, para cada planeta, Deus estabeleceu «uma Inteligência para o bem e um espírito para o mal». Estas entidades servem de mediadoras entre o mundo divino e o mundo material. Durante a época medieval e renascentista, sob a influência da astrologia árabe e dos textos herméticos traduzidos do grego ou do árabe, desenvolveu-se a ideia de convocar os génios planetários através de rituais mágicos. Tratados como o Picatrix (Ghâyat al-Hakîm) ou o Liber Juratus ensinam a confecção de talismãs e a invocação dos espíritos dos planetas para obter efeitos concretos (sabedoria, amor, riqueza, protecção,...) respeitando as correspondências astrológicas. Os rituais tradicionais previam trabalhar “no dia e à hora” do planeta em causa, utilizando incensos, orações e outras «sufumigações» apropriadas, por vezes oferendas ou jejuns, a fim de atrair a influência do génio planetário pretendido.

Saturno, o senhor do tempo e o seu Génio

Símbolo do tempo, da lentidão e da melancolia, Saturno sempre fascinou pelo seu duplo rosto de grande maléfico astrológico e mestre da contemplação. Na mitologia greco-romana, é Cronos/Saturno, o velho deus do tempo que devora os seus filhos. As correntes esotéricas antigas fizeram dele uma potência temível: na cosmologia gnóstica, o génio planetário de Saturno é Ialdabaoth, o Demiurgo orgulhoso criador do mundo material, assimilado a Satanás. Em contrapartida, os filósofos neoplatónicos viam o astro Saturno como a esfera mais elevada antes das estrelas fixas, associada à Inteligência suprema e à sabedoria contemplativa.

Os génios planetários entre a história, a invocação e os usos

Representação do Génio de Saturno segundo Agrippa. Artista

Na magia medieval e renascentista, Saturno é servido por várias entidades emblemáticas. A tradição cabalística e angélica nomeia Cassiel (ou Tzaphqiel) como o arcanjo regente de Saturno. Cassiel é descrito como um anjo austero, ligado à temperança e à solidão, que observa os assuntos do mundo sem neles intervir demasiado. Por seu lado, Agrippa atribui a Saturno a inteligência benéfica Agiel e o génio (espírito) adverso Zazel, derivados de nomes hebraicos e associados ao número 45, total místico do quadrado mágico de Saturno. Zazel é considerado, em alguns grimórios, um demónio de Saturno, portador de influências funestas (maldições, obstáculos), enquanto Agiel seria a entidade a invocar para trabalhos saturnianos construtivos (conhecimento das coisas ocultas, disciplina interior).

Um dos génios planetários de Saturno mais marcantes é Aratron, apresentado no Arbatel como o “governador olímpico” de Saturno. Aratron comanda 49 províncias do cosmos e deve ser invocado ao sábado, à primeira hora do dia (hora de Saturno). Segundo o Arbatel, Aratron preside a tudo o que, astrologicamente, é atribuído a Saturno: «Pode transformar instantaneamente qualquer ser vivo em pedra; transformar carvão em tesouro e vice-versa; dá espíritos familiares e reconcilia os espíritos subterrâneos com os homens; ensina alquimia, magia e medicina». Pode também tornar invisível, fazer com que pessoas estéreis tenham filhos e «concede uma vida longa» ao mago que obtém a sua colaboração. Aratron surge, assim, como um poderoso génio da transmutação e do conhecimento oculto – reflexo das qualidades saturnianas de transformação lenta, riqueza escondida sob a terra (metais, tesouros) e domínio do tempo.

Historicamente, as invocações de Saturno eram consideradas difíceis e perigosas, devido à natureza fria, seca e restritiva deste planeta. Os rituais aconselhavam a agir num contexto astrológico favorável (Saturno numa boa posição); caso contrário, o génio poderia manifestar o seu lado maléfico. Na magia talismânica, um talismã de Saturno gravado em chumbo sob bons auspícios servia para assegurar proteção e poder – mas, sob influências nefastas, as mesmas inscrições poderiam, pelo contrário, provocar ruína, discórdia e atrasos. Um texto de Agripa indica, de facto, que, fabricado quando Saturno está “desafortunado”, um talismã saturniano «impede as construções, faz perder honras e dignidades, causa discórdias e discussões». Por prudência, os praticantes procuravam, assim, invocar o Saturno “elevado” (o arcanjo ou a inteligência benéfica) para obter o favor de pessoas importantes, estabilidade e profundidade de espírito, protegendo-se simultaneamente do Saturno “obscuro” (o demónio Ialdabaoth ou Zazel), que traz tristeza e obstáculos. Esta dualidade ilustra bem a rica simbologia de Saturno: simultaneamente mestre do saber secreto e das riquezas ocultas, e portador de provações e lições severas.

Júpiter, o rei celestial e os seus benefícios

Júpiter, o mais brilhante dos planetas depois de Vénus, foi tradicionalmente associado à benevolência, à realeza e à prosperidade. Para os Gregos e Romanos, correspondia a Zeus/Júpiter, pai dos deuses, garante da ordem cósmica, da justiça e da abundância. Na astrologia antiga, Júpiter é o “Grande Benéfico”, que traz expansão e fortuna. Os esoteristas viram, portanto, no seu génio uma força tutelar positiva, quase angelical.

Na hierarquia celestial judaico-cristã, o arcanjo de Júpiter é chamado Sachiel (ou Zadkiel). O seu nome significa “Justiça de Deus” ou “Graça de Deus”, e figura em grimórios como o Heptameron (século XVI) entre os anjos governadores de quinta-feira, dia de Júpiter. Sachiel/Zadkiel está associado à misericórdia, à generosidade e à riqueza espiritual, qualidades que refletem a influência joviana. Na Cabala, Júpiter corresponde à sefira de Hessed (a Graça), e Zadkiel é o anjo da benevolência divina, presidindo à clemência e à prosperidade.

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Representação do Génio de Júpiter segundo Agrippa. Artista

Os ocultistas do Renascimento referem igualmente uma inteligência de Júpiter chamada Johphiel (ou Jophiel) e um espírito inferior Hismael, com base nos quadrados mágicos de Agrippa. Agrippa indica que o número total associado a Júpiter é 136 e que «Yohphiel, Inteligência de Júpiter» e «Hismael, Génio de Júpiter» dele derivam numericamente. Estes nomes de origem hebraica (contendo o sufixo -el, “de Deus”) mostram que Júpiter estava integrado numa cosmologia angélica: Yohphiel representava o poder luminoso e benéfico do planeta, e Hismael a sua energia mais material, que era necessário dominar.

No âmbito da magia planetária, o génio olímpico atribuído a Júpiter é Bethor. O Arbatel descreve Bethor como o espírito joviano pronto a responder aos pedidos: «Os assuntos de Júpiter são administrados por Bethor, que responde rapidamente quando é chamado». Quem agir sob o seu carácter (o seu selo) «poderá ser elevado a dignidades ilustres e obter vastos tesouros». Bethor «reconcilia os Espíritos do Ar com os homens, de modo que estes lhes deem respostas verdadeiras», transporta pedras preciosas para onde são necessárias e prepara remédios com efeitos miraculosos. Pode conceder familiares (espíritos servidores) vindos do firmamento e prolongar a vida humana até aos 700 anos, se Deus o permitir. A enciclopédia oculta especifica que Bethor, anjo jovial, pode ser invocado à quinta-feira, na primeira hora de Júpiter, e que governa 42 províncias celestes.

Historicamente, as práticas dirigidas a Júpiter procuravam captar as suas influências benéficas de crescimento e sorte. Confeccionavam-se talismãs de Júpiter gravando o seu selo e os seus números numa placa de prata, numa quinta-feira em que Júpiter fosse astrologicamente “digno” (em bom aspecto e posição). Agripa afirma que tal talismã, «com Júpiter poderoso e reinante», «traz ganho, riqueza, favor e amor, paz e concórdia, e apazigua os inimigos». Do mesmo modo, podia fazer-se uma oração de invocação do anjo de Júpiter para obter a benevolência de um príncipe ou o sucesso de uma empresa. Os textos incluem também utilizações defensivas: usar um talismã de Júpiter gravado em coral quebra os encantamentos maléficos. O planeta da justiça servia para dissolver feitiços e injustiças.

O génio Júpiter inspirou muitas lendas ocultistas. Contava-se que o mago medieval Alberto Magno tinha criado uma cabeça oracular de bronze graças às influências conjugadas de Júpiter e Mercúrio — embora esta história possa pertencer ao domínio do mito. Mais concretamente, Marsílio Ficino, no século XV, recomendava cantar hinos em honra de Júpiter (como o Hino órfico a Zeus) à quinta-feira, para atrair para a alma do praticante os seus dons de sabedoria, optimismo e boa fortuna. Assim, desde a Antiguidade tardia até ao Renascimento, o génio joviano foi sempre invocado como uma força de graça e expansão, garante do equilíbrio e da prosperidade, tanto no reino material como no espiritual.

Marte, o guerreiro celeste e o Génio da força

Astrologicamente, Marte é o planeta da ação, da guerra e da paixão ardente. Identificado com o deus romano da guerra (Ares entre os Gregos), representa a energia combativa, a ira, mas também a coragem e a força de vontade. Na cosmologia esotérica, Marte é considerado uma influência mais ambivalente: necessária para vencer e proteger-se, mas potencialmente destrutiva se for mal controlada. O seu génio planetário reflete esta natureza impetuosa.

Na tradição angélica, o arcanjo associado a Marte é por vezes chamado Samaël ou Camaël. Samaël, cujo nome significa “veneno de Deus”, surge em algumas fontes judaicas como o anjo que governa a esfera de Marte. Os sabeus de Harran (seita astral da Antiguidade Tardia) chamavam-lhe Mara Samîa, e esta ideia chegou aos grimórios medievais. Contudo, Samaël é uma figura ambígua: simultaneamente anjo do julgamento e acusador celestial, frequentemente associado a um demónio na literatura rabínica. Na magia cristã, prefere-se por vezes Camaël (“Aquele que vê Deus”), arcanjo guerreiro à frente das potências, para encarnar o princípio marcial positivo. Seja como for, Marte está ligado à sefira de Guevurá (o Rigor) na Cabala, domínio da força e da severidade divinas.

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Representação do Génio de Marte segundo Agrippa. Artista

Nas listas de Agrippa, Marte tem como inteligência Graphiel e como génio (espírito) Barzabel. Barzabel (ou Barzakhiel, noutros manuscritos) é visto como um espírito temível, por vezes classificado entre os demónios. O seu nome transmite uma sonoridade áspera, evocando o ferro e a guerra, em consonância com a natureza marciana. Os manuais de magia recomendavam abordá-lo com cautela durante as conjurações marciais, pois podia tanto conceder a vitória como provocar a discórdia.

O governador olímpico de Marte chama-se Phaleg, segundo o Arbatel. Phaleg é apresentado de forma mais sóbria do que os outros espíritos: «Phaleg governa aquilo que é atribuído a Marte. A pessoa que possuir o seu carácter (selo) será elevada por ele a grandes honras nos assuntos militares». Por outras palavras, Phaleg confere sucesso e prestígio ao guerreiro — era invocado para vencer batalhas e duelos, obter coragem ou progredir na hierarquia militar. Os textos especificam que Phaleg rege 35 províncias do cosmos e deve ser invocado numa terça-feira (dia de Marte), à hora marciana, usando o seu selo de comando. A sua assistência era procurada não só por soldados, mas também por todos aqueles que precisavam de afirmar o seu poder ou de ultrapassar obstáculos com autoridade.

Os talismãs e as operações de Marte destinavam-se a fins ofensivos ou protetores. Um talismã marciano gravado em ferro ou aço, elaborado quando Marte estava favorável, tinha a reputação de tornar «o homem poderoso na guerra e temível para os seus inimigos, vitorioso sobre eles». Em contrapartida, se esse mesmo talismã fosse realizado sob um Marte mal aspectado, Agripa advertia que ele «provoca disputas, inimizades e ódio entre os homens e os animais, afugenta as abelhas, dispersa os pombos, impede o bom funcionamento dos moinhos, causa esterilidade e terror». Vê-se, assim, que manipular a energia de Marte podia facilmente transformar-se em malefícios se não se tivesse cuidado.

Um caso célebre de utilização do génio de Marte é relatado por algumas crónicas medievais: durante um cerco, um mago teria tentado invocar o espírito de Marte para provocar o pânico e a discórdia entre os sitiantes – uma espécie de “guerra psicológica” oculta. De forma mais positiva, atribuía-se às influências marcianas a capacidade de curar certas doenças relacionadas com o sangue ou de estancar hemorragias (sendo Marte regente do ferro e do sangue, dizia-se que um talismã gravado numa pedra de cornalina podia «estancar o sangue e os fluxos menstruais»). Além disso, para proteção pessoal, os cavaleiros levavam por vezes consigo inscrições do anjo de Marte ou recitavam o salmo de terça-feira, na esperança de canalizar a coragem guerreira sem a crueldade.

Assim, o génio planetário de Marte encarna a força bruta e a vontade combativa. Quer seja chamado Phaleg num contexto teúrgico ou Barzabel num contexto goético, representa a energia do ferro que o mago deve forjar com prudência. Nas mãos certas (as de um mago moral e preparado), o poder de Marte traz a vitória justa e a proteção ativa; nas mãos erradas, desencadeia violência e destruição descontroladas. É por isso que os rituais insistem na necessidade do autocontrolo e da legitimidade da causa quando se invoca o formidável génio do planeta vermelho.

O Sol, luz do mundo e Génio do esplendor

Astro do dia, centro do sistema tradicional dos planetas, o Sol foi sempre considerado a fonte da vida, da luz e da iluminação espiritual. Na Antiguidade tardia, os filósofos hermetistas viam em Hélios o símbolo do Nous (o Intelecto divino) que ilumina a alma. O imperador Juliano, no seu Hino a Hélios Rei, celebrava o Sol como o demiurgo benéfico e o coração do universo. Do mesmo modo, na Cabala, o Sol corresponde à sefirá Tiphereth, no centro da Árvore da Vida, associada à beleza, à harmonia e à mediação entre o céu e a terra.

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Representação do Génio do Sol segundo Agrippa. Artista

O génio planetário solar está, portanto, aureolado de um prestígio particular. Na tradição judaico-cristã, é associado a Mikhaël (São Miguel Arcanjo), apresentado como o mais elevado dos arcanjos e vencedor das forças tenebrosas. Miguel é frequentemente relacionado com o Sol e com o fogo solar por analogia: chefe dos exércitos celestes, brilha com a luz divina e combate as trevas, tal como o sol dissipa a escuridão. Muitos grimórios (como a Chave de Salomão ou o Magus de Barrett) apresentam Miguel como o anjo de domingo, portador da omnipotência do Sol. Outras fontes associam o arcanjo Rafael ao Sol (nomeadamente na associação cabalística entre planetas e sephiroth, onde Rafael governa Tiphereth) e Miguel a Mercúrio — existiam algumas variações conforme as escolas esotéricas. De qualquer modo, o Sol está geralmente sob a égide de um arcanjo de primeira ordem, que se supõe conceder iluminação, saúde e glória.

Nos tratados de magia, encontramos ainda uma divisão entre inteligência/espírito para o Sol: Agrippa atribui ao Sol a inteligência Nachiel (ou Nikhiel) e o génio inferior Sorath. Este último nome, Sorath, intrigou mais de um comentador, pois os seus valores numéricos perfazem 666 — o famoso «número da Besta» do Apocalipse. Na realidade, trata-se do número total do quadrado mágico solar (6×6 casas, cuja soma é 666), de onde este nome é retirado. Sorath representa o espírito ardente do Sol, potencialmente corrosivo ou destrutivo se não for controlado, enquanto Nachiel encarna a inteligência solar benéfica, que concede vitalidade e sucesso. Esta dualidade recorda-nos que o Sol pode tanto queimar como iluminar.

O génio olímpico do Sol, segundo o Arbatel, chama-se Och. Och é descrito como um espírito extremamente poderoso, senhor das riquezas e das curas: «Os interesses solares são administrados por Och, que prolonga a vida até seiscentos anos com perfeita saúde. Confere grande sabedoria, dá excelentes espíritos familiares, prepara remédios perfeitos, converte qualquer substância no metal mais puro ou em pedras preciosas; concede também ouro e uma bolsa sempre cheia de ouro… Faz com que o detentor do seu carácter seja adorado como um deus pelos reis de todo o mundo». Como se vê, Och reúne poderes miraculosos: prolongamento da vida, transmutação alquímica em ouro, cura completa, riqueza inesgotável e até uma glória quase divina. De todos os génios planetários, Och é sem dúvida aquele cuja lista de faculdades é mais impressionante, o que reflecte bem o estatuto central do Sol. O Arbatel especifica, aliás, que Och deve ser invocado ao domingo, à hora do Sol, como seria natural, e que responderá favoravelmente aos pedidos enquanto estes permanecerem de acordo com a vontade de Deus.

Historicamente, a invocação das influências solares era valorizada para tudo o que diz respeito à vitalidade, ao êxito social e à elevação espiritual. Marsílio Ficino aconselhava os seus discípulos melancólicos a voltarem-se para o Sol: através da música, do canto de hinos solares e da exposição à luz, era possível equilibrar o humor e atrair o influxo vivificante de Sol. Os operadores confeccionavam talismãs do Sol em ouro (o metal solar por excelência) ou gravavam símbolos solares em cornalina ou rubi, para favorecer a cura das doenças e obter honras e alegria. Um talismã solar concebido astrologicamente de forma “digna” deveria «tornar o homem amado pelos reis e pelo povo, e assegurar-lhe a vitória em todas as coisas», tal é a associação da aura solar ao triunfo e à magnanimidade.

O Sol também desempenhava um papel central nas teurgias: sacerdotes-magos recitavam o Hino a Hélio ou utilizavam espelhos para captar um raio de sol durante certas cerimónias, símbolo da iluminação divina que descia sobre o círculo mágico. Considerava-se que o génio do Sol podia revelar os maiores mistérios – por exemplo, o esoterista neoplatónico Jâmblico evoca uma «visão do deus Hélios» concedida ao mago em estado de êxtase, isto é, uma comunhão com a inteligência solar. Num registo mais terreno, os médicos-astrólogos da Idade Média escolhiam a hora do Sol para administrar certos remédios (relacionados com o coração, a visão ou o ouro potável), a fim de beneficiarem da sua virtude curativa.

Vénus, a senhora do amor e o seu Génio da graça

Símbolo universal da beleza, do amor e da fertilidade, Vénus inspirou cultos e práticas mágicas desde a aurora das civilizações. Identificada com a deusa grega Afrodite ou com a Ishtar babilónica, Vénus é a Estrela da Manhã que preside tanto às atrações terrestres como às harmonias celestes. O seu génio planetário está, portanto, associado ao poder de atração, à graça e às artes.

Na hierarquia angélica e cabalística, o arcanjo que governa Vénus é geralmente Haniel (ou Anaël). Haniel significa “Graça de Deus” — um nome apropriado para o anjo da sefirá Netzach (a Vitória), que corresponde a Vénus e encarna o amor divino, a beleza e a vitória das forças da vida. É representado como um anjo radiante que traz alegria, sedução e criatividade artística. A literatura ocultista classifica-o entre os sete arcanjos planetários, regente da sexta-feira e dispensador das influências venusianas benéficas. No Sigillum Dei caro a John Dee, o nome de Anaël surge em correspondência com Vénus. Alguns grimórios de magia astrológica, seguindo a influência do Sefer Raziel, mencionam também um anjo chamado Hagiel ou Anael para Vénus, ao lado de um espírito menos benevolente, Kedemel (ou Kedemel) — estes nomes figuram nomeadamente nas tabelas de correspondências de Agrippa. Com efeito, Agrippa indica para Vénus uma inteligência chamada Hagiel e um génio do “mal” chamado Kedemel, associados ao número 175 do quadrado de Vénus.

Os génios planetários entre a história, a invocação e os usos

Representação do Génio de Vénus segundo Agrippa. Artista

O génio olímpico de Vénus, segundo o Arbatel, chama-se Hagith. Hagith é descrito como o soberano das “coisas venusianas” (tudo o que diz respeito a Vénus). Quem usar o carácter (selo) de Hagith «será adornado com toda a beleza». Hagith tem o poder de «converter instantaneamente o cobre em ouro e o ouro em cobre» e «concede servos fiéis» para assistir o mago. Estas atribuições refletem bem a alquimia subtil de Vénus: a beleza (o cobre, metal de Vénus, pode transformar-se em ouro, símbolo da perfeição solar, e vice-versa — assim, Vénus medeia entre o material e o espiritual), a graça que envolve a pessoa amada e a lealdade no amor ou na amizade (os “servos fiéis” também podem ser entendidos como a fidelidade dos companheiros). O Arbatel esclarece que Hagith governa 21 províncias celestes e que pode ser invocado a uma sexta-feira, à hora de Vénus, para beneficiar dos seus dons.

A magia amorosa e artística ao longo da história reivindicou abundantemente a influência de Vénus. As receitas de filtros de amor, os rituais para atrair um parceiro ou reacender o afecto de um cônjuge recorriam ao astro da noite. O Picatrix dá instruções para esculpir a imagem de um homem e de uma mulher abraçados numa sexta-feira, sob uma conjunção favorável de Vénus, queimando perfumes suaves (sândalo, rosa) para invocar o espírito venusiano que “une os corações”. Do mesmo modo, aconselhava-se a trazer consigo cobre gravado com os signos de Vénus (pois o seu número 7 e o seu selo eram frequentemente gravados nele), a fim de aumentar o seu encanto e popularidade.

Um uso notável, relatado em textos medievais, é a invocação do anjo Anael à sexta-feira, antes do nascer do Sol, para consagrar espelhos mágicos destinados ao amor. Recitavam-se orações para que Anael conferisse ao espelho o poder de reflectir a imagem da alma gémea ou de reconciliar amantes separados. Os diários de astrólogos do Renascimento mostram também que Vénus era invocada para favorecer a fertilidade: para ajudar um casal a conceber um filho, calculava-se um talismã de Vénus numa folha de figueira que, colocado sob o leito nupcial, deveria insuflar a harmonia e a fertilidade do génio venusiano.

É evidente que os espíritos venusianos também podiam ser desviados para fins menos nobres – há registos de tentativas de feitiços de luxúria ou de sedução forçada através da invocação dos demónios de Vénus. A tradição faz, aliás, de Asmodeu (Asmodai) um demónio da luxúria outrora associado a Vénus por algumas classificações. Contudo, nas fontes sérias que privilegiamos, a ênfase é colocada na Vénus celeste positiva, protectora do amor sincero e da arte inspirada. Paracelso considerava a influência venusiana essencial na medicina espagírica para preparar remédios que actuassem sobre os órgãos renais e reprodutores. Falava do “fogo de Vénus” como um calor vital moderado e reparador, por oposição ao “fogo de Marte”, mais violento.

O génio planetário de Vénus, seja sob o nome de Hagith, Haniel ou Anael, encarna a força de atração que liga o Universo. A sua invocação tradicional visava aumentar a beleza, o amor e a concórdia. Os antigos diziam que Vénus “suaviza os costumes” — de facto, num ritual bem conduzido, o mago devia rodear-se de música, cânticos e perfumes suaves, criar um ambiente harmonioso e repleto de alegria para convidar o génio venusiano. Pois é através da alegria, da graça e da pura intenção afectuosa que se toca o coração deste poderoso espírito do amor cósmico.

Mercúrio, o mensageiro alado e o Génio do conhecimento

Mercúrio, planeta rápido e esquivo, sempre esteve associado ao princípio do movimento, da troca e da inteligência. É Hermes para os Gregos, Tot para os Egípcios — o mensageiro dos deuses, mestre das palavras, das estradas e das ciências ocultas. O génio planetário de Mercúrio está assim ligado ao conhecimento, à comunicação e também, por vezes, à astúcia ou até à ambiguidade (Mercúrio pode ser enganador).

Na tradição cabalística e angélica ocidental, Mercúrio está sob a égide de Rafael, arcanjo da Medicina e da Ciência. Rafael, cujo nome significa “Deus cura”, é um dos sete arcanjos e é associado à regência da quarta-feira e do planeta Mercúrio em muitos grimórios de magia planetária. Outras listas atribuem Mercúrio a Miguel (era o caso em algumas correspondências do Liber Juratus), o que pode causar confusão — mas a maioria dos ocultistas do Renascimento seguia o esquema: Rafael para Mercúrio, Miguel para o Sol. Seja como for, o espírito mercurial é visto como fundamentalmente luminoso e aéreo, portador do intelecto. Na Cabala, Mercúrio corresponde à sefira Hod (a Glória), domínio da razão, da linguagem e da magia ritual — Rafael ou Miguel são os seus anjos guardiões, consoante as fontes.

Os génios planetários entre a história, a invocação e os usos

Representação do Génio de Mercúrio segundo Agrippa. Artista

Agrippa, fielmente, dota Mercúrio de uma inteligência chamada Tiriel e de um génio inferior chamado Taphthartharat. Este último nome, com as suas sonoridades repetitivas, era considerado difícil de pronunciar – alguns viam nele um recurso mnemónico para traçar o sigilo do génio no quadrado de Mercúrio (8x8 casas, soma 2080). Taphthartharat é descrito como um espírito instável, à imagem do mercúrio (o metal) que muda constantemente de forma. Pelo contrário, Tiriel representa a estabilidade da inteligência mercurial, capaz de extrair ordem do caos. Mais uma vez, encontramos a ideia de um duplo aspeto: Mercúrio pode iluminar o espírito (intuição súbita, eureka!) ou induzi-lo em erro através de ilusões (trapaça, sofisma), pelo que o mago deve dirigir-se antes a Tiriel/ao arcanjo Rafael para obter resultados construtivos, mantendo-se simultaneamente cauteloso perante o trapaceiro cósmico que é Taphthartharat.

O génio olímpico de Mercúrio chama-se Ophiel no Arbatel. Ophiel é apresentado como o mestre das coisas mercuriais, distribuindo conhecimento e talentos. O Arbatel indica: «Ophiel é o governador daquilo que é atribuído a Mercúrio; oferece espíritos familiares, ensina todas as artes e permite àquele que possui o seu carácter transformar instantaneamente o mercúrio em pedra filosofal». Esta passagem é rica em significado: Ophiel concede facilmente familiares (espíritos servidores aptos a ajudar em trabalhos intelectuais ou mágicos), ensina todas as artes (conferindo, portanto, inspiração e conhecimento técnico, seja em astrologia, eloquência ou matemática) e detém o segredo da transmutação última – o Mercúrio vulgar (mercúrio) pode ser fixado em pedra filosofal. Esta última faculdade coloca Ophiel no centro da alquimia espiritual: para os alquimistas, Mercúrio é, com efeito, o princípio volátil a transmutar. Ophiel, invocado numa quarta-feira à hora de Mercúrio, podia, segundo a lenda, revelar a receita da pedra filosofal ou, pelo menos, guiar o alquimista no seu caminho.

As invocações de Mercúrio ao longo da história serviram propósitos variados: adquirir eloquência (por exemplo, os oradores romanos prestavam culto a Mercúrio para falar bem no fórum), destacar-se nas ciências (muitos estudiosos do Renascimento – Gérard Dorn, Tycho Brahe – usavam talismãs de Mercúrio para estimular o intelecto) ou ainda viajar em segurança (sendo Mercúrio o patrono dos viajantes e comerciantes, acreditava-se que o seu selo protegia durante as viagens). Um talismã mercurial tradicional era feito gravando um símbolo de Mercúrio numa esmeralda ou numa ágata, e supostamente proporcionava memória viva e humor vivaz a quem o usasse. Os manuais recomendam também utilizar incenso de mástique ou de lavanda para as fumigações mercuriais, pois estas fragrâncias estimulam o espírito sem o excitarem em excesso.

Um exemplo notável é o do Dr. John Dee, ocultista isabelino, que menciona nos seus cadernos ter invocado repetidamente os “Anjos de Mercúrio” para compreender melhor a estrutura do universo. Dee trabalhava para decifrar a linguagem angélica e pensava que Mercúrio — o planeta do intelecto — detinha a chave do Verbo sagrado. Nas suas sessões de scrying (visão mágica) com Edward Kelley, esperava obter de Uriel ou Rafael (associados a Mercúrio) as letras do Enochian. Vemos, portanto, Mercúrio como o planeta da própria magia cerimonial: é através do seu génio que os rituais se organizam (sendo Hod a esfera da magia ritual na árvore cabalística).

É, contudo, importante notar que Mercúrio também era invocado para truques mais mundanos: os salteadores rezavam por vezes a Mercúrio (como deus romano dos ladrões) para que lhes concedesse sorte e astúcia! Textos de magia defensiva sugerem invocar Mercúrio para confundir um mentiroso ou frustrar um contrato injusto, refletindo o aspeto “trapaceiro” do planeta. No entanto, na literatura esotérica séria, Mercúrio continua a ser, acima de tudo, o génio do Logos, isto é, da inteligência ordenadora do mundo. É ele que liga permanentemente o domínio celeste e o domínio terrestre através do fio da razão e da linguagem. Invocar Mercúrio é procurar compreender, traduzir o invisível em visível — uma demanda cara a magos e filósofos de todos os tempos.

A Lua, guardiã dos sonhos e Génio dos fluxos misteriosos

A Lua, único satélite da Terra, ocupa um lugar singular na cosmologia esotérica: encontra-se na fronteira entre o céu e o mundo sublunar, mediando as influências dos astros para o nosso mundo. Mutável e refletindo a luz do Sol, está desde sempre associada ao mundo dos sonhos, da imaginação, das águas e dos ciclos biológicos (sobretudo femininos). O génio planetário lunar está, portanto, ligado à magia das ilusões, das revelações noturnas e do crescimento natural.

Na hierarquia angélica clássica, o arcanjo da Lua é Gabriel, o Mensageiro de Deus, anunciador e guia das almas. Gabriel governa a segunda-feira e a esfera da Lua no Heptameron e noutros grimórios; é invocado para tudo o que diz respeito às mensagens, à fertilidade e à proteção das viagens noturnas. A Cabala associa a Lua à sefirá Yesod (o Fundamento), reservatório das forças astrais, e Gabriel reina aí como provedor das influências cósmicas para a Terra. Sendo Gabriel o anjo da Anunciação, isto está de acordo com a ideia de que a Lua transmite os “anúncios” do cosmos (os influxos astrais) ao mundo sublunar.

Os génios planetários entre a história, a invocação e os usos

Representação do Génio da Lua segundo Agrippa. Artista

Agrippa atribui à Lua uma multiplicidade de nomes complexos, provenientes da tradição hebraica. Menciona um génio chamado Hasmodai para a Lua — que não é senão uma transliteração de Asmodeu, demónio bem conhecido, aqui considerado um espírito lunar maléfico (talvez porque a Lua governa as fantasias e a luxúria, de que Asmodeu é o demónio). Em contraste, o conjunto de anjos lunares benfazejos é chamado Malcha betharsithim hed beruah schehakim em algumas versões, o que significa, em essência, “Rei dos astros e dos céus” — um título pomposo para a inteligência da Lua. Estes nomes raros realçam a riqueza da tradição lunar, onde se misturam anjos, demónios e espíritos da natureza.

O génio olímpico da Lua, no Arbatel, chama-se Phul. Phul é apresentado como o governador das “coisas lunares” e amigo da transformação. O texto diz sobre Phul: «ele transforma todos os metais em prata através da palavra e do ato; governa as coisas lunares, cura a hidropisia e fornece espíritos das águas (Ondinas) que servem o homem sob uma forma corpórea e visível; além disso, faz [l’homme] viver 300 anos». Assim, Phul tem o poder da transmutação (em prata, o metal da Lua), da cura das doenças relacionadas com a água (a hidropisia, excesso de líquidos) e comanda os espíritos elementais da água (as Ondinas ou espíritos das fontes), tornando-os visíveis e úteis ao operador. Por fim, pode prolongar a vida, embora menos do que os génios superiores (300 anos contra 600 de Och). O Arbatel aconselha a invocá-lo à segunda-feira, o que é perfeitamente natural, e elogia a relativa simplicidade da sua invocação para quem respeita os rituais. Phul é, portanto, um génio ligado à magia da água e da Lua, que toca os mistérios da fluidez, da cura através dos fluidos e da aparição dos espíritos.

Na prática mágica histórica, a Lua era muito solicitada para a adivinhação e as viagens espirituais. A Onomancia (adivinhação através dos sonhos) recomendava rezar à Lua e a Gabriel antes de dormir, para obter sonhos premonitórios claros. Do mesmo modo, os “espelhos mágicos” ou bacias de água para a catoptromancia (adivinhação através de espelhos) eram tradicionalmente preparados na hora da Lua, para que o génio lunar aí fizesse cintilar visões. Um relato medieval conta que um mago do rei Henrique III de Inglaterra teria, numa noite de Lua cheia, evocado o anjo Gabriel numa bacia de prata para mostrar ao rei a imagem da futura rainha — procedimento sem dúvida lendário, mas que ilustra a crença no poder visionário do génio lunar.

A Lua era igualmente crucial para a magia agrícola: os camponeses planeavam as sementeiras e as colheitas em função dela, e certos rituais para favorecer o crescimento das plantas invocavam a “dama Lua” para regar os campos com o seu orvalho benéfico. Um pequeno grimório agrícola do século XV aconselha, por exemplo, pendurar no pomar, na Lua Nova, um talismã de chumbo marcado com o signo lunar, murmurando uma oração a Phul, para afastar os insetos nocivos e assegurar uma colheita abundante.

Não esqueçamos o aspeto mais oculto: como a Lua governava os espíritos mutáveis, era invocada para metamorfoses e encantamentos. As bruxas das lendas invocam a Lua para se transformarem (daí o mito do lobisomem associado às luas cheias). Na magia ritual erudita, encontram-se receitas para se tornar invisível utilizando a força ilusória da Lua — o Livro de Honório propõe um encantamento a executar numa noite de segunda-feira, queimando cânfora e sal (substâncias lunares), para que “os olhos dos homens te vejam como transparente”. Aqui, o génio da Lua é convocado para mergulhar os outros na ilusão.

Contudo, alertava-se para os enganos lunares: a Lua reflete e distorce, é instável. Os operadores tinham de purificar as suas intenções, pois um trabalho mágico mal enquadrado numa fase lunar desfavorável podia provocar loucura, alucinações ou erros de julgamento. É por isso que a Lua é simultaneamente a fonte das visões proféticas e das quimeras. Os alquimistas veneravam-na como Diana-Trívia, guardiã dos segredos, mas sabiam que os seus enigmas nem sempre eram fáceis de decifrar.

O génio planetário da Lua, seja chamado Phul, Gabriel ou por outro nome, é o guardião dos mistérios nocturnos e dos fluidos vitais. Governa o fluxo e o refluxo das marés, tanto quanto os humores da alma. A sua invocação visava tradicionalmente aumentar a intuição, a fecundidade e a protecção oculta. No limiar do mundo material (sendo a Lua a última esfera antes da Terra no sistema ptolomaico), estabelece a ligação entre o cosmos e o nosso domínio: é simultaneamente o factor de transmissão (daí o seu papel na astronomia astrológica) e uma entidade mágica autónoma que concede ao mago um vislumbre dos arcanos ocultos. Assim termina o percurso dos génios planetários clássicos — com a Lua abre-se a porta do nosso mundo sublunar e fecham-se as do céu.


Através destas explorações sucessivas, de Saturno à Lua, desenha-se uma visão de conjunto: a de um cosmos vivo, povoado por inteligências e génios mediadores que ligam o ser humano ao divino. Os génios planetários fazem parte integrante do pensamento mágico e astrológico pré-moderno. Embora o nosso olhar moderno se alimente agora da ciência e da observação astronómica, continua a ser difícil não se deixar tocar pela ideia de que cada planeta possa albergar um espírito benévolo ou terrível, capaz de influenciar o nosso destino.


Fontes:

  • Ireneu de Lyon, Contra as heresias, livro I, testemunhos sobre a doutrina dos gnósticos ofitas e os seus arcontes.

  • Hipólito de Roma, Refutação de todas as heresias, livro VI, descrição dos sistemas gnósticos e das potências planetárias.

  • Heptameron (século XVI), tratado de magia ritual atribuído a Pedro de Abano, sobre as correspondências angélicas dos dias e dos planetas.

  • De occulta philosophia, de Cornelius Agrippa (1531), livros I e II, sobre as inteligências e os espíritos dos planetas, bem como os usos talismânicos.

  • Arbatel de magia veterum (1575), apresentação dos espíritos olímpicos e das suas atribuições.

  • Picatrix (tradução latina do século XI do árabe Ghâyat al-Hakîm), para as receitas astrológicas e as fumigações planetárias.

  • Sefer Raziel (século XIII), obra cabalística sobre os nomes angélicos dos planetas.

  • Marsílio Ficino, De vita libri tres (1489), nomeadamente o livro III sobre as influências planetárias e os seus hinos.

  • Artista Dexter Brightman, pelas representações dos Génios planetários
  • Estudos académicos modernos sobre a história da astrologia e do esoterismo, nomeadamente:

    • Wouter J. Hanegraaff, Esotericism and the Academy, Cambridge University Press, 2012.

    • David Pingree, trabalhos sobre o Picatrix e a transmissão greco-árabe dos textos astrológicos.

    • Antoine Faivre, Accès à l’ésotérisme occidental, Gallimard, 1996.

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