Helena Petrovna Blavatsky (1831-1891) é uma figura maior do ocultismo do século XIX, conhecida por ter cofundado a Sociedade Teosófica em 1875 e lançado o movimento da teosofia moderna, hoje mais conhecido pelo termo New Age. Nascida no Império Russo e naturalizada norte-americana, dedicou a vida à procura da sabedoria esotérica e à divulgação de ideias espirituais inovadoras no Ocidente. Filósofa, escritora, esoterista e aventureira em diferentes momentos, Helena Blavatsky percorreu o mundo ao encontro de tradições.
Juventude e formação
Helena Petrovna von Hahn nasce a 31 de julho de 1831 (12 de agosto no calendário gregoriano), em Ekaterinoslav, no sul do Império Russo (atualmente Dnipro, na Ucrânia). O seu pai, o coronel Peter von Hahn, descendia de uma família nobre germano-báltica ao serviço do czar, e a sua mãe, Helena Andréyevna de Fadeyev, era uma romancista oriunda da aristocracia russa. Helena cresceu num ambiente culto e poliglota: falava russo, alemão, francês e inglês desde a adolescência, graças às suas preceptoras e às viagens em família. Criança imaginativa e determinada, apaixonou-se muito cedo pelos mistérios. Aos 11 anos, após a morte da mãe, foi criada pelo avô materno, um governador erudito cuja biblioteca estava repleta de obras esotéricas. Reza a lenda que a jovem Helena descobriu aí tratados de maçonaria e ocultismo que despertaram nela um interesse insaciável por estes temas. Era então descrita como uma criança sonhadora, por vezes sonâmbula, mas dotada de uma personalidade forte e de uma curiosidade invulgar pelo sobrenatural.
Aos 17 anos, Helena celebra um casamento de conveniência com Nikifor V. Blavatsky, um oficial de quarenta anos, governador da província de Erivan (Arménia). Este casamento, não consumado, parece ter sido contraído por impulso, para lhe oferecer independência em relação à família. Muito rapidamente, a jovem escapa a esta união sufocante: segundo o seu próprio relato, teria fugido dos seus acompanhantes durante a viagem e chegado sozinha a Constantinopla, marcando assim o início de uma vida excecional de itinerância. Nesse mesmo ano, 1849, mal saída da adolescência, Helena Blavatsky inicia mais de 20 anos de viagens pelo mundo, provavelmente financiadas pelo pai. É o ponto de partida de uma existência aventureira, na qual o mito por vezes se mistura com a realidade, como alguns biógrafos observariam mais tarde.
Viagens iniciáticas pelo mundo
A partir do final da década de 1840, Helena Blavatsky percorre regiões longínquas em busca de conhecimentos ocultos. Entre 1848 e 1858, durante uma primeira grande série de viagens, visita sucessivamente os Balcãs, o Médio Oriente, a Ásia Central, a Índia e, depois, as Américas. Encontramo-la em Constantinopla, no Egito — onde estuda com um mago copta chamado Paulos Metamon — e depois em Paris e Londres, antes de atravessar o Atlântico. Nos Estados Unidos, explora o Quebeque, Nova Iorque, a Luisiana (onde se inicia no vodu em Nova Orleães) e o México, seguindo depois para as Honduras e os Andes. Movida por uma busca espiritual universal, procura por toda a parte detentores de conhecimentos ocultos. Afirma ter encontrado pelo caminho feiticeiros mongóis, xamãs siberianos, lamas tibetanos, iogues hindus e médiuns espíritas tanto no Oriente como no Ocidente — personagens «espiritualmente notáveis» que a influenciaram profundamente. Para ela, estes encontros constituem uma verdadeira formação iniciática fora dos circuitos habituais.
Em 1851, durante uma estadia em Londres, ocorre um episódio fundamental: Helena conta ter-se cruzado com um misterioso «hindu» que tinha visto em visões desde a infância. Este homem, mais tarde identificado como o Mestre Morya, seria um adepto pertencente a uma fraternidade secreta de sábios orientais. Segundo Blavatsky, este «Mestre da Sabedoria» tê-la-ia incentivado a deslocar-se ao Tibete para aprofundar os seus conhecimentos esotéricos. Começa então uma parte lendária da sua biografia: afirma ter conseguido finalmente entrar no Tibete por volta de 1855, passando pela Caxemira, e ter aí passado vários anos a aperfeiçoar a sua iniciação junto dos seus mestres espirituais, nomeadamente Morya e um segundo adepto chamado Koot Hoomi>. Contudo, não existe qualquer prova documental que ateste essas estadias prolongadas no Tibete, e os historiadores assinalam incoerências no relato de Helena sobre esses anos. Seja como for, a convicção de ser guiada por «Mahatmas» (grandes sábios) invisíveis torna-se para ela uma força motriz: Helena Blavatsky afirmará, ao longo de toda a vida, comunicar telepaticamente com esses « Mestres da Fraternidade Branca ».
Durante as décadas de 1860 e 1870, a senhora Blavatsky prosseguiu as suas viagens. Foi sucessivamente dada como estando em Itália, onde alegadamente combateu ao lado de Garibaldi na batalha de Mentana, em 1867 (teria sido ferida por cinco vezes), depois na Grécia, na Síria, entre os drusos do monte Líbano, e novamente na Índia. Conta ter chegado uma segunda vez ao Tibete por volta de 1868, onde reencontrou o seu Mestre Koot Hoomi na região de Ladakh. Embora a realidade destes feitos continue a ser debatida, eles ilustram a personagem romanesca que era a senhora Blavatsky, sempre em movimento. Em 1871, escapou por pouco a um naufrágio no mar Egeu, depois fundou brevemente uma sociedade espírita no Cairo — uma experiência fracassada, mas na qual colaborou com uma certa Emma Cutting (a futura senhora Coulomb, que mais tarde desempenharia um papel nas controvérsias que lhe diziam respeito). Depois de passar por Odessa e Paris, Blavatsky embarcou finalmente rumo ao Novo Mundo.
Fundação da Sociedade Teosófica
Em 1873, Helena Blavatsky instala-se em Nova Iorque. Este foi o ponto de viragem decisivo da sua vida pública. Nessa época, os Estados Unidos viviam a plena popularidade do espiritismo: as mesas girantes e os médiuns fascinavam o público. Blavatsky, por sua vez, sentia-se intrigada pelos fenómenos paranormais, mas mostrava-se crítica em relação à interpretação simplista que deles faziam os espíritas. Acreditava que essas manifestações ocultavam leis naturais secretas, e não as almas dos defuntos. Em outubro de 1874, no Vermont, conheceu uma figura que se tornaria o seu principal aliado: o coronel Henry Steel Olcott. Olcott, veterano da Guerra Civil Americana e advogado, também se interessava por fenómenos inexplicados. Com ele e com o advogado irlandês William Q. Judge, concebeu o projeto de uma organização dedicada ao estudo da sabedoria esotérica. Assim, a 17 de novembro de 1875, nasceu em Nova Iorque a Theosophical Society (Sociedade Teosófica), com Olcott como presidente e Judge como secretário-geral. Helena Blavatsky foi a sua carismática cofundadora e principal inspiradora.

Henry Steel Olcott. Fonte
Que objetivos persegue a Sociedade Teosófica? Os seus fundadores atribuem-lhe três objetivos claros, enunciados da seguinte forma: (1) formar um núcleo de fraternidade universal da humanidade, sem distinção de raça, crença, sexo, casta ou cor; (2) incentivar o estudo comparado das religiões, das filosofias e das ciências; (3) explorar as leis inexplicadas da natureza e os poderes latentes no ser humano. Estes princípios inovadores para a época procuram reconciliar a ciência, a religião e a sabedoria antiga numa mesma abordagem espiritual. Blavatsky descreve, aliás, a teosofia como “a síntese da ciência, da religião e da filosofia”, apresentando-a como o ressurgimento de uma « Sabedoria antiga » subjacente a todas as religiões do mundo. O contexto intelectual é favorável: o Ocidente abre-se às ideias orientais e questiona os limites do positivismo materialista. A Sociedade Teosófica canaliza este entusiasmo ao propor uma fraternidade espiritual universal para «aqueles que desejam elevar-se espiritualmente e descobrir o princípio universal, raiz comum a todas as religiões».
Desde os seus primórdios em Nova Iorque, a Sociedade Teosófica atrai a atenção. Helena Blavatsky, com o seu temperamento forte e os seus relatos de viagens, torna-se uma figura de destaque. Em 1877, publica a sua primeira grande obra, Isis Unveiled (Ísis Revelada), que expõe a sua visão do mundo e da teosofia emergente (voltaremos a este tema). No ano seguinte, em 1878, obtém a cidadania americana e — sinal do seu compromisso espiritual com o Oriente — embarca novamente para a Índia com Olcott.
De Nova Iorque à Índia, a ascensão da teosofia
A chegada de Blavatsky e Olcott à Índia, em 1879, marca o início de uma nova fase de expansão. Instalados inicialmente em Bombaim, fundam, em outubro de 1879, a revista The Theosophist, que servirá de tribuna às ideias teosóficas. Blavatsky afirma aí a existência de uma sabedoria divina eterna, comum ao Oriente e ao Ocidente, retomando, nomeadamente, as tradições hinduístas e budistas. A Sociedade Teosófica alia-se durante algum tempo ao movimento reformador Arya Samaj, do swami Dayananda Sarasvati, partilhando ambos o ideal de um renascimento espiritual da Índia. Em 1880, durante uma viagem ao Ceilão (Sri Lanka), Blavatsky e Olcott convertem-se formalmente ao budismo ao assumirem o pancha sila (compromisso de seguir os cinco preceitos budistas). Este gesto — tornando-se provavelmente os primeiros ocidentais a abraçar o budismo na era moderna — ilustra a sua vontade de valorizar as sabedorias orientais e de as dar a conhecer ao mundo.

Sede parisiense da Sociedade Teosófica. Fonte
Em 1882, a Sociedade Teosófica estabeleceu a sua sede em Adyar, perto de Madras (Chennai), na Índia. Adyar torna-se um importante centro do movimento teosófico, acolhendo investigadores de todo o mundo. Blavatsky incentiva aí o estudo dos textos sagrados hindus e budistas, promovendo simultaneamente o ideal de fraternidade universal para além das divisões religiosas ou coloniais. Sob o seu impulso, a Sociedade Teosófica participa inclusivamente nos primeiros sinais do nacionalismo indiano: defende o orgulho da espiritualidade indiana face ao colonialismo, o que mais tarde inspirará algumas figuras da independência (como veremos com Gandhi). Em poucos anos, o movimento teosófico conhece uma expansão considerável: em 1885, nada menos que 121 lojas teosóficas são fundadas em todo o mundo, mais de uma centena das quais apenas na Índia, na Birmânia e no Ceilão. A teosofia tornou-se uma verdadeira «Internacional do esoterismo».
No entanto, este sucesso é acompanhado por desafios e controvérsias internas. Helena Blavatsky suscita tanto entusiasmo como ceticismo. Dentro da própria Sociedade, alguns começam a duvidar da autenticidade dos seus famosos fenómenos paranormais. Em 1883, um médium espírita chamado Henry Kiddle acusa uma das Cartas dos Mestres (ensinamentos supostamente transmitidos pelos mestres invisíveis) de ser um plágio de um artigo que ele próprio tinha publicado. No mesmo ano, dois antigos discípulos de Adyar – Emma e Alexis Coulomb – voltam-se contra Blavatsky, acusando-a de ter fabricado falsos milagres (aparições de cartas, materializações de objetos,…) através de artifícios materiais. Estas revelações provocam um escândalo quando são publicadas em 1884 num jornal de Madras. Blavatsky, doente e exausta, deixa a Índia em 1885 para fugir ao ambiente deletério e regressa à Europa.
Últimos anos em Londres e obras-primas
Estabelecida em Londres a partir de 1887, Helena Blavatsky, apesar da saúde debilitada, continua ativa. Funda aí a Blavatsky Lodge, um círculo de estudo teosófico, e lança uma nova revista intitulada Lucifer (o « portador da luz»). É durante estes últimos anos que conclui a sua obra-prima, A Doutrina Secreta. Esta obra monumental, publicada em dois volumes em 1888, sintetiza o essencial da sua filosofia teosófica. Blavatsky afirma querer « reconciliar as sabedorias orientais e a ciência moderna». Propõe uma ambiciosa cosmologia esotérica baseada num misterioso texto-fonte: o Livro de Dzyan, que afirma ter traduzido de uma língua secreta (o « senzar»). A Doutrina Secreta aborda a origem do universo e da humanidade através do conceito das sete « raças-raiz» sucessivas que povoam vários continentes míticos (como a Atlântida, a Lemúria,...). Blavatsky desenvolve aí a ideia de uma evolução espiritual da humanidade ao longo de milhões de anos, entrelaçando referências ao simbolismo religioso, à cabala e às filosofias orientais. A obra suscita fascínio e controvérsia desde a sua publicação: alguns estudiosos da época, como o orientalista Max Müller, apontam erros e inverosimilhanças nas suas fontes, enquanto outros saúdam a audácia desta síntese esotérica.
Paralelamente, Blavatsky redige obras mais acessíveis para apresentar a teosofia ao grande público. Em 1889, publica A Chave da Teosofia, um livro pedagógico de perguntas e respostas que explica as noções fundamentais da sua doutrina. No mesmo ano é publicada A Voz do Silêncio, uma breve coletânea de aforismos místicos e preceitos éticos inspirados, segundo ela, em textos budistas secretos. Ainda em 1888-1889, sentindo o fim aproximar-se, H. P. Blavatsky cria no seio da Sociedade uma Secção Esotérica reservada aos membros avançados, a fim de lhes transmitir oralmente os ensinamentos mais ocultos.
Helena Blavatsky falece finalmente em Londres, a 8 de maio de 1891, na sequência de uma epidemia de gripe, aos 59 anos. O seu funeral dá lugar a uma cremação no Woking Crematorium, uma prática rara na época e adequada à sua filosofia marcada pelo Oriente. Os seus discípulos comemoram todos os anos o dia 8 de maio como o Dia do Lótus Branco, uma homenagem simbólica àquela que se via como um lótus espiritual desabrochado no Ocidente.
As grandes obras de Blavatsky e o seu alcance
A contribuição da Sra. Blavatsky para a literatura esotérica é considerável. Os seus escritos – que combinam erudição, espiritualidade e polémica – moldaram a teosofia e influenciaram o pensamento esotérico moderno. Eis as suas principais obras, com o respetivo conteúdo e impacto:
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Ísis Revelada (Isis Unveiled, 1877) – Primeiro grande livro de Blavatsky, publicado em Nova Iorque em dois volumes. Esta obra prolífica apresenta-se como uma «chave dos mistérios da ciência e da teologia antigas e modernas». Blavatsky critica vigorosamente o materialismo científico e os dogmas religiosos da sua época, afirmando a existência de uma sabedoria oculta imemorial, superior tanto às doutrinas da Igreja como às teorias científicas positivistas. Ísis Revelada explora temas variados (magnetismo, fenómenos psíquicos, símbolos egípcios, filosofias orientais,…) para demonstrar que por detrás de todas as religiões e ciências existe uma verdade espiritual universal. O livro alcança um sucesso imediato – esgotando-se poucos meses após o seu lançamento – e suscita reações contrastantes. A imprensa nova-iorquina saúda Ísis Revelada como «uma das produções mais notáveis do século», enquanto alguns cientistas apontam os seus erros factuais. Seja como for, esta obra impõe Blavatsky como uma voz original, erudita e audaciosa da espiritualidade alternativa.
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A Doutrina Secreta (The Secret Doctrine, 1888) – Considerado a obra-prima de Blavatsky, este livro volumoso (mais de 1200 páginas em dois tomos) foi redigido em Ostende e Londres entre 1885 e 1888. A Doutrina Secreta pretende revelar os ensinamentos esotéricos que outrora constituíram a «religião primordial» da humanidade. O tomo I (Cosmogénese) aborda o nascimento do universo, comentando estâncias misteriosas atribuídas ao Livro de Dzyan – um texto tibetano desconhecido dos orientalistas, o que levará alguns a afirmar que se trata de uma pura invenção de Blavatsky. O tomo II (Antropogénese) reconstitui a origem e a evolução das humanidades sucessivas (as famosas raças-raiz), desde continentes perdidos até à humanidade actual. Blavatsky desenvolve aí conceitos fundamentais da teosofia: ciclos cósmicos, karma e reencarnação, estrutura setenária do ser humano, etc. A obra impressiona pela amplitude das suas referências (Vedas, Zohar cabalístico, filosofia grega, ciência contemporânea), colocadas ao serviço de uma visão unificada. Contudo, os críticos acusariam a autora de plágio e de compilação pouco criteriosa: já em 1892, o erudito William E. Coleman afirmava que a erudição de Blavatsky assentava em grande medida em obras ocultistas de segunda mão, copiadas sem atribuição. Chegou mesmo a defender que as Estâncias de Dzyan seriam um tecido de passagens retiradas de diversos autores do século XIX, habilmente apresentadas como um antigo texto tibetano. Embora estas acusações lancem dúvidas, outros especialistas defenderiam Blavatsky: assim, o historiador da mística Gershom Scholem considera que as estâncias de Dzyan revelam sobretudo uma filiação na tradição do Zohar (texto cabalístico do século XIII), prova de que Blavatsky se insere numa linhagem esotérica, em vez de representar uma simples fraude. Apesar destas polémicas (ou por causa delas), A Doutrina Secreta continua a ser um clássico da literatura esotérica – uma obra densa e difícil, mas que marcou profundamente os esoteristas do século XX pela riqueza das suas ideias.
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A Chave da Teosofia (The Key to Theosophy, 1889) – Redigado sob a forma de um diálogo de perguntas e respostas, este livro breve procura explicar de forma pedagógica os princípios básicos da teosofia. Blavatsky aborda de forma estruturada noções como a constituição do ser humano (corpo físico, alma, espírito e vários «princípios» subtis), a lei do karma, o ciclo das reencarnações e a existência dos Mahatmas. A autora responde também às críticas e aos mal-entendidos sobre a Sociedade Teosófica. A Chave da Teosofia pretende ser um guia acessível para os novos estudantes, desprovido do aparato erudito de Ísis ou da Doutrina. O seu estilo claro faz dela ainda hoje uma introdução de referência ao pensamento blavatskiano.
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A Voz do silêncio (The Voice of the Silence, 1889) – Muito diferente dos anteriores, este pequeno livro é uma coletânea de máximas espirituais e conselhos místicos, apresentada como excertos traduzidos de um livro sagrado oriental («Os Preceitos de ouro»). Blavatsky aborda o percurso interior do adepto rumo à iluminação, insistindo na compaixão, na autodisciplina e na união com o Absoluto. O texto é poético, por vezes enigmático, e reflete a influência do budismo mahayana e da mística hindu. A Voz do silêncio teve grande repercussão nos meios esotéricos: personalidades como o Dalai Lama terão reconhecido o valor espiritual destes preceitos, e o poeta T. S. Eliot inspirou-se profundamente neles.
A estes títulos juntam-se outros escritos, nomeadamente centenas de artigos publicados em The Theosophist ou Lucifer, um romance iniciático inacabado (Na terra das montanhas azuis), relatos de viagem (Nas cavernas e selvas do Hindustão, publicados na imprensa russa), bem como uma vasta correspondência, cujas cartas foram em parte reunidas e comentadas após a sua morte. O conjunto das suas Obras completas ocupa nada menos do que 15 volumes em inglês, testemunhando a prolífica atividade literária de Helena Blavatsky ao longo de pouco mais de duas décadas.
As ideias centrais da teosofia segundo Blavatsky
O pensamento teosófico desenvolvido por Helena Blavatsky caracteriza-se por um sincretismo ambicioso e por algumas ideias-chave recorrentes. Eis os principais temas e conceitos presentes nos seus ensinamentos:
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Fraternidade universal da humanidade: este é o ideal ético supremo da Sociedade Teosófica. Blavatsky defende que todos os seres humanos são espiritualmente irmãos, para além das raças, nações e crenças. Esta fraternidade universal, fundada na unidade da vida, deve concretizar-se através da tolerância e da compaixão, condições prévias de qualquer progresso espiritual coletivo.
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Sabedoria antiga e unidade das religiões: Blavatsky afirma que uma tradição primordial – a Teosofia eterna – está na base de todas as religiões do mundo. Por detrás dos dogmas e dos ritos, existiria uma verdade espiritual comum, transmitida ao longo dos tempos por iniciados. Esta perspetiva conduz à prática de um estudo comparado das religiões, filosofias e ciências, a fim de identificar os princípios universais que partilham. Neste sentido, Blavatsky é herdeira da corrente esoterista perennialista (filosofia eterna) e antecipa o atual diálogo inter-religioso sobre as convergências espirituais.
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Existência dos Mestres da Sabedoria: um elemento distintivo (e controverso) da teosofia de Blavatsky é o lugar que nela ocupam os « Mahatmas» ou Mestres. Segundo ela, uma fraternidade de seres altamente evoluídos – que vivem no Oriente, nomeadamente nos Himalaias – orienta a humanidade, preservando a sabedoria sagrada. Blavatsky apresenta dois desses adeptos, os Mestres Morya e Koot Hoomi, como seus instrutores pessoais, que entravam em contacto com ela através de visões, cartas materializadas ou projeções astrais. Estes Mestres não são figuras divinas, mas homens que atingiram um grau espiritual superior, personificando o potencial latente em cada ser. A ideia de uma hierarquia de guias invisíveis que zelam pela humanidade cativou o imaginário esotérico e perdura em muitas correntes da Nova Era (sob o nome de «Mestres Ascensionados»).
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Evolução espiritual, karma e reencarnação: opondo-se ao materialismo darwiniano, Blavatsky propõe uma visão espiritual da evolução. A humanidade progride através de ciclos cósmicos, nascendo, atingindo um apogeu e depois declinando para dar lugar a uma nova humanidade (ciclo das raças-raiz). Cada alma, por sua vez, evolui através do mecanismo do karma (lei da causa e efeito éticos) e de sucessivas reencarnações. Note-se que Blavatsky, inicialmente, dava mais ênfase à transmigração de princípios espirituais do que à reencarnação individual clássica; contudo, sob a influência do hinduísmo e do budismo, a Sociedade Teosófica adotaria plenamente o conceito do renascimento da alma em novos corpos. O objetivo final é a perfeição da alma através da experiência, até à emancipação do ciclo dos renascimentos (conceito próximo do moksha hindu ou do nirvana budista).
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Setenato cósmico e constituição do ser humano: Blavatsky ensina que tudo no universo está estruturado em sete níveis ou princípios. Retoma a antiga ideia dos sete planos da existência (físico, astral, mental,...) e afirma que o próprio ser humano é composto por sete princípios, que vão do corpo material ao espírito divino, passando pela alma ou pela mente. Esta conceção setenária, clarificada pelos seus colaboradores, como A. P. Sinnett e Subba Row, visa descrever as múltiplas dimensões da existência, desde a matéria mais densa até ao espírito mais subtil. Introduz também a noção de poderes latentes: o ser humano possuiria faculdades psíquicas adormecidas (telepatia, clarividência,...) que uma vida pura e uma disciplina esotérica poderiam despertar.
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Ciência esotérica e crítica do materialismo: um fio condutor da obra de Blavatsky é a tentativa de reconciliar ciência e espiritualidade. Considera que a ciência ocidental, ao ignorar a dimensão espiritual, não consegue compreender profundamente a natureza. Inversamente, as religiões dogmáticas carecem de racionalidade. A teosofia pretende ser uma «ciência do espírito» tão rigorosa como a ciência natural, mas alargada aos planos invisíveis. Blavatsky antecipa, por exemplo, noções como a relatividade do tempo, a energia universal e a multidimensionalidade do espaço – ideias que, décadas mais tarde, encontrariam eco nas descobertas da física moderna ou nas abordagens holísticas. Para ela, não é o sobrenatural que existe, mas apenas o natural desconhecido: os milagres não passam de fenómenos regidos por leis ocultas que a ciência descobrirá um dia.
De um modo geral, a teosofia da senhora Blavatsky defende uma visão espiritualista, universalista e evolutiva do mundo. Exorta cada pessoa a procurar a verdade através do estudo, da meditação e da intuição, sem se fechar num credo. O seu lema – retirado de um templo de Benares – era, aliás: «Não há religião superior à Verdade». Esta busca da Verdade, para além das fronteiras, resume bem o espírito do seu ensinamento.
Círculo e personalidades influenciadas
Ao longo da sua carreira, Helena Blavatsky conviveu com ou inspirou numerosas personalidades, tanto no círculo teosófico como na sociedade do seu tempo. No seio da Sociedade Teosófica, os seus colaboradores mais próximos foram inicialmente os seus cofundadores: o coronel Henry S. Olcott, companheiro de percurso desde 1874 e presidente incansável da Sociedade até à sua morte, e William Q. Judge, o organizador do movimento nos Estados Unidos. Juntos, este «triunvirato» lançou as bases de uma organização mundial. Outros discípulos distinguiram-se rapidamente: Alfred P. Sinnett, um jornalista britânico na Índia, ficou fascinado pelas teorias dos Mestres e correspondeu-se com eles (através de Blavatsky) – publicou em 1881 O Mundo Oculto e, depois, O Budismo Esotérico, as primeiras obras a divulgar ensinamentos teosóficos no Ocidente. A russa Vera Jelihovsky, irmã de Helena, bem como a condessa Constance Wachtmeister, amiga e assistente, também deixaram testemunhos preciosos sobre a vida quotidiana de Blavatsky.
No final da sua vida, Helena Blavatsky conquistou o apoio de uma mulher destinada a desempenhar um papel central: Annie Besant. Figura do socialismo e do feminismo em Inglaterra, Annie Besant converteu-se à teosofia depois de ler A Doutrina Secreta. Em 1890, visitou Blavatsky em Londres: foi um encontro decisivo que selou uma profunda amizade intelectual. Besant tornou-se discípula e, depois, continuadora de Blavatsky — em 1907, assumiria a liderança da Sociedade Teosófica. A passagem de uma militante materialista convicta (Besant) a uma espiritualista fervorosa ilustra a influência magnética que Blavatsky exercia sobre algumas mentes brilhantes. Outros intelectuais também se sentiram intrigados por aquela a quem chamavam «Madame Blavatsky»: podemos citar o poeta irlandês William Butler Yeats, que conheceu em 1887. Yeats participou durante algum tempo nas reuniões da Blavatsky Lodge e, embora mais tarde se tenha orientado para outras sociedades ocultistas (foi presidente da Ordem Hermética da Aurora Dourada), reconheceu a inspiração que a teosofia nascente lhe proporcionou.
A influência de Blavatsky ultrapassa o círculo esotérico e alcança personalidades do mundo científico e literário da época. Thomas Edison, o inventor americano, bem como os cientistas William Crookes (químico e pioneiro da radiografia) e Alfred Russel Wallace (naturalista co-descobridor da seleção natural), foram membros da Sociedade Teosófica nas décadas de 1870 e 1880. Que uma mente como a de Edison — símbolo do génio tecnológico — se interessasse pela teosofia pode surpreender, mas isso reflecte a curiosidade de alguns cientistas vitorianos pelos fenómenos psíquicos. Estes homens não partilhavam necessariamente todas as convicções de Blavatsky, mas encontravam no seu círculo um espaço de exploração não conformista. Na literatura, sabe-se que o grande poeta inglês Alfred Tennyson lia Blavatsky: quando morreu, em 1892, foi encontrado um exemplar de A Voz do Silêncio pousado na sua mesa de cabeceira. Isto testemunha a audiência inesperada que os escritos de Blavatsky tinham nos meios cultos do final do século XIX.
Num plano mais político ou espiritual, Helena Blavatsky também influenciou futuros líderes. Mohandas K. Gandhi, então jovem estudante de Direito em Londres, tomou contacto com a teosofia em 1889-1890 graças a dois membros da Blavatsky Lodge. Chegou mesmo a ser recebido por Blavatsky pouco antes da morte desta. Os teósofos incentivaram-no a ler a Bhagavad-Gîtâ na sua própria tradição hindu, um texto que até então ignorara. Gandhi testemunharia mais tarde: « A teosofia é o ensinamento da Madame Blavatsky. É o hinduísmo no seu melhor. A teosofia é a Fraternidade do Homem ». Reconheceria que a teosofia o ajudou a compreender melhor o hinduísmo e a construir o seu ideal de fraternidade inter-religiosa. Do mesmo modo, na Índia, Blavatsky conviveu com reformadores como o swami Dayananda Sarasvati (fundador da Arya Samaj) – embora a sua aliança tenha sido de curta duração devido a divergências doutrinais.
Por fim, refira-se que, à margem, algumas personalidades mais controversas do início do século XX puderam reivindicar a influência de Blavatsky: por exemplo, o ocultista Aleister Crowley admirava a sua independência de espírito (embora criticasse a teosofia), e esoteristas alemães como Guido von List ou Lanz von Liebenfels – figuras da ariosofia – foram buscar elementos a A Doutrina Secreta que infelizmente deturparam (ver mais adiante). Mas é evidente que Helena Blavatsky inspirou sobretudo investigadores da verdade, artistas e místicos em busca de uma espiritualidade sem fronteiras.
Controvérsias e críticas
Figura ímpar, Helena Blavatsky não escapou às intensas polémicas durante a sua vida e após a sua morte. A sua obra e a sua pessoa foram alvo de críticas em várias frentes, que importa abordar com objectividade.
Acusações de fraude e investigação da SPR (1884-1885)
Desde a década de 1880, algumas vozes começaram a pôr em causa a autenticidade dos fenómenos paranormais associados a Blavatsky. O caso mais retumbante foi a investigação conduzida em 1884-85 pela Society for Psychical Research de Londres. Enviado para a Índia, o investigador Richard Hodgson examinou as alegações do casal Coulomb e reuniu diversos testemunhos. O seu relatório, publicado no final de 1885, foi devastador: Hodgson concluiu que todas as manifestações extraordinárias de Blavatsky resultavam ou de uma fraude deliberada ou de alucinações dos seus seguidores. Chegou ao ponto de a classificar como « uma das impostoras mais engenhosas e interessantes da História ». O relatório Hodgson acusava também Blavatsky de poder ter servido como espia russa infiltrada entre os britânicos na Índia. Estas conclusões sensacionais fizeram as delícias da imprensa e lançaram o descrédito sobre a teosofia nascente. É importante sublinhar que a Sra. Blavatsky, debilitada, não pôde defender-se pessoalmente destas acusações — tinha deixado a Índia pouco tempo antes.
Só mais de um século depois é que o famoso relatório Hodgson seria revisto. Em 1986 e, depois, em 1997, um membro da SPR, o Dr. Vernon Harrison, especialista em análise documental, reexaminou o caso e publicou um relatório retumbante. Harrison apontou numerosos enviesamentos e erros metodológicos na investigação de 1885, que considerou « defeituosa e indigna de confiança». Entendeu que Hodgson era movido por um preconceito desfavorável e que demonstrara uma manifesta falta de rigor. Harrison concluiu que o relatório de 1885 deveria ser « lido com muita prudência, ou até ignorado» e censurou inclusivamente a SPR da época por ter publicado um documento tão pouco objetivo. Esta reabilitação parcial por parte de um investigador independente veio dar força aos defensores de Blavatsky, que nunca deixaram de afirmar que as provas da sua alegada fraude eram insuficientes ou haviam sido forjadas. De facto, numerosas testemunhas próximas de Blavatsky sempre afirmaram ter observado nela capacidades psi autênticas — como fenómenos de telecinesia (móveis que se elevavam), leitura de pensamentos, aparição de objetos à distância ou ainda a receção enigmática de cartas « precipitadas » pelos Mestres. É difícil separar a realidade do exagero nestes relatos, mas a controvérsia sobre os poders de Blavatsky continua a ser um dos pontos mais disputados da sua lenda.
Acusações de plágio e erudição fictícia
No plano intelectual, Blavatsky também foi criticada pela qualidade e originalidade dos seus escritos. Em 1892, o americano William Emmette Coleman empreendeu a tarefa de demonstrar que A Doutrina Secreta e Ísis sem Véu abundam em passagens retiradas de obras anteriores, por vezes citadas, muitas vezes não. Compilou uma lista de fontes ocultistas e esotéricas nas quais Blavatsky se teria inspirado, como os trabalhos de Eliphas Lévi, do próprio A. P. Sinnett ou de Samuel Dunlap, insinuando que a sua obra não passa de uma colcha de retalhos sem génio. Do mesmo modo, alguns lexicógrafos censuram-lhe ter reproduzido páginas inteiras de dicionários ou enciclopédias no seu Glossário Teosófico (publicado postumamente em 1892). Embora estas críticas não sejam totalmente infundadas — Blavatsky trabalhava efetivamente a partir de uma vasta documentação que digeria à sua maneira —, é possível relativizá-las recordando o mérito de síntese do seu trabalho. Como escreve a investigadora Marie-José Delalande, « Em apenas vinte e cinco anos, [Blavatsky] revê a história do cosmos e do ser humano e propõe a ideia de uma tradição primordial na origem de todas as religiões. […] Estas ideias interessam a diversos meios em França, sendo objeto de análises e discussões ». Por outras palavras, Blavatsky teve o mérito de dar a conhecer no Ocidente a essência das tradições espirituais mais antigas, reunindo-as numa visão coerente. Se existem empréstimos, integrou-os numa perspetiva de conjunto inédita na sua época. Os seus apoiantes salientam também que não tinha acesso às bibliotecas modernas no meio da selva indiana ou tibetana — os seus escritos seriam, portanto, fruto de uma verdadeira memória e de um saber interior, e não de simples cópias e colagens. O debate entre detratores e admiradores sobre este ponto continua ainda hoje nos círculos académicos que se dedicam à história do ocultismo.
Críticas doutrinais e ideológicas
A teosofia de Blavatsky também foi atacada quanto ao conteúdo das suas ideias. O filósofo francês René Guénon, que em 1921 dedicou uma obra à teosofia (Le Théosophisme, histoire d’une pseudo-religion), foi um dos seus adversários mais veementes. Guénon considerava a teosofia moderna um sincretismo decadente, uma caricatura da tradição espiritual. Classificava-a como « um dos erros mais perigosos para a mentalidade contemporânea », acusando-a de banalizar a verdadeira metafísica oriental e de cair num pseudo-espiritualismo sem rigor. Em contrapartida, autores mais recentes, como o historiador Theodore Roszak (figura da contracultura), reavaliaram Blavatsky de forma positiva. Roszak escreveu em 1975 que « H. P. Blavatsky [é] certamente um dos espíritos mais originais e penetrantes do seu tempo », enaltecendo o seu contributo para a filosofia da sua época. Estes juízos contrastantes mostram até que ponto Blavatsky continua a ser uma figura controversa: profetisa iluminada para uns, aventureira delirante para outros.
Acusações de racismo e desvios
Uma vertente delicada das polémicas diz respeito a certas passagens da obra de Blavatsky relativas às «raças-raízes». Em A Doutrina Secreta, ao descrever a evolução das humanidades, Blavatsky utiliza um vocabulário de «raças» e afirma que alguns ramos da humanidade atual seriam espiritualmente menos desenvolvidos. Escreve, por exemplo, que a raça «semítica» (em sentido amplo, abrangendo vários povos) seria «degenerada do ponto de vista espiritual», ou que algumas tribos de África estariam próximas do estádio animal. Estas afirmações, inseridas num contexto esotérico, foram mais tarde exploradas de forma repugnante: esoteristas antissemitas e racistas na Alemanha viram nelas uma justificação «mística» para as suas teorias. Assim, ideólogos ocultistas ligados ao nazismo – como Guido von List ou Lanz von Liebenfels – foram buscar a Blavatsky a ideia de uma raça ariana superior oriunda da Atlântida. Até Dietrich Eckart, mentor de Hitler, tinha A Doutrina Secreta na sua biblioteca e apresentou-a ao futuro Führer. Esta deturpação é, evidentemente, problemática. Vários autores modernos acusaram, por isso, Blavatsky de ter veiculado ideias proto-racistas ou antissemitas que teriam, indiretamente, alimentado o terreno ideológico do nazismo.
Os defensores de Blavatsky contrapõem que estas acusações resultam de uma leitura incorreta da sua obra. Salientam, em primeiro lugar, que a Sra. Blavatsky defendia a fraternidade universal sem distinções e que « abominava a violência » – certamente não teria apoiado as teorias odiosas do século XX. Em seguida, explicam que o conceito de raça-raiz em Blavatsky é esotérico e não biológico: designa grandes eras da humanidade (Lemuriana, Atlante, Ariana,...) e não raças no sentido moderno. Falar de « raça ariana » no seu pensamento remete para a civilização indo-europeia atual, não para uma hierarquia de sangue. O facto de alguns nazis terem deturpado estas ideias para servir a sua ideologia não significa que a própria Blavatsky fosse racista – ela, que integrava no seu círculo indianos, parsis e ocidentais de todas as origens. Ainda assim, o seu vocabulário, marcado pelo contexto do século XIX, pode induzir em erro e choca o leitor atual. Esta controvérsia recorda a necessidade de contextualizar a obra blavatskiana e de distinguir a sua intenção universalista de certas formulações desajeitadas ou ultrapassadas.
Legado no esoterismo e na espiritualidade contemporânea
Mais de 130 anos após a sua morte, Helena Petrovna Blavatsky continua a ser uma referência incontornável na história da espiritualidade moderna. O seu legado observa-se na longevidade da Sociedade Teosófica, nas correntes esotéricas que inspirou e na difusão de algumas das suas ideias na cultura contemporânea.
A Sociedade Teosófica, antes de mais, sobreviveu-lhe e ainda existe hoje. Após a morte de Blavatsky, a organização conheceu cismas (a partir de 1895, o ramo americano separou-se sob a liderança de W. Q. Judge), mas subsistem vários ramos ativos: a sede de Adyar, na Índia, dirigida por Annie Besant depois de Olcott, continua a ser um centro mundial; ao longo do tempo, formaram-se outras sociedades teosóficas autónomas. Embora o número de membros seja modesto (alguns milhares por país), a influência teosófica faz-se sentir pelo seu papel de ponte cultural. A Sociedade traduziu e publicou uma grande quantidade de textos sagrados orientais, abriu lojas de discussão filosófica em todos os continentes e, sobretudo, popularizou no Ocidente conceitos como o carma, o nirvana, o ioga e a aura, muito antes da vaga da «Nova Era».
Blavatsky é chamada a «avó da Nova Era», tal é a influência que exerce sobre os movimentos espirituais do século XX. Logo a partir dos anos 1900, a sua obra inspirou a criação de novas escolas esotéricas. O austríaco Rudolf Steiner, inicialmente secretário da secção alemã da Sociedade Teosófica, fundou em 1913 a Antroposofia, em desacordo com alguns desenvolvimentos teosóficos, nomeadamente a história do «messias» Krishnamurti. A antroposofia de Steiner — conhecida pelas suas escolas Waldorf e pela agricultura biodinâmica — reconhece, contudo, dever muito às ideias de Blavatsky sobre a evolução oculta da humanidade. Do mesmo modo, a corrente da Ariosofia na Europa Central (um esoterismo marcado por temas germânicos), o movimento da Ciência Cristã na América ou ainda certos ramos da maçonaria ocultista foram buscar elementos à teosofia. Em meados do século XX, autores como Alice Bailey (antiga teósofa) propuseram a sua própria continuação dos ensinamentos dos Mestres, dando origem ao que por vezes se designa por neoteosofismo.
Sobretudo, a cultura New Age, surgida na década de 1970, é impensável sem a herança teosófica. Conceitos fundamentais da New Age — os mestres ascensionados que guiam a humanidade, a ideia de uma nova era de Aquário a suceder à era anterior, o entusiasmo pelo karma e pela reencarnação, a fusão das sabedorias do Oriente e do Ocidente — tudo isso já figurava nos escritos de Blavatsky e na prática da sua Sociedade. Historiadores da espiritualidade como Nicholas Goodrick-Clarke ou Wouter Hanegraaff salientam que a Sociedade Teosófica foi «a principal força de divulgação da literatura ocultista no Ocidente no século XX». Abriu literalmente o caminho a uma contracultura espiritual que recorria a todas as tradições do globo para criar uma nova síntese.
No domínio artístico, a influência de Blavatsky também deixou a sua marca. O pintor russo Wassily Kandinsky e o neerlandês Piet Mondrian, pioneiros da arte abstrata, eram leitores de teosofia e procuravam transpor verdades espirituais para a cor e a forma. A pintora sueca Hilma af Klint confessaria que A Doutrina Secreta foi uma fonte de inspiração para as suas telas. Na literatura, para além de Yeats já mencionado, encontram-se ecos teosóficos em escritores como Sir Arthur Conan Doyle (membro da Sociedade na juventude, antes de se voltar para o espiritismo) ou Jack London.
De um ponto de vista mais profundo, pode dizer-se que Blavatsky contribuiu para moldar a religiosidade alternativa das sociedades modernas. Ao defender a experiência individual, a liberdade de pensamento e a busca interior, em vez da fé imposta, antecipou a atual atração pela espiritualidade «fora da religião». Também participou na reabilitação das filosofias asiáticas aos olhos dos ocidentais, desempenhando um papel no que hoje se chama a sincretização global do religioso. Em certos aspetos, Blavatsky surge como uma visionária que pressentiu a necessidade de uma abordagem holística — ligando o ser humano, a natureza e o divino — numa época em que o materialismo triunfante deixava um vazio existencial.



















