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O mundo segundo Cornélius Agrippa
Le monde selon Cornélius Agrippa

Os Cadernos de Aeternum

O mundo segundo Cornélius Agrippa

12 min de leitura

Cornelius Agrippa (1486-1535) é um erudito do Renascimento, médico, filósofo e mago, que dedicou a sua vida a desvendar os segredos do mundo visível e invisível. Na sua obra-prima De Occulta Philosophia (A Filosofia Oculta), publicada em 1533, traça um quadro impressionante do universo, onde cada elemento da natureza está ligado a forças ocultas. Eis as explicações.

A visão de Agrippa

A ambição é tão grandiosa quanto difícil de definir: sintetizar todo o conhecimento oculto do seu tempo num vasto sistema coerente, conciliando a herança antiga, as ciências, a teologia e as artes mágicas. Para Agrippa, o cosmos não é uma mecânica inerte, mas uma rede viva atravessada por influências espirituais, uma grande teia que liga o céu e a terra. Afirma que os anjos, os demónios, as estrelas e os planetas exercem todos a sua influência até ao mundo material, formando uma cadeia contínua do divino ao terrestre. Longe de considerar estes domínios separados, Agrippa concebe três «mundos» interligados – o mundo elementar da natureza visível, o mundo celeste dos astros e o mundo espiritual povoado por anjos e espíritos – que comunicam permanentemente. Cada nível atua sobre o que está abaixo dele, segundo o princípio das correspondências universais. Compreender estas correspondências é ler o grande livro da criação que Deus ofereceu à humanidade. Animado por uma fé profunda na unidade do conhecimento, Agrippa exorta o leitor a entrar neste santuário de conhecimentos ocultos, como se se tratasse de uma verdadeira «filosofia da natureza» que ilumina os mistérios da vida e da alma.

Um universo tecido de ligações invisíveis do céu à terra

Agrippa imagina o universo como um conjunto de forças hierarquizadas que emanam de Deus e descem até às criaturas mais humildes. No topo encontram-se Deus e as inteligências celestes (anjos), intermediárias do divino; abaixo, os astros errantes – planetas e estrelas – difundem as suas influências; por fim, na base, o mundo elementar é regido por estes influxos ocultos. Nada existe em isolamento: cada planta, cada pedra, cada animal e até cada parte do corpo humano traz a marca secreta do astro ou do espírito que o governa. Agrippa explica, com efeito, que as influências celestes “moldam cada ser e cada objeto na terra, conferindo-lhe as suas propriedades, bem como sinais exteriores que as revelam ao olhar experiente do mago”. Para quem sabe decifrar estas «assinaturas» ocultas, toda a natureza se transforma num livro codificado onde se pode ler a marca das estrelas.

Esta visão holística do cosmos apoia-se na tradição hermética, no neoplatonismo e na Cabala cristã, que o mago integra num sistema unificado. De Occulta Philosophia apresenta-se como uma enciclopédia de magia natural e celeste organizada em três livros correspondentes aos três mundos. Agrippa revela nela uma erudição prodigiosa, compilando tanto os conhecimentos antigos (Platão, Aristóteles, Pitágoras) como as receitas dos alquimistas árabes e os ensinamentos esotéricos medievais. Com o fervor de um enciclopedista, cataloga os elementos, as plantas, os minerais, os animais e até as partes da alma humana, especificando para cada um a influência planetária ou espiritual a que está sujeito. Por exemplo, uma determinada erva medicinal será colocada sob a tutela de Vénus pela sua afinidade com o amor, enquanto um metal corresponderá a Marte pela sua rudeza marcial, e assim por diante. A Filosofia Oculta descreve uma natureza encantada, onde cada fenómeno físico tem uma causa oculta. Agrippa insiste em que nada acontece «por acaso»: os acontecimentos terrestres refletem o jogo das forças celestes. Assim, dominar o ocultismo é compreender estes mecanismos subtis. Afirma, portanto, que ninguém poderá tornar-se um verdadeiro mago sem dominar a astronomia e a astrologia, ciências das alturas que revelam o plano do destino. O mundo segundo Agrippa é um todo orgânico onde o visível e o invisível se entrelaçam continuamente, guiados pela Providência divina.

O ser humano, microcosmo entre a terra e o céu

Nesta cosmologia agrippiana, o ser humano ocupa um lugar central. É concebido como um microcosmo, um «pequeno universo» que reflete em si todas as camadas da Criação. O ser humano possui um corpo físico composto pelos elementos terrestres, uma alma governada pelos astros e pelas influências cósmicas, e um espírito imortal ligado ao divino. Assim, encontra-se na interseção entre o material e o espiritual, recebendo os influxos dos céus enquanto aspira a elevar-se até Deus. Para Agrippa, a vocação do homem sábio (do magus) consiste precisamente em servir de elo consciente entre a terra e o céu. Ao estudar as artes ocultas, o mago aprende a harmonizar em si estas três dimensões – corpo, alma e espírito – para agir de acordo com a ordem cósmica.

Agrippa descreve o percurso do mago como uma verdadeira busca de aperfeiçoamento pessoal e espiritual. O praticante de magia deve acumular conhecimentos: precisa de conhecer os movimentos dos astros, as propriedades secretas das plantas e das pedras, os símbolos matemáticos sagrados, mas também de dominar os símbolos religiosos e a língua dos anjos. Este conhecimento teórico não é suficiente – deve ser acompanhado por uma transformação interior. Agrippa salienta que o mago autêntico deve demonstrar grande pureza moral e uma disciplina de vida rigorosa. Escreve que o adepto necessita de ascese e de autodomínio, pois o apogeu da sua arte consiste em comunicar com os espíritos angélicos. Assim, a magia não é uma simples técnica: é um caminho de elevação. Ao decifrar as leis secretas do universo, o ser humano espera aproximar-se da sabedoria divina. Agrippa encara a filosofia oculta como um caminho que conduz «ao conhecimento de Deus, explorando simultaneamente cada ordem dos seres na terra». Esta dupla orientação – ascendente em direção ao divino e descendente nas profundezas do mundo sublunar – dá todo o sentido à vida do mago. Trata-se, para ele, de transformar a sua própria natureza e melhorar o mundo, de acordo com a vontade divina. Em De Occulta Philosophia, Agrippa propõe, aliás, numerosos meios para afastar as influências maléficas e reforçar as influências benéficas que atuam sobre o destino humano. Através da oração, do conhecimento dos segredos naturais e da utilização de símbolos sagrados, o ser humano pode proteger-se do mal e atrair para si o favor das potências celestes. A vida, segundo Agrippa, adquire uma dimensão sagrada: cada gesto quotidiano (tratar-se, semear, viajar…) pode harmonizar-se com os ciclos cósmicos para atrair um resultado feliz. É uma visão em que a fé e a ciência se tornam uma só, com o ser humano a tornar-se cooperador de Deus na administração das maravilhas do mundo.

Astros, anjos e espíritos: o papel do invisível

Para Agrippa, os astros não são simples corpos físicos, mas focos de influências espirituais. Inserido na tradição antiga e medieval, afirma que cada planeta da astrologia (Saturno, Júpiter, Marte, Sol, Vénus, Mercúrio, Lua) é animado por entidades invisíveis. «Para cada planeta, Deus estabeleceu uma Inteligência para o bem e um Espírito para o mal», explica Agrippa. Por outras palavras, um anjo benéfico (chamado Inteligência ou génio na sua linguagem) governa as influências positivas do planeta, enquanto um espírito inferior, mais terrestre, reflete o seu lado negativo. Estas entidades planetárias servem de mediadoras entre o mundo divino e o mundo material. Saturno – astro da sabedoria melancólica – possui, segundo Agrippa, um anjo regente chamado Agiel e um espírito chamado Zazel, ambos ligados à vibração do número 45, que é o total místico do quadrado mágico de Saturno. Do mesmo modo, Júpiter, planeta da benevolência e da expansão, está sob a égide do arcanjo Sachiel e do génio Hismael, cujos nomes cabalísticos correspondem numericamente ao número 136, a soma do quadrado de Júpiter. No sistema de Agrippa, tudo está interligado: os números sagrados, os nomes dos espíritos e os símbolos gráficos ecoam entre si, exprimindo uma mesma realidade em diferentes planos.

Conhecer o nome e o caráter de um anjo planetário permite ao mago invocar a sua influência. Agrippa, tal como os seus predecessores medievais, detalha os rituais para entrar em contacto com estas forças invisíveis. Recomenda proceder no momento astrológico propício: “no dia e à hora do planeta em questão”, com os incensos, as orações e as oferendas apropriados, a fim de atrair a atenção do génio planetário visado. Um trabalho mágico ligado a Marte deverá ser realizado idealmente numa terça-feira (dia de Marte), à hora marciana, queimando uma resina vermelha e acre correspondente a este planeta e recitando orações dirigidas ao seu anjo. Se estas condições forem reunidas, o canal entre o mundo terrestre e o mundo astral abre-se. O mago pode então obter da Inteligência planetária o favor desejado – seja a sabedoria contemplativa de Saturno, a proteção de Marte ou o amor sob a égide de Vénus. Naturalmente, Agrippa alerta: toda a energia cósmica é ambivalente. Se for solicitada de forma inadequada, ou num contexto astrológico desfavorável, a influência de um planeta pode transformar-se em efeitos nocivos. É por isso que o ocultista insiste na necessidade de agir em harmonia com o lado luminoso dos astros (as suas Inteligências angélicas), em vez de com os seus espíritos tenebrosos. O mundo invisível de Agrippa não é maniqueísta, mas polarizado: cabe ao ser humano escolher orientar as suas ações para a luz. Ao respeitar as leis sagradas da astrologia e da teurgia (a arte de invocar as entidades celestes), o mago torna-se colaborador dos anjos. Acede a uma rede de alianças cósmicas: a própria natureza – astros, elementos e espíritos – torna-se então sua aliada.

Pantáculos e selos: a arte de captar as forças ocultas

Agrippa não se limita a descrever teoricamente as influências invisíveis – oferece também os meios práticos para as utilizar. Toda a sua Filosofia Oculta é igualmente um manual de magia operativa. Para manipular as forças subtis, o mago dispõe de um conjunto de ferramentas sagradas que a obra detalha com precisão: talismãs, pentáculos (ou pantáculos), amuletos, figuras, selos, invocações… Estes objetos e sinais, devidamente consagrados, servem de recetores e transmissores das influências ocultas. Agrippa oferece assim aos seus leitores uma multiplicidade de procedimentos para desviar as influências maléficas e reforçar as influências benéficas. Entre os mais impressionantes encontram-se as tabelas planetárias (ou quadrados mágicos). Trata-se de grelhas de números dispostos de forma a que as suas linhas e colunas apresentem sempre a mesma soma – cada planeta tendo o seu quadrado específico. Agrippa dedica um capítulo inteiro do seu livro II a estes sete quadrados planetários herdados da tradição antiga, a que chama as «tabelas sagradas dos planetas», atribuindo-lhes grandes virtudes celestes conformes à harmonia divina dos números. Cada quadrado mágico está associado a um planeta, a um número-chave, a nomes divinos e angélicos, bem como aos selos e caracteres místicos correspondentes. O quadrado de Saturno (3×3) dá a soma 15 em cada linha e coluna, e o seu total 45 encontra-se nos nomes sagrados ligados a Saturno; deste quadrado deriva um símbolo geométrico (chamado caráter de Saturno), bem como dois selos – o da Inteligência Agiel e o do Espírito Zazel – que resumem graficamente o poder saturnino. Do mesmo modo, o quadrado de Júpiter (4×4) possui uma constante mágica de 34 e um total de 136, correspondentes aos nomes do anjo Yophiel e do génio Hismael, e gera um selo próprio de Júpiter formado pela ligação de certos números segundo uma sequência precisa. Estas figuras não são apenas especulação numerológica – Agrippa indica como utilizá-las concretamente como talismãs.

Cada pantáculo ou talismã deve ser fabricado segundo as regras da arte, respeitando as correspondências do planeta visado. O material, o momento da confeção, as inscrições sagradas – tudo é codificado. O mago grava o quadrado mágico num metal associado ao planeta, durante a hora astrológica favorável, e depois consagra o talismã através de orações. Assim, “o quadrado de Júpiter é gravado em estanho (metal atribuído a Júpiter), de preferência numa quinta-feira à hora de Júpiter, quando o planeta está astrologicamente favorecido”. Diz-se que um talismã assim atrai a sorte, a riqueza e o favor divino, proporcionando sucesso, honras, saúde e paz interior a quem o usa. Agrippa relata também que “se imprimirmos o quadrado de Júpiter numa placa de prata no momento em que Júpiter domina o céu, ele proporciona lucro, amor e concórdia; gravado em coral, destrói os encantamentos malignos”. Do mesmo modo, o quadrado de Saturno gravado em chumbo protegerá o seu portador contra malefícios e tristeza – desde que seja executado quando Saturno está bem disposto; caso contrário, o efeito poderá inverter-se em obstáculos e maldições. O pantáculo é, portanto, um condensador de influências: quando bem utilizado, atrai a essência planetária benéfica e repele a influência nefasta.

Para além dos quadrados mágicos, Agrippa descreve uma grande variedade de outros símbolos ocultos. Os selos planetários, obtidos através do traçado de linhas que ligam determinadas letras ou números sagrados, captam o espírito do planeta e servem para marcar os talismãs. Os nomes divinos e angélicos retirados da Cabala são gravados à volta dos talismãs para invocar a proteção celeste. Agrippa apresenta também quadrados de letras que formam palavras místicas, figuras geométricas que exprimem a harmonia cósmica e ainda imagens talismânicas (por exemplo, a representação de um leão para o Sol, de um touro para Vénus, etc.) destinadas a pôr o objeto em ressonância com a força visada. Cada elemento tem a sua importância: a cor da vela utilizada, o incenso queimado, o verbo sagrado pronunciado durante o ritual… Ao combinar estes ingredientes, o mago cria um suporte material onde vêm residir as influências invisíveis. A filosofia de Agrippa assume aqui uma dimensão prática muito concreta: ao preparar cuidadosamente pantáculos e selos, o adepto dota-se de objetos de poder capazes de agir à distância sobre as pessoas e os acontecimentos. A magia, para Agrippa, é uma ciência operativa que permite “mudar o curso das coisas” de acordo com a ordem universal. O mago não é um ilusionista, mas um técnico do sagrado que sabe captar e orientar as correntes ocultas difundidas pela Criação.


O mundo segundo Agrippa apresenta-se assim como um grande templo onde cada coisa, desde as estrelas às pedras, possui um significado e uma influência. Neste templo, o mago oficia como sacerdote da natureza, utilizando as chaves simbólicas legadas pela tradição para abrir as portas do mistério. Esta visão do mundo, em que a natureza fervilha de segredos divinos e o espírito humano pode comungar com os anjos, exerceu uma fascinação duradoura. É certo que, desde a sua época, Agrippa teve de enfrentar céticos e teólogos inquietos, mas a sua Occulta Philosophia tornou-se, ao longo dos séculos, um texto fundador do esoterismo ocidental. Acreditar com Agrippa é aceitar que o visível é apenas uma parte da realidade e que, por detrás do movimento dos planetas ou do crescimento das plantas, atua uma inteligência que deve ser decifrada. É adotar um olhar maravilhado sobre a criação, onde o maravilhoso convive com o quotidiano.

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