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Quem foi Helena Blavatsky, pioneira da teosofia?

Quem foi Helena Blavatsky, pioneira da teosofia?

NO ÍNDICE...

 

Juventude e formação
Viagens iniciáticas pelo mundo
Fundação da Sociedade Teosófica
De Nova Iorque à Índia, o crescimento da teosofia
Últimos anos em Londres e obras principais
As grandes obras de Blavatsky e o seu alcance
As ideias centrais da teosofia segundo Blavatsky
Entorno e personalidades influenciadas
Controvérsias e críticas
Herança no esoterismo e na espiritualidade contemporânea


Helena Petrovna Blavatsky (1831-1891) é uma figura maior do ocultismo do século XIX, conhecida por ter cofundado a Sociedade Teosófica em 1875 e por ter lançado o movimento da teosofia moderna, hoje mais conhecido pelo termo New Age. Nascida no Império Russo e naturalizada americana, dedicou a sua vida à busca da sabedoria esotérica e à difusão de ideias espirituais inovadoras no Ocidente. Sucessivamente filósofa, escritora, esotérica e aventureira, Helena Blavatsky percorreu o mundo em busca de tradições.

Juventude e formação

Helena Petrovna von Hahn nasce a 31 de julho de 1831 (12 de agosto no calendário gregoriano) em Ekaterinoslav, no sul do Império Russo (hoje Dnipro na Ucrânia). O seu pai, o coronel Peter von Hahn, descende de uma família nobre germano-báltica ao serviço do czar, e a sua mãe, Helena Andréyevna de Fadeyev, é uma romancista oriunda da aristocracia russa. Helena cresce num meio culto e poliglota: fala russo, alemão, francês e inglês desde a adolescência graças às suas governantas e às viagens familiares. Criança imaginativa e determinada, apaixona-se muito cedo pelos mistérios. Aos 11 anos, após a morte da mãe, é criada pelo seu avô materno, um governador erudito cuja biblioteca está repleta de obras esotéricas. A lenda diz que a jovem Helena aí descobriu tratados de maçonaria e ocultismo que despertaram nela um interesse insaciável por estes temas. Descrevem-na então como uma criança sonhadora, por vezes sonâmbula, mas dotada de uma forte personalidade e de uma curiosidade pouco comum pelo sobrenatural.

Aos 17 anos, Helena realiza um casamento de conveniência com Nikifor V. Blavatsky, um oficial de quarenta anos, governador da província de Erivan (Arménia). Este casamento, não consumado, parece ter sido feito de forma impulsiva para lhe oferecer independência em relação à sua família. Muito rapidamente, a jovem foge desta união sufocante: segundo as suas próprias palavras, terá escapado aos seus acompanhantes durante o percurso e juntou-se a Constantinopla sozinha, marcando assim o início de uma vida de itinerância excecional. Nesse mesmo ano de 1849, mal saindo da adolescência, Helena Blavatsky inicia mais de 20 anos de viagens pelo mundo, provavelmente financiadas pelo seu pai. É o ponto de partida de uma existência aventureira onde o mito se mistura por vezes com a realidade, como mais tarde notarão alguns biógrafos.

Viagens iniciáticas pelo mundo

Desde o final dos anos 1840, Helena Blavatsky percorre terras distantes em busca de saberes ocultos. Entre 1848 e 1858, durante uma primeira grande série de viagens, visita sucessivamente os Balcãs, o Médio Oriente, a Ásia Central, a Índia, e depois as Américas. Encontra-se em Constantinopla, no Egito – onde estuda com um mago copta chamado Paulos Metamon – depois em Paris e Londres, antes de atravessar o Atlântico. Nos Estados Unidos, explora o Quebec, Nova Iorque, a Louisiana (onde se inicia no vaudou em Nova Orleães) e o México, depois Honduras e os Andes. Movida por uma busca espiritual universal, procura em todo o lado detentores de saberes ocultos. Afirma ter encontrado no seu caminho feiticeiros mongóis, xamãs siberianos, lamas do Tibete, iogues hindus, médiuns espíritas tanto no Oriente como no Ocidente – tantas personagens «espiritualmente notáveis» que a influenciaram profundamente. Esses encontros constituem para ela uma verdadeira formação iniciática fora dos caminhos habituais.

Em 1851, durante uma estadia em Londres, ocorre um episódio chave: Helena conta ter cruzado o caminho de um misterioso «hindú» que ela via em visão desde a infância. Esse homem, identificado mais tarde como o Mestre Morya, seria um adepto pertencente a uma fraternidade secreta de sábios orientais. Segundo Blavatsky, esse «Mestre da Sabedoria» teria encorajado-a a ir ao Tibete para aprofundar seus conhecimentos esotéricos. Começa então uma parte lendária de sua biografia: ela afirma ter finalmente conseguido entrar no Tibete por volta de 1855, passando pelo Caxemira, e ter passado vários anos lá aperfeiçoando sua iniciação junto aos seus mestres espirituais, nomeadamente Morya e um segundo adepto chamado Koot Hoomi>. No entanto, não há provas documentais que atestem essas estadias prolongadas no Tibete, e os historiadores notam incoerências no relato de Helena sobre esses anos. Seja como for, a convicção de ser guiada por «Mahatmas» (grandes sábios) invisíveis torna-se para ela um motor: Helena Blavatsky afirmará durante toda a sua vida comunicar por via telepática com esses « Mestres da Fraternidade Branca ».

Nas décadas de 1860-1870, a Sra. Blavatsky continua as suas viagens. É reportada sucessivamente em Itália, onde afirma ter combatido ao lado de Garibaldi na batalha de Mentana em 1867 (teria sido ferida cinco vezes), depois na Grécia, na Síria entre os drusos do Monte Líbano, e novamente na Índia. Ela conta ter chegado uma segunda vez ao Tibete por volta de 1868, onde reencontrou o seu Mestre Koot Hoomi na região do Ladakh. Embora a realidade dessas façanhas seja debatida, ilustram a personagem romanesca que é a Sra. Blavatsky, sempre em movimento. Em 1871, ela escapa por pouco a um naufrágio no mar Egeu, depois funda brevemente uma sociedade espírita no Cairo – experiência abortada, mas onde colaborou com uma certa Emma Cutting (futura Sra. Coulomb, que mais tarde desempenharia um papel nas controvérsias que a envolvem). Após uma passagem por Odessa e Paris, Blavatsky embarca finalmente para o Novo Mundo.

Fundação da Sociedade Teosófica

Em 1873, Helena Blavatsky instala-se em Nova Iorque. É o momento decisivo da sua vida pública. Naquela época, os Estados Unidos estavam em plena moda do espiritismo: as mesas giratórias e médiuns fascinavam o público. Blavatsky, por sua vez, estava intrigada pelos fenómenos paranormais, mas mostrava-se crítica em relação à interpretação simplista que os espíritas lhes davam. Ela pensava que essas manifestações escondiam leis naturais ocultas em vez das almas dos falecidos. Em outubro de 1874, no Vermont, ela conhece uma pessoa que se tornaria seu principal aliado: o coronel Henry Steel Olcott. Olcott, veterano da Guerra Civil e advogado, também se interessava pelos fenómenos inexplicáveis. Com ele, e o advogado irlandês William Q. Judge, ela formou o projeto de uma organização dedicada ao estudo da sabedoria esotérica. A 17 de novembro de 1875, em Nova Iorque, nasce assim a Theosophical Society (Sociedade Teosófica) com Olcott como presidente e Judge como secretário-geral. Helena Blavatsky é a cofundadora carismática e a principal inspiradora.

Quem foi Helena Blavatsky, pioneira da teosofia?

Henry Steel Olcott. Fonte

Quais os objetivos da Sociedade Teosófica? Os seus fundadores definiram três metas claras, enunciadas assim: (1) formar um núcleo de fraternidade universal da humanidade, sem distinção de raça, crença, sexo, casta ou cor; (2) incentivar o estudo comparado das religiões, filosofias e ciências; (3) explorar as leis inexplicadas da natureza e os poderes latentes no homem. Estes princípios inovadores para a época visavam reconciliar ciência, religião e sabedoria antiga numa mesma abordagem espiritual. Blavatsky descreve aliás a teosofia como “a síntese da ciência, da religião e da filosofia”, apresentando-se como o ressurgimento de uma «Sabedoria antiga» que sustenta todas as religiões do mundo. O contexto intelectual é favorável: o Ocidente abre-se às ideias orientais e questiona os limites do positivismo materialista. A Sociedade Teosófica veio canalizar este entusiasmo propondo uma fraternidade espiritual universal para «aqueles que desejam elevar-se espiritualmente e descobrir o princípio universal, raiz comum a todas as religiões».

Desde os seus primórdios em Nova Iorque, a Sociedade Teosófica atrai a atenção. Helena Blavatsky, com o seu forte temperamento e relatos de viagens, torna-se uma figura de destaque. Em 1877, publica a sua primeira grande obra, Isis Unveiled (Isis revelada), que expõe a sua visão do mundo e da teosofia nascente (voltaremos a este tema). No ano seguinte, em 1878, obtém a cidadania americana e – sinal do seu compromisso espiritual no Oriente – embarca com Olcott para a Índia, mais uma vez.

De Nova Iorque à Índia, o crescimento da teosofia

A chegada de Blavatsky e Olcott à Índia em 1879 marca o início de uma nova fase de expansão. Instalados primeiro em Bombaim, fundam em outubro de 1879 a revista The Theosophist, que servirá de tribuna para as ideias teosóficas. Blavatsky afirma aí a existência de uma sabedoria divina eterna comum ao Oriente e ao Ocidente, retomando especialmente as tradições hindus e budistas. A Sociedade Teosófica alia-se por algum tempo ao movimento reformista Arya Samaj do swami Dayananda Sarasvati, ambos partilhando o ideal de um renascimento espiritual da Índia. Em 1880, durante uma viagem a Ceilão (Sri Lanka), Blavatsky e Olcott convertem-se formalmente ao budismo ao tomar o pancha sila (compromisso de seguir os cinco preceitos budistas). Este gesto – provavelmente tornando-os os primeiros Ocidentais a abraçar o budismo na época moderna – ilustra a sua vontade de valorizar as sabedorias orientais e de as dar a conhecer ao mundo.

Quem foi Helena Blavatsky, pioneira da teosofia?

Sede parisiense da Sociedade Teosófica. Fonte

Em 1882, a Sociedade Teosófica estabelece o seu quartier général em Adyar, perto de Madras (Chennai) na Índia. Adyar torna-se um local importante do movimento teosófico, acolhendo investigadores de todo o mundo. Blavatsky incentiva o estudo dos textos sagrados hindus e budistas, promovendo ao mesmo tempo o ideal de fraternidade universal para além das divisões religiosas ou coloniais. Sob a sua influência, a Sociedade Teosófica participa mesmo nos primeiros movimentos do nacionalismo indiano: defende o orgulho da espiritualidade indiana face ao colonialismo, o que mais tarde inspirará algumas figuras da independência (como veremos com Gandhi). Em poucos anos, o movimento teosófico conhece um crescimento considerável: já em 1885, são fundadas pelo menos 121 lojas teosóficas em todo o mundo, das quais mais de cem só na Índia, Birmânia e Ceilão. A teosofia tornou-se uma verdadeira «Internacional do esoterismo».

No entanto, este sucesso veio acompanhado de desafios e controvérsias internas. Helena Blavatsky suscitava tanto entusiasmo como ceticismo. Dentro da própria Sociedade, alguns começaram a duvidar da autenticidade dos seus famosos fenómenos paranormais. Em 1883, um médium espírita chamado Henry Kiddle acusou uma das Carta dos Mestres (ensinamentos supostamente transmitidos pelos mestres invisíveis) de ser um plágio de um artigo que ele próprio tinha publicado. No mesmo ano, dois antigos discípulos de Adyar – Emma e Alexis Coulomb – voltaram-se contra Blavatsky, acusando-a de ter fabricado falsos milagres (aparições de cartas, materializações de objetos,…) através de truques materiais. Estas revelações causaram escândalo quando foram publicadas em 1884 num jornal de Madras. Blavatsky, doente e exausta, deixou a Índia em 1885 para fugir ao clima tóxico e regressou à Europa.

Últimos anos em Londres e obras principais

Estabelecida em Londres a partir de 1887, Helena Blavatsky, apesar da sua saúde frágil, mantém-se ativa. Fundou aí a Blavatsky Lodge, um círculo de estudo teosófico, e lançou uma nova revista chamada Lucifer (o «portador da luz»). Foi durante estes últimos anos que completou a sua obra maior, A Doutrina Secreta. Esta monumental obra em dois volumes, publicada em 1888, sintetiza o essencial da sua filosofia teosófica. Blavatsky afirma querer «reconciliar as sabedorias orientais e a ciência moderna». Propõe uma ambiciosa cosmologia esotérica baseada num misterioso texto fonte: o Livro de Dzyan, que afirma ter traduzido de uma língua secreta (o «senzar»). A Doutrina Secreta aborda a origem do universo e da humanidade através do conceito das sete «raças-raiz» sucessivas que povoam vários continentes míticos (como a Atlântida, a Lemúria,...). Blavatsky desenvolve a ideia de uma evolução espiritual da humanidade ao longo de milhões de anos, entrelaçando referências ao simbolismo religioso, à cabala e às filosofias orientais. A obra suscitou fascínio e controvérsia desde a sua publicação: alguns estudiosos da época, como o orientalista Max Müller, apontaram erros e improbabilidades nas suas fontes, enquanto outros elogiaram a audácia desta síntese esotérica.

Paralelamente, Blavatsky escreveu obras mais acessíveis para expor a teosofia ao grande público. Em 1889, publicou A Chave da Teosofia, um livro de perguntas e respostas pedagógicas que explica os conceitos-chave da sua doutrina. No mesmo ano saiu A Voz do Silêncio, uma curta coletânea de aforismos místicos e preceitos éticos inspirados, segundo ela, em textos budistas secretos. Ainda em 1888-1889, sentindo a aproximação do fim, H. P. Blavatsky criou dentro da Sociedade uma Secção Esotérica reservada aos membros avançados, para lhes transmitir oralmente os ensinamentos mais ocultos.

Helena Blavatsky faleceu finalmente em Londres a 8 de maio de 1891 na sequência de uma epidemia de gripe, com 59 anos de idade. O seu funeral deu lugar a uma cremação no Woking Crematorium, uma prática rara para a época que se adequava à sua filosofia com influências orientais. Os seus discípulos comemoram todos os anos a data de 8 de maio como o Dia do Lótus Branco, uma homenagem simbólica àquela que se via como um lótus espiritual desabrochado no Ocidente.

As grandes obras de Blavatsky e o seu alcance

A contribuição da Sra. Blavatsky para a literatura esotérica é considerável. Os seus escritos – que misturam erudição, espiritualidade e polémica – moldaram a teosofia e influenciaram o pensamento esotérico moderno. Aqui estão as suas obras principais, com o seu conteúdo e impacto:

  • Isis dévoilée (Isis Unveiled, 1877) – Primeiro grande livro de Blavatsky, publicado em Nova Iorque em dois volumes. Esta obra abundante apresenta-se como uma «chave dos mistérios da ciência e da teologia antigas e modernas». Blavatsky critica vigorosamente o materialismo científico e os dogmas religiosos da sua época, afirmando a existência de uma sabedoria oculta imemorial superior tanto às doutrinas da Igreja como às teorias científicas positivistas. Isis dévoilée explora temas variados (magnetismo, fenómenos psíquicos, símbolos egípcios, filosofias orientais,…) para demonstrar que por trás de todas as religiões e ciências existe uma verdade espiritual universal. O livro teve um sucesso imediato – esgotado poucos meses após a sua saída – e suscitou reações contrastantes. A imprensa nova-iorquina saudou Isis dévoilée como «uma das produções mais notáveis do século», enquanto alguns estudiosos apontaram erros factuais. Seja como for, esta obra impôs Blavatsky como uma voz original, erudita e audaciosa da espiritualidade alternativa.

  • A Doutrina Secreta (The Secret Doctrine, 1888) – Considerado a obra-prima de Blavatsky, este livro volumoso (mais de 1200 páginas em dois volumes) foi escrito em Ostende e Londres nos anos 1885-1888. A Doutrina Secreta pretende revelar os ensinamentos esotéricos que outrora constituíram a “religião primordial” da humanidade. O volume I (Cosmogénese) trata do nascimento do universo, comentando estrofes misteriosas atribuídas ao Livro de Dzyan – um texto tibetano desconhecido dos orientalistas, o que levou alguns a dizer que se trata de uma pura invenção de Blavatsky. O volume II (Antropogénese) traça a origem e evolução das sucessivas humanidades (as famosas raças-raiz), desde continentes perdidos até à humanidade atual. Blavatsky desenvolve aí conceitos-chave da teosofia: ciclos cósmicos, karma e reencarnação, estrutura septenária do homem, etc... A obra impressiona pela amplitude das suas referências (Vedas, Zohar cabalístico, filosofia grega, ciência contemporânea) colocadas ao serviço de uma visão unificada. No entanto, críticos acusaram a autora de plágio e compilação descuidada: já em 1892, o erudito William E. Coleman afirmou que a erudição de Blavatsky se baseava largamente em obras ocultistas de segunda mão, copiadas sem atribuição. Ele avançou mesmo que as Estrofes de Dzyan seriam um conjunto de passagens retiradas de vários autores do século XIX, habilmente apresentadas como um antigo texto tibetano. Embora estas acusações lancem dúvidas, outros especialistas defenderam Blavatsky: assim, o historiador da mística Gershom Scholem considera que as estrofes do Dzyan mostram sobretudo uma filiação com a tradição do Zohar (texto cabalístico do século XIII), prova de que Blavatsky se insere numa linhagem esotérica e não numa simples fraude. Apesar (ou por causa) destas polémicas, A Doutrina Secreta permanece um clássico da literatura esotérica – uma obra densa, difícil, mas que marcou profundamente os esotéricos do século XX pela riqueza das suas ideias.

  • A Chave da Teosofia (The Key to Theosophy, 1889) – Escrito em forma de diálogo perguntas/respostas, este livro curto visa explicar de forma pedagógica os princípios básicos da teosofia. Blavatsky aborda de forma estruturada noções como a constituição do ser humano (corpo físico, alma, espírito e vários «princípios» subtis), a lei do karma, o ciclo das reencarnações, a existência dos Mahatmas. A autora responde também às críticas e mal-entendidos sobre a Sociedade Teosófica. A Chave da Teosofia pretende ser um guia acessível aos novos estudantes, despojado do aparato erudito de Isis ou da Doutrina. O seu estilo claro faz dele ainda hoje uma introdução de referência ao pensamento blavatskiano.

  • A Voz do Silêncio (The Voice of the Silence, 1889) – Muito diferente dos anteriores, esta pequena obra é uma coleção de máximas espirituais e conselhos místicos, apresentada como excertos traduzidos de um livro sagrado oriental (« Os Preceitos de Ouro »). Blavatsky evoca o caminho interior do adepto para a iluminação, insistindo na compaixão, na disciplina pessoal e na união com o Absoluto. O texto é poético, por vezes enigmático, e reflete a influência do budismo mahayana e da mística hindu. A Voz do Silêncio teve grande impacto nos meios esotéricos: personalidades como o Dalai Lama terão reconhecido o valor espiritual destes preceitos, e o poeta T. S. Eliot foi muito inspirado por eles.

A estes títulos juntam-se outros escritos, nomeadamente centenas de artigos publicados em The Theosophist ou Lucifer, um romance iniciático inacabado (Na terra das montanhas azuis), relatos de viagem (Nas cavernas e selvas do Hindustão, publicados na imprensa russa), bem como uma vasta correspondência cujas cartas foram reunidas e comentadas após a sua morte. O conjunto das suas Obras completas ocupa nada menos que 15 volumes em inglês, testemunhando a prolífica atividade literária de Helena Blavatsky em pouco mais de duas décadas.

As ideias centrais da teosofia segundo Blavatsky

O pensamento teosófico elaborado por Helena Blavatsky caracteriza-se por um sincretismo ambicioso e algumas ideias-força recorrentes. Aqui estão os principais temas e conceitos que se encontram nos seus ensinamentos:

  • Fraternidade universal da humanidade : é o ideal ético supremo da Sociedade Teosófica. Blavatsky defende que todos os seres humanos são espiritualmente irmãos, para além das raças, nações e crenças. Esta fraternidade universal, fundada na unidade da vida, deve realizar-se através da tolerância e da compaixão, condições prévias para qualquer progresso espiritual coletivo.

  • Sabedoria antiga e unidade das religiões : Blavatsky afirma que uma tradição primordial – a Teosofia eterna – sustenta todas as religiões do mundo. Por trás dos dogmas e ritos, existiria uma verdade espiritual comum, transmitida através dos tempos por iniciados. Esta perspetiva leva a praticar um estudo comparado das religiões, filosofias e ciências, para identificar os princípios universais que partilham. Neste sentido, Blavatsky é herdeira da corrente esotérica perenialista (filosofia eterna) e anuncia o atual diálogo inter-religioso sobre as convergências espirituais.

  • Existência dos Mestres da Sabedoria: um elemento distintivo (e controverso) da teosofia de Blavatsky é o lugar ocupado pelos « Mahatmas » ou Mestres. Segundo ela, uma fraternidade de seres altamente evoluídos – vivendo no Oriente, nomeadamente no Himalaia – guia a humanidade preservando a sabedoria sagrada. Blavatsky apresenta dois desses adeptos, os Mestres Morya e Koot Hoomi, como seus instrutores pessoais, entrando em contacto com ela por visões, cartas materializadas ou projeções astrais. Estes Mestres não são figuras divinas, mas homens que atingiram um grau espiritual superior, encarnando o potencial latente em cada ser. A ideia de uma hierarquia de guias invisíveis que vigiam a humanidade cativou o imaginário esotérico e perdura em muitos movimentos New Age (sob o nome de « Mestres ascensionados »).

  • Evolução espiritual, karma e reencarnação: contrapondo-se ao materialismo darwiniano, Blavatsky propõe uma visão espiritual da evolução. A humanidade progride através de ciclos cósmicos, nascendo, atingindo um apogeu, depois declinando para dar lugar a uma nova humanidade (ciclo das raças-raiz). Cada alma, por sua vez, evolui através do mecanismo do karma (lei de causa e efeito ética) e das sucessivas reencarnações. Note-se que Blavatsky, inicialmente, enfatizava a transmigração de princípios espirituais mais do que a reencarnação individual clássica; mas sob a influência do hinduísmo e do budismo, a Sociedade Teosófica adotou plenamente o conceito de renascimento da alma em novos corpos. O objetivo final é a perfeição da alma através da experiência, até à emancipação do ciclo das renascenças (conceito próximo do moksha hindu ou do nirvana budista).

  • Setenato cósmico e constituição do homem: Blavatsky ensina que tudo no universo está estruturado em sete níveis ou princípios. Retoma a antiga ideia dos sete planos da existência (físico, astral, mental,...) e afirma que o ser humano é composto por sete princípios que vão do corpo material ao espírito divino, passando pela alma ou mente. Esta conceção setenária, clarificada pelos seus colaboradores como A. P. Sinnett e Subba Row, visa descrever as múltiplas dimensões da existência, da matéria mais densa ao espírito mais subtil. Introduz também a noção de poderes latentes: o homem possuiria faculdades psíquicas adormecidas (telepatia, clarividência,...) que uma vida pura e uma disciplina esotérica poderiam despertar.

  • Ciência esotérica e crítica do materialismo: um fio condutor da obra de Blavatsky é a tentativa de reconciliar ciência e espiritualidade. Ela considera que a ciência ocidental, ao ignorar a dimensão espiritual, perde a compreensão profunda da natureza. Por outro lado, as religiões dogmáticas carecem de racionalidade. A teosofia pretende ser uma «ciência do espírito» tão rigorosa quanto a ciência natural, mas alargada aos planos invisíveis. Blavatsky antecipa, por exemplo, noções como a relatividade do tempo, a energia universal, a multidimensionalidade do espaço – tantas ideias que ecoarão, décadas mais tarde, nas descobertas da física moderna ou nas abordagens holísticas. Para ela, não existe o sobrenatural, mas apenas o natural desconhecido: os milagres são apenas fenómenos regidos por leis ocultas que a ciência descobrirá um dia.

No geral, a teosofia da Sra. Blavatsky defende uma visão espiritualista, universalista e evolutiva do mundo. Ela exorta cada um a procurar a verdade através do estudo, da meditação e da intuição, sem se fechar num credo. O seu lema – emprestado de um templo de Benares – era aliás: «Não há religião superior à Verdade». Esta busca da Verdade, para além das fronteiras, resume bem o espírito do seu ensino.

Entorno e personalidades influenciadas

Ao longo da sua carreira, Helena Blavatsky conviveu com ou inspirou muitas personalidades, tanto no círculo teosófico como na sociedade do seu tempo. No seio da Sociedade Teosófica, os seus colaboradores mais próximos foram primeiro os seus cofundadores: o coronel Henry S. Olcott, companheiro desde 1874 e presidente infalível da Sociedade até à sua morte, e William Q. Judge, o organizador do movimento nos Estados Unidos. Juntos, este « triumvirato » lançou as bases de uma organização mundial. Outros discípulos destacaram-se rapidamente: Alfred P. Sinnett, um jornalista britânico na Índia, ficou fascinado pelas teorias dos Mestres e correspondeu-se com eles (através de Blavatsky) – publicou já em 1881 O Mundo Oculto e depois O Budismo Esotérico, as primeiras obras a divulgar ensinamentos teosóficos no Ocidente. A russa Vera Jelihovsky, irmã de Helena, assim como a condessa Constance Wachtmeister, amiga e assistente, também deixaram testemunhos preciosos sobre a vida quotidiana de Blavatsky.

No final da sua vida, Helena Blavatsky conquistou a adesão de uma mulher chamada a desempenhar um papel central: Annie Besant. Figura do socialismo e do feminismo em Inglaterra, Annie Besant converteu-se à teosofia após ler A Doutrina Secreta. Em 1890, visitou Blavatsky em Londres: foi um encontro decisivo que selou uma profunda amizade intelectual. Besant tornou-se aluna, depois continuadora de Blavatsky – em 1907 assumiu a liderança da Sociedade Teosófica. A passagem de uma militante materialista convicta (Besant) a uma espiritualista fervorosa ilustra a influência magnética que Blavatsky exercia sobre algumas mentes brilhantes. Outros intelectuais também ficaram intrigados com aquela que era chamada «Madame Blavatsky»: pode-se citar o poeta irlandês William Butler Yeats, que ela conheceu em 1887. Yeats participou durante algum tempo nas reuniões da Blavatsky Lodge e, mesmo que depois tenha se orientado para outras sociedades ocultas (foi presidente da Ordem Hermética da Aurora Dourada), reconheceu a inspiração que a teosofia nascente lhe proporcionou.

O alcance de Blavatsky ultrapassa o círculo esotérico para tocar personalidades do mundo científico e literário da época. Thomas Edison, o inventor americano, assim como os cientistas William Crookes (químico e pioneiro da radiografia) e Alfred Russel Wallace (naturalista co-descobridor da seleção natural), foram membros da Sociedade Teosófica nas décadas de 1870-1880. Que uma mente como a de Edison – símbolo do génio tecnológico – se interessasse pela teosofia pode surpreender, mas isso reflete a curiosidade de alguns cientistas vitorianos pelos fenómenos psíquicos. Estes homens não partilhavam necessariamente todas as convicções de Blavatsky, mas encontravam no seu salão um terreno de exploração não conformista. Na literatura, sabe-se que o grande poeta inglês Alfred Tennyson lia Blavatsky: à sua morte em 1892, um exemplar de A Voz do Silêncio foi encontrado sobre a sua mesa de cabeceira. Isso testemunha a audiência inesperada que os escritos de Blavatsky tinham nos meios cultos do final do século XIX.

Num plano mais político ou espiritual, Helena Blavatsky também influenciou futuros líderes. Mohandas K. Gandhi, então jovem estudante de direito em Londres, conheceu a teosofia em 1889-1890 graças a dois membros da Blavatsky Lodge. Foi mesmo recebido por Blavatsky pouco antes da sua morte. Os teosofistas encorajaram-no a ler a Bhagavad-Gîtâ na sua própria tradição hindu, texto que até então ignorava. Gandhi testemunhou mais tarde: «A teosofia é o ensino da Senhora Blavatsky. É o hinduísmo no seu melhor. A teosofia é a Fraternidade do Homem». Reconheceu que a teosofia o ajudou a compreender melhor o hinduísmo e a forjar o seu ideal de fraternidade inter-religiosa. Da mesma forma, na Índia, Blavatsky conviveu com reformadores como o swami Dayananda Sarasvati (fundador do Arya Samaj) – embora a sua aliança tenha sido curta devido a divergências doutrinárias.

Por fim, mencionemos que, à margem, algumas personalidades mais controversas do início do século XX reivindicaram a influência de Blavatsky: por exemplo, o ocultista Aleister Crowley admirava a sua independência de espírito (embora criticasse a teosofia), e esotéricos alemães como Guido von List ou Lanz von Liebenfels – figuras da ariosofia – retiraram de A Doutrina Secreta elementos que infelizmente desviaram (ver mais adiante). Mas é claro que Helena Blavatsky inspirou sobretudo investigadores da verdade, artistas e místicos em busca de uma espiritualidade sem fronteiras.

Controvérsias e críticas

Figura fora do comum, Helena Blavatsky não escapou às acesas polémicas durante a sua vida e após a sua morte. A sua obra e a sua pessoa foram alvo de críticas em vários frentes, que convém abordar com objetividade.

Acusações de fraude e investigação do SPR (1884-1885)

Desde os anos 1880, vozes se levantam para questionar a autenticidade dos fenómenos paranormais em torno de Blavatsky. O caso mais retumbante é a investigação conduzida em 1884-85 pela Society for Psychical Research de Londres. Enviado à Índia, o investigador Richard Hodgson examina as alegações dos esposos Coulomb e compila vários testemunhos. O seu relatório, publicado no final de 1885, é devastador: Hodgson conclui que todas as manifestações extraordinárias de Blavatsky eram ou fraudes deliberadas, ou alucinações dos seus seguidores. Chega a qualificá-la como «uma das impostoras mais engenhosas e interessantes da História». O relatório Hodgson acusa também Blavatsky de ter podido servir como espiã russa infiltrada entre os britânicos na Índia. Estas conclusões sensacionais fazem as delícias da imprensa e lançam descrédito sobre a nascente teosofia. É importante sublinhar que a Sra. Blavatsky, debilitada, não pôde defender-se pessoalmente contra estas acusações – ela tinha deixado a Índia pouco antes.

Só mais de um século depois é que o famoso relatório Hodgson foi revisto. Em 1986, e depois em 1997, um membro do SPR, o Dr. Vernon Harrison, especialista em análise de documentos, reexaminou o processo e publicou um relatório retumbante. Harrison aponta muitos vieses e erros metodológicos na investigação de 1885, que considera «defeituosa e indigno de confiança». Ele considera que Hodgson tinha um preconceito desfavorável e que demonstrou uma falta de rigor evidente. Harrison conclui que o relatório de 1885 deveria ser «lido com muita cautela, ou mesmo ignorado» e culpa até o SPR da época por ter publicado um documento tão pouco objetivo. Esta reabilitação parcial por um investigador independente deu força aos defensores de Blavatsky, que nunca deixaram de afirmar que as provas da sua alegada fraude eram insuficientes ou fabricadas. De facto, muitas testemunhas próximas de Blavatsky sempre mantiveram ter observado nela capacidades psi autênticas – como fenómenos de telecinese (móveis a levantarem-se), leitura de pensamentos, transporte de objetos à distância, ou ainda a enigmática receção de cartas «precipitadas» pelos Mestres. É difícil separar a parte de realidade e de exagero nestes relatos, mas a controvérsia sobre os poders de Blavatsky continua a ser um dos pontos mais disputados da sua lenda.

Acusações de plágio e erudição falsa

No plano intelectual, Blavatsky também foi criticada pela qualidade e originalidade dos seus escritos. Em 1892, o americano William Emmette Coleman tentou demonstrar que A Doutrina Secreta e Isis Desvelada abundam em passagens retiradas de obras anteriores, por vezes citadas, frequentemente não. Ele compilou uma lista de fontes ocultistas e esotéricas das quais Blavatsky se teria inspirado (como os trabalhos de Eliphas Lévi, de A. P. Sinnett ou de Samuel Dunlap), insinuando que a sua obra não passava de um patchwork sem génio. Da mesma forma, alguns lexicógrafos criticam-na por ter reproduzido páginas inteiras de dicionários ou enciclopédias no seu Glossário Teosófico (publicado em 1892, postumamente). Embora estas críticas não sejam infundadas – Blavatsky trabalhava efetivamente a partir de uma vasta documentação que assimilava à sua maneira – pode-se, no entanto, moderar esta visão lembrando o mérito de síntese do seu trabalho. Como escreve a investigadora Marie-José Delalande, «Em pouco mais de vinte e cinco anos, [Blavatsky] revisita a história do cosmos e do homem e propõe a ideia de uma tradição primordial na origem de todas as religiões. […] Estas ideias interessam a vários círculos em França, sendo objeto de análises e discussões». Por outras palavras, Blavatsky teve o mérito de dar a conhecer no Ocidente a essência das tradições espirituais mais antigas, reunindo-as numa visão coerente. Se houve empréstimos, ela integrou-os numa perspetiva global inédita na sua época. Os seus defensores também salientam que ela não tinha acesso a bibliotecas modernas, estando no meio da selva indiana ou tibetana – os seus escritos seriam, portanto, fruto de uma verdadeira memória e de um saber interior, e não simples cópias. O debate entre detratores e admiradores sobre este ponto continua ainda nos círculos académicos interessados na história do ocultismo.

Críticas doutrinárias e ideológicas

A teosofia de Blavatsky também foi atacada no conteúdo das suas ideias. O filósofo francês René Guénon, que em 1921 dedicou uma obra à teosofia (Le Théosophisme, histoire d’une pseudo-religion), é um dos seus adversários mais virulentos. Guénon considera a teosofia moderna como um sincretismo decadente, uma caricatura da tradição espiritual. Ele a julga « um dos erros mais perigosos para a mentalidade contemporânea », acusando-a de banalizar a verdadeira metafísica oriental e de cair num pseudo-espiritualismo sem rigor. Por outro lado, autores mais recentes como o historiador Theodore Roszak (figura da contracultura) reavaliaram Blavatsky de forma positiva. Roszak escreveu em 1975 que « H. P. Blavatsky [é] certamente um dos espíritos mais originais e penetrantes do seu tempo », saudando a sua contribuição para a filosofia da sua época. Estes julgamentos contrastantes mostram o quanto Blavatsky continua a ser uma figura divisora: profetisa iluminada para uns, aventureira delirante para outros.

Acusações de racismo e desvios

Um aspeto delicado das polémicas diz respeito a algumas passagens da obra de Blavatsky relativas às « raças-raiz ». Em A Doutrina Secreta, ao descrever a evolução das humanidades, Blavatsky usa um vocabulário de « raças » e afirma que alguns ramos da humanidade atual seriam espiritualmente menos desenvolvidos. Ela escreve, por exemplo, que a raça « semítica » (num sentido amplo que engloba vários povos) seria « degenerada do ponto de vista espiritual », ou que algumas tribos africanas estariam próximas do estágio animal. Estas declarações, inseridas num contexto esotérico, foram mais tarde exploradas de forma nauseabunda: esoteristas antissemitas e racistas na Alemanha viram nelas uma justificação « mística » para as suas teorias. Assim, ideólogos ocultistas ligados ao nazismo – como Guido von List ou Lanz von Liebenfels – retiraram de Blavatsky a ideia de uma raça ariana superior originária da Atlântida. Mesmo Dietrich Eckart, mentor de Hitler, possuía A Doutrina Secreta na sua biblioteca e a apresentava ao futuro Führer. Esta deriva é obviamente problemática. Vários autores modernos acusaram, portanto, Blavatsky de ter veiculado ideias proto-racistas ou antissemitas que, indiretamente, teriam alimentado o terreno ideológico do nazismo.

Os defensores de Blavatsky respondem que essas acusações resultam de uma má interpretação da sua obra. Eles notam primeiro que a Sra. Blavatsky defendia a fraternidade universal sem distinções, e que ela « aborrecia a violência » – certamente não teria apoiado as teorias odiosas do século XX. Em seguida, explicam que o conceito de raça-raiz em Blavatsky é esotérico e não biológico: refere-se a grandes eras da humanidade (Lemuriana, Atlante, Ariana,...) e não a raças no sentido moderno. Falar de « raça ariana » nela remete à civilização indo-europeia atual, não a uma hierarquia de sangue. O facto de alguns nazis terem deturpado essas ideias para servir a sua ideologia não significa que a própria Blavatsky fosse racista – ela que integrava no seu círculo índios, parsis, ocidentais de todas as origens. No entanto, o seu vocabulário, marcado pelo contexto do século XIX, pode causar confusão e chocar o leitor de hoje. Esta controvérsia lembra a necessidade de contextualizar a obra blavatskiana e de distinguir a intenção universalista de algumas formulações desajeitadas ou ultrapassadas.

Herança no esoterismo e na espiritualidade contemporânea

Mais de 130 anos após o seu desaparecimento, Helena Petrovna Blavatsky continua a ser uma referência incontornável na história da espiritualidade moderna. O seu legado observa-se através da perenidade da Sociedade Teosófica, dos movimentos esotéricos que inspirou e da difusão de algumas das suas ideias na cultura contemporânea.

A Sociedade Teosófica, em primeiro lugar, sobreviveu-lhe e ainda existe hoje. Após a morte de Blavatsky, a organização sofreu cisões (desde 1895, o ramo americano separou-se sob o impulso de W. Q. Judge), mas várias secções ativas subsistem: a sede em Adyar, na Índia, dirigida após Olcott por Annie Besant, continua a ser um centro mundial; outras sociedades teosóficas autónomas formaram-se ao longo do tempo. Embora o número de membros seja modesto (alguns milhares por país), a influência teosófica faz-se sentir pelo seu papel de ponte cultural. A Sociedade traduziu e publicou muitos textos sagrados orientais, abriu lojas de discussão filosófica em todos os continentes e, sobretudo, popularizou no Ocidente conceitos como karma, nirvana, yoga, aura, muito antes da vaga «New Age».

Blavatsky é chamada de «avó da New Age» devido à sua influência nos movimentos espirituais do século XX. Desde os anos 1900, a sua obra inspirou a criação de novas escolas esotéricas. O austríaco Rudolf Steiner, inicialmente secretário da secção alemã da Sociedade Teosófica, fundou em 1913 a Antroposofia, em desacordo com alguns desenvolvimentos teosóficos (nomeadamente a história do «messias» Krishnamurti). A antroposofia de Steiner – conhecida pelas suas escolas Waldorf ou pela agricultura biodinâmica – reconhece, no entanto, dever muito às ideias de Blavatsky sobre a evolução oculta da humanidade. Da mesma forma, a corrente da Ariosofia na Europa Central (esoterismo com temas germânicos), o movimento da Ciência Cristã na América, ou ainda alguns ramos da maçonaria ocultista, retiraram elementos da teosofia. No meio do século XX, autores como Alice Bailey (ex-teosofista) propuseram a sua própria continuação do ensino dos Mestres, dando origem ao que por vezes se chama neo-teosofismo.

Acima de tudo, a cultura New Age surgida nos anos 1970 é impensável sem o legado teosófico. Conceitos-chave do New Age – os mestres ascendidos que guiam a humanidade, a ideia de uma nova era de Aquário sucedendo à era anterior, o entusiasmo pelo karma e pela reencarnação, a fusão das sabedorias do Oriente e do Ocidente – tudo isso já figurava nos escritos de Blavatsky e na prática da sua Sociedade. Historiadores da espiritualidade como Nicholas Goodrick-Clarke ou Wouter Hanegraaff salientam que a Sociedade Teosófica foi «a principal força de difusão da literatura oculta no Ocidente no século XX». Ela abriu literalmente o caminho para uma contracultura espiritual que se inspira em todas as tradições do globo para criar uma nova síntese.

No domínio artístico, a influência de Blavatsky também deixou a sua marca. O pintor russo Wassily Kandinsky e o neerlandês Piet Mondrian, pioneiros da arte abstrata, eram leitores de teosofia e procuravam transpor verdades espirituais na cor e na forma. A pintora sueca Hilma af Klint confessou que A Doutrina Secreta foi uma fonte de inspiração para as suas telas. Na literatura, para além de Yeats já mencionado, encontram-se ecos teosóficos em escritores como Sir Arthur Conan Doyle (membro da Sociedade na sua juventude, antes de se voltar para o espiritismo) ou Jack London.

De um ponto de vista mais profundo, pode-se dizer que Blavatsky contribuiu para moldar a religiosidade alternativa das sociedades modernas. Ao defender a experiência individual, a liberdade de pensamento, a busca interior em vez da fé imposta, ela antecipou o atual interesse pela espiritualidade «fora da religião». Também participou na reabilitação das filosofias asiáticas aos olhos dos Ocidentais, desempenhando um papel no que hoje se chama a sincretização global do religioso. Por certos aspetos, Blavatsky aparece como uma visionária que pressentiu a necessidade de uma abordagem holística – ligando o homem, a natureza e o divino – numa altura em que o materialismo triunfante deixava um vazio existencial.

Olivier d’Aeternum
Par Olivier d’Aeternum

Apaixonado pelas tradições esotéricas e pela história do oculto desde as primeiras civilizações até ao século XVIII, partilho alguns artigos sobre estes temas. Sou também co-criador da loja esotérica online Aeternum.

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