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Origens antigas e ressurgimento medieval |
No coração do Renascimento, uma tradição esotérica singular floresce sob o nome de magia naturalis, ou magia natural. Esta magia apresenta-se então como um saber real, coerente e experimental, fundado no estudo das forças secretas da natureza. Os pensadores do Renascimento – humanistas, eruditos e por vezes eclesiásticos – reivindicam a magia natural como herdeira de uma sabedoria antiga transmitida desde a Antiguidade e consideram-na como «a parte prática da ciência natural», legítima e não herética, para usar as palavras de Pico della Mirandola (pensador italiano e intelectual vanguardista famoso). Animados por uma convicção certa, estes «magos naturais» exploram o mundo com maravilhamento e método: a natureza é viva, povoada de forças ocultas e de correspondências que é possível compreender e usar para agir sobre o real. Este saber esotérico pretende ser uma homenagem à própria Criação, uma forma de honrar Deus ou a Natureza ao desvendar os seus mistérios para melhorar a condição humana. Descoberta.
Origens antigas e ressurgimento medieval
A noção de magia natural tem raízes na Antiguidade greco-romana e oriental. Os sábios da Antiguidade – sejam o mítico Hermes Trismegisto da tradição hermética, o filósofo pitagórico, o mago caldeu ou o sacerdote egípcio – são considerados depositários de uma prisca theologia, uma sabedoria primordial anterior às religiões, que ensinava a unidade do cosmos e os meios de entrar em simpatia com ele. Os escritos atribuídos a Hermes Trismegisto, redescobertos mais tarde no Renascimento, descrevem um universo vivo saturado de forças espirituais e símbolos, onde o homem (como microcosmo) reflete o cosmos (macrocosmo) e pode, pela magia, agir sobre a natureza em virtude das correspondências universais. No mundo greco-romano, autores como Platão e os neoplatónicos desenvolvem a ideia de uma hierarquia dos seres e de uma alma do mundo que liga todas as coisas, enquanto enciclopedistas como Plínio, o Velho, compilam as propriedades maravilhosas das plantas, pedras e animais em obras que farão autoridade na Idade Média. Embora a magia fosse reprovada pela filosofia oficial (Aristóteles a considerava com desconfiança, e Platão a desaconselhava ao legislador), algumas práticas da «magia natural» foram transmitidas: uso de ervas medicinais com virtudes inexplicadas, atração dos ímanes, unguentos surpreendentes, talismãs planetários,... Os escritos neoplatónicos tardios (como A Teurgia de Jâmblico) ou os Ciranides (compêndio hermético das propriedades ocultas dos animais e minerais) testemunham uma crença persistente nas forças ocultas da natureza e na possibilidade de as empregar por ritos ou receitas.

Representação de Hermes Trismegisto
Com o advento do cristianismo, a magia é relegada para o lado do paganismo e das obras diabólicas. Santo Agostinho, no século V, condena sem apelo toda prática mágica não milagrosa, afirmando que «todos os prodígios dos magos operam-se pela cooperação dos demónios». No entanto, nos mosteiros medievais, a sede de compreender os mirabilia (maravilhas da criação) subsiste. No século XIII, dois sábios cristãos abrem caminho para uma reabilitação parcial da magia natural: Alberto Magno (Albertus Magnus) e Roger Bacon. Alberto Magno, dominicano erudito, explora nos seus tratados as propriedades ocultas das plantas e pedras, procurando distinguir o que é obra natural de Deus do que seria ilusão demoníaca. Quanto a Roger Bacon (c.1214-1294), franciscano inglês mais tarde apelidado de Doctor Mirabilis, é um precursor audacioso que abraça a matemática, a óptica, a alquimia e a mecânica para desvendar os segredos da natureza. Bacon defende abertamente a magia naturalis: defende-a como uma ciência legítima e revolta-se contra a «infinita estupidez» dos seus colegas que recusam ver a sua utilidade. Consciente das suspeitas de heresia que enfrenta, empenha-se em distinguir a magia natural – fundada nas causas físicas ocultas – da magia maléfica fundada nos demónios. Numa carta famosa (Epistola de secretis operibus artis et naturae, et de nullitate magiae), Bacon afirma que as proezas atribuídas aos magos são na realidade fruto da arte e da natureza, não de sortilégios sobrenaturais. Em outras palavras, procura «naturalizar» a magia: explicar racionalmente efeitos maravilhosos que pareciam mágicos, mostrando que imitam processos naturais sem intervenção diabólica. A astrologia (influências astrais no mundo sublunar) ou a alquimia podem, segundo Bacon, ser interpretadas por causas naturais ocultas – a sua teoria da multiplicação das espécies (emissão de forças invisíveis pelos objetos) fornece um quadro explicativo para estas ações à distância. Graças a pensadores assim, a magia naturalis é pouco a pouco libertada da suspeita de bruxaria. À véspera do Renascimento, aparece como um saber por si só, abrangendo o estudo da natureza no que tem de mais misterioso, e prenunciando o espírito empírico dos tempos modernos.
O apogeu renascentista e suas figuras emblemáticas
É no Renascimento (séculos XV–XVI) que a magia natural conhece a sua idade de ouro, beneficiando da redescoberta dos textos antigos e do florescimento do humanismo. Num contexto intelectual efervescente – Florença dos Médici, Roma dos papas letrados, cortes europeias fascinadas pelo oculto – a magia naturalis adquire os seus títulos de nobreza filosófica e conta com campeões prestigiados. Marsílio Ficino, Pico della Mirandola e Giambattista della Porta figuram entre os mais ilustres representantes desta tradição, ao lado de outros autores marcantes como Cornelius Agrippa, Paracelso, John Dee, Jerónimo Cardano ou Robert Fludd. Todos partilham a convicção de que a magia natural, corretamente compreendida, não é senão a ciência aprofundada dos segredos da natureza – «a mais alta potência das ciências naturais», como a qualifica Agrippa. Esforçam-se por estabelecer os seus fundamentos teóricos e codificar as práticas, proclamando a sua harmonia com a fé cristã.
Marsílio Ficino (1433–1499): o neoplatonismo mágico
Filósofo florentino, tradutor de Platão e dos textos herméticos, Marsílio Ficino é considerado o pai da magia natural do Renascimento. Protegido de Cosme de Médici, anima uma Academia platónica em Florença e procura conciliar a sabedoria pagã dos «teólogos antigos» (Hermes Trismegisto, Orfeu, Zoroastro,…) com o cristianismo. Ficino vê na magia natural uma forma de piedade para com Deus: ao estudar os laços secretos que unem o homem, a natureza e os astros, o mago descobre as leis pelas quais o Criador governa o mundo e pode assim harmonizar-se com o cosmos. A sua obra principal sobre o tema, Os Três Livros da Vida (De vita libri tres, 1489), dedica o terceiro livro a uma verdadeira teoria da magia natural, que se tornará «a consideração renascentista por excelência do tema». Ficino expõe como a alma do mundo difunde influências desde as estrelas até às plantas, pedras e metais. Inspirando-se no neoplatonismo, descreve um universo hierarquizado onde os graus do ser estão ligados por correlações simpáticas. A magia, segundo ele, consiste em atrair para si as influências benéficas dos astros usando correspondências apropriadas no reino terrestre.

Marsílio Ficino. Fonte: Oraedes
Ficino baseia-se na doutrina hermético-neoplatónica: tudo o que existe procede de uma Emanação divina e permanece ligado por uma rede de simpatias. «O que está em cima é como o que está em baixo» – o famoso adágio hermético – significa que existe uma relação analógica entre as realidades celestes (ideias, estrelas, anjos) e as realidades inferiores (minerais, plantas, órgãos do corpo). O mago, conhecendo estas analogias, pode compor talismãs ou remédios que absorvem as virtudes celestes correspondentes. Um talismã fabricado sob uma configuração astrológica favorável, ou uma poção preparada com ervas governadas pelo mesmo planeta, servirão de recipientes às influências cósmicas benéficas. Ficino chega a recomendar, para fortalecer a alma e o corpo, o uso de objetos ou práticas impregnados de harmonia celestial: ouvir hinos órficos dedicados aos planetas, usar joias e plantas solares para se revigorar com a energia do Sol,... Esta «astrologia medicinal» insere-se no que ele chama de magia naturalis – que descreve como um saber operativo que permite «tirar de cima» (coelitus) as influências vitais do céu para a terra. Mantendo-se sacerdote cristão, Ficino toma cuidado para afastar qualquer invocação de espíritos ou demónios: a sua magia quer ser natural e não goética. Insiste na preparação moral do mago (que deve ser sábio e virtuoso) e na contemplação como meio de elevar a alma para a luz divina. Assim, em Ficino, a magia natural reveste um caráter filosófico e místico tanto quanto prático – é uma forma de curar o corpo e a alma alinhando-se com a harmonia do mundo. A sua contribuição fundamental foi demonstrar que a magia, purificada de toda superstição grosseira, pode ser integrada na filosofia natural e na teologia do seu tempo, como um conhecimento respeitável. Marsílio Ficino lançou assim as bases de uma magia celeste erudita que inspirará toda a geração seguinte de esoteristas do Renascimento.
Giovanni Pico della Mirandola (1463–1494): a união de todas as sabedorias
Discípulo admirador de Ficino, o jovem conde Pico della Mirandola leva ainda mais longe a audaciosa reabilitação da magia. Gênio precoce, deseja em 1486 defender publicamente 900 teses abrangendo todo o conhecimento – teologia, filosofia, ciências naturais e magia. Nessas Conclusiones (1486), assim como no seu famoso Discurso sobre a dignidade do homem, Pico exalta a capacidade humana de elevar-se ao divino pelo conhecimento de todas as artes, incluindo a magia e a cabala. Uma magia nobre e cristã: Pico afirma sem rodeios que a magia naturalis é a parte prática da filosofia natural e que, por isso, é não só lícita, mas honrosa – «a parte mais nobre da filosofia natural», escreve, pois aplica concretamente os seus princípios. Fundou a Cabala cristã, integrando a mística judaica (combinações de letras hebraicas, anjos e esferas sefiroticas) na magia neoplatónica, considerando que estas duas tradições esotéricas corroboram a revelação cristã. Para Pico, a magia natural permite ao homem tornar-se, segundo a expressão do seu Discurso, «o mestre e senhor da natureza», decifrando a linguagem secreta pela qual Deus ligou todas as coisas. Contudo, distingue duas formas de magia: uma puramente natural (que atua por causas físicas ocultas, símbolos e influências astrais) e outra, mais elevada, que chama de magia divina ou teurgia, que apela às inteligências celestes (anjos). A primeira pertence à ciência humana do mundo criado, a segunda a uma operação espiritual próxima dos milagres – e Pico interessa-se por ambas, condenando firmemente a goetia maléfica.
O jovem conde, nas suas teses cabalísticas, propõe por exemplo explicações numéricas para os mistérios bíblicos, procurando provar a divindade de Cristo pela Cabala. Nas suas teses mágicas, sustenta que o mago, pela sua vontade esclarecida e fé, pode atrair para si as forças celestes e até obrigar os próprios demónios – posição que lhe valeu ser acusado de impiedade. As suas ideias demasiado inovadoras foram condenadas pela Igreja em 1487, e Pico teve de renunciar a parte das suas teses para escapar à acusação de heresia. No entanto, a sua influência é profunda: legitima o estudo do ocultismo dentro do neoplatonismo cristão. Proclama que «não há ciência que nos dê mais certeza sobre a divindade de Cristo do que a magia e a Cabala», uma declaração provocadora que revela a sua convicção de que as verdades ocultas da natureza e as da fé convergem numa mesma sabedoria. Pico della Mirandola morreu demasiado jovem para desenvolver mais o seu sistema, mas o seu legado intelectual é imenso: mostrou que a magia natural pode aliar-se a um vasto sincretismo (desde Zoroastro a Moisés, de Platão à Cabala) e servir um projeto humanista exaltando a dignidade infinita do homem capaz de tudo compreender. Para os pensadores da sua geração, a magia já não aparece como uma fantasia supersticiosa, mas como uma chave esotérica que abre o caminho para o conhecimento total.
Giambattista della Porta (1535–1615): o sábio das maravilhas naturais
Um século após Ficino e Pico, o italiano Giambattista della Porta encarna o culminar prático da magia naturalis e a transição para a ciência moderna. Nobre napolitano apaixonado por todos os saberes, Della Porta funda em Nápoles a Academia dos Segredos da Natureza (Academia Secretorum Naturae) por volta de 1560, onde convida os eruditos que descobriram um segredo da natureza a partilhá-lo. A sua obra maior, Magia naturalis, publicada inicialmente em 1558 (4 livros) e depois aumentada em 1589 (20 livros), é um vasto compêndio das maravilhas do mundo natural, misturando receitas, observações e especulações teóricas.

Della Porta interessa-se por tudo: geologia, botânica, óptica, mineralogia, medicina, culinária, metalurgia, magnetismo, pirotecnia… A Magia naturalis descreve tanto a fabricação de um espelho ardente ou de uma tinta simpática como os meios de produzir um elixir cosmético, melhorar uma câmara escura ou fazer despir uma mulher respeitável queimando uma certa lâmpada com gordura de lebre. Este ecletismo valeu-lhe um enorme sucesso por toda a Europa (traduções em italiano, francês, neerlandês,...) e assegurou-lhe a reputação de mago erudito. No entanto, Della Porta defende-se de praticar qualquer feitiçaria: naturaliza completamente a magia, banindo do seu livro qualquer invocação ou oração. Evita cuidadosamente a menor suspeita de magia cerimonial – nenhum ritual espiritual é requerido, apenas o conhecimento das coisas e a habilidade do artesão. Para ele, a magia é «a parte mais nobre da filosofia» (proclama-o já no livro I) e o mago um artifex, um homem da arte que manipula a natureza com engenho.

Giambattista della Porta. Fonte: The Famous People
Della Porta retoma para si o neoplatonismo ficiniano: descreve uma ordem estrita da Criação onde as formas universais emanam de Deus para os anjos, depois para as almas, depois nas qualidades ocultas das coisas materiais. Essas qualidades ocultas (occultae) são propriedades reais mas subtis, inexplicáveis pela matéria apenas – a pequena pedra de íman atrai o ferro pesado, ou um minúsculo fio de erva cura um órgão: para ele, a causa deve ser uma forma, uma virtude imaterial transmitida pelos astros. A magia natural é assim a ciência aplicada que estuda essas propriedades ocultas e aprende a tirar partido delas. Della Porta define-a de forma imagética: assim como um camponês prepara a terra para que a natureza produza as suas colheitas, o mago natural «prepara a matéria de forma especial para permitir que as suas propriedades ocultas (ainda que naturais) apareçam». O mago é assim «o servo da natureza»: não viola as leis naturais, ajuda-as criando as condições propícias aos efeitos maravilhosos. Em bom humanista, Della Porta procura nos autores antigos a confirmação das suas receitas, apoiando-se em Plínio ou Teofrasto, mas acrescenta também as suas observações pessoais, até experiências que realizou. Um exemplo: melhora a lente da câmara escura, estuda a refração para conceber um protótipo de telescópio, descreve os efeitos anestésicos de um unguento soporífero, entre outros.
A Magia naturalis de Porta é emblemática do encontro entre a antiga sabedoria mágica e a curiosidade científica nascente. Por um lado, encontram-se os temas clássicos do oculto renascentista – magia simpática (agir à distância por semelhança), talismãs astrológicos, correspondências entre o Céu e a Terra. Por outro lado, o autor propõe explicações decididamente naturalistas: longe de atribuir os prodígios a espíritos, procura a causa oculta material ou astral. Nomeadamente, explica o «encanto» que torna dócil um touro amarrado a uma árvore estéril por uma propriedade vegetal desconhecida, ou o poder de adormecer pelo unguento da bruxa com um narcótico vegetal que detalha (a jusquiame entre outros). A sua abordagem pragmática atraiu a atenção preocupada da Inquisição (foi brevemente preso e vigiado toda a vida), mas corresponde também ao espírito do seu tempo que se volta para a observação e experimentação. Giambattista della Porta fez a ligação entre a magia natural e a ciência: os seus estudos sobre ímanes, ervas e lentes abriram caminho à invenção do microscópio e do telescópio, e as suas observações sobre a reprodução das plantas anunciam a botânica. A magia natural, para ele, está a um passo de se tornar ciência experimental – libertada de todo elemento sobrenatural, centrada na procura das causas e no domínio técnico do real. Della Porta pode ser visto como o último dos grandes magos do Renascimento e o primeiro dos sábios modernos curiosos de tudo, ilustrando magnificamente a transição do ocultismo para a ciência.
Os fundamentos filosóficos
A magia naturalis do Renascimento assenta num alicerce filosófico sincrético, principalmente emprestado ao neoplatonismo e ao hermetismo, enriquecido com conceitos aristotélicos e tradições místicas como a cabala.
Herdada de Plotino e dos seus sucessores tardios (Porfírio, Jâmblico, Proclo), a filosofia neoplatónica postula uma realidade hierarquizada que emana de um princípio supremo (o Uno ou Deus). Entre Deus e o mundo material desdobram-se intermediários: inteligências celestes (anjos ou demónios em sentido neutro), Alma do mundo, astros, até aos elementos terrestres. Cada nível reflete o que está acima e influencia o que está abaixo numa cadeia contínua de causas. Esta visão cósmica foi cristianizada no Renascimento por Ficino e Pico, que nela veem o plano da Criação divina. Neste quadro, a magia natural é legitimada como o estudo dos mecanismos pelos quais as influências descem do céu para a terra.
Os escritos atribuídos a Hermes Trismegisto (o Corpus Hermeticum, traduzidos por Ficino em 1463) impregnam a magia renascentista. Encontram-se aí a ideia de que o homem é um microcosmo à imagem do macrocosmo (o universo), e sobretudo a máxima famosa: «O que está em baixo é como o que está em cima» (Tabela de Esmeralda). Esta lei da analogia universal é o coração da magia das correspondências. O hermetismo ensina que o sábio, pelo conhecimento dos arcanos da natureza, pode tornar-se um mago, isto é, um «sacerdote da Criação», cooperando com o divino. O mundo hermético está cheio de sinais e símbolos que o mago deve decifrar. Enfatiza o poder das palavras, dos números e das imagens – um legado retomado na magia natural através dos talismãs cobertos de figuras, dos quadrados mágicos numéricos, ou dos nomes planetários inscritos em anéis.
Um dos princípios-chave da magia naturalis é que laços secretos unem as diferentes coisas da natureza. Os astros e os metais, as plantas e os órgãos do corpo humano, as cores, os sons e os planetas – tudo pode corresponder. É esta rede de correspondências que fundamenta as leis da simpatia e da antipatia universais. A simpatia é a atração misteriosa entre duas coisas ligadas por uma afinidade oculta. A antipatia é, pelo contrário, o repúdio entre coisas de natureza oposta (diz-se que o repolho odeia a vinha a ponto de a fazer murchar, ou que o galo afugenta o leão – exemplos frequentemente citados). Estas ideias vêm em parte da filosofia natural aristotélica (conceito de qualidades ocultas das substâncias) e da medicina antiga (teoria dos humores e dos temperamentos). Na Idade Média, são racionalizadas por Tomás de Aquino e os escolásticos, que admitem que Deus pôde colocar na natureza virtudes ocultas para certos usos – desde que o seu efeito não ultrapasse a ordem natural, podem ser estudadas sem impiedade. Assim, o fundamento filosófico da magia natural reside na confiança de que o mundo é um todo coerente, desejado por uma Inteligência suprema, e que ao decifrar os seus símbolos o sábio pode descobrir a cadeia das causas invisíveis. O neoplatonismo fornece a visão geral (um cosmos hierarquizado e ligado), o hermetismo a chave analógica (os símbolos e correspondências), o aristotelismo a ideia de causas ocultas que atuam em virtude da natureza. A isto junta-se, em alguns autores como Pico, a contribuição da Cabala que enriquece o sistema com novas correspondências (as letras hebraicas associadas aos planetas, anjos, membros do corpo, formando outra rede de simpatias). A filosofia da magia naturalis é um sincretismo que visa explicar o maravilhoso da natureza sem recorrer aos demónios: todo efeito estranho tem uma causa oculta natural, que o mago identifica graças às analogias na Criação.
Saberes e práticas da magia natural
A magia natural do Renascimento abrange um vasto conjunto de disciplinas e práticas, a meio caminho entre ciência nascente e arte oculta tradicional. Diz-se que é «vasta e maleável», abrangendo medicina, farmacologia, alquimia, astrologia, mineralogia, mecânica, retórica, estudo das línguas e muitos outros domínios. Eis alguns dos seus principais aspetos:
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Ervanária e medicina oculta: os magos do Renascimento são hábeis botânicos e médicos. Procuram as virtudes das plantas, ou seja, as suas propriedades ocultas, sobretudo com fins terapêuticos. Paracelso, por exemplo, introduz a noção de assinatura das plantas: a forma ou cor de uma planta indica qual órgão pode curar. Ficino recomenda poções à base de plantas «sob a influência de Vénus» para tratar males do amor, ou de Saturno para a melancolia. Elaboram unguentos mágicos como a pomada das bruxas (mistura de jusquiame, ópio e outras plantas alucinogénicas) para provocar sonhos ou viagens da alma – Della Porta dá a receita, despojando-a do seu aura demoníaca ao explicar cientificamente os seus efeitos narcóticos. A ervanária da magia natural acompanha-se da alquimia: extrair a «essência» de uma planta por destilação, confeccionar elixires da longa vida ou panaceias. Estas práticas preparam o surgimento da química e da farmacologia modernas, embora ainda impregnadas de simbolismo astrológico.
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Astrologia e talismãs: a astrologia é a pedra angular da maioria das operações de magia natural. A ideia central é que os astros impregnam a matéria terrestre com as suas influências. O praticante deve conhecer as configurações celestes favoráveis a cada empreendimento. Marsílio Ficino dá conselhos para captar o influxo de Saturno (o planeta dos pensadores) quando se quer estimular a contemplação, ou de Vénus (planeta da harmonia) para curar afecções ligadas ao equilíbrio dos humores. Os talismãs astrológicos são objetos (medalhões, anéis, estatuetas) feitos de materiais simbólicos e gravados com símbolos planetários, que se expõem num momento astrológico preciso para que «absorvam» a influência do astro. Cornelius Agrippa explica como forjar um selho de Júpiter sob um horóscopo de Júpiter para atrair riqueza e saúde. Estes talismãs, uma vez «carregados», são usados como concentrados de influências benéficas – prática difundida que se quer natural (retirada das qualidades celestes) e não idólatra. Do mesmo modo, a astrologia médica (ou iatromia) estabelece correspondências entre os signos do zodíaco e as partes do corpo, os planetas e os órgãos: o médico-mago deve escolher o momento certo para administrar um remédio ou incisar um órgão, em acordo com o céu. A astrologia oferece assim um quadro teórico unificador à magia natural, ligando todos os seus ramos por uma mesma rede de influências cósmicas.
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Minerais, metais e propriedades ocultas: além das plantas, os magos naturalistas interessam-se pelas pedras, metais e ímanes. A cada pedra atribui-se uma virtude oculta: o íman (pedra de magnetite) atrai o ferro e, por analogia, o amor ou a amizade; a ametista preserva da embriaguez, a esmeralda fortalece a visão,... em virtude da sua cor ou brilho (assinatura visível do seu poder). Os metais estão associados aos planetas (ouro e Sol, prata e Lua, mercúrio e Mercúrio, cobre e Vénus, ferro e Marte, estanho e Júpiter, chumbo e Saturno), de modo que o uso dos metais na alquimia ou na medicina se baseia nessas correspondências. A alquimia, precisamente, é classificada como magia naturalis quando se concentra na transmutação dos metais por meios naturais (fornos, solventes) imitando o lento trabalho da terra. Paracelso alarga a alquimia à espagiria (separação e recombinação dos princípios ativos das substâncias naturais) para fabricar remédios: esta abordagem alquímica médica será um dos legados duradouros da magia natural na química farmacêutica.
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Simpatias, antipatias e ações à distância: um dos aspetos mais fascinantes da magia natural é a ideia de que se pode agir sobre um objeto ou pessoa à distância explorando um vínculo secreto. É a teoria das simpatias. Um exemplo conhecido é que se pode curar uma pessoa aplicando um bálsamo não na sua ferida, mas na arma que a feriu (unguento simpático), prática relatada por muitos autores. O vínculo subtil entre a lâmina e a ferida (pelo sangue seco, pensa-se) faria com que o tratamento de uma curasse a outra à distância – explicação oculta que estudiosos mais tarde tentaram elucidar em termos físicos (alguns viam nisso uma forma precoce de ação química à distância). Do mesmo modo, pensa-se que pregando o retrato de uma pessoa numa árvore se pode fazê-la definhar (magia simpática negativa), ou que ao usar um fragmento da planta mandrágora se atrai o amor (simpatia positiva). Os espelhos mágicos são outra categoria: um espelho corretamente preparado poderia captar imagens à distância (Della Porta concebeu espelhos parabólicos para transmitir mensagens luminosas – aqui entra-se mais na óptica do que no oculto). Todas estas práticas assentam na ideia de que a natureza forma uma rede onde tudo comunica invisivelmente: o mago joga com essas conexões subtis. As leis da simpatia e da antipatia, mencionadas acima, explicam porque certas plantas não convivem (antipatia botânica) ou porque certo remédio atrai certo mal para o extrair do paciente (simpatia de transferência). Se algumas destas práticas nos parecem esotéricas, não devemos esquecer que eram abordadas pelos seus promotores com espírito de observação e experimentação. O maravilhoso que daí resulta – esses efeitos surpreendentes que desafiam o entendimento comum – é precisamente o que o cientista nascente procurará naturalizar por explicações objetivas. Neste sentido, a magia natural serviu de estímulo à investigação científica: perante um fenómeno inexplicável, o reflexo do mago é explorá-lo, reproduzi-lo, compreendê-lo, em vez de o rejeitar de imediato como impossível.
O legado da magia naturalis
Por um aparente paradoxo, foi ao levar a sério a magia natural que o Renascimento deu origem à ciência moderna. De facto, a magia naturalis incutiu nas mentes curiosas várias atitudes fundamentais: a confiança na ordem racional da natureza, a importância da experiência concreta, a recolha paciente dos factos estranhos e a audácia de formular hipóteses para explicar o invisível. Antes de Francis Bacon e Galileu, os grandes magos do Renascimento já eram experimentadores.
O historiador da ciência William Eamon afirma assim: a magia natural do Renascimento foi «a ciência que tentava dar explicações racionais e naturalistas» aos fenómenos, os magos naturais afirmando que «a natureza está cheia de forças e potências ocultas que se podem imitar, melhorar e explorar para benefício humano». Aos seus olhos, a magia era mesmo o melhor meio de acabar com a atribuição sistemática dos mistérios aos milagres ou aos demónios – de desencantar o mundo mantendo o seu sentido do maravilhoso natural. A fronteira entre o laboratório do alquimista e o do químico do século XVII é ténue: mesma vidraria, mesmas substâncias, mas uma grelha de análise que progressivamente se afasta da astrologia para se orientar para a medição quantitativa. A viragem ocorre quando discípulos da magia natural começam a abandonar o jargão esotérico para falar em termos de propriedades físicas. No início do século XVII, continuadores como Francis Bacon (o filósofo inglês) inspiram-se no ideal do magus que domina a natureza, purificando o conceito: Bacon sonhará no seu Novum Organum com uma ciência ativa, experimental, que confere um «poder» sobre a natureza – um legado direto da ambição mágica (recordemos que ciência e poder andavam de mãos dadas na mentalidade mágica, expressa pela fórmula scientia est potentia). Figuras de transição encarnam esta osmose: Johannes Kepler, astrónomo maior, era influenciado pela astrologia e procurava a música secreta das esferas; Isaac Newton praticou alquimia e deixou muitos escritos esotéricos, enquanto fundava a mecânica celeste. A Royal Society no século XVII não teria nascido sem o entusiasmo prévio pelos «segredos da natureza» difundido pelos círculos de magia naturalis (a Academia de Porta é um protótipo, assim como as redes de alquimistas-paracelsianos na Europa). Certamente, a ciência emergente rejeitará progressivamente os aspetos não verificáveis da magia (alma do mundo, simpatias místicas), mas conservará o essencial: a ideia de que o mundo obedece a leis ocultas que devem ser descobertas pela observação e experiência. Neste sentido, a magia naturalis foi uma escola formidável de espanto e rigor nascente. Como escreve a historiadora Paola Zambelli, os magos do Renascimento eram frequentemente racionalistas que ignoravam ser, procurando como o «maravilhoso» era possível em vez de negar a sua existência. O processo de desocultação da natureza estava em curso.
A magia naturalis aparece assim, à luz da história, como muito mais do que uma compilação de práticas estranhas ou um capítulo obscuro do ocultismo. Foi uma verdadeira filosofia natural operativa, uma sabedoria antiga reavivada, onde a erudição dialogava com o empirismo nascente. Da Antiguidade mítica dos sacerdotes egípcios até aos gabinetes de curiosidades dos sábios barrocos, passando pelas cortes do Renascimento fascinadas pela astrologia, a magia natural teceu um fio condutor: o do maravilhamento ativo perante a natureza. Recusando o desprezo fácil por este saber dos antigos, adotámos aqui uma postura empenhada para dar voz a esses magos-filósofos. As suas especulações sobre a alma do mundo, os seus talismãs gravados com símbolos, as suas destilações em banho-maria e os seus cálculos astrológicos não eram simples superstições, mas formavam um sistema coerente visando decifrar a criação. Ao prestar homenagem a esta tradição, percebe-se que constituiu um dos solos da revolução científica: ao querer desvendar os segredos ocultos da natureza, os adeptos da magia naturalis prepararam as mentes para a ideia de que a natureza obedece a leis e que o homem pode tornar-se o seu intérprete e mestre. Como afirmava Pico della Mirandola, a dignidade do homem é precisamente poder abraçar pelo seu espírito a totalidade da criação, desde as realidades materiais até às verdades celestes. A magia natural, no seu tempo, foi a expressão dessa dignidade e dessa sede de conhecimento total. Ainda hoje, ao ler os escritos de Ficino, Agrippa ou Della Porta, somos impressionados pela modernidade da sua ambição: compreender o mundo em profundidade, sem excluir o maravilhoso. É por isso que a magia naturalis permanece um objeto de estudo cativante para historiadores da ciência e filósofos – lembrando que a fronteira entre magia e ciência foi durante muito tempo porosa, e que foi do antigo «laboratório de magia» que nasceu o laboratório científico. Em última análise, a magia natural aparece como um saber ao mesmo tempo poético e pré-científico, uma homenagem aos poderes ocultos da natureza. Ilustra uma época em que se acreditava que o conhecimento, longe de dissipar o encantamento do mundo, podia antes exaltá-lo ao revelar a harmonia secreta do universo – uma época em que estudar a natureza era ao mesmo tempo um ato de fé, de arte e de ciência.
















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