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1. A resina de Olíbano (frankincense) |
As resinas de incenso como o olíbano, o benjoim, o copal, a mirra e o estoraque são usadas há milénios em práticas religiosas e esotéricas. Cada uma possui propriedades mágicas que variam conforme as tradições. Apresentação.
1. A resina de Olíbano (frankincense)
1.1. Origem botânica
O olíbano, comumente chamado apenas de «incenso», é uma goma-resina aromática extraída da árvore Boswellia. Principalmente, utiliza-se o Boswellia sacra (sinónimo B. carterii), uma pequena árvore originária do Dhofar (sul do Omã). Também se encontra na Somália, no Iémen e no norte da Índia (onde cresce o Boswellia serrata). As Boswellia pertencem à família das Burseráceas. Por incisão na casca, a árvore exsuda «lágrimas» de resina esbranquiçada que endurecem ao ar livre e são colhidas após algumas semanas. O olíbano é conhecido desde a Antiguidade pelo seu perfume sagrado e foi um dos três presentes oferecidos ao menino Jesus segundo a tradição bíblica (juntamente com o ouro e a mirra).

1.2. Propriedades mágicas na magia cabalística
Na mística hebraica e na magia cabalística ocidental, o olíbano é considerado uma resina sagrada associada às mais altas esferas espirituais. Em hebraico, é chamado lebonah e faz parte da fórmula do incenso do Templo de Jerusalém na Bíblia, onde é qualificado como «muito santo». Os ocultistas da tradição cabalística hermética associam-no frequentemente à Esfera do Sol (Séfira Tiphereth) pela sua natureza luminosa e real.
De facto, o olíbano é descrito como incenso solar, portador de ondas espirituais elevadas. O seu correspondente planetário é o Sol em várias correspondências ocultas, e o seu elemento é o Fogo purificador. Queimar olíbano é visto como um meio de elevar a alma ao divino: diz-se que a sua fumaça sobe diretamente para o céu para levar as orações. Assim, cabalistas e magos utilizam-no para consagrar o espaço ritual e invocar as energias divinas (note-se que uma escola cabalística, a do Ari Luria, associa mesmo o olíbano à séfira oculta Da’at, o «ponto de conhecimento» místico, o que sublinha o seu papel de ponte entre o mundo material e o espiritual).
1.3. Na magia europeia medieval e renascentista
Na Europa, o incenso de olíbano sempre foi valorizado nos rituais religiosos e mágicos. A Igreja Católica usa-o no turíbulo para abençoar e purificar os locais e afastar influências maléficas – um uso herdado dos ritos antigos. Os grimórios medievais e renascentistas atribuem-lhe virtudes de purificação e consagração. A tradição astrológica reforça a associação do olíbano ao Sol: segundo as correspondências planetárias relatadas por Cornelius Agrippa, o incenso do Sol é o incenso franco (olíbano). Queimar olíbano num domingo (dia solar) durante uma conjuração atrai as forças solares benéficas (iluminação, sucesso) e agrada às entidades benevolentes. Por outro lado, o seu aroma poderoso também servia para afastar os maus espíritos: muitos exorcismos medievais recomendam a fumigação com incenso benzido. Na Clavícula de Salomão e noutros grimórios, encontra-se o olíbano nas receitas de « incenso pontifical » ou incensos planetários – misturado com mirra, benjoim ou estoraque – para criar sufumações específicas para cada operação. Assim, na magia salomónica, o olíbano é um ingrediente padrão do « incenso de arte » usado quase universalmente para santificar círculos e instrumentos mágicos.
1.4. Propriedades na Wicca e magia neopagã
Na Wicca, o olíbano é considerado como o incenso universal por excelência. Corresponde ao elemento Fogo e ao Sol, e atribuem-lhe o poder de elevar as vibrações espirituais, purificar a atmosfera e consagrar objetos ou locais rituais. As suas propriedades mágicas listadas nas obras wiccanas incluem proteção, exorcismo (afastar energias negativas), purificação e aumento da espiritualidade. Diz-se que a sua fumaça emite vibrações poderosas que elevam a alma e afastam todo o mal. Os praticantes acendem-no para consagrar o círculo mágico, para limpar uma casa de influências nefastas, ou ainda para facilitar a meditação e induzir visões místicas. O olíbano entra em muitas misturas de incenso wiccanas, e Scott Cunningham nota que pode ser substituído por copal ou resina de pinho em caso de necessidade (prova de que o seu papel purificador é considerado comparável a outras resinas aromáticas). Em suma, para as bruxas e magos neopagãos, é um incenso versátil de alta vibração, simbolizando a luz divina.
1.5. Uso no Hoodoo (conjura afro-americana)
No Hoodoo – tradição mágica afro-americana influenciada pelo cristianismo – o olíbano ocupa um lugar de destaque como incenso bíblico sagrado. O seu uso remonta à influência conjunta das práticas cristãs (igreja batista, catolicismo) e dos « livros de segredos » europeus introduzidos na cultura afro-americana. Queima-se ao mesmo tempo que a recitação de salmos, para sanctificar o lar ou o altar e levar as orações a Deus. O incenso de olíbano (combinado com a mirra) é visto como uma oferta a Deus e aos santos – nomeadamente, durante vigílias de oração ou para acompanhar as velas de novena. Catherine Yronwode indica que o olíbano é usado sobre brasas “durante cultos espirituais, como recomendado na Bíblia”. No culto do Hoodoo, encontra-se também a ideia de que o olíbano atrai fortuna e bênçãos: levar alguns grãos de incenso consigo ou deixar queimar traz sorte e sucesso nos negócios. Além disso, misturado com outros ingredientes, serve para confeccionar incensos de condição (incensos de sucesso ou de atração de dinheiro) devido ao seu poder de amplificação positiva reconhecido.
1.6. Na Santería e tradições afro-caribenhas
Na Santería (região caribenha, derivada da religião Yoruba misturada com o catolicismo) e em algumas práticas do vodu, o incenso olíbano não era tradicionalmente usado pelos africanos do Oeste (os rituais Yoruba originais privilegiam oferendas de comida, ervas ou madeiras aromáticas locais). No entanto, com o sincretismo católico, o olíbano tornou-se uma oferta aromática adotada em muitos rituais afro-caribenhos. Por exemplo, na Santería cubana, associa-se o olíbano a Obatalá (deus criador do panteão Yoruba, assimilado a Cristo ou à Virgem) devido ao seu caráter solar e puro. Queimar incenso branco no altar de Obatalá é visto como uma demonstração de respeito e um meio de purificar o espaço para esta divindade da pureza.
Da mesma forma, durante as missas vodu (mistura de liturgia católica e culto dos loa), por vezes queima-se o turíbulo da igreja cheio de olíbano para santificar a assembleia e honrar os espíritos como se faria para os santos cristãos. No vodu haitiano, alguns houngans usam olíbano (chamado lá « tieno » ou simplesmente incenso) para os ritos ligados aos mistérios Rada (mais benevolentes), ou para cerimónias fúnebres para acalmar os espíritos dos mortos. Na própria África, o olíbano é conhecido na Chifre de África (Etiópia, Somália) para usos medicinais e rituais locais, mas na África Ocidental era desconhecido antes da época colonial. Hoje, contudo, através da Igreja ou das lojas esotéricas, encontra-se nos altares vodu ou candomblé como incenso de purificação universal. Não há grandes contradições de uma tradição para outra quanto ao olíbano: praticamente todas o veem como um agente de purificação sagrada, um « cheiro de santidade » que agrada às divindades e dissipa o mal. Neste sentido, pode-se falar – como faz um autor contemporâneo – de resina « universal » que liga todas as religiões.
2. A resina de Benjoim (Benzoin)
2.1. Origem botânica
O benjoim (goma benjoim) é a resina aromática proveniente de várias árvores do género Styrax. Duas espécies asiáticas são principalmente exploradas: Styrax tonkinensis (benjoim do Sião, originário da Indochina – Laos, Vietname) e Styrax benzoin (benjoim de Sumatra, Indonésia). Estas árvores da família das Estiracáceas produzem uma oleorresina balsâmica que se obtém ao incisar a casca. Historicamente, outra espécie mediterrânica, Styrax officinalis (chamada aliboufier), fornecia um bálsamo chamado storax sólido. De facto, o benjoim foi frequentemente confundido com o storax: antigamente, o termo storax designava o benjoim importado do Oriente. Por exemplo, o « storax negro » do comércio é na realidade benjoim de Sumatra oxidado, com aspeto escuro. O nome benjoim vem do árabe lubān jāwī (« incenso de Java »), recordando a sua origem indonésia. Esta resina com cheiro doce a baunilha é usada tanto em perfumaria como em incenso.

2.2. Correspondências na magia cabalística e ocultismo ocidental
O benjoim não aparece na Bíblia nem na cabala judaica tradicional (era desconhecido no Próximo Oriente), mas os esotéricos ocidentais integraram-no nas suas correspondências planetárias desde o final da Idade Média. Curiosamente, as fontes divergem quanto à sua atribuição: Agrippa (século XVI) classifica o estoraque/benjoim sob a égide de Júpiter (provavelmente devido ao seu perfume exaltante e à sua capacidade de «amplificar» os outros ingredientes, qualidades consideradas joviais).
Por outro lado, a tradição hermética mais tardia (Golden Dawn, etc.) tende a associá-lo a Mercúrio: nas receitas modernas de incensos planetários, o estoraque é um dos incensos típicos de Mercúrio. Esta associação mercuriana baseia-se no seu aroma vivo e na rapidez com que a sua fumaça atua sobre o espírito (Mercúrio sendo o planeta do ar e do intelecto). Noutros quadros, relaciona-se com o Sol – a corrente wicca considera-o masculino solar. Na cabala hermética, o benjoim corresponde à séfira Hod (Mercúrio) ou Tiphereth (Sol), consoante os autores. Seja como for, todos concordam no seu poder de purificação e de «porta-voz»: serve para elevar as intenções e reforçar o efeito das orações ou feitiços. Assim, Eliphas Lévi e outros ocultistas do século XIX viam no benjoim um incenso do Ar, capaz de elevar as vibrações mentais e espirituais durante invocações angélicas ou trabalhos de conhecimento.
2.3. Na magia europeia (Idade Média – Renascimento)
O benjoim só chegou à Europa no final da Idade Média através das rotas comerciais com o Sudeste Asiático. Os alquimistas e magos do Renascimento adotaram-no rapidamente pelas suas propriedades fumígenas agradáveis. Encontra-se em várias receitas de sufumações dessa época: o «incenso da Lua» do Heptaméron de Pierre d’Abano (século XIII) usa cânfora e mirra, mas versões posteriores substituem por vezes esses ingredientes por benjoim, sinal de que estava a ganhar popularidade.
Os manuscritos mágicos tardios (séculos XVII - XVIII) mencionam o benjoim/estoraque em misturas destinadas a evocar espíritos ou consagrar talismãs. A sua fumaça suave cria uma atmosfera propícia ao relaxamento psíquico e à visão. Um texto moderno resume que o estoraque (benjoim) era «requerido em muitas receitas medievais e antigas», nomeadamente para acalmar, relaxar e favorecer o sono, mas também que se queimava para proteger contra influências negativas. Esta dualidade é interessante: por um lado, o benjoim acalma (usava-se mesmo como sedativo leve ou para insónias), por outro serve de escudo aromático contra a maldade. Os antigos também o apreciavam na magia amorosa: o seu perfume baunilhado é sensual, «inspirando o amor» – vê-se incluído em receitas de filtros ou unguentos destinados a suscitar afeição.
2.4. Propriedades mágicas na Wicca
A Wicca e a magia contemporânea consideram o benjoim como um ingrediente básico na incensaria, nomeadamente pelas suas virtudes purificadoras e amplificadoras. Queimado sozinho, o benjoim liberta um aroma balsâmico que abençoa e clareia o espaço, afastando energias negativas e atraindo vibrações positivas. É também um incenso de prosperidade e abundância: está presente em muitos rituais para aumentar a riqueza ou o sucesso. Além disso, reconhece-se ao benjoim o poder de amplificar a potência das outras ervas com que é combinado. Os feiticeiros usam-no assim como um «impulsionador» nas misturas: uma pitada de benjoim num incenso ritual aumenta a força e o alcance mágico. Cunningham indica também que o benjoim (que classifica como resina solar de Ar) é excelente para criar um clima psíquico propício à meditação e à concentração.
Está associado ao chakra do plexo solar (centro do poder pessoal) e a divindades solares como Rá ou Apolo, o que realça o seu carácter radiante e benéfico. Na prática, os Wiccanos usam-no para purificar objetos rituais (por fumigação ou como ingrediente em óleo de consagração), para consagrar círculos, para atrair sorte e até em feitiços de amor (a sua suavidade favorece as energias afetivas). O benjoim é frequentemente recomendado como substituto em receitas de incenso quando não se tem determinada resina, prova da sua versatilidade. A sua correspondência elementar (Ar) faz dele um incenso ligado ao leste e à aurora, usado para dispersar a negatividade como um vento fresco e levar as invocações para o céu.
2.5. Usos no Hoodoo
No Hoodoo afro-americano, o benjoim é valorizado para atrair sorte e paz ao lar. Um ditado deste folclore afirma que queimar benjoim sobre uma brasa ardente traz sorte e tranquilidade de espírito. De facto, a « paz mental » conferida pelo seu aroma calmante é útil após discussões ou para acalmar uma casa perturbada. O benjoim é assim um ingrediente frequente das misturas de incenso de condição como Peaceful Home (lar pacífico) ou Money Drawing (atrai-dinheiro): purifica a atmosfera enquanto injeta uma vibração de prosperidade. Nas receitas hoodoo tradicionais, mistura-se com olíbano e outras resinas: o « incenso de igreja » combina olíbano, mirra e benjoim para recriar o incenso litúrgico chamado Pontifical (usado para benzer).
No entanto, o benjoim nem sempre é distinguido do estoraque nestas práticas – os dois termos por vezes confundem-se. Também se nota que o pó de benjoim entrava como fixador em muitas preparações de pós para traçar e óleos hoodoo, prova do seu papel como suporte mágico. De modo geral, os praticantes de conjure veem o benjoim como uma resina « porta-sorte »: traz uma bênção suave para a casa (calma, entendimento) e « dá força » aos trabalhos ocultos (como um adjuvante energético). É portanto um incenso de base, que se usa continuamente para manter uma atmosfera espiritualmente saudável e favorável.
2.6. Na Santería e nas tradições africanas
O benjoim não é de uso tradicional na religião Ifá dos Yoruba nem no culto vodu original – essas culturas não tinham acesso a esta resina asiática. Além disso, os seus rituais focam-se menos nas fumigações com resinas do que nas plantas locais (folhas, madeira,...). Hoje em dia, nos círculos de Santería ou de Palo Monte em Cuba, pode eventualmente encontrar benjoim nas lojas esotéricas, mas o seu uso continua a ser secundário comparado com o olíbano ou a mirra. Se é usado, é geralmente sob a influência da magia cerimonial ou wiccana, para os mesmos fins de purificação e sorte. Um santero cubano pode adicionar benjoim num incenso oferecido à Virgem da Caridade (sincretismo de Oshún) para reforçar o amor e a prosperidade da casa, mas não é um costume afro-cubano comprovado de longa data.
Da mesma forma, no Benim ou na Nigéria, o benjoim é quase desconhecido fora dos meios esotéricos modernizados. Pode considerar-se que as tradições africanas não atribuem simbolismo próprio ao benjoim, exceto aquele importado do mundo ocidental: um incenso exótico apreciado pelo seu aroma agradável e pelo seu poder purificador. Não se destaca aqui nenhuma contradição maior, exceto a ausência deste componente nos sistemas africanos clássicos. Onde é adotado (América, Europa), encontra-se um consenso sobre as suas propriedades: purificação, amplificação, atração da sorte. A única nuance é que a tradição hoodoo insiste um pouco mais no seu aspeto de amuleto diário, enquanto a tradição esotérica europeia o considera um ingrediente mais «cosmético» (perfume espiritual) e a Wicca um incenso solar de riqueza. Estas diferenças são, no entanto, mais de grau do que de natureza.
3. A resina de Copal
3.1. Origem botânica
O copal não é uma espécie botânica única, mas um termo genérico que designa várias resinas recolhidas em árvores tropicais, especialmente na América. A palavra vem do nahuatl copalli, que significa «incenso». O copal usado como incenso provém principalmente da família das Burséraceas (a mesma do olíbano e da mirra): o Bursera bipinnata (copal branco do México) e o Bursera copallifera são árvores nativas do México que produzem um copal muito perfumado. Distinguem-se vários tipos: copal oro (dourado), copal blanco (branco), copal negro (preto), conforme a espécie e a qualidade. De modo geral, estas árvores crescem na Mesoamérica (México, Guatemala, Honduras) assim como na Amazónia (existem outras resinas semelhantes na América do Sul sob o nome de copal do Brasil,...). O copal pode também designar resinas semi-fósseis do Leste de África (copal de Omã ou de Zanzibar, provenientes de Hymenaea), mas no contexto esotérico, refere-se mais frequentemente ao copal da América Central. Este copal ameríndio é recolhido por incisão do tronco; a resina que escorre é mais mole que o olíbano, pegajosa, e endurece numa massa amarelada translúcida. As civilizações pré-colombianas (Maias, Astecas) fizeram dele um incenso cerimonial fundamental, tal como o olíbano era no Oriente.

3.2. Lugar na magia cabalística e ocidental
Sendo um incenso do Novo Mundo, o copal está ausente das fontes cabalísticas ou grimórios ocidentais clássicos. No entanto, a magia cerimonial moderna integrou-o por analogia com o olíbano. Alguns ocultistas consideram, de facto, o copal como um equivalente do incenso frankincense: pertence à mesma família botânica e liberta uma fumaça igualmente purificadora e sagrada. Nas correspondências da Golden Dawn ou da Wicca, admite-se facilmente que se pode substituir o olíbano por copal. Assim, Scott Cunningham nota que o copal pode substituir o incenso olíbano nas receitas, o que mostra que lhe são atribuídas virtudes comparáveis. Sinal dessa assimilação, o copal é por vezes também associado ao elemento Fogo e ao Sol no Ocidente.
No entanto, não aparece explicitamente nos textos cabalísticos ou astrológicos antigos. Pode dizer-se que na cabala hermética contemporânea, o copal herda simplesmente os atributos solares/purificadores do olíbano, sem simbologia específica adicional. É usado para os mesmos fins: consagração, elevação espiritual, oração. Um cabalista moderno pode queimar copal durante um rito planetário do Sol ou para invocar um arcanjo solar na ausência de olíbano, e considerará que o efeito vibratório é equivalente (alguns até estimam que o copal da América, sendo « novo » na tradição ocidental, traz uma energia fresca e poderosa).
3.3. Na magia europeia histórica
As magias medievais e renascentistas europeias não conheciam o copal, que só foi importado após a descoberta das Américas. Por isso, não o encontramos nos grimórios clássicos. Só no século XIX, com o interesse pelas tradições exóticas, é que o copal foi mencionado por alguns ocultistas franceses ou ingleses intrigados pelos incensos pré-colombianos. Éliphas Lévi refere a « goma copal » entre os incensos com propriedades purificadoras nas suas correspondências, mas isso é marginal em comparação com o uso de olíbano ou benjoim. Na Europa, o copal serviu sobretudo para vernizes e lacas (pois ao aquecer forma um verniz) mais do que como incenso litúrgico. No entanto, relata-se que já no século XVI, os missionários franciscanos na Nova Espanha enviaram copal para Roma, onde foi usado pontualmente em missas para testar este novo incenso « indiano ». Na falta de fontes esotéricas antigas sobre o copal na Europa, pode concluir-se que o seu uso mágico histórico é nulo. Qualquer incorporação do copal nos rituais europeus é, portanto, um fenómeno moderno, devido à troca cultural.
3.4. Propriedades mágicas na Wicca e no paganismo moderno
O copal foi plenamente adotado pelos praticantes neo-pagãos modernos que o consideram um incenso altamente purificador e espiritual. Na Wicca, é por vezes chamado de «incenso dos Maias» e é usado para limpar as energias negativas e consagrar o espaço sagrado, um pouco como a sálvia branca ou o olíbano. Quando queima, o copal liberta uma fumaça com um aroma doce, resinoso e cítrico, que é percebida como calmante, revigorante e propícia à conexão com o divino.
Os bruxos modernos notam que o copal cria uma forte sensação de transe tranquilo: ideal para acompanhar a meditação, o yoga ou qualquer ritual que exija uma consciência clara. As suas virtudes mágicas amplamente reconhecidas incluem: a purificação (ele «limpa» locais, objetos e auras, afastando entidades ou energias nocivas), a elevação da consciência (ajuda a conectar-se com guias espirituais, ancestrais e planos superiores), a melhoria da concentração (o seu aroma ancora no momento presente e acalma a mente), assim como a cura energética (atribui-se-lhe efeitos benéficos no plano emocional, ajudando a restaurar o equilíbrio interior). Nos círculos Wicca, é comum queimar copal durante os sabás de outono (nomeadamente no Samhain, a festa dos mortos) para honrar os ancestrais ameríndios ou simplesmente para abrir um espaço sagrado protegido antes dos rituais. Além disso, devido à sua forte ligação cultural com as civilizações pré-cristãs da América, o copal é por vezes usado para invocar as energias da terra, da natureza virgem ou das divindades indígenas. Um ritual neo-xamânico para a cura pode queimar copal em oferenda às quatro direções e aos espíritos da floresta tropical. Em suma, a Wicca e o neo-paganismo valorizam o copal como uma resina sagrada «nova», purificadora como o olíbano mas com uma «assinatura» energética própria ligada à terra mesoamericana.
3.5. Usos no Hoodoo e no folclore latino-americano
No Hoodoo afro-americano clássico, o copal não faz parte dos incensos tradicionais (mais uma vez, chegou tardiamente). No entanto, no século XX, a influência da botanica latino-caribenha nos Estados Unidos introduziu o copal nos catálogos esotéricos. Atualmente, algumas lojas de conjuração oferecem copal aos clientes mexico-americanos ou mestiços, e os praticantes de Hoodoo podem usá-lo conscientemente. Os folcloristas descrevem-no como « o incenso sagrado dos índios maias da América Central ». Por isso, o copal é visto como um incenso poderoso para oferecer aos espíritos indígenas e limpar os feitiços. Um praticante de Hoodoo poderia, por exemplo, queimar copal para purificar uma casa assombrada, invocando os espíritos ameríndios protetores do local. Também o encontramos em algumas misturas espirituais modernas: por exemplo, uma fórmula de purificação muito apreciada combina cânfora, resina de pinho e copal para afastar o mal. Na tradição mexicana (curanderismo), o copal está omnipresente: queima-se durante o Día de los Muertos (festa dos mortos) nos altares familiares para guiar as almas dos falecidos pelo seu aroma. Este conhecimento foi transmitido às comunidades chicano/tex-mex, que o integraram nas suas práticas mágicas: assim, um feiticeiro da fronteira poderá recomendar copal para limpar uma pessoa do « mau-olhado » ou para atrair abundância (associando-o, por exemplo, a uma oração à Virgem de Guadalupe).
3.6. Na Santería e nas tradições afro-caribenhas
Os sistemas religiosos afro-caribenhos de origem iorubá (Santería em Cuba, Candomblé no Brasil) ou fon (Vaudou no Haiti) não tinham copal no seu repertório ritual tradicional. De facto, o copal é próprio das culturas da América Central e não cresce nas Caraíbas. No entanto, existem zonas de sincretismo entre cultos afro e cultos indígenas, nomeadamente em países como o México, a Guatemala ou mesmo a Venezuela. Nestes contextos, o copal pode ter sido integrado nos rituais de algumas comunidades garífuna ou afro-maias. Por exemplo, no México, encontram-se brujos (feiticeiros) que misturam magia afro-cubana e xamanismo maia: eles utilizam o « copal pom » (copal maia) em oferenda não aos orixás africanos, mas aos espíritos da natureza e aos ancestrais locais, antes de proceder às invocações de divindades africanas. Contudo, isto permanece bastante localizado. Na Santería cubana ou no Vaudou haitiano puro, o copal continua quase inexistente ritualmente – prefere-se a tradição católica (incenso de igreja à base de olíbano) para os raros usos de incenso. No entanto, com a difusão dos produtos esotéricos, por vezes aparece copal nos altares vaudou modernos como incenso « exótico » para experimentar novas vibrações.
Um sacerdote vodu poderia, por curiosidade, queimar copal para honrar um loa ligado à terra ou à floresta (por analogia com os deuses maias da natureza), mas isso seria uma inovação pessoal. Assim, nas tradições africanas e afro-caribenhas, não se nota uma simbologia codificada do copal: se é usado, é por empréstimo das práticas indígenas mesoamericanas, com as quais mantém o seu sentido original (purificação, oferta aos deuses da terra e aos ancestrais). Não se observam contradições flagrantes entre tradições sobre o copal: onde quer que seja usado, é para purificar, consagrar e conectar o mundo humano ao mundo divino. A única diferença é a importância central que tem entre os Maias/Astecas (incenso por excelência do sangue e dos deuses), enquanto permanece secundário ou opcional nos sistemas importados (ocidentais ou afro). No Ocidente, vê-se como um substituto do olíbano; na América indígena, é um pilar do culto. Este contraste cultural é notável, mas não constitui uma contradição de interpretação – antes uma variação de uso devido ao contexto geográfico.
4. A resina de Mirra
4.1. Origem botânica
A mirra é uma goma-resina aromática obtida do tronco de algumas pequenas árvores espinhosas do género Commiphora, em particular Commiphora myrrha. A «árvore da mirra» ou balsâmico é originária das regiões áridas do Chifre de África e da península Arábica. Encontra-se principalmente na Somália, Etiópia, Djibuti, no Iémen e no sul da Arábia Saudita. É um arbusto de cerca de 3 metros, com tronco nodoso coberto de espinhos, cuja casca é cortada para recolher a resina que escorre em «lágrimas» amarelo-acastanhadas quando secas. A mirra já era reputada na Antiguidade: usada pelos egípcios para embalsamar, mencionada na Bíblia (um dos três presentes dos Magos) e em muitos rituais. O seu nome vem do hebraico môr (amargura), refletindo o seu sabor muito amargo. Existem diferentes variedades de mirra; a mais conhecida é a mirra dita amarga (Commiphora myrrha), mas distingue-se também a mirra doce dita opoponax. Aqui, falaremos da mirra amarga clássica.

4.2. Propriedades na magia cabalística e simbolismo hermético
A mirra tem um simbolismo profundo ligado à noção de sacrifício, sabedoria dolorosa e feminilidade mística. Na Cabala, associa-se a mirra à Séphira Binah (a Compreensão, princípio da Mãe divina). De facto, Binah é a esfera da Avó (Imma) que compreende a dor do mundo; e a mirra, pela sua amargura e uso funerário, representa o sofrimento sagrado. Um texto esotérico afirma que «a mirra é sagrada para a Grande Mãe, seja chamada Maria, Ísis ou Binah». Assim, queimar mirra na cabala é invocar a energia da Mãe das Dores, aquela que consola os aflitos e preside ao mistério da morte e do renascimento espiritual. A mirra também está presente na Bíblia como componente do óleo santo de unção (Êxodo 30:23) – misturava-se com outras especiarias para consagrar os sacerdotes e os objetos do Templo. Cabalisticamente, pode ser vista como um símbolo de severidade suavizada (Binah estando ligada à Severidade Saturnina): a mirra, amarga, é temperada pela doçura da canela e do casca no óleo de unção, refletindo o equilíbrio dos atributos divinos. Por outro lado, algumas correspondências planetárias herméticas atribuem a mirra a Saturno, planeta da morte, do tempo e dos limites. Isto é coerente com o seu papel na embalsamação dos mortos e a sua associação a Binah-Saturno. Outros autores também a ligam à Lua (pelo seu perfume branco e uso pelas deusas lunares) ou mesmo a Marte (por causa da sua cor escura e propriedades antissépticas nas feridas, usada pelos soldados gregos). No entanto, a maioria dos cabalistas modernos a coloca sob a Lua (e a água) como incenso da Deusa Negra, aspecto sombrio da lua.
4.3. Na magia europeia (Antiguidade, Idade Média, Renascença)
A mirra ocupa um lugar importante na história mágica e religiosa do Mediterrâneo. Os antigos egípcios consideravam-na o «óleo das múmias»: fazia parte da mistura de embalsamamento para purificar e proteger o corpo dos falecidos. Segundo Plutarco, os sacerdotes egípcios queimavam mirra ao meio-dia em homenagem ao sol Rá (olíbano ao amanhecer, mirra ao meio-dia, kyphi à noite), o que a torna um incenso solar neste contexto. Os gregos e romanos usavam-na em perfumaria sagrada e médica (unguentos para tratar feridas). No Novo Testamento, a mirra simboliza o sofrimento redentor: oferecida a Jesus no seu nascimento, depois misturada com vinho na cruz (Marcos 15:23) e finalmente usada para embalsamar o seu corpo no túmulo. Esta carga simbólica não passou despercebida aos monges e magos medievais: a mirra é vista como o incenso da morte sagrada e da devoção. Nos rituais cristãos medievais, queimava-se durante as cerimónias da Paixão e dos funerais em mistura com o olíbano. Os grimórios medievais prescrevem-na frequentemente ao lado do incenso: por exemplo, uma receita de incenso para consagrar uma espada mágica aconselha combinar «incenso masculino (olíbano) e incenso feminino (mirra)» para equilibrar as forças.
A mirra era reputada por poder banir os espíritos impuros quando combinada com o olíbano – de forma semelhante a como a Igreja usa o incenso pontifical. Cornelius Agrippa indica que a mirra, de natureza fria e seca, pertence às influências saturninas; aliás, uma receita antiga citada por ele para Saturno inclui olíbano e mirra moídos juntos. Paradoxalmente, outros textos associam-na a Vénus pelo seu papel nos unguentos de amor (pois a mirra também era um afrodisíaco em algumas preparações orientais). Na magia medieval, encontra-se em filtros amorosos inspirados no Cântico dos Cânticos (onde a mirra é mencionada num contexto erótico, símbolo do feminino amado). Por exemplo, um remédio de amor medieval aconselhava usar um saquinho de mirra e rosa para se tornar irresistível – crença baseada no aroma embriagante da mirra.
Na Renascença, Paracelso e os spagyristas atribuem à mirra uma afinidade com a alma (Espírito) mais do que com o corpo, pelo facto de preservar os corpos mortos mas “volatilizar o espírito” pelo seu perfume. Usam-na em incenso durante operações de necromancia ou meditação sobre a morte. Vê-se assim um quadro complexo: a mirra na Europa é ora solar (incenso do Deus-Sol ao meio-dia), ora saturnina (pelo seu vínculo à morte e aos enterramentos), ora vénusiana/lunar (pelo seu vínculo à Deusa mãe e aos perfumes de amor). Esta multiplicidade pode ter levado a interpretações contraditórias segundo os autores. No entanto, todos concordam no seu caráter sagrado, solene e ligado aos mistérios. Considerava-se um incenso mais introvertido e “subterrâneo” do que o olíbano: se o olíbano eleva diretamente a oração para o Céu, a mirra, ela, abre a porta do inconsciente e do mundo dos antepassados.
4.4. Virtudes na Wicca e magia contemporânea
A Wicca e as tradições esotéricas modernas sintetizaram estas atribuições para descrever a mirra como uma resina com energia feminina, lunar e saturnina. Scott Cunningham classifica-a como planta da Lua (Lua negra) e secundariamente de Saturno, enfatizando a sua história fortemente ligada ao feminino sagrado. Assim, na Wicca, a mirra é usada para honrar a Deusa nos seus aspetos de Sabedoria e Morte (por exemplo, a Deusa sombria Hécate ou a Virgem Maria em luto). Queima-se frequentemente em mistura com o olíbano – esta combinação clássica olíbano-mirra simboliza o Deus e a Deusa, ou o Sol e a Lua, em harmonia. A mirra sozinha é reputada por ter uma vibração muito introspectiva: usa-se para rituais de meditação profunda, cura interior e trabalho de luto. A sua fumaça espessa é propícia para entrar em estado modificado de consciência, razão pela qual muitos bruxos a queimam para comunicar com os espíritos dos antepassados ou os falecidos (mirra = ponte para o Além). Um artigo wiccano nota que a mirra “conduz a uma meditação rica e gratificante, especialmente voltada para a introspeção.
Serve para curar mágoas pessoais e para se conectar com os mortos e o mundo subterrâneo”. Encontra-se nos rituais de Samhain (festa dos Mortos) por esta razão. Além disso, a mirra possui também um aspeto de proteção e de purificação complementar ao olíbano: a sua natureza antisséptica a nível físico é transposta a nível esotérico num poder de afastar influências negativas e selar a aura. Por isso, os Wiccanos usam-na para purificar as ferramentas mágicas, consagrar os círculos (sobretudo sob a Lua minguante), e proteger-se contra ataques psíquicos. Menos frequentemente, a mirra é integrada em misturas para sonhos ou astral: alguns queimam-na antes de dormir para induzir sonhos proféticos ou viagens astrais, especialmente em combinação com camomila ou hortelã (isto relacionado com o seu efeito calmante da mente).
Emocionalmente, a mirra é conhecida por « abrir a alma para deixar ir a dor » – por vezes aconselha-se queimá-la após uma separação ou um luto para ajudar a libertar a tristeza e reencontrar a paz. Note-se que a Wicca também valoriza a mirra para trabalhos mais luminosos: mistura de olíbano-mirra-canela para abençoar um novo projeto, por exemplo, onde a mirra representa a sabedoria e a proteção em torno do projeto. Vemos assim que, na magia moderna, a mirra continua a ser uma resina versátil mas orientada para o espiritual profundo, a cura da alma e a proteção psíquica, em vez de pedidos materiais. A sua dualidade Sol/Lua é por vezes mencionada: alguns sentem-na muito solar (energia de Rá, vitalidade mística) enquanto outros a percebem lunática e sombria; esta ambiguidade ecoa as diferentes energias entrelaçadas nela, como diz um autor: « A mirra é um perfume complexo com múltiplas energias ligadas. Este tesouro antigo recusa ser catalogado de uma única forma ». Esta constatação ilustra bem as interpretações variadas que lhe são atribuídas – mas que não são necessariamente contraditórias, apenas multifacetadas.
4.5. Uso no Hoodoo
No Hoodoo afro-americano, a mirra é, tal como o olíbano, um incenso bíblico sagrado integrado nas práticas através da Igreja. É quase sempre usada em combinação com o olíbano nos incensos espirituais. Um catálogo hoodoo indica assim: « Normalmente queimada com olíbano, para cura, purificação, romance e amor ». Esta frase surpreende porque associa a mirra ao romance e ao amor – uma faceta menos conhecida mas que provavelmente provém do Cântico dos Cânticos onde a mirra simboliza o amor sensual (a amada diz: « O meu amado é para mim um saquinho de mirra, que repousa entre os meus seios »). Assim, no folclore hoodoo, queimar olíbano e mirra juntos serve não só para purificar um local e elevar uma oração, mas também pode ser usado em rituais de reconciliação amorosa ou de cura das relações (daí as menções a « romance, love »). Na prática comum, os rootworkers preparam o “Three Kings Incense” (ou incenso dos Três Reis) misturando partes iguais de olíbano, mirra e por vezes benjoim, que queimam para abençoar uma habitação ou comércio – isso afasta influências negativas e atrai a bênção divina para o local. Para a purificação pessoal, pode-se “lavar-se” na fumaça de um incenso de mirra e olíbano enquanto se recita um salmo, para se livrar de um mau-olhado ou tristeza. A mirra também é incluída nos mojo bags (gris-gris) ligados à saúde: um pequeno pedaço de resina adicionado às raízes medicinais para reforçar o efeito espiritual de cura. No plano da comunicação com os mortos, os praticantes hoodoo, muito cristãos, não praticam necromancia de forma « pagã », mas durante as missas dos mortos ou o Dia dos Mortos, podem queimar incenso de igreja (portanto contendo mirra) sobre os túmulos para honrar os antepassados – prática herdada do catolicismo. A mirra possui também um uso medicinal na farmacopéia hoodoo: reduzida a pó, serve para preparar um unguento para tratar cortes ou infeções (é um antisséptico) e considera-se que aplicá-la com oração acelera a cura espiritual da pessoa. Em resumo, no Hoodoo a mirra é vista como um incenso sacramental de alto poder protetor e curativo, frequentemente inseparável do olíbano. Se a Wicca a vê mais ligada à tristeza e ao mistério, o Hoodoo insiste mais no seu papel curativo e conciliador (curar as dores do corpo e do coração, restabelecer a harmonia). Não há realmente contradição, mas uma diferença de ênfase: onde um ocultista europeu vê a mirra como austera e funerária, um rootworker hoodoo vê-a sobretudo como um incenso de oração que traz paz (o que inclui a paz no casal, daí o amor). Estas diferenças provêm do contexto cultural: os conjure doctors incorporaram a mirra via a religião (como símbolo do amor divino e da cura de Jesus) em vez de via a mitologia pagã da Deusa chorosa.
4.6. Na Santería e no Vodu
A mirra, tal como o olíbano, não era utilizada pelos africanos do Oeste nos seus cultos de origem. No entanto, os sincretismos com o catolicismo introduziram-na no ritual afro-caribenho. Na Santería cubana, a mirra faz parte da composição do «incenso da Igreja» usado para purificar o templo (a casita) antes da misa espiritual ou das cerimónias onde se invocam os santos católicos associados aos orixás. Alguns reservam-na como oferenda à Virgem Maria (sincretismo de Obatalá ou de Oshún conforme o aspeto), pois a mirra está ligada à Virgem das Dores – imagem que corresponde a Yemayá no seu aspeto mater dolorosa. No Vodu haitiano, a mirra não é tradicionalmente queimada isoladamente, mas encontra-se o seu perfume no «incenso do Vaticano» por vezes usado pelos sacerdotes vodu quando incorporam elementos da missa católica. Durante os ritos para os Guédé (espíritos dos mortos) ou Baron Samedi, que decorrem frequentemente em torno do Dia de Todos os Santos, pode queimar-se uma resina perfumada (olíbano e mirra) no altar dos mortos para honrar esses espíritos num ambiente solene. É interessante notar que a mirra, amarga e ligada aos cemitérios, corresponde bem a loas como Maman Brigitte (a esposa de Baron Samedi, protetora das sepulturas) – embora nenhuma fonte tradicional mencione explicitamente «queimar mirra para Maman Brigitte», a associação simbólica é coerente (Maman Brigitte é sincretizada com Santa Brígida, e pode imaginar-se oferecer o incenso de mirra a esta santa). De uma forma geral, as tradições afro-caribenhas não desenvolveram correspondências próprias para a mirra: utilizam-na à maneira católica, ou seja, como incenso sagrado de oração e purificação, e eventualmente como símbolo de luto sagrado. Não existe, portanto, uma contradição interna forte – apenas uma transmissão de simbolismo. Verifica-se que algumas divergências de interpretação mencionadas acima (mirra solar vs lunar, etc.) são próprias das escolas ocidentais. Nas tradições africanas ou crioulas, essas subtilezas praticamente não existem: a mirra permanece uma substância sagrada, amarga como o sofrimento mas que santifica e protege, sem se discutir o seu planeta tutelar. Esta resina faz assim a ligação entre todas estas culturas, encarnando em todo o lado a ideia do sagrado misturado com a amargura da vida.
5. A resina de Storax (Styrax)
5.1. Origem botânica
O storax (também escrito styrax) designa uma resina balsâmica escura, originária de um arbusto mediterrânico chamado Styrax officinalis (família das Styracáceas). Este arbusto, que antigamente se encontrava no Levante (Síria, Palestina, Chipre), exsuda pela sua casca um bálsamo sólido chamado storax ou benjoim do Levante. No entanto, a maior parte do storax usado atualmente provém na realidade de outra árvore: o Liquidambar orientalis (família das Altingiáceas), também chamado Styrax líquido ou âmbar doce da Turquia. O Liquidambar orientalis é uma árvore da Turquia (região da Ásia Menor) que se incide para recolher uma resina líquida acastanhada conhecida como storax líquido. Uma espécie próxima, Liquidambar styraciflua, originária da América (do México aos Estados Unidos), produz um bálsamo semelhante. Comercialmente, distingue-se frequentemente o storax « verdadeiro » da Turquia (Liquidambar) do benjoim (Styrax da Ásia), mas ambos foram confundidos no passado. A resina de storax apresenta-se em massa castanho-escura viscosa ou sob a forma de concreções aromáticas acastanhadas. O seu cheiro é suave, balsâmico, com notas de baunilha e amêndoa amarga. Nota: também se fala de « styrax » para designar esta resina (styrax sendo o nome latino), o que mantém a confusão com o género botânico Styrax. Em resumo, o storax pode designar quer o bálsamo de Liquidambar (Ásia Menor, América) quer o bálsamo de Styrax officinal (Levante), este último praticamente abandonado hoje em dia.

5.2. Correspondências na cabala hermética e ocultismo ocidental
O storax ocupa um lugar interessante nas correspondências ocultas, pois foi atribuído a diferentes planetas segundo os autores. Agrippa indica-o como o incenso principal de Júpiter. De facto, na sua Philosophia Occulta, ele indica para Júpiter: « Storax, açafrão… » como fumigação apropriada, considerando provavelmente o seu aroma rico e « real ». Pelo contrário, a tradição mais tardia (Golden Dawn, etc.) usa o storax sobretudo para Mercúrio. Uma lista moderna de oferendas planetárias cita o storax entre os incensos mercurianos recomendados ao lado do mastique. Esta atribuição mercurial explica-se pela associação do storax ao elemento Ar e à estimulação mental rápida (qualidades mercuriais). Por outro lado, alguns ocultistas atribuem-lhe uma natureza lunar ou saturnina: a resina negra pegajosa evoca a Lua negra ou Saturno. Uma fonte esotérica contemporânea afirma assim que o storax tem associações planetárias com Mercúrio, Saturno e a Lua simultaneamente. Isto reflete provavelmente o facto de o storax acalmar a mente (Lua), proteger contra a negatividade (Saturno) ao mesmo tempo que tem um aspeto aromático volátil (Mercúrio). Na Cabala hermética, encontra-se o storax ligado a Yesod (Lua) ou a Hod (Mercúrio) conforme as fontes. Eliphas Lévi menciona o storax como componente de certas fumigações evocativas (sem especificar o planeta). A Golden Dawn usa-o no Incenso de Arte chamado « Abramelin » com olíbano e benjoim, o que o coloca mais do lado de Mercúrio (pois Abramelin refere-se a Mercúrio/Hermes). Seja como for, o storax é considerado um incenso de energia psíquica: tem a propriedade de favorecer estados de consciência alterados e a projeção astral. Autores modernos notam que se queima para induzir sonhos proféticos ou viagens da alma (qualidade lunar), elevando ao mesmo tempo o pensamento lógico (qualidade mercurial) e afastando o mal (qualidade saturnina). Esta versatilidade torna-o um pouco « camaleão » nas correspondências, o que pode parecer contraditório de uma fonte para outra. Mas, globalmente, na cabala/ocultismo ocidental, retém-se do storax que está ligado à esfera mental e astral, usado para acalmar, proteger e favorecer a magia intelectual e onírica.
5.3. Na magia europeia (Antiguidade, Idade Média)
O storax já era conhecido na antiguidade greco-romana. Os assírios e egípcios usavam-no em perfumaria: entre os egípcios, fazia parte da composição do Kyphi (incenso sagrado composto por múltiplos ingredientes). Os textos de Teofrasto e Dioscórides mencionam o storax (styrax) como um bálsamo precioso importado da Síria. Na Idade Média, a farmacologia árabe apreciava-o pelas suas virtudes medicinais (expectorante, calmante nervoso). No plano mágico, o storax aparece em muitas receitas de incenso medievais. Por exemplo, no Picatrix (grimório astrológico do século XIII), o storax está incluído nos incensos de Vénus como aroma doce que atrai o amor. Pelo contrário, o Liber Juratus (texto de magia angélica) usa-o para conjurações de sábado (aspecto mais sombrio). Na Europa, associava-se tradicionalmente à relaxação e ao sono: herbários medievais recomendam queimar storax à noite no quarto para dormir bem. Por extensão, serviu para facilitar os sonhos divinatórios – Hildegarde de Bingen menciona que o cheiro do storax «alegra o cérebro». No nível esotérico, o storax foi frequentemente usado em rituais de evocação de espíritos: pensava-se que a sua fumaça agradável agradaria às entidades e as incitaria a manifestar-se sem agressividade. A Goetia (Lemegeton) contém incensos onde o storax é combinado com lignaloés, olíbano,... para invocar determinado espírito aéreo. Além disso, na composição do famoso Incenso Pontifício, mistura eclesiástica para a igreja, encontra-se storax ao lado do olíbano, da mirra e do benjoim. Isso significa que a própria Igreja usava storax (pelo menos o storax officinalis, chamado storax em grão) para perfumar os seus turíbulos nas grandes missas – há registos desde o século XIII na Europa. Por este caminho, o storax adquiriu uma aura sagrada e protetora, estando misturado ao incenso benzido. Os magos cristãos medievais viam-no assim como um componente benéfico e protetor. Por exemplo, uma receita do Grimorium Verum para expulsar um espírito maligno prescreve queimar storax e salitre: o storax para a suavidade calmante, o salitre para o aspeto de expulsão. Esta mistura de papéis (suave vs expulsão) ilustra bem o uso do storax como calmante mágico – calmante para o operador (relaxa os medos) e calmante para os espíritos (acalma-os ou atrai-os positivamente). No século das Luzes, o storax continua presente nas receitas esotéricas, nomeadamente alquímicas (Paracelso usava-o em algumas destilações de quintessências) e teúrgicas. Em suma, na magia europeia pré-moderna, o storax é visto sobretudo como um incenso benéfico e profilático: acalma o espírito, inspira o amor sensual (por isso era usado em alguns encantamentos de sedução) e afasta as ondas negativas. É relativamente consensual, poucos escritos o criticam. A sua única complexidade está nas várias planetas a que se associa: Saturno (pela sua cor e uso noturno), Vénus (pelo seu perfume doce e erótico) ou Mercúrio (pelo seu efeito mental). Esta ambiguidade persistiu até aos dias de hoje.
5.4. Propriedades mágicas na Wicca e bruxaria moderna
Os bruxos contemporâneos utilizam com bastante frequência o storax (muitas vezes sob a forma de pó de benjoim de Sumatra chamado erroneamente storax). Na Wicca, considera-se uma resina ligada ao elemento Terra e com múltiplas influências planetárias (por vezes listado como incenso de Mercúrio ou da Lua). As suas principais virtudes mágicas são geralmente indicadas como: proteção, purificação das energias negativas, acalmar as emoções e favorecer experiências psíquicas. Diz-se que queimar storax em casa afasta a negatividade e equilibra as emoções, tal como se usaria sangue-de-dragão ou benjoim. Serve assim em rituais de banimento ou após uma discussão para restabelecer a harmonia vibratória. Ao mesmo tempo, o seu aroma doce é considerado sensual e propício ao amor: a tradição bruxa recomenda-o em incensos de paixão ou sedução. Por exemplo, um incenso wiccano para atrair o amor pode conter storax misturado com rosa e canela para « inspirar sentimentos amorosos » pela sua componente aromática. Além disso, muitos praticantes usam-no para sonhos proféticos e projeção astral: queima-se no quarto antes de dormir, por vezes em combinação com artemísia ou cânfora, para induzir sonhos claros ou facilitar uma saída astral suave. Esta prática vem do facto de o storax relaxar o corpo mantendo a mente alerta, condições ideais para o estado de transe. Algumas receitas de unguento voador (para o sabá) continham tradicionalmente storax, provavelmente pelo seu efeito sedativo leve e alucinatório olfativo. Na Wicca, encontra-se também em misturas ligadas à Lua: como substituto mais acessível da cânfora ou do sândalo, o storax é incluído em incensos de lua cheia para acentuar as energias psíquicas. Usa-se também em fumigações durante trabalhos de adivinhação (tarô, bola de cristal) para abrir o terceiro olho – um papel que partilha com a mirra ou o cedro. É de notar que muitos wiccanos atuais usam na realidade o benjoim de Sumatra (que chamam storax por confusão linguística). Mas como as propriedades esotéricas atribuídas a ambos são próximas, isso não cria grande incoerência.
5.5. Usos no Hoodoo
No Hoodoo afro-americano, o termo « storax » é pouco utilizado, preferindo-se « benjoim ». Historicamente, a resina de storax (líquida) não estava facilmente disponível para os praticantes afro-americanos, exceto sob a forma de tintura na farmacopéia (a tintura de storax era vendida como antisséptico). Por outro lado, o benjoim de Sumatra era vendido nas ervarias sob o nome de Gum Benjamin e tomou o seu lugar. Assim, em Hoodoo Herb and Root Magic, Catherine Yronwode não faz uma entrada separada para o storax – ela inclui-o na do benjoim, indicando que gum benzoin e storax são intercambiáveis. Pode-se contudo notar o seu uso implícito em alguns produtos: o óleo esotérico Black Arts Oil (para trabalhos de magia negra) inclui storax em algumas receitas tradicionais, pois é considerado um ingrediente ligado aos espíritos infernais (provavelmente devido ao seu aspecto saturnino). Mas é um uso de nicho. No Hoodoo « popular », o storax/benjoim está presente no incenso Pontifical usado para abençoar a casa, e no Van Van (fórmula de purificação por excelência) – às vezes adiciona-se storax líquido ao óleo Van Van para fixar o perfume cítrico e trazer um aroma quente. Serve também como suporte olfativo nos incensos de Corte de justiça ou Paz doméstica, pois o seu cheiro tem uma reputação psicológica calmante (diz-se que encoraja as pessoas a serem mais conciliadoras, portanto útil no tribunal ou no casal). Estes usos não são universais, mas atestados em « receitas de família ». No geral, o Hoodoo não distingue realmente storax de benjoim a nível esotérico: ambos são vistos como resinas de bom cheiro que trazem paz, sorte e proteção. Não há correspondência planetária elaborada neste folclore; simplesmente reconhece-se que a fumaça de storax/benjoim é benigna e favorável, daí a sua integração em misturas abençoadas (como o incenso Três Reis ou os incensos de santificação). Pode-se portanto dizer que no Hoodoo, o storax partilha as propriedades do benjoim (purificação, sorte, calma) e não tem uma interpretação contraditória notável – simplesmente uma falta de notoriedade pelo seu próprio nome.
5.6. Na Santería e tradições africanas
O storax em si é inexistente nas tradições afro-caribenhas e africanas. Os Yoruba ou Fon não tinham storax officinalis nem Liquidambar à mão, e não precisavam deles nos seus rituais originais. Também não o adotaram através do sincretismo católico, pois o incenso de igreja usado na Santería contém principalmente olíbano e mirra (e às vezes benjoim), mas não storax líquido, que é menos comum. Além disso, o storax líquido da Turquia é uma substância que só esteve disponível na época moderna, e mesmo hoje são raros os santeros ou houngans que o utilizam. As práticas afro-caribenhas tradicionais usam antes plantas locais fumigadas (como o sândalo no Candomblé, ou ervas como o alecrim, anis-estrelado queimado, etc.) para purificar, em vez de resinas importadas inéditas. Pode ser que um curandero afro-mexicano integre storax (copal negro liquidambar) num ritual que mistura Santería e xamanismo maia, mas seria um caso particular. Pode-se portanto considerar que as tradições Ifá/Yoruba e vodu não têm correspondência tradicional para o storax. Qualquer uso de storax nesses círculos seria emprestado dos grimórios ocidentais ou das práticas esotéricas modernas. Por conseguinte, não há divergência de interpretação a assinalar nessas tradições – simplesmente uma ausência de interpretação. Onde o storax é desconhecido, não suscita nem acordo nem desacordo simbólico.
Assim, esses cultos e costumes lembram-nos que a magia dos incensos é uma linguagem simbólica universal em que cada cultura escreveu um dialeto, mas onde a mensagem essencial – a busca da conexão entre o Homem e o Divino através da fumaça perfumada – permanece, afinal, a mesma ao longo do tempo e do espaço.




























































































































