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O mundo segundo Oswald Wirth

O mundo segundo Oswald Wirth

NO ÍNDICE...

 

Juventude e formação
Stanislas de Guaita, um encontro decisivo
A Ordem cabalística da Rosa-Cruz e o nascimento do Tarot Wirth
Maçonaria e estudos simbólicos
O ocultismo como caminho de conhecimento


Oswald Wirth é uma figura importante do renascimento ocultista e simbolista no final do século XIX em França. Nascido na Suíça alemã, estabeleceu-se em Paris e destacou-se pelos seus trabalhos que combinam esoterismo, maçonaria e estudo dos símbolos. Discípulo e secretário do ocultista Stanislas de Guaita desde 1887, realizou com ele um baralho de tarot esotérico, reeditado mais tarde sob o nome de Tarot Wirth. Maçon erudito, Wirth dedicou também muitos escritos à Arte Real (a maçonaria) e à interpretação dos símbolos universais. Retrato.

Juventude e formação

Joseph Paul Oswald Wirth nasceu a 5 de agosto de 1860 em Brienz, na Suíça, numa família modesta. Na infância, recebeu uma educação religiosa: entrou no seminário aos oito anos e depois prosseguiu os estudos no colégio católico Saint-Michel de Friburgo. Paralelamente, interessou-se muito cedo pelas ciências do magnetismo e do mesmerismo. Aos treze anos já experimentava o poder do fluido magnético ao aliviar a dor de um colega picado por um inseto. Este interesse pelo magnetismo levou-o mais tarde a integrar a Sociedade Magnética de França dirigida pelo barão Du Potet, onde aprofundou o estudo dos fenómenos hipnóticos.

Aos 19 anos, Wirth passou algum tempo em Londres, onde trabalhou como empregado de escritório enquanto alargava o seu horizonte espiritual. Iniciou-se então nas ideias teosóficas e ocultistas que circulavam na capital britânica, e descobriu também a maçonaria – que não conseguiu integrar localmente por falta de contactos suficientes. Em 1880, Wirth estabeleceu-se em França e encontrou em Paris um meio intelectual fervilhante propício às suas aspirações. Ali devorou a literatura esotérica disponível, assistiu a conferências de ocultismo e frequentou círculos espíritas e magnetistas. A 28 de janeiro de 1884, aos 23 anos, foi iniciado na maçonaria na loja La Bienfaisance Châlonnaise do Grande Oriente de França. Esta entrada na Arte Real marcou o início do seu compromisso nas sociedades iniciáticas que moldariam o seu pensamento.

Stanislas de Guaita, um encontro decisivo

Em 1887, Oswald Wirth conheceu aquele que viria a desempenhar um papel central na sua vida espiritual: o marquês Stanislas de Guaita. Poeta e erudito ocultista, Guaita reparou no jovem Wirth e propôs-lhe ser seu secretário particular. Este encontro foi, segundo o próprio Wirth, um « evento capital » no seu percurso. O jovem suíço tornou-se amigo, confidente e discípulo de Guaita, beneficiando de acesso livre à sua vasta biblioteca e aos seus ensinamentos. « Fez de mim seu amigo, seu secretário e seu colaborador. A sua biblioteca esteve à minha disposição e, beneficiando da sua conversa, tive nele um professor de Qabbalah, de alta metafísica, tanto quanto da língua francesa », escreveria mais tarde Wirth, sublinhando a riqueza desta tutela. Sob a orientação do seu mentor, aperfeiçoou o seu estilo literário em francês e iniciou-se profundamente na cabala e nos arcanos da metafísica ocultista.

A colaboração entre Wirth e Guaita deu rapidamente frutos. Guaita, que cofundou em 1888 a Ordem cabalística da Rosa-Cruz – uma sociedade esotérica que reunia ocultistas parisienses eminentes – associou estreitamente Wirth aos seus projetos. Tornado secretário oficial de Guaita e da própria Ordem, Oswald Wirth trabalhou na sombra do seu mentor enquanto desenvolvia as suas próprias competências. Até à morte prematura de Stanislas de Guaita em 1897, os dois homens permaneceram inseparáveis, unidos pela mesma busca do saber hermético. Wirth reconheceu dever a Guaita a sua formação intelectual e esotérica, a ponto de finalmente igualar – ou mesmo superar – o seu mestre no domínio do simbolismo. De facto, foi durante esses anos formativos que concebeu algumas das suas obras maiores que se tornariam referências do ocultismo ocidental.

A Ordem cabalística da Rosa-Cruz e o nascimento do Tarot Wirth

O final da década de 1880 assistiu ao crescimento de organizações ocultistas na Europa, e em França Stanislas de Guaita empenhou-se em ressuscitar o espírito rosacruz. À sua volta gravitou um círculo de investigadores esoteristas que incluía nomeadamente Papus (Gérard Encausse), Augustin Chaboseau, Joséphin Péladan e François-Charles Barlet. Foi neste contexto que foi fundada em 1888 a Ordem cabalística da Rosa-Cruz, dedicada ao estudo da cabala e das ciências ocultas. Wirth, então com cerca de vinte anos, foi um dos primeiros membros da Ordem e participou ativamente nos seus trabalhos. Uma das suas contribuições mais notáveis foi a criação de um baralho de Tarot original destinado a servir de suporte de ensino dentro da Ordem.

Desde 1887, a pedido expresso de Guaita, Oswald Wirth começou a desenhar um tarot « idealizado » conforme aos princípios esotéricos da nascente Rosa-Cruz. Baseou-se para isso no modelo do tradicional Tarot de Marselha, incorporando símbolos ocultos provenientes da cabala, da alquimia e da astrologia para conferir às cartas um novo alcance iniciático. Uma primeira versão dos 22 arcanos maiores estava pronta em 1888, mas só satisfez parcialmente as elevadas expectativas dos fundadores da Ordem. Wirth retomou então o seu trabalho para o aperfeiçoar e, em 1889, concluiu um Tarot acabado que ficou conhecido como Tarot cabalístico. Este baralho, composto apenas pelas 22 lâminas maiores ricamente iluminadas, é notável por vários motivos: é o primeiro tarot « ocultista » concebido explicitamente como ferramenta simultaneamente divinatória, simbólica e iniciática.

O Tarot criado por Wirth e Guaita marcou uma etapa chave na história da cartomancia esotérica. Inaugurou uma linhagem de tarots herméticos que inspirariam muitos ocultistas no século XX, muito antes dos baralhos popularizados pelo movimento New Age. Longe de ser um mero entretenimento divinatório, o Tarot Wirth foi pensado como um « livro » de símbolos cuja aprendizagem progressiva eleva o espírito. Cada lâmina – do Magician ao Mundo – foi cuidadosamente redesenhada e carregada de detalhes alegóricos destinados a iluminar as leis universais e os arquétipos da alma. Este trabalho inovador valeu a Oswald Wirth o reconhecimento como um « tarólogo » eminente do seu tempo, ao lado de outros autores esoteristas europeus.

Após a morte de Guaita, Wirth não abandonou o tarot: pelo contrário, continuou a aprofundar as suas pesquisas simbólicas durante várias décadas. Em 1926, com quarenta anos de reflexões, publicou uma nova edição enriquecida do seu tarot – integrando desta vez as correspondências aprofundadas entre os arcanos do tarot, os signos astrológicos, as letras hebraicas da cabala e os princípios herméticos. No ano seguinte, em 1927, publicou a sua obra mais famosa: O Tarot dos ilustradores da Idade Média. Neste livro, concebido como uma soma didática, Wirth expõe o significado simbólico de cada arcano maior e mostra como o tarot sintetiza a sabedoria esotérica do passado. A obra, muito ilustrada, propõe ainda um método de tiragem em cruz original para a interpretação divinatória – método do qual Wirth é o inventor. Desde a sua publicação, O Tarot dos ilustradores da Idade Média impôs-se como um clássico para os estudantes do tarot e permanece hoje uma referência incontornável.

Maçonaria e estudos simbólicos

Se Oswald Wirth foi iniciado no misticismo pela Rosa-Cruz, foi na maçonaria que encontrou o quadro mais duradouro para o seu trabalho simbólico. Ao contrário do seu mestre Guaita, mais atraído pelas vias rosacruzes, Wirth envolveu-se cada vez mais na Arte Real ao longo dos anos. Após a sua iniciação em 1884, filiou-se em Paris à loja Les Amis Triomphants, depois em 1889 à loja Le Travail et les Vrais Amis Fidèles, pertencente à Grande Loja Simbólica Escocesa. Exerceu por várias vezes o cargo de venerável mestre, sinal do respeito de que gozava entre os seus pares. Wirth mostrou-se aberto às evoluções progressistas dentro da instituição: participou em debates sobre a reforma dos rituais, defendeu um regresso ao simbolismo iniciático autêntico e apoiou mesmo a iniciação mista das mulheres na Ordem maçónica, antecipando-se ao seu tempo.

Preocupado em transmitir o património iniciático, Oswald Wirth empreendeu uma vasta obra pedagógica destinada aos maçons. Entre 1893 e 1907, publicou uma trilogia intitulada A Maçonaria tornada inteligível aos seus adeptos, compreendendo sucessivamente O Livro do Aprendiz, O Livro do Companheiro e O Livro do Mestre. Nestes manuais de instrução, explicava aos iniciados de cada grau o sentido dos símbolos, dos rituais e das lendas próprias da loja, com rigor e clareza que rapidamente se tornaram referência. Um quarto volume, Os Mistérios da Arte Real, foi publicado em 1932 para coroar esta série. Por estas obras, Wirth assegurou durante mais de quarenta anos um verdadeiro magistério sobre os estudos simbólicos maçónicos em França. Os seus escritos, que combinam erudição histórica e interpretação esotérica, contribuíram para revitalizar a maçonaria francesa na sua dimensão iniciática e universal, numa época em que esta corria o risco de se afundar num positivismo excessivo.

Em 1912, Oswald Wirth fundou a sua própria revista mensal, Le Symbolisme, que se tornou um espaço essencial de intercâmbio para os amantes da ciência simbólica. Durante mais de vinte anos, esta revista acolheu artigos sobre o significado oculto dos mitos, alquimia, astrologia, os arcanos das catedrais ou a cabala, refletindo a conceção muito ampla que Wirth tinha do simbolismo tradicional. Publicou aí muitas das suas pesquisas e abriu as suas páginas a colaboradores que partilhavam a mesma paixão pelo conhecimento esotérico. Através de Le Symbolisme, Wirth criou uma ligação entre os maçons espiritualistas, os hermetistas e os ocultistas « científicos » da sua época, formando uma verdadeira escola francesa de estudo simbólico.

Entre as suas outras atividades, Wirth foi também membro da Sociedade dos Filaletes (círculo de eruditos espiritualistas) e envolveu-se no movimento martinista impulsionado por Papus, que promove um esoterismo cristão iniciático. Conviveu com pensadores como Pierre Piobb ou Francis Warrain, com quem partilhou o gosto por uma pesquisa esotérica racional e estruturada. Estes ocultistas, entre os quais Wirth se incluía, qualificavam-se voluntariamente de « científicos » na sua abordagem, pois privilegiavam o estudo rigoroso das leis simbólicas e metafísicas, em oposição a correntes mais místicas ou dogmáticas, como as encarnadas por exemplo por René Guénon. Esta postura intelectual conferiu a Wirth um papel singular: o de um intermediário entre a tradição esotérica e a modernidade, procurando reconciliar o ocultismo com a razão e o conhecimento.

O ocultismo como caminho de conhecimento

Oswald Wirth concebia o ocultismo não como uma coleção de práticas sobrenaturais, mas como um caminho iniciático para o conhecimento. Para ele, as verdades espirituais revelam-se através da linguagem dos símbolos, e não por meio de fenómenos extraordinários. Nos seus escritos, insiste na necessidade de uma compreensão esclarecida e desprovida de ambição pessoal. « O ocultismo ilumina nesse sentido? Provavelmente, mas desde que seja bem compreendido. Infelizmente, os seus adeptos deixam-se deslumbrar por ambições mesquinhas. A conquista dos poderes ocultos leva-os a extravagâncias… », escreveu, lamentando que muitos se percam na busca de poderes miraculosos em vez de aprofundar o verdadeiro sentido da Tradição. Wirth criticava aqueles que viam na Grande Obra alquímica apenas uma receita material – « a cozinha dos sopradores » – e exortava-os a seguir antes o caminho da iniciação autêntica. Aos seus olhos, a maçonaria e as disciplinas esotéricas tradicionais encerram um tesouro de sabedoria do qual o espírito pode extrair « o ouro filosófico mais puro », ou seja, um conhecimento elevado do homem e do universo.

Esta visão do ocultismo como gnose racional e universal orienta toda a obra de Wirth. Em vez de multiplicar experiências ocultas espetaculares, preferia dedicar-se a decifrar pacientemente os símbolos multi-séculos legados pelas civilizações: os das lendas, dos mitos religiosos, dos arcanos do Tarot, dos rituais iniciáticos ou dos astros. Via neles um sistema coerente de correspondências capaz de guiar o indivíduo no caminho da sua evolução interior. Em O Simbolismo Hermético nas suas relações com a alquimia e a maçonaria (1910), por exemplo, analisou os símbolos da alquimia e mostrou como se encontram nos rituais maçónicos, estabelecendo pontes entre diferentes tradições esotéricas. Do mesmo modo, em O Simbolismo Astrológico (1928), explorou a linguagem dos astros e das constelações para extrair lições de filosofia iniciática aplicáveis à vida humana. A sua abordagem, simultaneamente analítica e sintética, ilustra a ideia de que o ocultismo bem compreendido não é senão uma ciência das correspondências universais – um caminho de conhecimento que desperta a consciência para realidades mais amplas.

Até à sua morte em 1943, Oswald Wirth dedicou a sua vida à exploração e transmissão do saber simbólico. Soube encarnar uma tradição esotérica exigente, libertada das superstições e orientada para a busca da verdade.

Olivier d’Aeternum
Par Olivier d’Aeternum

Apaixonado pelas tradições esotéricas e pela história do oculto desde as primeiras civilizações até ao século XVIII, partilho alguns artigos sobre estes temas. Sou também co-criador da loja esotérica online Aeternum.

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