Por vezes basta um silêncio demasiado longo, um luto mal encerrado ou uma pergunta sem resposta para que a ideia crie raízes. E se os mortos ainda pudessem falar connosco? O que diriam, se soubéssemos como escutar no momento certo, no lugar certo? A necromancia, esta palavra tantas vezes repetida e distorcida, designa esta vontade humana afinal muito simples: estabelecer uma ligação com aqueles que já não estão presentes. Antes de ser um tema de ficção ou esoterismo, fala de uma necessidade universal, ligada à nossa relação com a morte, a memória, a transmissão. O que se segue não é uma compilação de práticas ou rituais, mas uma viagem pela sua história. Exploração.
1. O que é a necromancia?
A necromancia designa o conjunto de práticas pelas quais os vivos procuram entrar em contacto com os mortos — não para os ressuscitar, mas para os interrogar.
Não se trata de trazer os falecidos de volta à vida, como algumas ficções modernas sugerem, mas de estabelecer uma ligação com a sua memória, espírito ou voz. Esta procura pode passar por rituais, palavras, objetos ou estados de consciência alterados. Por detrás destes gestos está uma convicção antiga e partilhada: os mortos não desaparecem totalmente e, em certas condições, ainda podem responder.
2. Nas origens antigas do diálogo com os mortos
Muito antes da era cristã, surgem vestígios de práticas necromânticas em muitas civilizações. Os historiadores consideram que a convocação dos espíritos dos mortos era comum na Antiguidade e remonta à pré-história. O historiador grego Estrabão (século I a.C.) relata, por exemplo, que a necromancia era a principal forma de adivinhação entre os persas. Também se encontra na Mesopotâmia, entre os Caldeus e na Babilónia: nesta última, os necromantes, chamados Manzazuu ou Sha’etemmu, invocavam espíritos chamados Etemmu. Da mesma forma, os antigos etruscos (povo da Itália pré-romana) terão praticado rituais para interrogar os mortos. Longe de ser um fenómeno isolado, estava integrada nas crenças religiosas da época.
No Antigo Egito, a proximidade com os mortos fazia parte do quotidiano espiritual. Os egípcios acreditavam firmemente na sobrevivência da alma e mantinham uma ligação estreita com os seus antepassados falecidos. Uma prática particular, conhecida como «cartas aos mortos», ilustra esta relação: escreviam mensagens em cerâmicas ou papiros, destinadas a um parente falecido, que depois eram colocadas na sepultura com oferendas de comida e bebida. O objetivo era que o espírito do falecido lesse a carta e interviesse em favor dos vivos – para resolver um conflito familiar ou curar uma doença. Estas cartas aos mortos, atestadas desde o Antigo Império egípcio (mais de 2 500 anos a.C.), mostram que solicitar a ajuda dos desaparecidos era um gesto natural e legítimo na religião egípcia. Comunicar com os mortos não era aqui magia negra; era uma extensão da piedade familiar, uma forma de manter o diálogo dentro da comunidade para lá da sepultura.

Santuário Necromantéion, Grécia. Fonte: Wikipédia
Entre os gregos da Antiguidade, a necromancia assume uma dimensão tanto mitológica como institucionalizada. Na Odisseia de Homero (século VIII a.C.), o herói Ulisses realiza um ritual sob a orientação da feiticeira Circe para falar com as sombras dos mortos: sacrifica animais e derrama o seu sangue numa cova para atrair as almas, às quais também oferece leite e mel. Só o espectro do vidente Tirésias poderá revelar-lhe o caminho de regresso. Esta passagem, conhecida como Nékya, testemunha a antiga crença grega de que os mortos podiam transmitir mensagens aos vivos, mediante certas oferendas sangrentas para os reviver brevemente. Mais tarde, os gregos criaram verdadeiros santuários dedicados a estas práticas: o famoso Necromantéion do Aqueronte, na Épiro, era um oráculo dos mortos onde sacerdotes guiavam os peregrinos através de rituais destinados a fazer aparecer as almas dos seus falecidos (o Aqueronte era considerado um afluente do Estige). Pensava-se que, libertada do corpo, uma alma mantinha a sua identidade e podia, do mundo dos mortos, responder às perguntas dos vivos, nomeadamente sobre o futuro. Sacrifícios ritualizados – misturando cereais, mel, leite, vinho e sangue de animais – eram oferecidos para atrair as sombras, enquanto o consulente seguia uma preparação rigorosa (jejuns, purificações, por vezes uso de fumigações alucinogénicas) para entrar em contacto com o Além. Estes oráculos necromânticos, onde se conversava com as almas dos desaparecidos, eram considerados locais sagrados tão respeitados quanto os oráculos de Apolo – embora o seu ambiente fosse muito mais sombrio e misterioso.
Os romanos, por seu lado, herdaram em grande parte as conceções gregas. Também eles imaginavam que um falecido não acedia automaticamente a uma onisciência total. Na visão greco-romana, os mortos «sabem» apenas o que sabiam em vida, mais eventualmente o que poderiam aprender de outras almas no além. A sua utilidade adivinhatória era portanto limitada a revelações pessoais ou familiares. O poeta Ovídio, no século I d.C., evoca poeticamente um mercado de notícias no Inferno, onde as almas trocam mexericos e informações, sugerindo que os falecidos podiam informar-se entre si sobre o que se passa entre os vivos. Por outro lado, outras culturas do mundo antigo atribuíam aos espíritos dos mortos um saber ilimitado uma vez passados para o outro mundo, fazendo dos antepassados fontes de sabedoria suprema. Estas divergências mostram o quanto cada civilização representava de forma diferente o poder dos mortos: para uns, simples sombras mal conscientes, para outros, espíritos iluminados capazes de guiar os destinos.

O rei Saul com a necromante de Endor. Fonte: Mediterrâneas
Paralelamente às tradições greco-romanas, existiam também relatos de necromancia no Próximo Oriente e na Europa do Norte pagã. A Bíblia hebraica condena firmemente qualquer tentativa de consultar os mortos: o Deuteronómio (que retoma, completa e reinterpreta as leis dadas anteriormente, nomeadamente no Êxodo e no Levítico) proíbe aos israelitas a prática da adivinhação necromântica, qualificada de «abominação». No entanto, mesmo na Bíblia, encontra-se um episódio famoso de necromancia tolerada por Deus: o primeiro livro de Samuel conta como o rei Saul, desesperado por não receber mais mensagens divinas, visita de noite a bruxa de Endor para que ela evoque o espírito do profeta Samuel. O espectro de Samuel aparece efetivamente e anuncia a Saul a sua derrota iminente, que se concretizará pouco depois. Este relato ilustra a tentação constante dos homens, mesmo piedosos, de desafiar a proibição para obter a voz de um morto venerável. As autoridades religiosas judaicas viam estas práticas com muito maus olhos: os necromantes são chamados ôvoth ou «conjuradores de ossos», termo pejorativo que marca a contaminação associada a quem manipula os restos dos mortos. Mais tarde, os teólogos cristãos dos primeiros séculos adotariam uma posição ainda mais radical: segundo eles, é impossível chamar uma alma sem a permissão de Deus, logo todo espírito que responde ao chamado do necromante só pode ser um demónio disfarçado. Esta interpretação assimilava assim a necromancia a uma forma de demonologia, impondo uma proibição absoluta sobre a comunicação com os falecidos.
Nas mitologias nórdicas, pelo contrário, a prática necromântica é apresentada sem condenação moral explícita, sinal de uma outra abordagem cultural. As sagas escandinavas e a Edda poética contêm cenas impressionantes de diálogo com os mortos. O próprio deus Odin, ávido de saber, desce ao Inferno para despertar uma profetisa falecida e interrogá-la sobre o destino do mundo – episódio relatado no poema Völuspá, onde a vidente ressuscitada revela a Odin os segredos do futuro. Outros heróis vikings não hesitam em solicitar a ajuda de entes queridos falecidos: assim, o jovem Svipdag conjura o espírito da sua mãe Gróa, uma feiticeira falecida, para que ela lhe lance feitiços protetores desde o além. Algumas figuras femininas chegam mesmo a ser consideradas necromantes invencíveis: a saga de Hrólf Kraki conta que a princesa Skuld, versada nas artes ocultas, reanimava os guerreiros caídos para que retomassem a luta em seu nome. Estas histórias refletem a crença nórdica num mundo espiritual muito real, onde as fronteiras entre vida e morte podem ser ultrapassadas pela magia. Aqui, não há pacto demoníaco: fazer levantar um morto depende do talento do feiticeiro e da força das runas, sem conotação moralmente satânica. A necromancia insere-se numa visão xamânica onde o poder de comunicar com os mortos é um dom oculto que pode servir fins heróicos ou maléficos conforme quem o exerce.
3. A Necromancia, proibida e diabólica
Com o advento do cristianismo na Europa, a necromancia passa para o lado obscuro e clandestino. Devido às proibições bíblicas, toda tentativa de conversar com os mortos é oficialmente proibida pela Igreja. Na Idade Média, invocar os falecidos torna-se sinónimo de bruxaria satânica – um pecado grave equiparado à idolatria ou à magia demoníaca. Os teólogos medievais afirmam que ressuscitar um morto é privilégio exclusivo de Deus, e que tentar fazê-lo por meios ocultos equivale a pactuar com o diabo. Os espíritos convocados nos rituais necromânticos são então interpretados não como os verdadeiros falecidos, mas como demónios enganadores enviados para desviar o homem. Sob a influência de Santo Agostinho e de vários concílios, a necromancia é condenada sem reservas: quem a praticar, em pensamento ou ato, arrisca a excomunhão, ou mesmo a fogueira se for apanhado em flagrante delito com artes proibidas.
Apesar deste pesado manto religioso, as crónicas e documentos judiciais revelam a existência de adeptos da necromancia dentro da própria sociedade medieval. Curiosamente, não são simples camponeses acusados destas práticas, mas frequentemente indivíduos instruídos – membros do clero ou nobres letrados. A razão é simples: a necromancia medieval exige acesso a textos esotéricos em latim ou hebraico, conhecimento de orações específicas e um saber oculto codificado pouco acessível ao comum dos mortais. No século XIII, por exemplo, circulavam rumores sobre monges que possuíam grimórios capazes de fazer os mortos falar. Alguns processos da Inquisição mencionam padres despojados surpreendidos a traçar círculos mágicos e a invocar espíritos na arrecadação de uma igreja. Se acreditarmos nestas fontes (frequentemente enviesadas pela tortura e imaginação dos inquisidores), a necromancia sobrevivia na sombra, praticada por uma minoria de eruditos fascinados pelo proibido. Aliás, alguns historiadores sugerem que foram por vezes os mesmos clérigos que, publicamente, condenavam a necromancia do púlpito, e que, em segredo, a praticavam na esperança de desvendar os mistérios divinos!

Evocação de Apolónio por Constant. Fonte: Wikisource
Os raros testemunhos sobre a prática efetiva da necromancia medieval descrevem rituais extremamente complexos, misturando orações cristãs desviadas e fórmulas de alta magia. Um necromante da Idade Média operava geralmente à noite, em locais isolados (ruínas, cemitérios, criptas) propícios à recolha e ao medo sagrado. Traçava no chão um círculo de proteção em latim, e nele inscrevia símbolos esotéricos. Vestido com roupas escuras (por vezes as de um falecido, segundo algumas receitas) e munido de objetos rituais – uma espada, uma varinha, um crânio ou ossos – recitava longas ladainhas. Curiosamente, estas invocações eram baseadas na liturgia cristã: invocava Deus e os anjos, não para pedir um milagre, mas para os tomar como testemunhas e obrigar os espíritos relutantes a manifestar-se. Ou seja, o necromante medieval pretendia não agir pelo seu próprio poder nem pelo do diabo: apresentava-se como um conjurador que, em nome de Deus, ordena aos mortos ou demónios que apareçam e falem. Esta subtil distinção visava legitimar o rito – pelo menos aos olhos do praticante – evitando o blasfémia de um pacto explícito com Satanás.
Os objetivos perseguidos pela necromancia na Idade Média parecem relativamente pragmáticos. Não se tratava tanto de reanimar um cadáver por prazer mórbido, mas de obter informações ou serviços através de espíritos invisíveis. Textos da época – como o Manuscrito de Munique, um grimório anónimo do século XV – compilam feitiços necromânticos para encontrar um objeto roubado, descobrir um tesouro escondido, conquistar a afeição de alguém, ou mesmo tornar-se invisível. Muitos destes rituais são ilusórios: por exemplo, criar a aparência de um banquete suntuoso para impressionar os pares, ou fazer um inimigo acreditar que demónios o atormentam. Por vezes aproxima-se da prestidigitação psicológica. Outros feitiços, mais temíveis, visam convocar a sombra de um morto para o interrogar sobre um mistério: um crime não resolvido, o desfecho de uma batalha, o futuro de um reino. Neste caso, o necromante espera que o espírito, livre das limitações do mundo, saiba a verdade e a revele. Mas como só se supunha que espíritos inferiores ou demoníacos respondessem, as respostas obtidas eram consideradas enganosas ou ambíguas, tornando a necromancia arriscada. Assim, apesar das esperanças depositadas nela, a necromancia medieval permaneceu marginal. Foi temida pelo povo (que via nos necromantes bruxos negros) e perseguida pela Inquisição, continuando a alimentar certa fascinação – a de uma “ciência proibida” que prometia acesso oculto ao saber dos mortos.
4. Um renascimento entre fascínio oculto e esclarecimento racionalista
No final da Idade Média e na Renascença, a Europa vê evoluir a sua relação com a magia e a necromancia. Por um lado, a perseguição a bruxas e necromantes intensifica-se na época dos grandes julgamentos de bruxaria (séculos XV a XVII); por outro, manifesta-se um novo interesse intelectual pelas artes ocultas, tingido de humanismo e curiosidade científica. A Renascença (século XVI) redescobre os textos antigos, incluindo os esotéricos, e alguns eruditos como Marsílio Ficino ou Cornelius Agrippa tentam reabilitar uma magia naturalis (magia natural) distinta da goetia demoníaca. Neste contexto, a necromancia continua, porém, uma prática controversa. Torna-se um motivo literário marcante, símbolo da sede de saber proibida. O poeta italiano Dante Alighieri, no início do século XIV, representa na sua Divina Comédia a feiticeira antiga Érichtho – já presente entre os romanos – que anima um cadáver para prever o desfecho de uma batalha. Mais tarde, o dramaturgo inglês Christopher Marlowe conta a história trágica do Doutor Fausto (1592), um sábio alemão que se inicia na necromancia e pactua com o diabo para convocar os mortos e os espíritos, antes de ser condenado. Esta famosa lenda de Fausto, retomada por Goethe no século XIX, populariza a imagem do necromante sedento de conhecimento, disposto a arriscar a sua alma para interrogar os mortos. Através destas obras, a necromancia é retratada de forma ambivalente: fonte de saber extraordinário e transgressão máxima da ordem divina.
No campo dos factos, à medida que a época moderna avança, os relatos de práticas necromânticas tornam-se raros na Europa. O Século das Luzes (século XVIII) valoriza a razão e relega as crenças ocultas ao estatuto de superstição. Os sábios afastam-se da alquimia e da magia cerimonial, e com eles desaparece a figura do necromante erudito herdada da Idade Média. No entanto, a fascinação pela comunicação com os mortos não desaparece: muda apenas de rosto. Enquanto os filósofos iluministas viram a página do ocultismo tradicional, o povo e algumas elites continuam interessados nos fenómenos paranormais. No final do século XVIII e sobretudo no XIX, observa-se um renascimento do interesse por aparições de espíritos e profecias vindas do além – mas desta vez sob uma apresentação mais «científica» ou pelo menos socialmente aceitável.
5. O renascimento espiritualista dos salões vitorianos aos círculos espíritas
O século XIX marca de facto uma viragem com o crescimento do espiritualismo moderno. A partir das décadas de 1840-1850, na Europa e na América, torna-se quase moda organizar sessões de espiritismo nos salões burgueses. Médiuns – frequentemente mulheres – afirmam servir de intermediárias entre os vivos e as almas dos falecidos, transmitindo mensagens e profecias. Mesas giratórias, pancadas na parede, escritas automáticas, tabuleiro Ouija: todo um arsenal de fenómenos misteriosos é encenado para convencer a assembleia da presença efetiva de espíritos. Este movimento espírita, popularizado por figuras como Allan Kardec em França ou as irmãs Fox nos Estados Unidos, confere nova legitimidade ao que outrora teria sido taxado de necromancia. Passa a ser um passatempo social, até um objeto de estudo. Organizam-se sessões experimentais, fundam-se sociedades espíritas, tenta-se fotografar fantasmas. O objetivo declarado já não é fazer magia, mas explorar, de forma (pseudo)científica, a sobrevivência da alma após a morte e a possibilidade de contacto com ela.

Aparição de Maria Stuart num salão de adivinhação. Fonte: Wikisource
Apesar deste verniz moderno, as Igrejas tradicionais não se enganam: para muitos religiosos do século XIX, o espiritualismo não é mais do que uma necromancia reinventada. O Vaticano e os pastores protestantes condenam estas práticas mediúnicas, recordando a proibição bíblica de consultar os espíritos dos mortos. Alguns círculos cristãos denunciam os perigos da ilusão e da fraude, outros veem nelas a obra do Maligno que procura passar-se pela alma dos falecidos – um eco direto da doutrina medieval. Artigos da época qualificam assim os médiuns de «necromantes dos salões», sublinhando que sob a aparente inocuidade do divertimento se esconde, segundo eles, o mesmo princípio antigo: interrogar os mortos para conhecer o futuro ou segredos ocultos. É interessante notar, porém, que esta retomada da necromancia sob a forma de espiritismo ultrapassou largamente o círculo das sociedades ocultas confidenciais. Em meados do século XIX, estima-se que milhões de pessoas nos Estados Unidos e na Europa assistiam regularmente a sessões espíritas, numa curiosa mistura de credulidade, fervor e ceticismo divertido. Em certo sentido, o tabu foi parcialmente levantado: onde, alguns séculos antes, se arriscava a vida ao tentar falar com os mortos, agora podia fazê-lo em sociedade sem recear outra coisa senão as troças dos espíritos racionalistas. Esta popularidade do espiritismo deixou uma marca duradoura: ainda hoje, a imagem do médium a comunicar com um falecido numa sala iluminada a velas permanece um estereótipo amplamente difundido da necromancia, embora o termo «necromancia» em si já quase não seja usado neste contexto. O século XIX viu assim a necromancia democratizar-se e secularizar-se em parte, prelúdio de novas evoluções no século XX.
6. A necromancia hoje
Na época contemporânea, a necromancia stricto sensu – entendida como ritual mágico para comunicar com os mortos – tornou-se rara no mundo ocidental, exceto através do prisma do espiritualismo ou de práticas esotéricas marginais. No entanto, seria errado pensar que o vínculo ritual com os mortos desapareceu. Por um lado, muitas culturas não ocidentais preservaram até hoje tradições ancestrais de comunicação com o além. Por outro, o imaginário coletivo continua a manter viva a figura do necromante, nomeadamente através da literatura e do cinema.
Nas sociedades extraocidentais, o que o europeu medieval chamava outrora de «necromancia» é uma componente integrada e respeitada da religião ou cultura local. Na África subsaariana, por exemplo, a maioria das religiões tradicionais atribui um lugar central aos antepassados falecidos. Pratica-se a veneração dos antepassados oferecendo-lhes orações, comida, cuidando das sepulturas e solicitando a sua orientação nos assuntos dos vivos. O objetivo não é prever o futuro de forma espetacular, mas assegurar a harmonia entre o mundo visível e o invisível. Os antepassados são vistos como protetores que podem intervir para o bem da família ou da comunidade. Nestes contextos, comunicar com os mortos é um ato piedoso e habitual, realizado pelo chefe da família, pelo xamã ou pelo vidente da aldeia. Consulta-se, por exemplo, um médium para que entre em transe e transmita mensagens dos espíritos sobre um problema específico (má colheita, doença inexplicada, decisão a tomar). Longe de ser estigmatizada, esta interação com os espíritos dos antepassados é valorizada socialmente, pois reforça a identidade do grupo e a continuidade entre gerações. Estamos claramente perante uma forma de necromancia – no sentido de comunicação com os mortos – mas desprovida da conotação maléfica que adquiriu na Europa. Pelo contrário, é um pilar da espiritualidade comunitária, garantindo a benevolência dos antigos para com os seus descendentes.
Nas Américas e Caraíbas, os cultos resultantes do sincretismo entre tradições africanas e o cristianismo também conservaram e transformaram o legado necromântico. O caso do vaudou haitiano é particularmente ilustrativo. Nascido na época colonial do encontro entre escravos da África Ocidental e o catolicismo imposto pelos colonos franceses, o vaudou (ou vodou) é uma religião onde a comunicação com os espíritos é omnipresente. Os praticantes honram os loa, espíritos intermediários identificados com antepassados divinizados ou forças da natureza. Durante as cerimónias vaudou, é comum que estes espíritos possuam um fiel (geralmente um dançarino ou o próprio sacerdote houngan) para falar pela sua boca e aconselhar a assembleia. Pede-se assim aos espíritos conselhos, curas para os doentes, proteções contra o mal; e o espírito encarnado no médium transmite profecias, recomendações ou avisos. Vê-se que a função adivinhatória e consultiva é perfeitamente comparável à da necromancia antiga – com a diferença de que aqui se insere num quadro religioso estruturado. Outras religiões afro-caribenhas ou afro-americanas apresentam traços semelhantes. A santería cubana (resultante da mistura entre os iorubás de África e o catolicismo) recorre aos espíritos dos mortos e dos santos; no Brasil, o culto da quimbanda é conhecido pelos seus médiuns que comunicam com os espíritos dos falecidos e dos Exu (entidades espirituais). Estas práticas, ainda vivas, mostram que a arte de solicitar os mortos não desapareceu, apenas assumiu as variadas formas de culturas sincréticas. Claro que os adeptos destas religiões não se referem a si próprios como praticantes de «necromancia», pois o termo é pejorativo; veem-nas antes como formas de oração aos santos, intercessão dos antepassados ou mediunidade sagrada. A fronteira é ténue e por vezes controversa – algumas correntes cristãs evangélicas em África ainda acusam estas práticas de serem necromancia disfarçada, fiel à proibição bíblica. No entanto, é inegável que em vastas partes do mundo comunicar ritualmente com os mortos continua a ser uma realidade cultural aceite, herdeira de uma longa história.
Quanto ao imaginário moderno, continua a apropriar-se do tema da necromancia com uma mistura de medo e fascínio. A literatura fantástica, os videojogos e o cinema popularizaram uma imagem muito espetacular e macabra do necromante, bem diferente das práticas históricas. Hoje, o termo evoca espontaneamente o mago maléfico rodeado de esqueletos e zumbis obedientes. Este estereótipo tem dupla origem: combina a figura do feiticeiro medieval que comanda os mortos (como se fantasiava desde Fausto) com elementos do folclore caribenho do zumbi. De facto, na cultura popular ocidental do século XX, o zumbi – cadáver trazido a uma aparência de vida por magia – tornou-se emblemático da necromancia maléfica. Autores como H. P. Lovecraft, depois todo o cinema de terror, fixaram a ideia de que o necromante podia despertar exércitos de mortos-vivos para servir os seus propósitos. Embora esta imagem seja impactante, afasta-se radicalmente da realidade histórica. De facto, os verdadeiros necromantes, fossem antigos, medievais ou tribais, procuravam muito mais frequentemente conversar com um espírito do que ressuscitar um corpo. A necromancia era uma questão de palavras, visões, oráculos – raramente de cadáveres ambulantes. Os raros casos de «zumbis» na história (nomeadamente no Haiti, onde relatos falam de mortos reanimados por feiticeiros, provavelmente através de venenos neurotóxicos) pertencem mais ao folclore do que à necromancia adivinhatória. É portanto importante distinguir o mito do necromante necrófago das obras de ficção, e a prática real, discreta e altamente simbólica, da comunicação com os espíritos.
Finalmente, a nossa época contemporânea vê coexistir um olhar científico – que explica a mediunidade e as aparições pela psicologia ou fraude – e uma persistência da necessidade humana de acreditar num além acessível. Os médiuns e caçadores de fantasmas modernos, os programas de televisão sobre contactos com espíritos, ou simplesmente as comemorações como o Dia dos Mortos (onde se convida simbolicamente as almas dos antepassados a regressar entre nós por um tempo de festa) são testemunhos da sobrevivência da necromancia nas nossas sociedades sob formas suavizadas. A necromancia “pura”, ritualizada, tornou-se rara, mas a aspiração que reflete – estabelecer uma ponte com os desaparecidos – permanece sempre enraizada. Hoje em dia, um indivíduo em luto pode consultar um médium espírita na esperança de receber uma mensagem de um ente querido falecido, reproduzindo em termos modernos o gesto imemorial do necromante que outrora traçava um círculo mágico. O cenário muda, a intenção mantém-se.
Busca de saber, necessidade de consolo ou sede de poder – as motivações variam, mas a esperança é a mesma. Como escreveu um autor moderno, a necromancia é «a prática ancestral de encontrar o meio de fazer falar aqueles que não estavam destinados a falar novamente: os mortos». Ao longo de todas as épocas, os homens recusaram acreditar que a morte poderia reduzi-los ao silêncio absoluto dos seus entes queridos. Assim nasceram rituais, mitos e orações para devolver voz aos ausentes. Séria e solene para uns, temida e proibida para outros, a necromancia, sob as suas múltiplas faces, testemunha o eterno diálogo que a humanidade tenta estabelecer com o desconhecido do além. E se os mortos nos falam, é evidente que, desde a noite dos tempos, tentamos sempre escutá-los.
















En hébreu biblique, le mot original est אוֹבוֹת (ʾovot), qui est simplement le pluriel de אוֹב (ʾov). On le rencontre par exemple en Lévitique 19:31, Lévitique 20:27 ou 1 Samuel 28, en association avec yiddeʿoni (« devin »).
Quand on le transcrit dans notre alphabet, on peut l’écrire ovot, ovoth ou même ôvoth selon la convention choisie.
Bien cordialement,
Olivier
Merci à vous et bonne journée