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1. Os fundamentos do Hermetismo |
Se consultar os textos esotéricos históricos, encontrará inevitavelmente referências à corrente chamada Hermetismo. Não é de admirar, pois é uma antiga filosofia espiritual do Egito Antigo que inspirou muitas correntes esotéricas e filosóficas ao longo dos séculos. Mas de onde vem? E em que consiste realmente o Hermetismo? Eis as explicações.
1. Os fundamentos do Hermetismo
1.1. Hermes Trismegisto
É impossível falar do Hermetismo sem falar de Hermes Trismegisto (literalmente, o "três vezes grande"). Mais do que um "simples" erudito, Hermes Trismegisto é sobretudo considerado uma figura simbólica, o pai da alquimia e uma fusão entre dois deuses: Hermes, o mensageiro dos deuses na mitologia grega, associado à sabedoria e às artes ocultas, e Thot, o deus egípcio da escrita, do conhecimento e da magia.

A figura de Hermes Trismegisto nasceu assim na Antiguidade Tardia, num contexto em que as culturas grega e egípcia se misturaram, particularmente em Alexandria, um centro intelectual e espiritual da época. Os escritos que lhe são atribuídos, como o Corpus Hermeticum e a Tábua de Esmeralda, foram redigidos por diversos autores anónimos entre os séculos II e III, procurando transmitir ideias espirituais, filosóficas e alquímicas.
Segundo a lenda, Hermes Trismegisto terá vivido no Egito três vidas distintas. Na primeira, antes do Dilúvio, é descrito como o inventor da astronomia. Durante a sua segunda vida, é considerado o grande construtor da Torre de Babel, bem como médico e filósofo. Por fim, na sua terceira vida, sintetiza os conhecimentos das duas primeiras, tornando-se um especialista em alquimia e acumulando tesouros fabulosos no seu palácio de Kamtar, uma cidade misteriosa de magos, perdida no deserto. Foi este conhecimento triplo que lhe terá valido o título de "três vezes grande".
1.2. Os textos fundadores do Hermetismo
O Hermetismo nasceu assim de três textos fundadores atribuídos diretamente a Hermes Trismegisto, que estabeleceram as bases desta corrente:
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O Corpus Hermeticum: esta coletânea de tratados, escrita entre os séculos II e III, explora temas como a natureza do universo, a divindade e a procura da sabedoria.
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A Tábua de Esmeralda: um texto breve e enigmático que resume os grandes princípios da alquimia e da filosofia hermética. É particularmente conhecido pelo aforismo "O que está em baixo é como o que está em cima".
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O Asclépio: este discurso filosófico complementa o Corpus Hermeticum e aborda questões relacionadas com o universo, os deuses e a natureza da alma humana.
Diz-se que os trabalhos de Hermes Trismegisto foram tão numerosos que terá redigido mais de 36 000 textos, dos quais restam pouquíssimos vestígios. De forma resumida e para garantir uma melhor compreensão, o Hermetismo pode ser considerado o conjunto de princípios relacionados com a alquimia.
2. Os princípios do Hermetismo
O Hermetismo baseia-se em sete princípios fundamentais, expostos no Kybalion, uma obra publicada em 1908 pelos "Três Iniciados". Estes princípios proporcionam uma compreensão das leis universais que regem a realidade e a consciência humana.
2.1. O princípio do Mentalismo
O princípio do Mentalismo afirma que "O Todo é Mente; o Universo é Mental". Isto significa que todo o universo é uma criação da mente e que a realidade física é apenas uma manifestação do pensamento universal ou divino. Assim, os nossos pensamentos e o nosso estado de espírito influenciam diretamente a nossa realidade e, ao modificar os nossos pensamentos, podemos transformar a nossa experiência de vida.
2.2. O princípio da Correspondência
O princípio da Correspondência é expresso pela fórmula "O que está em cima é como o que está em baixo; o que está em baixo é como o que está em cima". Indica que existe harmonia e correspondência entre os diferentes planos da existência: o físico, o mental e o espiritual. O que acontece num plano reflete-se nos outros, permitindo compreender os mistérios ocultos da natureza através do estudo dos seus reflexos nos diferentes níveis da existência.
2.3. O princípio da Vibração
O princípio da Vibração afirma que "Nada está parado; tudo se move; tudo vibra". Segundo este princípio, tudo no universo está em movimento constante e possui uma frequência vibratória específica. As diferenças entre as diversas manifestações da matéria, da energia e do espírito resultam simplesmente das diferentes taxas vibratórias. Ao dominar os princípios da vibração, podemos alterar o nosso estado vibratório e, assim, transformar a nossa experiência de vida.
2.4. O princípio da Polaridade
O princípio da Polaridade afirma que "Tudo é dual; todas as coisas têm dois polos; tudo tem dois extremos". Este princípio explica que os opostos são, na realidade, os dois extremos da mesma coisa, separados por diferentes graus. Por exemplo, o quente e o frio, a luz e a escuridão, o amor e o ódio são manifestações do mesmo fenómeno em graus diferentes. Compreender este princípio permite ultrapassar as dualidades aparentes e encontrar a unidade subjacente.
2.5. O princípio do Ritmo
O princípio do Ritmo afirma que "Tudo flui, para dentro e para fora; tudo tem as suas marés; todas as coisas sobem e descem". Descreve o movimento constante de vaivém no universo, semelhante ao balanço de um pêndulo. Há uma ação e uma reação, um avanço e um recuo, uma elevação e uma queda. Este princípio reconhece a existência de ciclos e movimentos regulares na natureza, influenciando os acontecimentos e as experiências humanas.
2.6. O princípio de Causa e Efeito
O princípio de Causa e Efeito afirma que "Toda a causa tem o seu efeito; todo o efeito tem a sua causa". Ensina que nada acontece por acaso e que cada ação ou pensamento produz um resultado correspondente, sendo que cada resultado tem uma causa anterior. Compreender este princípio permite perceber que tudo o que acontece na nossa vida é o resultado de causas que pusemos em movimento, consciente ou inconscientemente.
2.7. O princípio do Género
O princípio do Género afirma que "O Género está em tudo; tudo tem os seus princípios Masculino e Feminino". Este princípio indica que o masculino e o feminino existem em todas as coisas e que a sua interação é essencial para a criação e a manifestação. Não se refere apenas ao sexo biológico, mas a energias ou qualidades presentes em tudo o que existe. Compreender e equilibrar estas energias permite harmonizar os aspetos criativos e recetivos do nosso ser.
3. O Hermetismo e o conceito de Deus
O Hermetismo é por vezes visto como monoteísta, mas a sua conceção do divino é particular e não corresponde estritamente às categorias de monoteísmo ou paganismo. No Hermetismo, o conceito de Deus é central, mas este Deus é descrito como uma inteligência universal, chamada "O Todo" ou "O Uno". Este divino não corresponde necessariamente a uma figura antropomórfica única, mas a uma fonte de energia e consciência universal que impregna todas as coisas.
Para os hermetistas, "O Todo" é a própria essência da existência, uma fonte infinita que engloba todas as dimensões do universo, do espírito à matéria. Esta conceção do divino é holística: não separa a matéria do espiritual, mas vê-os como manifestações diferentes da mesma energia divina. A ideia é que toda a criação, incluindo a alma humana, faz parte desta unidade divina e é uma expressão dela.
Ao contrário das religiões politeístas ou pagãs, o Hermetismo não propõe um panteão de deuses distintos. Contudo, alguns textos herméticos inspiram-se em símbolos pagãos ou em figuras oriundas da mitologia egípcia e grega (como Hermes ou Thot, naturalmente), mas estas figuras são utilizadas de forma simbólica para representar conceitos universais e arquétipos, em vez de divindades individuais.
4. A influência do Hermetismo na história
Durante a Idade Média, o Hermetismo influenciou a alquimia e a filosofia. Os alquimistas medievais, em busca da transmutação dos metais e do elixir da longa vida, apoiavam-se nestes ensinamentos. Estes textos forneciam uma base teórica e simbólica para as suas práticas. O Hermetismo oferecia assim uma visão unificada do universo, na qual a matéria e o espírito estavam intrinsecamente ligados, influenciando desta forma as conceções filosóficas da época.

Fonte: Biblioteca Rosacruciana
O Renascimento marcou um ressurgimento significativo do Hermetismo. Em 1460, um manuscrito do Corpus Hermeticum foi levado para Florença, onde Cosme de Médici encarregou Marsilio Ficino de o traduzir para latim. Esta tradução desempenhou um papel imenso na divulgação das ideias herméticas por toda a Europa. Pensadores como Giordano Bruno e Paracelso integraram os conceitos herméticos nos seus trabalhos, fundindo ciência, filosofia e espiritualidade. O Hermetismo também influenciou a arte e a literatura do Renascimento, inspirando obras simbólicas, como O Nascimento de Vénus e A Primavera de Botticelli, e até, segundo alguns historiadores, A Criação de Adão, na Capela Sistina.
Nos séculos XVIII e XIX, o Hermetismo continuou a influenciar diversos movimentos esotéricos. Sociedades secretas (e célebres), como a Maçonaria e a Ordem Hermética da Aurora Dourada, incorporaram ensinamentos herméticos nos seus rituais e doutrinas. No século XX, o Hermetismo inspirou correntes como a teosofia e o neopaganismo.
5. As aplicações concretas do Hermetismo
Agora que vimos a história e a teoria do Hermetismo, talvez se pergunte qual poderá ser a sua aplicação concreta.
O tarot divinatório, por exemplo, integra símbolos e conceitos herméticos, oferecendo uma ferramenta para explorar o inconsciente e os arquétipos universais. Além disso, a astrologia, enquanto reflexo do princípio da Correspondência, é utilizada para compreender as influências cósmicas na vida individual. De igual modo, práticas como a alquimia espiritual, a cabala hermética e a magia cerimonial inspiram-se nos ensinamentos herméticos para facilitar a transformação pessoal e a realização espiritual.
Para um exemplo ainda mais concreto, conhece sem dúvida Matrix ou Dr Strange: são uma explicação bastante clara de alguns princípios do Hermetismo relacionados com a existência de realidades paralelas, o mentalismo e a transformação espiritual.
Eis a apresentação do Hermetismo. Espero que lhe permita compreender melhor os conceitos ou ideias divulgados atualmente e até decifrar certas iconografias simbólicas. Um conselho: esteja atento!






























