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A espagiria, irmã vegetal da alquimia
La spagyrie, sœur végétale de l'alchimie

Os Cadernos de Aeternum

A espagiria, irmã vegetal da alquimia

7 min de leitura

NO ÍNDICE...

 

1. Paracelso e a espagíria
2. Os princípios fundamentais da espagíria

3. As associações entre plantas e astros
4. Os tipos de remédios espagíricos
5. Espagíria, fitoterapia ou homeopatia?


À sombra da célebre alquimia existe a espagíria, uma disciplina que oferece uma perspetiva sobre as plantas e o seu poder transformador. Mais do que um método de preparação de remédios, propõe uma verdadeira filosofia na qual a natureza e o ser humano evoluem em harmonia. Apresentação.

1. Paracelso e a espagíria

A espagíria insere-se numa tradição antiga que combina os saberes da alquimia e da medicina. O seu nome, derivado das palavras gregas spao e ageiro, exprime um princípio fundamental: extrair os elementos essenciais de uma planta, purificá-los e reuni-los para criar um todo harmonioso.

A espagíria, irmã vegetal da alquimia


No século XVI, Paracelso desempenhou um papel determinante na formalização da espagíria. Este médico e filósofo propôs uma visão inovadora da medicina, segundo a qual os tratamentos não deveriam visar apenas os sintomas físicos, mas também o espírito e a energia vital do indivíduo. Paracelso estabeleceu que cada planta possui uma espécie de «assinatura» simbólica para tratar determinadas afecções. Esta ideia revolucionou o uso das plantas medicinais, associando-as a uma compreensão mais intuitiva e global.

Apesar do seu importante desenvolvimento durante o Renascimento, a espagíria entrou em declínio no século XVII com a ascensão das ciências modernas, que privilegiam abordagens mais analíticas e mecânicas. No entanto, não desapareceu totalmente e continuou a ser praticada de forma discreta. Só no século XX voltou a despertar interesse, impulsionada pelo renascimento das medicinas "alternativas" e pela procura de práticas mais naturais e simbólicas.

2. Os princípios fundamentais da espagíria

2.1. Os três princípios alquímicos

No coração da espagíria encontram-se os três princípios fundamentais herdados da alquimia: o Sal, o Enxofre e o Mercúrio. Estes princípios representam aspetos complementares da realidade das plantas, mas também do ser vivo no seu conjunto:

  • O Sal representa a estrutura material e tangível, aquilo que permanece fixo e estável, como o esqueleto ou a substância física da planta.

  • O Enxofre simboliza a essência ou a alma, isto é, aquilo que confere à planta as suas propriedades ativas e as suas qualidades específicas.

  • O Mercúrio representa a energia vital ou o espírito, aquilo que permite o movimento, a comunicação e a transformação.

Estes três princípios traduzem-se concretamente nas preparações espagíricas. O Sal corresponde aos resíduos minerais obtidos após a calcinação das partes vegetais. O Enxofre manifesta-se através dos óleos essenciais e dos compostos ativos. Quanto ao Mercúrio, encontra-se no álcool destilado, produto da fermentação. Ao reunir estes três elementos depois de os purificar, a espagíria procura reconstituir uma unidade dinâmica e equilibrada, capaz de atuar em diferentes níveis do ser humano.

2.2. Processo de separação e reunificação

A abordagem espagírica assenta num processo metódico em que cada etapa tem como objetivo extrair, purificar e reunir os componentes essenciais da planta. Tudo começa pela separação: as diferentes partes da planta são isoladas para extrair os seus princípios específicos. Esta etapa é seguida por uma fase de purificação, em que os elementos são refinados para eliminar as impurezas e revelar o seu verdadeiro potencial. Por fim, estes elementos purificados são reunidos para formar um remédio holístico que reflete a quintessência da planta.

Aqui, a harmonia constrói-se a partir da interação das diferenças. Cada elemento dá o seu próprio contributo, mas é a sua recombinação que permite obter um remédio completo, que atua de forma equilibrada nos planos físico, emocional e energético. Esta abordagem está, por natureza, muito afastada dos métodos clássicos da fitoterapia.

2.3. Relação com a alquimia e a astrologia

A espagíria não se limita a uma análise material das plantas. Insere-se numa visão holística em que cada ser vivo, cada substância e cada processo é influenciado pelos ciclos do universo. Na espagíria, as plantas estão ligadas aos astros, e tanto a sua colheita como a sua preparação seguem ritmos precisos, ditados pelas posições dos planetas e pelas fases lunares.

A espagíria, irmã vegetal da alquimia

Fonte: Wikipédia

Esta relação entre as plantas e a astrologia baseia-se no conceito de "assinaturas", em que cada planta está associada a um astro ou a uma constelação em função das suas características. Estas correspondências permitem escolher os momentos propícios para trabalhar com as plantas, maximizando assim o seu potencial energético.

A astrologia não desempenha apenas um papel na escolha das plantas, mas também na sua preparação. As fases lunares influenciam o tipo de elixir produzido, enquanto as configurações planetárias podem orientar o momento ideal para iniciar ou concluir um processo espagírico.

3. As associações entre plantas e astros

Eis alguns exemplos que ilustram estas associações:

Carneiro Marte Picantes, estimulantes Pimenta-de-caiena, hortelã
Touro Vénus Calmantes Valeriana, lavanda
Gémeos Mercúrio Favorecem a clareza mental Anis, funcho
Caranguejo Lua Nutritivas, protetoras Camomila, aloé vera
Leão Sol Revitalizantes Girassol, calêndula
Virgem Mercúrio Digestivas, purificantes Passiflora, pilriteiro
Balança Vénus Harmonizadoras Rosa, salva
Escorpião Plutão, Marte Regeneradoras, desintoxicantes Urtiga, cardo-mariano
Sagitário Júpiter Expansivas, tónicas Salva, segurelha
Capricórnio Saturno Estruturantes, remineralizantes Cavalinha, hera
Aquário Urano, Saturno Inovadoras, estimulantes Ginkgo biloba, erva-limão
Peixes Neptuno, Júpiter Intuitivas, relaxantes Lavanda, lótus


4. Os tipos de remédios espagíricos

Os remédios espagíricos apresentam-se sob diferentes formas, cada uma respondendo a necessidades específicas e utilizando processos alquímicos para maximizar as propriedades terapêuticas das plantas. Entre estas preparações, as tinturas, os elixires e as essências espagíricas ocupam um lugar central.

4.1. As tinturas espagíricas

As tinturas espagíricas resultam de um processo rigoroso que combina a fermentação, a destilação e a calcinação das plantas. Este método permite extrair, purificar e reunir os três princípios fundamentais da espagiria: o corpo, a alma e o espírito da planta. Estas preparações concentradas numa base alcoólica conservam a totalidade das propriedades ativas das plantas. São particularmente úteis no tratamento de perturbações digestivas, como a melhoria da digestão ou o alívio de desconfortos gastrointestinais, e revelam-se eficazes no apoio ao equilíbrio hormonal, nomeadamente durante a menopausa ou no âmbito da saúde reprodutiva. Além disso, reforçam as defesas imunitárias e podem ser utilizadas preventivamente para manter uma boa saúde geral. As tinturas espagíricas são geralmente administradas sob a forma líquida, diluídas em água, e a sua dosagem é adaptada em função das necessidades do utilizador.

4.2. Os elixires espagíricos

Os elixires espagíricos representam uma forma mais sofisticada e complexa de remédio. Combinam os princípios ativos, os óleos essenciais e os sais minerais purificados, obtidos através de processos alquímicos avançados. Estes elixires foram concebidos para atuar simultaneamente sobre o corpo físico, as emoções e a energia vital, proporcionando um apoio global ao indivíduo. São particularmente apreciados pela sua capacidade de acalmar estados de stress, restabelecer o equilíbrio emocional e revitalizar o organismo em períodos de fadiga ou fraqueza. Além disso, alguns elixires são utilizados para facilitar a desintoxicação do corpo, apoiando os órgãos emunctórios na sua função de eliminação das toxinas. São administrados por via oral, diluídos em água, e a sua utilização requer uma abordagem personalizada, frequentemente orientada por um terapeuta especializado.

4.3. As essências espagíricas

As essências espagíricas, por sua vez, concentram-se mais no aspeto energético e vibratório das plantas. A sua preparação inclui etapas que permitem captar as forças subtis dos vegetais, frequentemente em sintonia com os ciclos lunares e solares, de modo a amplificar a sua eficácia. Estas essências são particularmente adequadas para abordar desequilíbrios emocionais ou espirituais. Ajudam a superar estados de tristeza ou ansiedade, promovendo simultaneamente uma sensação de harmonia interior. Paralelamente, desempenham um papel importante nas práticas meditativas e no desenvolvimento espiritual, facilitando a clareza mental e a abertura às dimensões superiores da consciência. Algumas essências são também utilizadas para reforçar o campo energético ou «aura», proporcionando proteção contra influências negativas. A sua aplicação é variada: podem ser tomadas sob a forma de gotas sublinguais, diluídas em água ou ainda aplicadas localmente em pontos energéticos específicos.

5. Espagíria, fitoterapia ou homeopatia?

A espagíria distingue-se tanto da fitoterapia como da homeopatia pela sua filosofia, pelo seu método de preparação e pelo seu campo de ação. Enquanto a fitoterapia se concentra na utilização dos princípios ativos das plantas para tratar sintomas físicos específicos, a espagíria adota uma abordagem mais global. Não se limita a extrair os componentes bioquímicos de uma planta, procurando antes revelar e integrar as suas dimensões materiais, energéticas e espirituais. Este processo inclui não só a utilização dos princípios ativos, mas também uma transformação alquímica destinada a purificar e harmonizar os diferentes aspetos da planta.

Em comparação com a homeopatia, que assenta no princípio da diluição e da dinamização para estimular a capacidade de cura do organismo, a espagíria conserva a integridade física dos seus ingredientes, incorporando simultaneamente uma dimensão energética. Enquanto a homeopatia se baseia numa diluição extrema, ao ponto de deixar apenas um vestígio vibratório, a espagíria mantém uma presença tangível dos princípios ativos, acrescentando-lhes as forças subtis captadas durante a preparação. Isto confere aos remédios espagíricos um alcance mais amplo, capaz de atuar simultaneamente nos planos físico, emocional e energético.

Outra diferença reside na ligação da espagíria à astrologia e aos ciclos naturais. Cada etapa da preparação segue ritmos precisos, em função dos movimentos celestes. Esta abordagem ultrapassa largamente o âmbito estritamente terapêutico para se inscrever numa visão universal em que o ser humano, a natureza e o universo estão interligados.

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