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Introdução à bruxaria rural
Introduction à la sorcellerie des campagnes

Os Cadernos de Aeternum

Introdução à bruxaria rural

14 min de leitura

NO ÍNDICE...

 

1. Entre tradições camponesas e demonização cristã
2. Caças às bruxas: o grande processo da bruxaria rural
3. Rituais e figuras da feitiçaria camponesa
4. Pactos e compromissos: uma magia de troca e de ligação
5. Saberes, práticas e transmissões silenciosas
6. Função social da feitiçaria
7. Sobrevivências da bruxaria das aldeias


Durante séculos, a magia não viveu nos grimórios. Caminhou pelos campos, infiltrou-se nos estábulos, foi transmitida entre muros de pedra e caminhos de terra. Falava a língua das estações, do corpo e das plantas. Chamavam-lhe bruxaria, por vezes injustamente, por vezes com receio. Mas fazia parte da paisagem. Hoje, esquecemo-la ou caricaturamo-la. No entanto, por detrás do cliché da superstição, havia algo mais: gestos precisos, palavras ponderadas, saberes preservados em resposta a fenómenos que até a ciência tem dificuldade em explicar. Uma incursão pela história da magia rural.

Note-se que esta é uma introdução à história da bruxaria nas zonas rurais, e não uma coletânea de rituais. Para isso, consulte a nossa coleção de livros de magia na nossa livraria esotérica online.

1. Entre tradições camponesas e demonização cristã

Desde a Idade Média, existem práticas mágicas nas aldeias europeias. Os camponeses preservam antigas tradições pagãs misturadas com ritos cristãos, invocando as forças da natureza para proteger as colheitas e os rebanhos. Curandeiros e parteiras utilizam ervas, orações e encantamentos para tratar pessoas e gado. Estes praticantes, chamados adivinhos ou fazedores de segredos, são então tolerados desde que permaneçam à sombra da Igreja. O clero olha para eles com desconfiança, denunciando as "superstições" rurais sem agir sempre com rigor. No entanto, no final da Idade Média, a perspetiva muda: a Igreja e os eruditos desenvolvem o conceito de "bruxaria demoníaca". Em 1486, o tratado Malleus Maleficarum (o Martelo das bruxas) apresenta a bruxa como aliada do Diabo, justificando o seu extermínio. A partir de então, todos os gestos mágicos populares - desde o feitiço para curar uma vaca até à maldição motivada pelo rancor - correm o risco de ser reinterpretados como pactos satânicos. A figura da bruxa transforma-se no bode expiatório ideal para os males da época: fomes, epidemias, tempestades destruidoras. Sob o impulso das elites religiosas, os campos tornam-se o palco noturno do sabbath das bruxas, essas assembleias onde camponesas voariam em vassouras para adorar o Diabo em redor de caldeirões. Só que a realidade é bem diferente.

Os camponeses medievais não vivem permanentemente num mundo fantasmagórico - procuram sobretudo esconjurar o infortúnio com os meios concretos ao seu alcance, ou, para dizer em bom português, de forma "prática e pragmática". Assim, os cunning folk ou «adivinhos-curandeiros», em inglês, encarnam esta magia pragmática: tratar uma febre com uma pomada, encontrar um objeto roubado graças a uma oração ou desviar um feitiço nocivo. Por toda a Europa, encontram-se vestígios destes magos das aldeias: os tietäjä finlandeses, os hexenmeister alemães ou os benandanti italianos. As suas práticas fazem parte do quotidiano, da vida de todos os dias própria do campo, sem qualquer dimensão satânica para aqueles que a elas recorrem.

Na Itália do século XVI, camponeses que se diziam benandanti ("aqueles que caminham pelo bem") afirmam viajar em espírito durante a noite para combater feiticeiros maléficos que ameaçam as colheitas. Veem-se como defensores da fertilidade, e de modo algum como adoradores do Diabo. E, de forma finalmente muito objetiva, reconhecem simplesmente a existência de feiticeiros bons e maus.

No entanto, os inquisidores da época vão assimilar estes relatos à bruxaria que temem, acabando por perseguir os próprios benandanti. Esta divergência entre a bruxaria praticada e a bruxaria percecionada surge desde essa época: os gestos mágicos dos camponeses, benevolentes ou neutros, são reinterpretados pela autoridade como crimes demoníacos. Aliás, a própria palavra "bruxaria" é associada ao Mal.

2. Caças às bruxas: o grande processo da bruxaria rural

Do século XV ao século XVII, o medo da feitiçaria intensifica-se na Europa, dando origem à tristemente célebre caça às bruxas. Esta dinâmica funesta atinge em cheio as zonas rurais. Os historiadores calculam que cerca de 100 000 pessoas foram perseguidas por feitiçaria na Europa entre 1400 e 1775, principalmente durante o período de 1550-1650. Por que razão houve uma tal vaga de processos sobretudo nas aldeias? Por um lado, a mentalidade da época associa as bruxas à ruralidade: os influentes «demonólogos», como Nicolas Rémy na Lorena (que era sobretudo um magistrado fanático que afirmava ter acusado mais de 900 pessoas de feitiçaria), afirmam que os camponeses ignorantes são presas fáceis para Satanás. Por outro lado, o contexto aldeão favorece as suspeitas mútuas: em pequenas comunidades onde todos se conhecem, o mais pequeno conflito de vizinhança ou acontecimento funesto pode conduzir a uma acusação.

Introdução à bruxaria rural

Processo público durante a Inquisição

No meio rural, os processos nascem frequentemente de uma desgraça inexplicável. A morte súbita de uma vaca leiteira, o granizo que devasta um campo na véspera das colheitas, uma criança que definha sem causa aparente. A feitiçaria oferece uma explicação imediata - «alguém lançou um feitiço». Um olhar enviesado ou uma velha querela vem novamente à tona, e o dedo aponta para a bruxa da aldeia, muitas vezes uma mulher marginalizada, viúva ou curandeira solitária que domina os remédios. As autoridades, civis ou eclesiásticas, dão eco a estas acusações com zelo. Sob tortura, os acusados confessam tudo o que esperam deles. Relatos extravagantes de voos nocturnos, metamorfoses em animais ou infanticídios rituais circulam então nos depoimentos. Na realidade, muitas vítimas são inocentes acusados injustamente, apanhados pela medo colectivo apenas por dominarem energias e conhecimentos que poucos compreendem. A justiça da época pouco se importa com a distinção entre práticas reais e fantasias: uma ervanária bem-intencionada pode acabar na fogueira, tal como uma feiticeira maléfica. No entanto, os próprios aldeões sabem distinguir um curandeiro útil de um verdadeiro mau feiticeiro. Infelizmente, a loucura cristã perturba todos os pontos de referência.

Em França, estas perseguições atingem o auge por volta de 1600, diminuindo depois sob a influência do espírito racionalista emergente. Luís XIV acaba por lhes pôr legalmente termo em 1682, abolindo o crime de feitiçaria e ordenando que fossem punidos apenas os casos comprovados de fraude ou envenenamento. Noutros locais da Europa, a caça persiste localmente durante um pouco mais de tempo - na Suíça ou na Polónia, algumas fogueiras ainda ardem no início do século XVIII. Mas, de um modo geral, a era dos processos chega ao fim, deixando para trás um trauma duradouro na vida rural.

3. Rituais e figuras da feitiçaria camponesa

Mas como eram, concretamente, as práticas mágicas rurais? A feitiçaria campestre caracteriza-se por rituais simples, transmitidos oralmente, daí a dificuldade em encontrar vestígios completos. Os remédios e malefícios da aldeia utilizam os elementos disponíveis: plantas locais, objetos da casa, fórmulas que recorrem ora ao registo cristão (orações, santos invocados), ora a um simbolismo mais pagão (gestos rituais, traçados na cinza ou no sal).

Alguns exemplos: para proteger um estábulo dos trovões, enterra-se um fragmento de buxo benzido nos quatro cantos do edifício. Para tratar o "leite azedo" de uma vaca, o curandeiro murmura uma fórmula ao ouvido do animal, fazendo-o engolir uma tisana de tanchagem. Se uma doença misteriosa atingir a casa, suspeita-se de um feitiço: pode então consultar-se aquilo a que se chama (mas que poucos conhecem) um desfeiticeiro, que identificará a origem do mal. Este poderá recomendar que se queime um objeto suspeito encontrado junto à soleira da porta (ovo enegrecido, boneco de trapos) ou que se recite um salmo específico durante três noites seguidas. Cada região tem as suas receitas e os seus símbolos. Nas zonas rurais de França, a coruja pregada à porta é tida como capaz de afastar o mal, enquanto, na Europa de Leste, se marca o berço com um sinal da cruz feito a carvão contra as striga (bruxas vampiras).

As figuras da feitiçaria rural são múltiplas e, por vezes, ambivalentes. Há, antes de mais, o feiticeiro maléfico: um homem ou uma mulher capaz de lançar um feitiço destrutivo por inveja ou vingança, mas que age sobretudo nas sombras. Em contrapartida, outros agentes mágicos ocupam um lugar reconhecido na comunidade. O rebouteux, por exemplo, é um curandeiro especializado em recolocar ossos deslocados e tratar ferimentos: utiliza o seu dom, massajando e manipulando o corpo com destreza. A curandeira ou o curandeiro conhece as plantas e as orações de cura. Em muitas aldeias, é o mesmo indivíduo que acumula estes papéis - um camponês ou uma camponesa de certa idade, dotado de uma reputação de conhecimento oculto transmitido de geração em geração. É procurado com alguma reserva, pois, embora faça na grande maioria das vezes o bem, também pode usar estas capacidades se for contrariado... Ocupa assim uma posição social à parte, o que mais tarde alimentará o mito da bruxa fora da aldeia.

Um provérbio normando do século XIX dizia: «Há o feiticeiro que cura e o feiticeiro que estraga». Por outras palavras, o povo distinguia o curandeiro benfeitor daquele que lançava maus feitiços. Os historiadores confirmam esta distinção: os “cunning folk” europeus (homens ou mulheres de saber) eram apreciados pelos seus serviços de medicina popular e de adivinhação, e raramente eram acusados perante a justiça. Surpreendentemente, apenas uma minoria deles foi incomodada durante as perseguições às bruxas.

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Aviso de desconfiança perante os feiticeiros e as feiticeiras no campo de Douai (1806)

Em contrapartida, os acusados de feitiçaria - aqueles que foram levados a julgamento, por vezes até à fogueira - eram, em geral, pessoas marginalizadas ou consideradas malévolas: eram acusados de ter provocado uma doença, a morte de uma criança ou a perda de uma colheita. A distinção não se fazia, portanto, com base nas próprias práticas mágicas, mas na intenção presumida de quem as utilizava. A magia “branca” ou “protetora” era tolerada; a magia “negra” era punida. Para uma feiticeira da época, era portanto preferível estar integrada e ser bem vista na aldeia do que ficar de fora.

Dito isto, as fronteiras entre ambos eram fluidas. Uma curandeira respeitada podia, em caso de conflito, ser acusada de malefício. Um praticante “apreciado” podia passar para o campo dos feiticeiros odiados se ocorresse um acontecimento trágico na aldeia e se se decidisse que ele era responsável por isso.

4. Pactos e compromissos: uma magia de troca e de ligação

A feitiçaria camponesa baseia-se num princípio de troca, de pacto, que liga o praticante a uma força invisível, a uma entidade ou a um compromisso simbólico. Este pacto nem sempre assume uma forma espetacular, mas existem efetivamente rituais de acordo, de contrato ou de troca recíproca.

Em algumas aldeias, conta-se que o dom de curar só é transmitido sob a condição de “dar algo em troca” - um silêncio, um isolamento, uma promessa cumprida. O futuro desfeiticeiro tem, por vezes, de se submeter a uma prova ou observar um interdito rigoroso. Existe aí um pacto tácito com as forças que irá manipular. Outros relatos referem figuras solitárias que “fizeram um acordo” com espíritos familiares, entidades não nomeadas. Fala-se de galinhas poedeiras que nunca morrem, cavalos incansáveis, feitiços lançados sem esforço… mas a um preço. Como em toda a magia, o pacto pressupõe uma dívida.

A Igreja transformou estes rituais num pacto com o Diabo. Mas não nos esqueçamos de que a bruxa é, por natureza, pagã: não reconhece um deus do bem e do mal, mas entidades e energias. Não, o pacto não assume a forma de um contrato diabólico, mas existem ainda assim ideias de dom trocado por poder. Este dom não é abstrato: pode tratar-se de um preço pago pelo corpo, pela solidão ou pela transmissão. Neste contexto, o preço pago nem sempre é material, mas pode ser pesado: uma vida afetiva instável, o isolamento ou uma hipersensibilidade. Algumas tradições falam também de má sorte hereditária, transmitida àqueles que se recusam a honrar o pacto ou a transmiti-lo por sua vez. É preciso compreender um ponto essencial na magia rural, e na magia em geral: o conhecimento não pertence a ninguém; a bruxa ou o feiticeiro é apenas o seu depositário temporário. Por isso, a missão é encontrar aquele ou aquela que seja digno de o transmitir.

Este pacto assenta em três coisas para que a “palavra fique vinculada”:

  1. O segredo: o conhecimento não deve ser divulgado de qualquer maneira, nem transmitido por escrito, nem utilizado de ânimo leve (por isso, um feiticeiro que procure simplesmente vingar-se poderá fazê-lo, mas sofrerá as consequências desse desequilíbrio).

  2. O rigor: o gesto, a fórmula e o remédio devem ser realizados num contexto preciso. Não respeitar esse contexto é trair o acordo.

  3. A transmissão: morrer sem ter “passado o dom” provoca a extinção da linhagem mágica, e a força regressa à terra.

Neste pacto, não se fala de uma entidade no sentido moderno do termo (como na New Age), mas de uma força atuante que existe enquanto um ser humano a incorporar, respeitar e perpetuar. Poderíamos quase falar de um “saber vivo”, com as suas próprias exigências. O pacto é, portanto, menos uma aliança com uma consciência exterior do que um compromisso com a continuidade de um poder, considerado anterior à pessoa, à família e até à própria aldeia.

5. Saberes, práticas e transmissões silenciosas

Reduzir a bruxaria rural a um conjunto de medos coletivos ou de reflexos arcaicos seria ignorar a sua verdadeira realidade. Em muitas aldeias, como vimos, certas figuras mágicas eram reconhecidas pelas suas competências. Essa magia não dependia do acaso, da improvisação ou da invenção, mas de um conhecimento rigoroso e técnico, por vezes confidencial.

Introdução à bruxaria rural

Representação das bruxas dos campos. Fonte: Open Edition

Os curandeiros e as curandeiras, longe de serem simples “crentes”, dispunham de um conhecimento aprofundado das plantas locais, dos seus efeitos no corpo e das interações entre remédios e estações. A recolha não se fazia a qualquer hora: algumas ervas tinham de ser apanhadas ao amanhecer, outras durante a lua minguante, por vezes em silêncio, caminhando de costas. As fórmulas fixavam a intenção, ritmavam o gesto e ligavam a planta ao corpo tratado.

A magia camponesa inclui também uma dimensão de geometria sagrada do território. Certos caminhos eram evitados. Algumas pedras, árvores ou nascentes eram tidas como carregadas, benéficas ou perigosas. Lugares específicos acolhiam rituais de cura, de proteção ou de isolamento do mal. Isto pressupõe uma leitura simbólica da paisagem, uma cartografia invisível transmitida pela experiência. É, portanto, fácil estabelecer a ligação com os dólmenes ou menires, que escapam à nossa compreensão, talvez um pouco demasiado terra a terra.

Foram encontrados cadernos manuscritos com receitas, encantamentos e símbolos, guardados longe de olhares indiscretos durante décadas. Estes saberes, muito longe da imagem do charlatão, testemunham uma tradição rural discreta mas rigorosa, em que a magia obedecia a regras transmitidas, por vezes tão exigentes como as de uma confraria iniciática.

6. Função social da feitiçaria

Se a magia atravessou os séculos nas zonas rurais, não foi simplesmente porque servia para explicar o inexplicável, nem para tranquilizar perante a adversidade. Perdurou porque funcionava – à sua maneira, no seu contexto, segundo as suas regras. Os camponeses não a utilizavam por fraqueza ou ignorância, mas porque sabiam que ela produzia efeitos. Fazia parte do tecido concreto da vida rural, tal como as colheitas, as estações ou os animais.

Nesse mundo camponês, nem tudo era visível, mas nada acontecia sem motivo. Se uma pessoa sofria, havia uma causa. Se um bem melhorava, era porque alguém tinha trabalhado nesse sentido. A magia permitia restabelecer um equilíbrio onde a palavra, o médico ou o padre permaneciam impotentes. Não era uma questão de crença, mas de relação com o real. Podia surgir um mal, e existir um remédio.

A etnóloga Jeanne Favret-Saada, que realizou uma investigação notável no Bocage nos anos 1970, não descobriu apenas um pensamento mágico em ação, mas também um papel útil de justiça e bem-estar na sociedade rural.

Foi por isso que resistiu durante tanto tempo. Nem as fogueiras, nem os sermões, nem a escola, nem o êxodo rural a apagaram de um só golpe. Como escreve Favret-Saada, afirmar que a bruxaria rural desapareceu após o fim das fogueiras é historicamente falso: relatórios de bispos do século XVIII, inquéritos de prefeitos do século XIX ou notícias da imprensa do século XX testemunham, pelo contrário, a persistência da magia camponesa. Há, de facto, uma razão para isso...

7. Sobrevivências da bruxaria das aldeias

A partir do século XIX, os campos europeus iniciam a sua transformação sob o efeito da industrialização, da ciência moderna e da escolaridade obrigatória. A bruxaria rural, sem desaparecer, recua contudo progressivamente. As manchetes da imprensa também lhe conferem uma aura muito «campestre perante os eruditos das cidades»: um agricultor assassinado por se suspeitar que lançava feitiços sobre os vizinhos, ou um processo instaurado contra um charlatão que vendia poções contra o «azar».

Contudo, sobrevive de forma surpreendente em algumas regiões. A magia rural torna-se discreta. Após a Segunda Guerra Mundial, o êxodo rural e a modernização agrícola acabam por transformar as mentalidades. As gerações mais jovens, desenraizadas da sua aldeia natal, já quase não retomam os relatos das avós. A bruxaria dos campos cai no silêncio, relegada ao estatuto de superstição de outros tempos. Nas décadas de 1960-1970, alguns etnólogos ainda conseguem descobrir os seus últimos focos. Favret-Saada revelou que a bruxaria continuava a ser uma linguagem social bem viva, embora já não se mostrasse às claras. À escala europeia, inquéritos semelhantes em Itália, na Hungria ou na Irlanda encontraram vestígios de práticas mágicas populares até muito tarde no século XX. Será isto um sinal de que a bruxaria dos campos se extingue pouco a pouco, ou antes de que se torna discreta, isto é, algo próprio da sua natureza? A resposta continua em aberto.

Hoje, seria redutor ver nesta bruxaria apenas um vestígio de superstições. Representa também uma forma de conhecimento experimental, transmitida oralmente, estruturada em torno de uma relação íntima com o corpo, a terra e os ciclos. Ler estas práticas através da história é fazer justiça à sua coerência e à sua eficácia simbólica. Para quem deseja prolongar esta exploração, a obra A Bruxaria dos Campos, de Charles Lancelin, oferece um olhar precioso sobre estas práticas.



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