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A transmissão familiar do poder mágico |
A magia está também enraizada em famílias, linhagens e comunidades que viam no sangue e na memória dinástica um canal privilegiado do poder oculto. No meio rural, acreditava-se durante muito tempo em bruxas hereditárias e em dons de cura que «correm no sangue» de certas famílias. Em contraste, o ocultismo erudito (hermetismo do Renascimento, cabala cristã, esoterismo do século XIX) privilegia linhagens iniciáticas ou espirituais, apelando a mestres passados ou à reencarnação em vez da filiação biológica. Exploração.
A transmissão familiar do poder mágico
Nas sociedades rurais da Europa, a magia e a bruxaria foram geralmente vistas como assuntos de família. Estas práticas populares transmitiam-se de pais para filhos, criando verdadeiras linhagens mágicas na aldeia. A tradição do fazedor de segredo (curandeiro por oração secreta) ilustra bem este fenómeno: o praticante só revela a sua fórmula na aproximação da morte, geralmente a um descendente ou membro da família. Assim, o dom da cura é visto como uma herança passada de geração em geração. Aqui na Bretanha, uma dessas curandeiras bretãs, apelidada de «a contadora» de Gestel, tornou-se localmente famosa pelo seu saber familiar transmitido e praticado em segredo.

A «contadora» de Gestel. Fonte
As investigações abundam em relatos de bruxas hereditárias. Suspeitava-se frequentemente que a filha de uma bruxa «herdava da mãe» e tinha recebido os seus sortilégios em herança. Durante julgamentos por bruxaria, não era raro que vários membros da mesma família fossem acusados em conjunto. Em Inglaterra, documentaram-se casos em que uma mãe legava às filhas o seu familiar, espírito servo que tomava a forma de um animal. Em 1667, Margaret Ley de Liverpool confessou perante as autoridades que, à morte da mãe, esta não tendo bens materiais para transmitir, «deixou-lhes os seus familiares», que Margaret e a irmã aceitaram como um bem estranho mas poderoso. Outras acusadas confessaram ter os seus espíritos familiares de um parente próximo – Agnes Waterhouse, a primeira bruxa executada em Inglaterra em 1566, dizia ter o seu gato demoníaco da irmã, enquanto Anne Cade, em Essex em 1645, declarou usar três ratos familiares que a sua própria mãe lhe dera.
Na Europa continental, encontram-se padrões semelhantes. Os curandeiros populares (reboqueiros, levantadores de males,...) afirmam ter um dom recebido de um antepassado. Uma crença difundida em França e no Norte da Europa atribui ao sétimo filho de uma linhagem sem filhas um poder particular de cura. Assim, o lendário marcou – o apelido do sétimo filho consecutivo de uma família – é reputado nascer com o dom de curar pelo toque. Até ao século XX, peregrinações religiosas, como a de São Marcou, mantinham esta convicção em linhagens milagrosas capazes de curar as escrofulosas ou outras doenças. Novamente, o poder mágico é pensado como intimamente ligado à linhagem de nascimento, seja como bênção ou, inversamente, como marca diabólica para os descendentes de supostas bruxas.
A antropologia comparada mostra que esta ideia de transmissão familiar das faculdades ocultas ultrapassa largamente o âmbito europeu. Entre os Azandé da África Central, ser feiticeiro é ter herdado a faculdade de prejudicar os outros. A bruxaria, chamada mangu pelos Azandé, é como uma substância ou poder que se transmite de pai para filho. Se um membro do clã é acusado de bruxaria, considera-se por defeito que os seus parentes próximos possuem o mesmo potencial maléfico. Da mesma forma, em certas culturas xamânicas, o papel de xamã ou de fazedor de chuva é exercido por várias gerações sucessivas da mesma família, embora a iniciação espiritual também desempenhe um papel. Estes exemplos extra-europeus iluminam por sua vez as zonas rurais do Ocidente: em todo o lado, a família é um vetor privilegiado para explicar a persistência de poderes ocultos, para o melhor (o dom de curar) como para o pior (a praga da bruxaria).
Linhagens iniciáticas e herança esotérica
Ao contrário das bruxas camponesas ou dos curandeiros, os adeptos da magia erudita – ocultistas, alquimistas, cabalistas – concebem a transmissão do saber mágico menos em termos de sangue e mais em termos de iniciação e filiação espiritual. Desde o Renascimento, as escolas herméticas europeias procuram enraizar-se em tradições antigas para legitimar o seu saber. Os humanistas místicos como Marsílio Ficino ou Pico della Mirandola viam no hermetismo e na cabala a continuação de revelações primordiais. Procuraram uma cadeia de sábios desde a Antiguidade até eles: egípcios míticos (Hermes Trismegisto), profetas bíblicos, filósofos gregos e magos árabes, formando uma linhagem esotérica da qual se diziam herdeiros. Ao traduzir manuscritos ou receber o ensino de um mestre, o esoterista do Renascimento inscrevia-se na sucessão desses antigos detentores do saber oculto. Falava-se frequentemente de philosophia perennis (filosofia eterna) transmitida através dos tempos.
Nos séculos XVII e XVIII, várias sociedades ocultas construíram-se em torno de filiação secreta. A Ordem Rosacruz, surgida no século XVII, apresentava-se como descendente da confraria de Christian Rosenkreutz, personagem simbólico do século XV. Mais tarde, no século XVIII, maçons redescobriram a carta de uma transmissão ininterrupta desde os cavaleiros templários medievais. A lógica é nobre: para fundar uma ordem oculta, procura-se ancorar-se numa dinastia de antigos mestres.
No século XIX, o esoterismo ocidental integra uma nova dimensão de herança espiritual: a noção oriental de reencarnação e de karma. Correntes como a teosofia – fundada em 1875 por Helena Blavatsky – difundem amplamente estas ideias vindas do hinduísmo e do budismo. A Sociedade Teosófica populariza no Ocidente a lei do karma concebida como lei de causa e efeito moral, onde o destino de um indivíduo é o resultado das suas ações passadas, eventualmente em vidas anteriores. Esta visão kármica fornece uma explicação transgeracional das aptidões espirituais: um ocultista poderia ter adquirido os seus poderes ao longo de várias encarnações, acumulando o saber de uma vida para outra. Nesta perspetiva, a linhagem já não é familiar mas kármica: a alma progride através de diferentes corpos e pode renascer numa ou noutra família conforme o seu grau de evolução. Esoteristas ocidentais sérios como Annie Besant ou Rudolf Steiner desenvolveram teorias onde os encontros dentro de uma família, ou de um círculo, são resultado de laços kármicos formados em existências anteriores. Contudo, convém notar que nas doutrinas orientais clássicas, o karma permanece ligado ao indivíduo; a noção de karma familiar stricto sensu é estranha ao hinduísmo ou budismo tradicionais. É mais o Ocidente esotérico moderno que extrapolou a ideia de dívidas ou missões kármicas partilhadas por um grupo de almas, por vezes encarnadas na mesma linhagem terrestre. Seja como for, a introdução do karma ofereceu aos ocultistas do século XIX uma forma renovada de pensar a herança espiritual: as virtudes ou fraquezas de um ser podem resultar de uma herança imaterial (o seu próprio passado remoto) em vez da sua ascendência direta. Assim, a lei kármica simbolicamente junta-se ao princípio das maldições e bênçãos hereditárias, transcendendo a vida individual para inscrever o destino numa duração mais ampla.
Finalmente, as grandes escolas esotéricas estruturadas – da cabala cristã do Renascimento às ordens ocultistas do século XIX – distinguem-se das práticas populares por um certo formalismo. A magia cerimonial, praticada na ordem da Golden Dawn (1888) ou por Éliphas Lévi em França, baseia-se em rituais escritos, iniciações graduais e ensinamentos codificados. Aqui, o vínculo mestre-discípulo prevalece sobre o vínculo sanguíneo. Um grande mago pode formar um discípulo que se tornará por sua vez mestre, criando uma cadeia iniciática. Estes círculos elitistas viam as bruxas da aldeia como figuras rudes, desprovidas de verdadeiro saber esotérico – simples superstição popular aos olhos dos ocultistas. Inversamente, os camponeses desconfiavam das teorias herméticas demasiado abstratas, preferindo a receita transmitida pela avó. Esta distância entre ocultismo erudito e magia popular não impedia algumas pontes: muitos eruditos interessaram-se pela bruxaria rural (o médico parisiense Gérard Encausse, dito Papus, recolhia fórmulas de curandeiros), e algumas famílias de curandeiros acabaram por ler grimórios impressos. No entanto, o fundamento da autoridade era diferente: o mago instruído apoiava-se numa tradição escrita e iniciática multi-sécula, enquanto a bruxa camponesa invocava a tradição dos antigos da aldeia, transmitida oralmente na sua parentela.
Maldições, proteções e pactos dinásticos
As tradições mágicas europeias desenvolveram também a possibilidade de que o destino de uma linhagem inteira possa ser influenciado – para o bem ou para o mal – por um ato oculto originário. Temem-se especialmente as maldições ancestrais, esses feitiços lançados por um feiticeiro ou ser ofendido que perseguiriam a família visada através das gerações. Um dos casos mais célebres é o da maldição dos reis Capetianos por Jacques de Molay, o último mestre dos Templários. Supliciado em 1314 por ordem do rei Filipe IV, o Belo, Jacques de Molay terá amaldiçoado os seus carrascos – o papa Clemente V e o rei – citando-os a comparecer perante Deus no prazo de um ano, e concluiu: «Malditos! Malditos! Malditos! Todos malditos até à décima terceira geração das vossas raças!». De forma marcante e perturbadora, Filipe IV morreu no ano seguinte, e os seus três filhos morreram jovens sem herdeiro masculino, pondo fim à linhagem direta dos Capetianos e abrindo a crise de sucessão da Guerra dos Cem Anos. Os contemporâneos viram nisso o efeito de uma força obscura: «como pôde o rei mais poderoso, pai de três filhos, ver a sua dinastia extinguir-se assim, senão por uma razão sobrenatural?» nota a historiadora Colette Beaune. A ideia de uma linhagem amaldiçoada prolonga na realidade uma conceção medieval, até bíblica, da justiça imanente: no Antigo Testamento, Deus «castiga a culpa dos pais nos filhos até à terceira ou quarta geração» (Êxodo 20:5). Esta noção de culpa original transmissível marcou profundamente as mentalidades: o infortúnio persistente de uma família – infertilidades, mortes violentas repetidas, ruína inexplicada – podia ser interpretado como resultado de uma maldição proferida outrora, ou de um pacto diabólico concluído por um antepassado e cujo preço os descendentes pagam.
Simetricamente, algumas famílias acreditam estar ligadas por uma proteção mágica hereditária. Vimos o caso das famílias de curandeiros ou de marcous que transmitem uma bênção. Podem também citar-se os espíritos protetores ligados a uma casa ou linhagem: na Escócia e na Irlanda, lendas falam de banshees (espíritos femininos) associados a certas grandes famílias, anunciando com os seus gritos a morte de um membro, mas também velando misteriosamente pelo clã. Da mesma forma, a figura do demónio familiar podia ser vista positivamente num contexto pactuado: na Bretanha ou no Berry, contava-se que certo senhor capturou um espírito (pela magia ou pela astúcia) e o escravizou para que protegesse o seu castelo e os seus herdeiros. Este pacto dinástico assegurava a prosperidade da linhagem enquanto o espírito fosse honrado ou controlado segundo o acordo inicial. Num registo cristão, as dinastias reais mantiveram a ideia de um dom miraculoso hereditário: os reis de França, desde São Luís, alegavam possuir o poder de curar as escrofulosas pela simples imposição das mãos, poder que se transmitia com o sangue real. Aqui, não se trata de bruxaria mas de uma espécie de carisma sagrado conferido a uma linhagem por unção divina. No entanto, a fronteira entre religioso e mágico é ténue: para o povo, quer uma capacidade sobrenatural de curar ou amaldiçoar seja dada por Deus ou pelo Diabo, continua a ser uma questão de família ou linhagem.
Algumas lendas familiares misturam intimamente a ideia de maldição e de pacto protetor. A fada Mélusine seria a antepassada dos senhores Lusignan (Idade Média). Esta mulher-serpente trouxe fortuna e poder à sua descendência enquanto o seu segredo (a sua natureza serpentina aos sábados) fosse guardado; mas após a transgressão do marido que a surpreendeu na sua forma amaldiçoada, Mélusine desapareceu deixando a família atingida por uma parte de infortúnio. Diz-se que ela regressaria, sob a forma de dragão, para assombrar as torres do castelo sempre que um membro da linhagem está perto da morte. Mélusine encarna o pacto ambíguo que liga uma dinastia a uma entidade sobrenatural: aliança benéfica no início, mas fonte de uma maldição latente. Através deste mito, é precisamente a ideia de que as escolhas de um antepassado distante podem condicionar o destino dos seus herdeiros que transparece – ideia que se encontra em muitos relatos, seja um trisavô que ofendeu uma bruxa (e cuja prole expia a sua ira) ou um antepassado que negociou um poder oculto transmitido com o seu nome.
Assim, as linhagens mágicas e os pactos dinásticos recordam que a magia não é apenas assunto de indivíduos, mas também de heranças e transmissões. Por trás de cada ritual ou fórmula, existem memórias familiares, dívidas invisíveis e bênçãos duradouras. Compreender esta herança é também reconhecer que a arte mágica dialoga sempre com o tempo longo, ligando os vivos aos antepassados e inscrevendo os gestos de hoje num destino coletivo.
Fontes :
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Gustav Henningsen & Bengt Ankarloo (dir.), Bruxaria Europeia Moderna: Centros e Periferias, Oxford University Press, 1990.
















