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O Caminho do Budismo

O Caminho do Budismo

NO ÍNDICE...

 

1. Siddhārtha Gautama, o Buda
2. As Quatro Nobres Verdades
3. Os grandes ramos do budismo
4. Os conceitos-chave do budismo
5. Práticas budistas e modo de vida
6. O budismo num mundo moderno
7. As figuras importantes do budismo
8. A influência filosófica do budismo


O budismo intriga e fascina muitos buscadores da verdade. Cercado de clichés – por vezes apresentado como um culto exótico, outras vezes como uma simples filosofia de bem-estar –, o budismo é na realidade uma tradição espiritual complexa, nascida há mais de 2.500 anos na Índia. Então, o que é realmente? Viagem.

1. Siddhārtha Gautama, o Buda

A história do budismo começa com a vida de Siddhārtha Gautama, que se tornou o «Buda» (que significa «desperto»). Segundo a tradição, Siddhārtha Gautama era um príncipe do clã dos Shakya, vivendo no século VI e V a.C. no norte da Índia. Comovido pelo sofrimento do mundo que descobriu fora do seu palácio (doença, velhice, morte), renunciou à sua vida de privilégios para seguir uma busca espiritual. Após anos de ascetismo e meditação, atingiu a iluminação (o despertar) em Bodh-Gaya, alcançando uma compreensão profunda da condição humana e dos meios para se libertar do sofrimento. A partir daí, tornou-se o Buda Shākyamuni (o «sábio dos Shakya») e dedicou o resto da sua vida a ensinar este caminho de libertação aos seus discípulos. Os seus primeiros ensinamentos tiveram lugar em Sarnath (perto de Benares), evento que a tradição chama «a colocação em movimento da roda da Lei» ou Dharmacakra Pravartana – o início da transmissão do Dharma (o ensinamento budista).

O budismo nasce num contexto de questionamento da religião védica dominante na Índia na época. Muitas escolas filosóficas e espirituais (os movimentos śramaṇa) propunham então alternativas aos ritos bramânicos considerados ineficazes para alcançar a salvação. O ensino do Buda impôs-se como uma dessas novas vias. Inicialmente modesto na sua audiência, o budismo manteve-se uma escola relativamente minoritária na Índia durante os primeiros séculos. No entanto, um ponto de viragem decisivo ocorreu durante o reinado do imperador Aśoka (século III a.C.). Convertido ao budismo após a sangrenta conquista de Kalinga, o imperador Aśoka abraçou os princípios de não-violência da doutrina budista e tornou-se um fervoroso promotor da nova fé. Segundo as inscrições encontradas nos seus éditos, Aśoka divulgou o Dharma do Buda por todo o seu império e além. Teria enviado missionários budistas até ao Sri Lanka, à Ásia Central, ao Egito e aos mundos gregos, espalhando assim amplamente o ensino do Buda. Sob o seu impulso, o budismo implantou-se solidamente no Sul e no Leste da Ásia, conhecendo um crescimento em regiões tão distantes como Ceilão (Sri Lanka) ou o reino grego da Bactriana.

Após a morte do Buda, a comunidade dos seus discípulos (o Saṅgha) organizou-se e registou progressivamente o seu ensinamento sob a forma de textos. Vários concílios budistas tiveram lugar para recitar e fixar a doutrina. O cânone dos textos antigos (em pāli e em sânscrito) foi assim estabelecido, lançando as bases doutrinárias comuns a todas as escolas budistas. Ao longo dos séculos, surgiram divergências de interpretação, levando ao aparecimento de diferentes escolas e linhagens dentro do budismo (voltaremos a isso). Paradoxalmente, a partir da Idade Média, o budismo declinou progressivamente no seu país de origem, a Índia, onde foi em parte reabsorvido pelo hinduísmo e enfraquecido pelas invasões. Por volta dos séculos XII e XIV, tinha quase desaparecido do subcontinente indiano. No entanto, entretanto, tinha-se difundido amplamente pelo resto da Ásia: prosperou no Sudeste Asiático, na China, na Coreia, no Japão, no Tibete, tornando-se uma das grandes tradições espirituais do continente. Este crescimento no estrangeiro permitiu ao budismo perdurar e evoluir sob formas variadas, apesar do seu relativo desaparecimento na Índia.

2. As Quatro Nobres Verdades

Os ensinamentos do Buda Gautama visam responder a uma questão central: como pôr fim ao sofrimento inerente à existência humana? Desde o seu primeiro sermão, o Buda expôs as Quatro Nobres Verdades, que constituem o coração da doutrina budista. Estas «verdades» são qualificadas de nobres (arya) no sentido de «dignas de respeito» porque dão acesso à compreensão da realidade tal como ela é.

2.1. A verdade do sofrimento

Toda existência condicionada é marcada pelo sofrimento, insatisfação ou frustração. A vida, enquanto tal, comporta inevitavelmente mal-estar: doença, velhice, separação, luto, insatisfação crónica fazem parte da experiência de todos os seres. Mesmo os prazeres são efémeros e fontes de dor quando terminam. Nada do que vivemos proporciona uma satisfação duradoura.

2.2. A verdade da origem do sofrimento

A causa profunda do sofrimento é o desejo, ou mais precisamente a sede (tṛṣṇā). Sede de prazeres, sede de existência ou de inexistência. Este desejo insaciável tem raízes na ignorância fundamental da verdadeira natureza da realidade. De facto, desconhecemos três características essenciais da existência (chamadas «as três marcas»): a impermanência universal (anicca), a ausência de um eu permanente (anātman) e o aspeto insatisfatório de todas as coisas (dukkha). Ignorando isto, apegamo-nos às coisas como se fossem permanentes, substanciais e capazes de nos satisfazer, daí o sofrimento. O ensinamento budista sublinha assim que tudo está desprovido de essência eterna e pessoal: não existe uma alma imutável (atman), nem uma substância fixa; todo fenómeno é condicionado, transitório e vazio de entidade própria. Este erro gera reações nocivas (os «três venenos» que são a cobiça, o ódio e a ilusão) que mantêm o ser no ciclo do sofrimento.

2.3. A verdade da cessação do sofrimento

É possível acabar com o sofrimento apagando em si a sede e a ignorância. O estado de libertação assim alcançado é chamado nirvāṇa, que significa «extinção» (como a de uma chama) ou ausência de tormentos. O nirvāṇa representa a libertação absoluta, a paz perfeita quando as causas do sofrimento são erradicadas. É o culminar do caminho budista. O Buda ensina que cada ser pode, pela sua própria prática, realizar este nirvāṇa libertador.

2.4. A verdade do caminho

Existe um caminho para alcançar a cessação do sofrimento: é o Nobre Caminho Óctuplo (āryāṣṭāṅgamārga). Este caminho é composto por oito práticas ou princípios a cultivar na vida, que se designam por: compreensão correta, intenção correta, palavra correta, ação correta, meios de subsistência corretos, esforço correto, atenção (mindfulness) correta e concentração correta. Estes oito aspetos da vida correta não são etapas lineares a percorrer uma após a outra, mas sim oito dimensões a desenvolver conjuntamente para progredir rumo ao despertar. Podem ser agrupados em três treinamentos essenciais: a sabedoria (compreensão e intenção corretas), a conduta ética (palavra, ação e meios de subsistência corretos) e a disciplina mental (esforço, atenção, concentração corretos). Ao praticar este caminho óctuplo, o indivíduo transforma progressivamente a sua visão do mundo, purifica a sua ética e desperta a sua mente, libertando-se do ciclo das renascimentos (saṃsāra) e do sofrimento.

Através das Quatro Nobres Verdades e do Nobre Caminho Óctuplo, o Buda propõe, portanto, um verdadeiro diagnóstico da condição humana e um remédio para o sofrimento. Esta abordagem, marcada pela lucidez e pragmatismo, está no centro de todas as escolas budistas. Note-se que o budismo enfatiza a experiência pessoal: estas «verdades» não são dogmas a aceitar cegamente, mas realidades a verificar por si mesmo através da prática meditativa e da observação da própria mente. O Buda encorajava, de facto, os seus discípulos a não acreditarem apenas por fé, mas a experimentarem por si mesmos a validade do Dharma. Este convite à abordagem crítica e introspectiva explica em parte o apelo do budismo no mundo moderno: a doutrina budista é vista como baseada na razão e na experiência, quase numa abordagem «científica» da espiritualidade.

Entre outros ensinamentos fundamentais, pode-se citar o princípio do Caminho do Meio. Tendo ele próprio experimentado os extremos (o luxo principesco e depois a severa ascese), o Buda recomendava um caminho moderado, afastado tanto do hedonismo quanto das mortificações desnecessárias. Este caminho médio, feito de equilíbrio, é precisamente encarnado pelo Nobre Caminho Óctuplo. O Buda também ensinou a coprodução condicionada (pratītya-samutpāda), uma lei que descreve como todos os fenómenos surgem em dependência de causas e condições – um conceito chave ligado à interdependência universal. Assim, nada existe de forma independente ou permanente, reforçando a compreensão da impermanência e do não-eu.

3. Os grandes ramos do budismo

Ao longo dos séculos seguintes à morte do Buda, o budismo diversificou-se em várias escolas e tradições. Apesar da base doutrinária comum (as Quatro Nobres Verdades, o Caminho Óctuplo, a não-violência), diferentes interpretações e práticas conduziram ao surgimento de ramos distintos. Geralmente distinguem-se três grandes correntes tradicionais do budismo.

3.1. O Theravāda ou a « Doutrina dos Antigos »


É a escola mais antiga ainda existente, herdeira do budismo original. O Theravāda baseia-se no cânone páli, redigido na língua falada pelo Buda. É hoje maioritário no Sudeste Asiático (Sri Lanka, Birmânia, Tailândia, Camboja, Laos). O Theravāda enfatiza a prática monástica e a realização do despertar individual. O ideal é tornar-se arhat, ou seja, um « santo » que alcançou a libertação para si próprio. O foco está, portanto, no aperfeiçoamento pessoal através da meditação e do respeito estrito aos preceitos, para sair do ciclo das renascimentos. Os adeptos do Theravāda consideram geralmente que a sua tradição é a mais fiel ao ensinamento original do Buda.

3.2. O Mahāyāna ou o « Grande Veículo »

Surgido alguns séculos após o Buda, o Mahāyāna desenvolveu-se sobretudo na Ásia Oriental (China, Coreia, Japão, Vietname). Difundiu-se a partir do século I da nossa era, propondo novos sūtras e enriquecendo a doutrina. O Mahāyāna valoriza o ideal do bodhisattva, o praticante que aspira ao despertar não só para si próprio, mas sobretudo para a salvação de todos os seres. Um bodhisattva, mesmo tendo alcançado o limiar do nirvāṇa, renuncia por compaixão a entrar na extinção enquanto todos os seres não estiverem libertados. Este ramo insiste, portanto, na compaixão universal (karuṇā) e na sabedoria (prajñā) como virtudes centrais. Muitas figuras espirituais (budas celestiais e bodhisattvas) povoam o imaginário mahāyāna, oferecendo múltiplos suportes de devoção. O Mahāyāna deu origem a uma multiplicidade de escolas, como o budismo da Terra Pura (centrado na fé em Amida), o Zen (Chan na China, focado na meditação e na experiência direta do despertar), o Tendai ou o Nichiren. É hoje a corrente mais difundida em número de praticantes no mundo.

3.3. O Vajrayāna ou o « Veículo de Diamante »

Também chamado de budismo tântrico ou esotérico, trata-se de uma corrente surgida dentro do Mahāyāna, que se desenvolveu principalmente no Himalaia (Tibete, Butão, Nepal, Mongólia) e na Ásia Central. O Vajrayāna integra práticas avançadas, inspiradas no Tantra. Estas incluem a utilização de rituais, de mantras (fórmulas sagradas repetidas), de mandalas (diagramas simbólicos), de visualizações de divindades, etc. O princípio do Vajrayāna é fornecer métodos acelerados para alcançar o despertar, considerando que a natureza de Buda já está presente em cada um (trata-se de realizá-la diretamente). Por exemplo, considera-se que se pode comportar como um buda desde o início, e assim alcançar mais rapidamente a realização, daí o uso intensivo de símbolos e visualizações. No entanto, estas técnicas poderosas são consideradas arriscadas na ausência de orientação: requerem a iniciação por um mestre espiritual qualificado (o lama, em tibetano) e uma transmissão secreta. O budismo tibetano é o exemplo mais conhecido de Vajrayāna. Como as outras correntes, o Vajrayāna também afirma ser fiel ao ensinamento original do Buda, que considera um ensinamento de «diamante» indestrutível.rituais, de mantras (fórmulas sagradas repetidas), de mandalas (diagramas simbólicos), ou de visualizações de divindades. O princípio do Vajrayāna é fornecer métodos acelerados para alcançar o despertar, considerando que a natureza de Buda já está presente em cada um (trata-se de realizá-la diretamente). Considera-se que se pode comportar como um buda desde o início, e assim alcançar mais rapidamente a realização, daí o uso intensivo de símbolos e visualizações. No entanto, estas técnicas poderosas são consideradas arriscadas na ausência de orientação: requerem a iniciação por um mestre espiritual qualificado (o lama, em tibetano) e uma transmissão secreta. O budismo tibetano é o exemplo mais conhecido de Vajrayāna. Como as outras correntes, o Vajrayāna também afirma ser fiel ao ensinamento original do Buda, que considera um ensinamento de «diamante» indestrutível.

Apesar das suas diferenças, estas três grandes correntes partilham os mesmos fundamentos: todas aderem às Quatro Nobres Verdades e ao Caminho Óctuplo, e reconhecem o Buda histórico como o inspirador do caminho. Nenhum ramo é objetivamente «superior» aos outros, cada um tendo desenvolvido métodos adaptados a contextos e sensibilidades diferentes. Além disso, ocorreram muitas trocas entre estas correntes ao longo do tempo, e observa-se na prática interpénétracoes (por exemplo, o Zen japonês, embora Mahāyāna, adotou alguns aspetos do Vinaya theravāda para a sua disciplina monástica).

3.4. O neo-budismo

Por fim, note-se que no século XX, face à modernidade e ao contacto com o Ocidente, surgiram novas formas de budismo. Fala-se por vezes de «neo-budismo» ou budismo moderno. Estes movimentos, iniciados em parte por pensadores asiáticos reformadores, procuraram apresentar o budismo sob uma luz mais racional, livre de superstições e de rituais considerados «decadentes». No início do século XX, reformadores no Sri Lanka, na Birmânia ou no Japão enfatizaram a meditação e o estudo, ao mesmo tempo que adaptavam o discurso budista aos valores científicos ou humanistas. Este modernismo budista – qualificado de «protestantismo budista» – teve uma influência importante na difusão do budismo no Ocidente, apresentando-o como uma filosofia compatível com a ciência e a razão. Também incentivou o compromisso social dos budistas e a adaptação às preocupações contemporâneas (paz, ecologia, psicologia,...).

4. Os conceitos-chave do budismo

Para além dos princípios gerais, o budismo estrutura-se em torno de vários conceitos-chave que é importante compreender:

  • Saṃsāra (ciclo das existências): termo sânscrito que designa o ciclo das renascenças condicionadas. Os budistas consideram que os seres (tanto humanos como animais ou outros) renascem continuamente em diversos mundos em função das suas ações passadas. Este ciclo de nascimentos e mortes sucessivas está associado ao sofrimento e ao errar enquanto o despertar não é alcançado. O saṃsāra é simbolizado por uma roda (a Roda da Vida) que ilustra os diferentes estados de existência, todos impregnados de insatisfação. O Buda ensina que se pode escapar do saṃsāra ao atingir o nirvāṇa. Em outras palavras, o objetivo do budismo é libertar-se deste ciclo condicionado de sofrimento, renascimento e morte.

  • Karma (lei de causa e efeito: palavra sânscrita que significa «ação». O karma designa o princípio da causalidade moral em funcionamento no universo. Cada ação intencional (física, verbal ou mental) produz um efeito que, mais cedo ou mais tarde, trará frutos para o autor da ação. Em termos simples, os nossos atos – bons ou maus – terão, mais cedo ou mais tarde, consequências na nossa existência. Uma ação positiva, marcada pela generosidade ou benevolência, gera mérito e conduzirá a resultados positivos (felicidade, circunstâncias favoráveis). Inversamente, uma ação negativa, prejudicial ou egoísta, produz demérito e conduzirá a sofrimento em retorno. O karma inscreve-se a longo prazo: os efeitos podem amadurecer nesta vida ou em vidas futuras. Este processo não é determinista, pois o budismo insiste na possibilidade de transformar o seu karma por novas ações virtuosas e pela prática espiritual. Cada um é responsável pelo seu destino ético, e o karma assegura a justiça imanente do ciclo das existências.

  • Nirvāṇa (libertação) : é o estado de libertação última visado pela prática budista. O termo significa literalmente « extinção » (como se apaga uma chama) – extinção dos fogos da avidez, do ódio e da ilusão. Alcançar o nirvāṇa é sair do saṃsāra e pôr fim a todas as formas de sofrimento. O nirvāṇa é descrito como uma paz suprema, incondicional, para além do nascimento e da morte. Na tradição Theravāda, distingue-se o nirvāṇa alcançado em vida (onde subsiste o corpo físico do libertado) e o nirvāṇa final no momento da morte (onde não há mais renascimento). O nirvāṇa é inconcebível para a mente comum; define-se em negativo, como a cessação de todo sofrimento e a experiência de uma felicidade indizível e infinita. Não se deve confundir o nirvāṇa com um «paraíso»: é um estado que transcende toda dualidade, que escapa às noções de lugar ou personagem. O Buda alcançou o nirvāṇa durante o seu despertar, e na sua morte entrou em parinirvāṇa (nirvāṇa completo).

  • Anātman (não-eu) : doutrina fundamental segundo a qual não existe no ser um « eu » permanente, uma alma eterna ou uma substância pessoal imutável. Ao contrário da crença bramânica num ātman (eu metafísico), o Buda ensinou que o que chamamos de indivíduo é na realidade um agregado de fenómenos em perpétua mudança (os cinco agregados: forma física, sensações, perceções, formações mentais, consciência). Nenhuma entidade fixa se esconde por trás destes processos. A noção de « pessoa » é uma convenção, uma montagem temporária de condições. Esta ausência de eu substancial está estreitamente ligada à noção de vacuidade (śūnyatā): todas as coisas sendo interdependentes e impermanentes, estão vazias de existência intrínseca. A compreensão profunda do não-eu liberta do apego egocêntrico e faz cair o medo da morte (pois não há um « eu » fixo a proteger). Este conceito pode parecer destabilizador à primeira vista, mas é portador de uma grande liberdade: se o « eu » é apenas uma construção, é possível transformá-lo, ultrapassá-lo e realizar a nossa natureza desperta. O Buda resumiu assim esta doutrina: « Em todo fenómeno, nenhum eu a encontrar ».

  • Anitya (impermanência): corolário do não-eu, a impermanência significa que tudo muda constantemente. Nada no universo condicionado escapa ao fluxo da mudança: as estações, os seres, os pensamentos, as civilizações – tudo aparece, transforma-se e desaparece. Tomar consciência da impermanência permite reduzir o apego excessivo às coisas e às situações, e apreciar o momento presente. É porque tudo é impermanente que a mudança é possível e que a libertação pode ser alcançada (pois os nossos estados mentais, mesmo os mais dolorosos, podem ser alterados). Os budistas meditam sobre a impermanência para cultivar o desapego e a sabedoria.

  • Karuṇā (compaixão): virtude central do budismo, a compaixão é essa emoção altruísta que consiste em querer aliviar o sofrimento dos outros. Está intimamente ligada à sabedoria na prática budista. O Buda ensinou que todos os seres, sem exceção, merecem a nossa compaixão, pois todos conhecem o sofrimento e aspiram à felicidade. No Mahāyāna, a compaixão é levada ao seu auge com o ideal do bodhisattva: este faz o voto de libertar todos os seres e coloca o bem deles antes do seu. Um exemplo ilustrativo é o bodhisattva Avalokiteśvara (Guānyīn em chinês, Chenrezik em tibetano), considerado a própria encarnação da compaixão infinita. A sua lenda conta que renunciou a entrar no nirvāṇa enquanto houvesse um único ser a sofrer no saṃsāra. A compaixão budista não é sentimentalismo, é uma força ativa, alimentada pela compreensão de que os seres sofrem por causa da ignorância. Acompanha-a a benevolência (mettā ou maitrī), o desejo sincero de que todos os seres encontrem a felicidade e as causas da felicidade. Cultivar a compaixão é cultivar um coração de bondade ilimitada, sem discriminação. Esta atitude está na base da ética budista (não causar dano, ajudar os outros) e das práticas de devoção.

Estas algumas noções formam a estrutura conceptual do budismo. Claro que o pensamento budista inclui muitos outros conceitos importantes, mas geralmente giram em torno dos apresentados acima. Uma boa compreensão destas noções-chave permite abordar a prática e a filosofia budistas com mais serenidade.

5. Práticas budistas e modo de vida

O budismo não é apenas uma teoria: é antes de tudo um caminho de prática e transformação pessoal. Os ensinamentos do Buda ganham vida através de um conjunto de práticas espirituais, éticas e contemplativas que visam purificar a mente e desenvolver a sabedoria e a compaixão. Estas práticas podem variar conforme as culturas e escolas, mas é possível identificar os principais eixos comuns: a meditação, a observância de preceitos éticos e vários rituais e devoções.

5.1. A meditação

É a prática mais emblemática do budismo. Existem muitas formas, mas todas visam desenvolver uma consciência desperta e não egoísta através do treino da mente. A meditação budista compreende classicamente dois aspetos complementares: a concentração (samatha) e a visão profunda (vipassana). O praticante começa por exercícios de concentração (focar a atenção na respiração) para estabilizar e acalmar a mente. Depois, pode praticar a meditação de atenção plena e a penetração na natureza dos fenómenos (observar pensamentos, sensações e emoções com clareza e equanimidade) para desenvolver a sabedoria. A escola Theravāda destaca a prática de vipassanā (observação interior) como o coração do caminho, enquanto o Zen enfatiza a meditação sentada silenciosa (zazen) ou a investigação de paradoxos (kōan). Quaisquer que sejam as técnicas específicas, a meditação visa pacificar a mente, desenvolver a atenção plena, a concentração e a compreensão profunda da realidade. Os seus benefícios são múltiplos: redução do stress, melhoria da compaixão, autoconhecimento. Na perspetiva budista, é através da meditação que se pode experienciar diretamente a natureza da mente e despertar.

5.2. A ética e os preceitos

A prática budista baseia-se também numa conduta moral irrepreensível, condição prévia para qualquer progresso espiritual. O Buda propôs um código ético simples para leigos e monges, formulado nos Cinco Preceitos básicos seguidos por todos os budistas. Estes cinco preceitos consistem em abster-se de: matar ou prejudicar qualquer ser vivo, roubar ou tomar o que não é dado, ter uma conduta sexual incorreta (adultério, exploração de outrem,...), mentir ou proferir palavras falsas, e consumir intoxicantes (álcool, drogas) que perturbam a mente. Estes compromissos, assumidos livremente, servem de guia ético mínimo. Cultivam a não-violência (ahimsa), a honestidade, o domínio próprio e a responsabilidade. Os monges e monjas seguem centenas de preceitos adicionais (reunidos no Vinaya), incluindo o celibato ou a pobreza voluntária, para levar uma vida inteiramente dedicada à prática. A observância dos preceitos purifica o karma e cria um contexto favorável à serenidade da mente. Um ponto notável do budismo é a importância da intenção: o valor moral de um ato é julgado pela intenção que o sustenta. Treinar a mente para a benevolência e a retidão é, portanto, central. A ética budista baseia-se na compaixão universal e na compreensão de que prejudicar os outros é também prejudicar a si mesmo (pois todos os seres interagem).

5.3. Rituais, devoção e outras práticas

Ao contrário do que se pensa, o budismo não se resume à meditação solitária. É também uma religião com os seus rituais e cerimónias, especialmente nas correntes Mahāyāna e Vajrayāna. Existem práticas de reverência e devoção ao Buda e a outros seres iluminados: os budistas prostram-se diante de estátuas do Buda, fazem oferendas (de flores, incenso, lâmpadas) nos altares, recitam orações ou mantras. Estes gestos cultivam a humildade, a gratidão e a inspiração espiritual. Existem também festas budistas, sendo a mais importante o Vesak (ou Vaishakha), que celebra o nascimento, o despertar e o parinirvāṇa do Buda. Além disso, os budistas praticam a leitura em voz alta de sūtras (textos sagrados), o canto de fórmulas piedosas, ou o rosário (mala) para recitar um mantra centenas de vezes. No Vajrayāna tibetano, realizam-se rituais tântricos complexos que incluem visualizações de divindades e a construção de mandalas coloridos. Alguns budistas fazem peregrinações a locais sagrados (Lumbini, Bodh-Gaya, Sarnath, Kushinagar na Índia, relacionados com a vida do Buda, ou outros sítios sagrados na Ásia). Por fim, a vida monástica é em si uma prática: os monges e monjas budistas levam uma existência disciplinada, marcada pela meditação, estudo, atos de generosidade e serviço à comunidade. Vivem geralmente graças às doações dos leigos, encarnando o ideal de renúncia. A sangha monástica forma a terceira «Joia» do budismo (juntamente com o Buda e o Dharma) a que os budistas recorrem para se refugiar.

6. O budismo num mundo moderno

Após a morte do Buda, o budismo espalhou-se muito para além das fronteiras da Índia, adaptando-se aos contornos de múltiplas civilizações. A A difusão do budismo fez-se tanto por missões religiosas, como por trocas comerciais e pelo sincretismo com as tradições locais.

Historicamente, podem distinguir-se várias grandes fases de disseminação. A primeira vaga ocorreu sob o impulso do imperador Aśoka no século III a.C., como mencionámos: emissários budistas introduziram a doutrina no Sri Lanka (onde ela firmemente enraizou no reino de Anurādhapura), assim como na Ásia Central. Posteriormente, entre o século II a.C. e o século II d.C., o budismo expandiu-se para o Norte: percorreu as rotas comerciais da Rota da Seda para alcançar a Ásia Central (Bukhara, Samarcanda, …), depois a China durante a dinastia Han. Monges vindos da Índia ou da Ásia Central traduziram os sūtras budistas para chinês e fundaram os primeiros mosteiros na China no século I da nossa era. À medida que se enraizava, o budismo chinês prosperou (sobretudo a partir do século IV) e gerou novas escolas (Terra Pura, Chan/Zen, Tiantai, …). Da China, irradiou para a Coreia no século IV, depois para o Japão no século VI (onde o budismo se tornou religião de Estado sob o impulso do príncipe Shōtoku). Paralelamente, o budismo difundiu-se para a Ásia do Sudeste marítima: estava presente na Indonésia e na Malásia desde o século V (como atestam os vestígios de Borobudur em Java). Por volta do século VII, foi o Tibete que adotou o budismo, importado da Índia e do Nepal (tradição Vajrayāna, nomeadamente graças ao mestre indiano Padmasambhava). No Tibete, o budismo fundiu-se com elementos da religião indígena Bön, dando origem a uma cultura budista singular. Assim, do Sri Lanka à Mongólia, do Japão ao Afeganistão, o budismo cobriu grande parte da Ásia, tornando-se uma das principais religiões do mundo.

O que impressiona é a capacidade do budismo de se adaptar às diferentes culturas com que se deparou. Em vez de impor uniformemente os seus modos de pensamento, integrou-se harmoniosamente nas tradições locais. Na China, teve de conciliar-se com o confucionismo e o taoismo: resultou daí o budismo Chan (Zen) tingido de conceções taoistas, ou a adoção de valores confucionistas (piedade filial) pelos monges chineses. No Japão, o budismo coexistiu com o shintō: em vez de rivalizarem, as duas tradições entrelaçaram-se (os kamis shintō foram interpretados como manifestações de budas ou bodhisattvas), a tal ponto que o budismo japonês integrou rituais shintō e vice-versa. No Sudeste Asiático, o budismo Theravāda absorveu crenças animistas locais (culto dos espíritos nat na Birmânia, por exemplo). Em todo o lado, as artes, a arquitetura e a literatura foram transformadas pela influência budista: esculturas e estátuas do Buda, construção de stūpas e pagodes, pintura de mandalas, relatos edificantes (contos Jātaka) difundiram-se amplamente graças ao budismo. Pode dizer-se que o budismo fez florescer brilhantes civilizações artísticas – pensemos na arte gandhāra greco-budista que produziu as primeiras imagens do Buda no século I, nas frescos das grutas de Dunhuang na China, nos magníficos templos de Pagan na Birmânia, ou nas estampas zen do Japão. No plano filosófico, o budismo enriqueceu o pensamento de muitos países ao trazer novas noções (vacuidade, momentaneidade dos fenómenos, lógica formal desenvolvida pela escola Madhyamaka). Estimulou o diálogo intelectual: na Índia, dialogou durante séculos com o hinduísmo e o jainismo; na China, interagiu com o neoconfucionismo; no Tibete, estruturou toda a vida intelectual (escolas monásticas de filosofia).

Na época contemporânea, a partir do século XIX e sobretudo do século XX, o budismo começou a implantar-se fora da Ásia, nomeadamente no Ocidente. Este movimento foi favorecido por vários fatores: a curiosidade orientalista dos estudiosos europeus no século XIX (que traduziram textos budistas), a imigração de comunidades asiáticas budistas para a Europa e América, e o interesse de muitos ocidentais pela espiritualidade budista em busca de alternativas às religiões estabelecidas. Hoje, estima-se que cerca de 7% da população mundial seja budista (aproximadamente 620 milhões de fiéis), dos quais a imensa maioria na Ásia. No Ocidente, o número de budistas permanece relativamente modesto (apenas 1 a 2% dos budistas mundiais), mas a influência cultural do budismo ultrapassa largamente este número: a popularização da meditação de atenção plena, do yoga (de origem hindu mas frequentemente associado), ou ainda a estética zen, tocou milhões de pessoas sem que necessariamente se identifiquem como budistas. Centros budistas foram fundados na maioria das grandes cidades ocidentais, mestres asiáticos (como o Dalai Lama, Thich Nhat Hanh, Suzuki Roshi) viajaram e ensinaram na Europa e América, suscitando um entusiasmo pelo Dharma.

O budismo contemporâneo teve de se ajustar às mentalidades modernas. Assim nasceu um certo « budismo laico » ou secular, livre dos seus aspetos sobrenaturais para reter apenas a filosofia e a prática meditativa aplicável ao bem-estar. A mindfulness (atenção plena) ensinada em hospitais ou empresas no Ocidente é um exemplo: originária das técnicas de meditação vipassanā budistas, foi adaptada num contexto estritamente laico e científico, para gerir o stress ou a dor. Da mesma forma, fala-se de budismo engajado para designar o envolvimento dos budistas na ação social, ecológica ou política, em nome da compaixão. O contacto com a modernidade também levou os budistas a repensar certos aspetos: o papel das mulheres na sangha (com esforços recentes para restabelecer a ordenação das monjas na tradição Theravāda), a atitude face a outras religiões, ou ainda a utilização das tecnologias digitais para difundir os ensinamentos.

É fascinante constatar que, após 25 séculos, o budismo continua a evoluir e a viajar. Da Ásia ao Ocidente, atravessou as épocas conservando o essencial da sua mensagem, ao mesmo tempo que se adapta com flexibilidade. Esta capacidade de adaptação explica em parte a sua longevidade. O budismo de hoje é ao mesmo tempo muito fiel à experiência do Buda e muito múltiplo nas suas expressões. É uma tradição viva, em diálogo com o mundo contemporâneo.

7. As figuras importantes do budismo

O budismo, sem se centrar no culto a um deus, atribui grande importância a certas figuras exemplares que guiam os praticantes pelo seu ensinamento ou exemplo. Em primeiro lugar encontra-se obviamente o Buda histórico, Siddhārtha Gautama, cuja vida e ensinamentos constituem o modelo fundador. Para os budistas, Gautama Buda é o Ser Desperto por excelência, aquele que redescobriu o Dharma e o partilhou com os seres. É venerado não como um deus criador, mas como um guia espiritual e um benfeitor da humanidade. Ofertas e orações são-lhe dirigidas em sinal de gratidão e para inspirar-se na sua compaixão e sabedoria. Para além da sua pessoa histórica, o Buda é representado de forma simbólica (sob a forma de estátuas meditativas que transmitem uma sensação de paz). As lendas atribuem-lhe 32 marcas físicas « maiores » de um ser desperto, como o crânio proeminente, os lóbulos das orelhas longos,... que o distinguem na iconografia.

No Mahāyāna, o panteão budista expandiu-se consideravelmente. Encontram-se muitos budas transcendentais e, sobretudo, bodhisattvas. Os bodhisattvas são, recordemos, seres prometidos ao despertar que fazem o voto de permanecer no ciclo das existências para guiar todos os seres rumo à libertação. Cada um personifica uma virtude particular e desempenha um papel importante na devoção dos fiéis. Entre os mais venerados, conta-se Avalokiteśvara, o bodhisattva da grande compaixão, conhecido no Extremo Oriente pelo nome Guānyīn (representado em forma feminina) e no Tibete pelo nome Chenrezik. Avalokiteśvara é considerado a encarnação da compaixão universal; invoca-se para que auxilie os seres sofredores. O seu mantra sânscrito « Om Maṇi Padme Hūm » é um dos mais recitados no mundo. Outro bodhisattva importante é Mañjuśrī, associado à sabedoria transcendente: é representado brandindo uma espada que corta a ignorância. Citamos também Kṣitigarbha (Ditāngu, ou Jizō no Japão), bodhisattva protetor dos seres do inferno e das crianças, representado como um monge com um bastão. Maitreya merece uma menção especial: é o bodhisattva que se tornará o próximo Buda no futuro. Atualmente no céu Tushita, Maitreya desceria à Terra quando o ensinamento do Buda Gautama tiver desaparecido, para restaurar o Dharma. Muitas estátuas mostram-no sentado num trono, pronto para se levantar.

Na tradição tibetana (Vajrayāna), veneram-se também um grande número de mestres espirituais e divindades tântricas. Padmasambhava (Guru Rinpoché) é honrado como o fundador do budismo tibetano, aquele que submeteu os demónios do Tibete e estabeleceu a primeira comunidade monástica no século VIII. As escolas tibetanas têm as suas linhagens de lamas reencarnados, sendo o mais famoso o Dalaï-Lama, considerado uma manifestação de Avalokiteśvara. Estas figuras contemporâneas desempenham um papel tanto espiritual como temporal para as suas comunidades.

Além disso, historicamente, vários soberanos e eruditos contaram entre as figuras marcantes do budismo. Mencionámos o imperador Aśoka pelo seu papel de propagador. Podemos também referir filósofos indianos de destaque, como Nagarjuna (século II) que desenvolveu a filosofia da vacuidade do Madhyamaka, ou Asanga e Vasubandhu (século IV) para a escola Yogācāra, ou ainda Dōgen (século XIII, Japão) para o Zen.

Por fim, o Sangha – a comunidade dos praticantes – é considerado uma « figura » coletiva importante. Os monges, monjas e até os leigos exemplares são vistos como continuadores do Buda, incorporando os seus ensinamentos no mundo atual. Em cada país budista, algumas personalidades espirituais emergem e servem de guias para a comunidade. Foi o caso, por exemplo, do Dalai Lama XIV e de Thich Nhât Hanh no século XX, que adquiriram uma estatura mundial ao difundir uma mensagem de paz, compaixão e não-violência inspirada no budismo.

8. A influência filosófica do budismo

O budismo deixou uma marca profunda nas culturas e nos pensamentos das regiões onde se implantou. A sua difusão multissecular por toda a Ásia deu origem a interações notáveis entre a espiritualidade budista e as tradições locais, produzindo um rico património cultural, artístico e filosófico.

Nas artes e na arquitetura, o impacto do budismo é considerável. Por todo o lado onde floresceu, o budismo inspirou a criação de imagens sagradas e monumentos emblemáticos. A figura do Buda, em particular, foi representada sob inúmeras formas: estátuas meditativas serenas com um sorriso enigmático, frescos que relatam a sua vida, baixos-relevos narrativos dos Jātakas (as suas vidas anteriores). As primeiras representações antropomórficas do Buda surgidas por volta do século I na Índia (escolas de Gandhāra e Mathurā) testemunham uma fusão artística greco-budista, combinando a estética helenística com o simbolismo indiano. Posteriormente, cada cultura retratou o Buda à sua maneira: o Buda com olhos longos semicerrados da arte chinesa Tang, as esculturas colossais de Borobudur na Indonésia, os elegantes Budas de bronze do Sião, até às estátuas do Buda risonho (Budai) com barriga redonda na China popular – tantas variações iconográficas provenientes de contextos diferentes, mas todas remetendo para o ideal de despertar e compaixão. A arquitetura religiosa foi igualmente transformada: o stūpa indiano (monumento em forma de cúpula hemisférica que contém relíquias) deu origem às pagodes em vários andares no Extremo Oriente, aos grandes chédi esguios da Tailândia, ou aos chörtens do Tibete. Estes edifícios, ricamente decorados, estruturavam o espaço sagrado budista e serviam como locais de peregrinação ou rituais. Complexos monásticos inteiros, como as universidades budistas de Nālandā na antiga Índia, ou os templos-cidadelas do Tibete (Potala de Lhassa), atestam a marca física duradoura do budismo na paisagem. No Leste Asiático, o budismo também influenciou as artes tradicionais: no Japão, contribuiu para o desenvolvimento do teatro nô (com peças de temática budista), da cerimónia do chá (imersa no espírito zen de simplicidade), do ikebana (arranjo floral que mistura simbolismo budista e estética depurada). A poesia e a pintura zen, com os seus haikus e tintas minimalistas, tiveram um impacto mundial pela sua beleza e profundidade meditativa.

Ao nível das ideias e da filosofia, o budismo trouxe conceitos e métodos intelectuais inovadores. Na Índia, estimulou uma rica tradição de filosofia escolástica: os debates entre budistas e filósofos hindus refinaram a lógica e a epistemologia. A filosofia budista da vacuidade (Śūnyatā) desenvolvida por Nāgārjuna explorou os paradoxos da linguagem e da realidade de uma forma que antecipa algumas abordagens filosóficas modernas (relatividade dos pontos de vista, desconstrução das essências). Reis filósofos como o mogol Akbar ou imperadores chineses Tang interessaram-se pelos ensinamentos budistas, favorecendo um diálogo intercultural. Na China, o budismo influenciou o pensamento neoconfucionista (nomeadamente através da noção de vazio e da compaixão universal) e introduziu a prática da meditação introspectiva numa cultura mais orientada para a harmonia social. No Tibete, o budismo moldou praticamente toda a visão do mundo: a medicina tibetana tradicional, por exemplo, inspira-se em parte nos princípios budistas (conceber a doença como um desequilíbrio ligado aos três venenos do espírito). A cosmogonia, a política (com a ideologia do rei-chakravarti, « rei que gira a roda », ou seja, protetor do Dharma), a literatura (relatos de milagres, biografias de santos, etc.) – todas estas esferas foram profundamente influenciadas pelo budismo.

Na era moderna, o Ocidente por sua vez foi tocado pelo pensamento budista. Desde o século XIX, filósofos europeus como Arthur Schopenhauer ou Friedrich Nietzsche manifestaram interesse pelo budismo: Schopenhauer admirava o budismo pela sua lucidez sobre o desejo e o sofrimento, e via nele um pensamento próximo do seu próprio pessimismo metafísico; Nietzsche via nele ora uma moral do renúncia, ora uma sabedoria decadente, testemunhando em todo o caso uma fascinação crítica. No século XX, psicólogos como Carl Jung estudaram os símbolos budistas (mandalas) e a experiência meditativa para alimentar os seus modelos da mente humana. Mais recentemente, o encontro entre a ciência e a meditação intensificou-se: neurocientistas colaboram com monges budistas para estudar os efeitos da meditação no cérebro e na consciência. O diálogo inter-religioso também beneficiou da presença budista: desde congressos mundiais das religiões até encontros com o papa, o budismo trouxe uma voz que promove a tolerância, a não-violência e a busca interior da verdade. A sua filosofia da interdependência encontrou eco nas preocupações ecológicas contemporâneas. No domínio da espiritualidade popular, o budismo influenciou o movimento New Age, que recuperou algumas ideias budistas (reencarnação, karma) por vezes de forma sincrética e distorcida – o que mostra tanto a ampla difusão destes conceitos como os riscos de simplificação que enfrentam fora do seu contexto.

O budismo atuou como um fermento cultural e intelectual nas sociedades que o acolheram. Soube fazer florescer formas de arte e pensamento de grande riqueza, ao mesmo tempo que abraçava as correntes locais. A sua contribuição mais universal reside talvez nos seus valores humanistas e na sua abordagem introspectiva da mente humana, na simples busca da felicidade.


Fontes :

  • World History Encyclopedia – « Budismo » (visão histórica e doutrinária)

  • Encyclopædia Britannica – « Budismo » (definição, origens, difusão)

  • Stanford Encyclopedia of Philosophy – « O Buda » (biografia e análise filosófica)

  • World History Encyclopedia – « Uma Breve História das Escolas Budistas » (evolução das escolas)

  • World History Encyclopedia – « Budismo no Japão Antigo » (difusão regional)

  • Stanford Encyclopedia of Philosophy – « Mente na Filosofia Budista Indiana » (psicologia e filosofia budistas)

  • Peter Harvey, Uma Introdução ao Budismo: Ensinamentos, História e Práticas (2.ª ed., 2013)

  • Rupert Gethin, Os Fundamentos do Budismo (Oxford University Press, 1998)

  • Paul Williams, Budismo Mahāyāna: Os Fundamentos Doutrinários (Routledge, 1989)

  • Pew Research Center – « Alterações Projetadas na População Budista Global » (estatísticas demográficas).

Olivier d’Aeternum
Par Olivier d’Aeternum

Apaixonado pelas tradições esotéricas e pela história do oculto desde as primeiras civilizações até ao século XVIII, partilho alguns artigos sobre estes temas. Sou também co-criador da loja esotérica online Aeternum.

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