Na tradição esotérica ocidental, o pacto mágico - um compromisso solene entre um praticante e uma entidade não humana - nunca é encarado de ânimo leve. Assim, desde a magia medieval até aos grimórios do Renascimento, encontram-se inúmeras referências a acordos formais celebrados com demónios, espíritos ou inteligências invisíveis. Eis as explicações.
Compreender o conceito de pacto mágico
Um pacto mágico define-se como um contrato oculto que liga duas partes: por um lado, o mago (ou feiticeiro) e, por outro, uma entidade espiritual. Através deste acordo, o praticante compromete-se a oferecer um tributo ou oferenda - que pode ser o seu sangue, a sua devoção, serviços ou até a própria alma - e a entidade compromete-se, em troca, a realizar determinados desejos do mago. Trata-se de uma verdadeira troca de promessas: o pacto confere direitos e deveres a ambos os signatários. O mago formula o seu pedido (seja conhecimento oculto, riqueza, poder, amor, proteção,...), e a entidade exige, como contrapartida, um pagamento adequado. Nos círculos esotéricos, afirma-se que nada é concedido gratuitamente pelos espíritos. Qualquer favor obtido através de um pacto deve ser compensado de uma forma ou de outra. Esta lei da troca garante que o acordo é selado de forma justa - pelo menos aparentemente.
Um pacto mágico distingue-se de uma simples oração ou de uma conjuração clássica pelo seu caráter contratual e vinculativo. Enquanto uma invocação pode chamar temporariamente um espírito, o pacto formaliza uma relação duradoura. Liga o mago durante um período determinado ou até ao cumprimento dos termos previstos. Além disso, o pacto implica geralmente algum grau de ritualização: por vezes, é redigido por escrito, selado por um juramento, assinado (com letras de sangue, no caso dos mais sérios) e acompanhado da invocação de forças testemunhas para garantir a sua validade. Estes elementos concretos destinam-se a tornar o acordo irrevogável aos olhos do mundo invisível.
As diferentes formas de pactos na magia
A magia ocidental regista várias formas de pactos, de acordo com a natureza da entidade invocada e a forma como o acordo é celebrado. Cada tipo de pacto tem as suas especificidades, embora todos partilhem a ideia de uma troca sagrada entre o ser humano e o invisível.
Pactos com demónios e entidades infernais
Esta é a forma mais célebre e temida de pacto. Trata-se de selar um acordo com um demónio maior ou menor, frequentemente identificado com Satanás ou Lúcifer na tradição cristã. O cenário clássico, transmitido desde a Idade Média, mostra um indivíduo a oferecer a sua alma em troca de favores extraordinários - juventude prolongada, conhecimento ilimitado, riqueza abundante, fama ou poder terreno. O exemplo emblemático é o pacto faustiano: a lenda do erudito Fausto conta como este assinou um contrato com o Diabo (representado por Mefistófeles) em troca de conhecimentos ocultos e prazeres, contrato que estipulava que, ao fim de um determinado número de anos, a sua alma pertenceria ao inferno. Numerosos relatos medievais e renascentistas descrevem pactos diabólicos deste tipo. Segundo estas fontes, o demónio fornece serviços sobrenaturais enquanto o contrato estiver em vigor, mas, chegada a data de vencimento, vem reclamar o que lhe é devido. É fácil imaginar as graves consequências de um acordo deste tipo: o signatário arrisca a condenação eterna em troca de algumas décadas de benefícios terrenos.

Mito de Fausto
Para celebrar um pacto com uma entidade infernal, os grimórios indicam protocolos rigorosos. O mago deve geralmente invocar o demónio no centro de um círculo de proteção e, em seguida, redigir o compromisso num documento. O pacto pode ser assinado pelo praticante com o seu próprio sangue, símbolo da sua vida e da sua alma oferecidas. A entidade, por sua vez, apõe a sua marca ou o seu selo infernal para manifestar o seu acordo. Um exemplo célebre surge no Grand Grimoire, um manuscrito ocultista europeu: este livro (datado do século XVIII) descreve os rituais para invocar espíritos infernais com o objetivo explícito de celebrar um pacto com eles. Inclui até um modelo de contrato a celebrar com um alto demónio chamado Lucifuge Rofocale, ministro de Lúcifer. O texto do pacto estipula que o espírito dará acesso a tesouros escondidos e a diversos segredos, enquanto o mago promete recompensá-lo vinte anos mais tarde pelos seus serviços, assinando com o seu sangue no fundo do documento. Este tipo de ritual, detalhado nos grimórios, demonstra até que ponto o pacto era encarado com seriedade como uma ferramenta mágica concreta, com cláusulas e formalismo jurídico.
Os teólogos medievais viam em qualquer ato de feitiçaria a sombra de um pacto demoníaco deste tipo. No século XVIII, São Tomás de Aquino distinguia o pacto explícito (o feiticeiro proclama abertamente o seu acordo com o Diabo, através de um ritual ou juramento) do pacto tácito (o simples facto de praticar uma magia proibida equivale implicitamente a pactuar com o Maligno). Por outras palavras, mesmo sem contrato escrito, qualquer pessoa que utilize poderes ocultos fora da fé oficial estaria a ligar-se silenciosamente aos demónios. Esta noção de pacto silencioso - ou tácito - impregnou o pensamento cristão: sugere que é possível ficar acorrentado a espíritos obscuros sem sequer proferir um voto formal, simplesmente por aceitar a sua ajuda oculta. Do ponto de vista esotérico, reconhece-se efetivamente que certas entidades podem prestar auxílio de forma não declarada, mas que, como contrapartida, uma parte da alma ou do livre-arbítrio do mago fica secretamente comprometida. Os magos avisados procuram, por isso, evitar estas armadilhas, preferindo pactos explícitos e controlados, com condições claras, em vez de uma ajuda oculta obtida sem um enquadramento preciso. Negociado nos devidos termos, é preferível a uma ajuda obtida sem contrato, pois, neste último caso, a entidade poderá mais tarde reclamar um preço exorbitante. Assim, mesmo na magia negra tradicional, aconselha-se a definir claramente os termos da troca, de modo a manter algum controlo sobre a relação com o demónio.
Pactos com outros espíritos ou inteligências não humanas
Nem todos os pactos são celebrados com demónios infernais. Ao longo da história, muitos ocultistas procuraram celebrar acordos com espíritos de outra natureza: espíritos da natureza, génios, anjos ou inteligências planetárias. Na magia renascentista influenciada pela Cabala e pelo hermetismo, fala-se de «inteligências» para designar as entidades que governam as esferas celestes (os planetas e as estrelas). Um mago poderia tentar celebrar, por exemplo, um pacto com a Inteligência de Júpiter, para obter a sua benevolência e atrair prosperidade e sabedoria. Do mesmo modo, certas tradições esotéricas europeias mencionam pactos celebrados com fadas ou espíritos elementais: o praticante promete respeitar determinados lugares sagrados ou fazer oferendas regulares e, em troca, o espírito local concede-lhe proteção ou dons particulares. Estes pactos não demoníacos são frequentemente menos perigosos, pois as entidades envolvidas não procuram necessariamente corromper a alma do mago. Ainda assim, o compromisso continua a ser sério: por exemplo, um pacto com um espírito da natureza poderia exigir que o ser humano protegesse uma floresta ou guardasse segredo sobre a existência do espírito, sob pena de perder o favor concedido.
Na magia celta, encontram-se relatos de camponeses que pactuaram com o pequeno povo (as fadas ou os duendes) para garantir boas colheitas - todos os anos deixavam uma parte da colheita como oferenda num canto dos campos, perpetuando assim um pacto tácito de abundância. Do mesmo modo, na magia cerimonial, alguns magos cristãos afirmam ter celebrado alianças com o seu anjo da guarda ou com génios celestes: comprometem-se com uma vida de pureza e oração e, em troca, a entidade divina garante-lhes orientação e conhecimento. Estes exemplos mostram que o pacto mágico pode assumir formas muito variadas, das mais sombrias às mais luminosas, consoante a natureza moral da entidade invocada e o objetivo pretendido. Mas, seja qual for a entidade, a estrutura mantém-se: trata-se de um contrato com obrigações recíprocas.
Pactos de sangue
O pacto de sangue não é um tipo diferente de entidade, mas antes um método particularmente poderoso de selagem mágica. Utilizado em muitos rituais, o sangue serve para selar o acordo de forma irrevogável. No esoterismo, o sangue é considerado portador da força vital e da identidade profunda de uma pessoa. Assinar um pacto com o próprio sangue equivale, portanto, a comprometer todo o seu ser no contrato. Esta prática é atestada desde a Idade Média: dizia-se que as bruxas apunham a sua assinatura em letras de sangue no registo do Diabo durante o sabat, ou que os conjuradores medievais assinavam os talismãs com uma gota de sangue para os tornar ativos. No caso de um pacto escrito, utilizar o sangue do mago em vez de tinta confere ao documento um valor quase sagrado - como um juramento assinado perante o universo. Em algumas versões da lenda, o pacto de Fausto é assinado com o seu sangue, ato através do qual Fausto declara «o meu sangue consagra este pacto».
O sangue também pode ser derramado ou trocado como oferenda. Fala-se então de sacrifício de sangue. Um pacto de sangue com um espírito implica que o mago ofereça algumas gotas do seu sangue à entidade durante o ritual - sobre um pergaminho, um sigilo ou numa taça -, selando assim a sua união. Em troca, o espírito aceita ligar o seu destino ao daquele que fez esta oferenda de vida. Este tipo de pacto é considerado extremamente vinculativo: o laço de sangue torna difícil quebrar o contrato sem consentimento mútuo ou sem a intervenção de uma força superior. Também acontece que dois seres humanos celebrem entre si um pacto de sangue (tornando-se irmãos de sangue) através da mistura dos seus fluidos, mas, num contexto mágico, o pacto sanguíneo ocorre geralmente entre um ser humano e um espírito. Vários grimórios de magia negra descrevem em pormenor como preparar o pergaminho do pacto usando sangue fresco como tinta, para «dar corpo» ao acordo. Percebe-se assim o alcance quase sacramental deste gesto: o pacto não é apenas um texto, é algo que ganha vida através do sangue derramado.
Pactos ancestrais e hereditários
Algumas histórias esotéricas dão conta de pactos celebrados por antepassados que vinculam toda uma linhagem familiar. Fala-se de pacto ancestral quando o acordo celebrado com um espírito é transmitido de geração em geração. Um senhor medieval poderia ter pactuado com um demónio tutelar para garantir a prosperidade do seu domínio e o poder da sua descendência. Em troca, cada geração da sua família teria de honrar o pacto - através de ritos anuais, sacrifícios ou da oferenda da alma de um herdeiro. Este tema surge em lendas locais nas quais a fortuna inexplicável de uma família é atribuída a um pacto antigo: murmura-se que um antepassado vendeu a sua alma (ou a dos seus futuros filhos) em troca de um tesouro e que, desde então, uma maldição ou uma bênção persegue os seus descendentes.
Nos processos de bruxaria, por vezes acusavam-se certas dinastias de bruxas de possuírem um demónio familiar transmitido de mãe para filha - um espírito familiar que servia a bruxa em virtude de um pacto antigo. Este familiar podia assumir a forma de um animal (gato, sapo, corvo...) alimentado com sangue ou leite da bruxa, sinal de que o pacto celebrado pelo antepassado continuava a ser alimentado pelas suas herdeiras. Também aqui, a noção de pacto é literal: existe uma continuidade do contrato ao longo do tempo, como se a entidade tivesse “direito de supervisão” sobre cada novo membro da família. Esta ideia de pacto hereditário também se encontra em certas tradições ocultistas modernas, nas quais se fala de maldições geracionais a quebrar - pactos celebrados outrora, voluntária ou involuntariamente, que afetam a linhagem.
Note-se que o pacto ancestral nem sempre é nefasto: também pode tratar-se de um legado positivo. Em certas sociedades secretas ou ordens iniciáticas, considera-se que um mestre ocultista pode abençoar a sua descendência espiritual através de um pacto protetor. Assim, o pacto pode tornar-se uma espécie de aliança sagrada que protege uma linhagem ou comunidade ao longo do tempo.
Pactos escritos, orais e tácitos
A forma que o pacto assume - escrito ou oral - também merece ser analisada. O pacto escrito é o mais formal: trata-se de um documento físico, geralmente um pergaminho, no qual os termos do acordo são registados. Este documento pode ser preparado pelo próprio mago ou ditado pelo espírito invocado. Muitas vezes, contém: o nome das duas partes (o mago e o espírito), a lista dos compromissos de cada uma, o período de validade do pacto, as assinaturas ou selos e, por vezes, uma cláusula de renovação ou de cessação. Alguns pactos escritos incluem até testemunhas espirituais (por exemplo, o pacto de Fausto na literatura menciona que Mefistófeles assina como representante de Lúcifer e que diversos demónios podem ser invocados como garantes). Ao longo da história, conservaram-se documentos apresentados como verdadeiros pactos com o Diabo. Um dos mais conhecidos é o pacto de Urbain Grandier, um sacerdote francês do século XVII acusado de bruxaria. Durante o seu célebre julgamento em Loudun, em 1634, os juízes exibiram um pacto supostamente assinado por Grandier e uma lista de demónios (Lúcifer, Satanás, Belzebu, Leviatã e outros) - podiam ver-se as correspondentes assinaturas infernais, escritas de trás para a frente em latim e seladas com símbolos sangrentos. Aos olhos dos seus acusadores, esta folha de pergaminho constituía a prova tangível do crime de bruxaria. Ainda hoje, a cópia deste pacto diabólico de Loudun fascina pelos seus pormenores: o texto estipula que Grandier renuncia à Virgem, traça o seu juramento em letras invertidas e os demónios apõem sinais cabalísticos, como se ratificassem o acordo. Este exemplo mostra que o pacto escrito era encarado literalmente na cultura esotérica e religiosa - via-se nele um contrato tão sério como um ato notarial, mas celebrado com o Inferno.

A par disso, existem pactos puramente orais. Em muitos casos, o mago celebra o acordo verbalmente durante o ritual de invocação. Formula a sua promessa em voz alta e a entidade dá um sinal de aceitação (por exemplo, aparecendo sob uma forma visível, manifestando um fenómeno físico ou através de uma voz que confirma o «sim»). Um pacto oral baseia-se, então, na palavra dada por cada um. Nas tradições ocultistas, a palavra tem força de lei quando é proferida num contexto ritual apropriado - diz-se que segue diretamente para o plano astral e que as entidades são testemunhas dela. Assim, um simples “sim, aceito este pacto” proferido pelo demónio no triângulo de evocação sela o compromisso com a mesma segurança que uma assinatura. O pacto oral tem a vantagem da simplicidade, mas exige grande rigor de memória: o mago deve recordar-se exatamente das cláusulas acordadas, pois nada fica escrito. Algumas confrarias de feiticeiros preferiam, aliás, a forma oral para manter o segredo absoluto sobre os seus acordos com os espíritos. O não iniciado nunca poderia, assim, conhecer os termos do contrato se não tivesse assistido ao ritual.
Por fim, como já foi referido, existem os pactos tácitos (silenciosos). São pactos implícitos nos quais nenhuma frase formal é proferida, mas a troca ocorre, ainda assim. Um exemplo de pacto tácito surge quando alguém, desesperado, acaba por chamar mentalmente qualquer força que o possa ajudar, sem mencionar nenhum nome. Se um espírito oportunista o ouvir e intervier, poderá considerar que o ser humano lhe ficou a dever algo, mesmo que nenhum contrato tenha sido assinado. Na demonologia cristã, considerava-se que a simples prática de certos ritos ocultos - desenhar um pentagrama e recitar uma fórmula de enfeitiçamento - constituía um pacto tácito com o Diabo, pois utilizava-se um poder oculto fora da graça divina. Do mesmo modo, possuir um objeto amaldiçoado ou um talismã demoníaco podia transformar o seu proprietário, sem que o soubesse, num contratante tácito ligado ao espírito do objeto. Estes pactos silenciosos são ardilosos, pois a pessoa pode não se aperceber de que comprometeu a sua alma. Os ocultistas alertam para este tipo de compromisso involuntário: «Tenha cuidado com aquilo que promete em pensamento, pois alguns espíritos levam as suas palavras a sério.» Daí a importância de, se se quiser praticar a magia dos pactos, fazê-lo de forma consciente e cerimonial, em vez de permitir que um pacto se estabeleça sem controlo.
Funcionamento e regras implícitas de um pacto
Seja escrito ou oral, explícito ou tácito, cada pacto mágico obedece a regras implícitas comuns. A primeira dessas regras é a lealdade ao juramento. Uma vez chamada a entidade e selado o acordo, o mago é obrigado a respeitar escrupulosamente a sua parte do contrato, tal como o espírito é obrigado pelas forças superiores a respeitar a sua. Quebrar um pacto é considerado perigoso e com graves consequências. No caso de um pacto demoníaco, se o ser humano trair a sua promessa (por exemplo, não entregando a oferenda devida ou tentando escapar ao prazo final), o demónio considerar-se-á livre de qualquer obrigação e poderá vingar-se violentamente. Inversamente, se for o espírito a não cumprir a sua missão, o mago poderá invocar os nomes divinos ou as forças cósmicas para o obrigar, pois a entidade terá quebrado a palavra dada - o que, na lógica oculta, a enfraquece perante as conjurações. Assim, a noção de honra também existe entre os espíritos: um demónio poderoso ganha prestígio se respeitar os seus pactos, enquanto um espírito ardiloso e perjuro será evitado até pelos feiticeiros, por ser considerado demasiado perigoso. Alguns grimórios sublinham a necessidade de negociar claramente as cláusulas: estipular uma duração precisa (sete anos, vinte anos ou «até à minha morte natural»), definir exatamente o que se espera do espírito (não um favor vago, mas «trazer-me tal riqueza» ou «proteger a minha casa de qualquer inimigo») e especificar o que o espírito receberá em troca (na maioria das vezes, a alma do mago depois da sua morte ou um tributo regular, como sacrifícios). Ao definir estes termos, evitam-se os mal-entendidos deliberados que as entidades malignas poderiam explorar.
Outra regra implícita é a da contrapartida equivalente. Um pacto equilibrado deverá proporcionar um benefício proporcional ao sacrifício consentido. Se um feiticeiro pedir um favor imenso, a entidade exigirá um preço imenso. Em contrapartida, por um serviço modesto, o pagamento será modesto. Este equilíbrio pode, contudo, enganar o ser humano inexperiente: aquilo que inicialmente parece um pequeno pedido pode revelar-se de enorme alcance espiritual. Pedir «o amor verdadeiro» parece nobre, mas o demónio pode concedê-lo manipulando as emoções de uma pessoa (o que viola o seu livre-arbítrio) - um ato com elevado preço kármico que o requerente terá de pagar de uma forma ou de outra. Assim, os iniciados aprendem a avaliar cuidadosamente os seus pedidos. Sabem também que os espíritos tendem a mimar o contratante no início, para apresentarem a conta mais tarde. Muitos pactuantes relatam que os primeiros anos após o acordo são faustosos: tudo corre bem, a fortuna sorri e os dons sobrenaturais manifestam-se facilmente. Depois chega o momento do reverso da medalha: o tributo a pagar torna-se claro e, por vezes, é mais pesado do que o previsto. É aqui que intervém a astúcia de alguns magos, que procuram «enganar o diabo». No Grand Grimoire, encontra-se uma recomendação interessante a este respeito: o autor (anónimo) indica que celebrar um pacto é frequentemente o último recurso de um mago com poucos meios. Se não tiver o treino ou as ferramentas necessárias para comandar o espírito através da coerção (com a varinha mágica ou o círculo cabalístico adequados), então o pacto é a solução, ainda que tenha de pagar o preço. O grimório dá a entender que o verdadeiro feiticeiro bem equipado não precisa de um pacto - pode forçar o espírito a obedecer sem ceder nada. O pacto é, portanto, visto como uma concessão, uma confissão de fraqueza do mago, que tem de negociar em vez de ordenar. Consequentemente, as regras tácitas de um pacto também incluem a ideia de que o espírito, uma vez pago, pode deixar de temer o mago. Este coloca-se numa posição de inferioridade hierárquica: torna-se, de certa forma, devedor da entidade. Deve esperar que o espírito use essa posição a seu favor. É por isso que os pactos demoníacos acabam quase sempre mal para o ser humano - pois este cedeu o seu poder interior ao assinar.
Contudo, também existem pactos nos quais o ser humano mantém a ascendência. Nos pactos angélicos ou com espíritos benéficos, a entidade respeita o ser humano não por medo, mas por amizade ou dever. Nesse caso, as regras implícitas são diferentes: o espírito agirá no melhor interesse do mago e este, em troca, honrará o espírito através da oração ou da gratidão. Estes pactos assemelham-se mais a alianças do que a contratos de subordinação. Funcionam com base na fidelidade e na gratidão, e não na ameaça. Ainda assim, mesmo um pacto angélico exige fidelidade: se o mago deixar de honrar o seu compromisso (se devesse dedicar todos os domingos ao anjo e abandonasse essa prática), a aliança enfraquecer-se-á. Vê-se, portanto, que a coerência e a constância são fundamentais em qualquer pacto mágico.
Por fim, uma regra implícita frequentemente referida é que o pacto liga para além do visível. Por outras palavras, uma vez selado, o acordo não existe apenas no papel ou na ideia: considera-se que fica inscrito nos planos subtis, visíveis aos outros espíritos. Assim, um feiticeiro que tenha celebrado um pacto carregará consigo a marca vibratória da entidade a que se ligou. Outros praticantes sensíveis ou médiuns poderão, por vezes, perceber essa marca. Era a isto que antigamente se chamava a marca do Diabo no caso das bruxas - um sinal físico ou energético que testemunhava o pacto. Na realidade, essa marca podia ser qualquer anomalia (uma mancha na pele, a insensibilidade de uma zona do corpo), mas, no imaginário, resultava do sacramento infernal do pacto. Atualmente, falar-se-ia de um vínculo energético que une a aura do mago à entidade até ao fim do compromisso. Isto significa também que outras entidades, ao verem esse vínculo, talvez evitem atacar ou interferir, sabendo que o pactuante está sob a proteção do espírito a que se encontra ligado. Um pacto funciona, portanto, como um contrato público no mundo espiritual: é um estado conhecido e respeitado pelas forças invisíveis que dele têm conhecimento.
Efeitos e consequências dos pactos mágicos
Os efeitos de um pacto manifestam-se tanto no plano material como no plano espiritual. No plano material, o pacto visa obter um resultado concreto: pode ser a aquisição de uma riqueza súbita, um sucesso profissional inesperado, a realização de um feito impossível sem ajuda sobrenatural, a cura de uma doença ou qualquer outro desejo do pactuante. Abundam os relatos em que se vê a vida de um indivíduo mudar radicalmente depois de ter celebrado um pacto. Um artista medíocre torna-se virtuoso de um dia para o outro, um camponês pobre descobre um tesouro escondido no seu campo, uma pessoa comum seduz uma princesa ou um príncipe de sangue,... Estes são os clássicos presentes envenenados dos pactos demoníacos. Realizam-se de forma espetacular, desafiando qualquer explicação racional. A entidade mobiliza os seus poderes para ajustar o destino a favor do seu protegido: pode influenciar as mentes dos vivos (para que concedam a sua confiança ou abram portas antes fechadas), manipular a matéria (fazer aparecer ouro, conceder força sobre-humana) ou revelar conhecimentos ocultos (línguas desconhecidas, segredos científicos,...). Diz-se, por exemplo, que o papa Silvestre II (Gerberto de Aurillac), erudito do século X, devia o seu imenso conhecimento matemático a um pacto com um demónio: segundo a lenda, durante os seus estudos em terras árabes, teria trocado a sua alma por um livro mágico que continha todos os conhecimentos do mundo, o que lhe permitiu surpreender a Europa com as suas invenções e tornar-se papa.
No plano espiritual, a principal consequência de um pacto é o compromisso da própria alma. Aquele que entrega a sua alma a uma entidade vê-la-á, com o tempo, ser capturada por essa entidade. Na doutrina cristã, isto significa a condenação: no momento da morte, a alma do pactuante será arrastada para o inferno pelo diabo com quem negociou. Mas, fora deste contexto religioso, o efeito espiritual pode ser entendido como uma perda de liberdade e de energia. A alma, limitada pelo contrato, deixa de ser completamente livre para evoluir ou fazer as suas próprias escolhas. O pactuante torna-se parcialmente propriedade do espírito. Conta-se, assim, que as pessoas que venderam a sua alma veem o seu livre-arbítrio diminuir progressivamente: no início, pensam controlar a situação, mas depois percebem que dependem da entidade para tudo. O demónio pode exigir cada vez mais atos maus ou ritos obscenos, sob pena de retirar imediatamente os seus favores. É uma engrenagem na qual o espírito domina o mestre. Em Fausto, Goethe ilustra este processo: Mefistófeles satisfaz os desejos de Fausto, mas, em troca, Fausto tem de o acompanhar em aventuras cada vez mais vis e decadentes, perdendo pouco a pouco a sua dignidade e a capacidade de fazer o bem.
Contudo, o desfecho nem sempre é trágico. Existem alguns relatos de anulação de pactos, geralmente através de uma intervenção divina ou de uma penitência sincera. O caso de Teófilo de Adana é célebre: este clérigo do século VI teria selado um pacto escrito com o Diabo (assinado com o seu sangue) para obter um cargo de bispo que lhe tinha sido injustamente recusado. Mais tarde, atormentado pelo remorso, jejuou e rezou intensamente à Virgem Maria. Por milagre, o Espírito Santo ajudou-o a recuperar o pergaminho do seu pacto (que Satanás guardava como garantia) e a destruí-lo, libertando assim a sua alma do acordo. Perdoado, Teófilo consagrou o resto da sua vida a Deus. Este relato serviu de modelo de esperança: mostra que até um pacto sólido pode ser desfeito por uma força superior de luz. Ainda assim, Teófilo é a exceção que confirma a regra. Na maioria das histórias, os pactos são irreversíveis através dos meios humanos comuns. O mago deve, portanto, assumir até ao fim as consequências do seu compromisso.
Por vezes, as consequências são transmitidas mesmo depois da morte. Diz-se que alguns pactuantes transformados em fantasmas permanecem ligados ao local onde o pacto foi celebrado ou executado. Incapaz de ser salva ou completamente levada, a sua alma assombra os lugares em sofrimento. Um pacto mágico deixa uma marca duradoura no mundo. Altera o destino não só do pactuante, mas por vezes também do seu círculo próximo e da sua descendência. Os familiares de um feiticeiro pactuante podem beneficiar indiretamente das suas vantagens (fortuna familiar, prestígio) ou, pelo contrário, sofrer consequências nefastas (maldições, perseguição por parte do espírito se as cláusulas deixarem de ser respeitadas após a morte do mago).
É também necessário considerar o efeito psicológico: celebrar um contrato com uma entidade invisível é uma experiência que transforma interiormente o indivíduo. Muitos pactuantes descritos em grimórios ou testemunhos relatam uma sensação inicial de euforia e poder, seguida mais tarde por ansiedade e arrependimento. Ter um espírito constantemente ao seu lado, mesmo para o servir, não é nada fácil. A entidade ocupa um espaço cada vez maior na vida do mago, podendo chegar a isolá-lo da sociedade humana. Isso faz parte do “preço oculto”: a solidão, a paranoia de ver o espírito em todo o lado, a perda do gosto pelas coisas simples. Numa palavra, o pactuante já não pertence inteiramente ao mundo dos vivos comuns. Encontra-se à margem, preso entre duas realidades, o que pode ser exaltante, mas também profundamente perturbador.
Testemunhos e transmissão
Os pactos mágicos, por dizerem respeito a experiências extremas, deram origem a numerosos testemunhos na literatura esotérica. Os grimórios europeus do final da Idade Média e do Renascimento são as nossas principais fontes escritas. Neles encontram-se não só instruções para celebrar pactos (por sua conta e risco, contudo), mas também, por vezes, relatos de casos vividos. O Lemegeton (mais conhecido pelo nome de Chave Menor de Salomão, do século XVII) compila práticas de goécia nas quais se evocam espíritos para obter dons - embora este grimório insista mais na coerção através da conjuração do que num pacto livremente consentido. Em contrapartida, o Grimorium Verum (de meados do século XVIII) dirige-se sem rodeios aos feiticeiros dispostos a pactuar: enumera os demónios que podem ser chamados, indica as suas especialidades e aconselha a prometer sempre algo em troca para garantir a sua cooperação. Este livro oculto reconhece que «todas as interações com os espíritos malignos assentam numa lei da troca».
Os testemunhos escritos diretos de praticantes que celebraram pactos são mais raros, pois trata-se de um tema eminentemente secreto. Ainda assim, encontram-se alguns na época moderna. No século XX, alguns ocultistas mencionaram nas suas memórias experiências semelhantes a pactos. O ocultista inglês Aleister Crowley, por exemplo, fala de uma noite em que invocou o demónio Choronzon no deserto argelino - embora não se tratasse exatamente de um pacto de troca, a implicação espiritual era semelhante. Membros de ordens luciferianas contemporâneas admitem praticar pactos ritualizados, mas poucos dos seus escritos estão acessíveis ao público. Em contrapartida, a cultura popular multiplicou as alusões, inspiradas em casos reais ou supostos: pense-se nos músicos de blues ou rock acusados de terem «vendido a alma» em troca do talento (o músico de blues Robert Johnson ou a lenda que envolve Paganini e o violino).
Para além do Ocidente, podem mencionar-se outras tradições esotéricas que conhecem formas de pacto. Em África e nas Américas, os praticantes de vodu ou de santería celebram alianças com loas ou orixás - não são «pactos satânicos» no sentido cristão, mas compromissos mútuos nos quais o adepto promete servir a divindade e fazer-lhe oferendas regulares, enquanto a divindade o protegerá e lhe concederá as suas graças. Por exemplo, um houngan do vodu pode receber um espírito na cabeça (tornar-se o cavalo de um loa) em troca de sacrifícios rituais anuais; se faltar aos seus deveres, expõe-se à ira do loa, o que se assemelha à quebra de um pacto. No xamanismo tradicional da Ásia Central ou da Sibéria, encontra-se também a ideia de um contrato espiritual: o xamã aceita a companhia e a ajuda de espíritos auxiliares (animais totémicos, antepassados) e deve, em troca, respeitar determinados tabus ou realizar cerimónias específicas para eles. Se não o fizer, esses espíritos podem adoecê-lo ou retirar-lhe a proteção. Encontra-se aqui uma espécie de pacto tácito com as forças da natureza.
Na Índia e no Tibete, certas práticas tântricas procuram subjugar entidades (yakshas, dakinis, espíritos locais) para obter siddhis (poderes ocultos). O praticante pode comprometer-se, através de um voto, a satisfazer a entidade com mantras diários ou oferendas específicas e, em troca, a entidade torna-se-lhe fiel, realizando tarefas a seu pedido. Isto não é formulado como um «pacto com o diabo», pois o enquadramento religioso é diferente, mas a dinâmica de troca está claramente presente. Estes paralelos noutras culturas mostram que a lógica do pacto mágico é universal, sob formas diversas: confrontado com os seus limites, o ser humano procura a ajuda do sobrenatural e oferece algo em troca para obter o favor de um poder invisível.
A magia dos pactos surge, assim, como uma arte oculta altamente vinculativa e arriscada. Não deve ser encarada de ânimo leve. É um caminho no qual se caminha ao lado de aliados que se podem transformar em carcereiros. No entanto, para aqueles que dominam os seus arcanos, é também um caminho, uma revelação, um encontro, na esperança de aí encontrar uma força que nos transcende.































Très juste.