Se há um domínio que se supõe totalmente hermético ao inexplicável, esse domínio é a matemática. E, no entanto, desde o Renascimento, os quadrados mágicos de Agrippa intrigam, fascinam e inspiram aqueles que se interessam pela magia, pelo esoterismo e pelas forças que estruturam o universo. Por detrás destes conjuntos matemáticos esconde-se um saber em que cada número, cada soma, cada forma obedece a uma lógica... sagrada. Para Agrippa, grande pensador hermetista do século XVI, estes quadrados representavam muito mais do que um jogo intelectual: eram uma linguagem autónoma, uma forma de entrar em contacto com as forças planetárias e de as fazer agir no mundo. Explore.
As origens dos quadrados mágicos
Os primeiros quadrados mágicos conhecidos remontam à Antiguidade asiática. Uma lenda chinesa datada de cerca de 650 a.C. conta o aparecimento misterioso de um pequeno quadrado de três casas por três no dorso de uma tartaruga sagrada saída do rio Luo. Este quadrado, chamado Lo Shu («escrito do rio Luo»), continha os números de 1 a 9 dispostos de tal forma que a sua soma era sempre 15, simbolizando o equilíbrio entre as forças do yin e do yang. Verdadeiro tesouro do pensamento chinês, o Lo Shu era visto como um símbolo que harmonizava o Céu e a Terra. Outras civilizações asiáticas também exploraram estas figuras: na Índia, por exemplo, encontram-se referências a quadrados mágicos em tratados antigos. Um deles, a Garga Samhita, recomendava a utilização de um quadrado 3×3 para apaziguar as influências dos nove astros (navagraha) da astrologia hindu. Assim, na Ásia, o quadrado mágico era simultaneamente um objeto de curiosidade matemática e um símbolo sagrado, dotado de um significado espiritual ou astrológico.
Posteriormente, o conhecimento dos quadrados mágicos propagou-se para ocidente. Os estudiosos da idade de ouro islâmica desempenharam um papel determinante nessa transmissão. A partir do século VIII, eruditos do mundo árabe estudaram e compilaram os quadrados mágicos que tinham descoberto nas tradições indiana e chinesa. O matemático árabe Thabit ibn Qurra debateu estes quadrados no século IX, e a enciclopédia dos Irmãos da Pureza (por volta de 990) descreve exemplos de ordens 3 a 9. No mundo árabe-muçulmano, estes quadrados são chamados wafq (disposição harmoniosa dos números) e, por vezes, são utilizados como talismãs, inscrevendo neles letras em vez de algarismos. O grande mago sufi Ahmed al-Būnī ensinava, no século XIII, a construção de quadrados mágicos e a sua associação às esferas celestes no seu grimório Shams al-Ma’arif. Através destes intercâmbios, a noção de quadrados mágicos chega à Europa medieval: a partir do século XIV, encontram-se manuscritos latinos que apresentam quadrados de ordens 3 a 9, já associados aos sete planetas tradicionais (Saturno, Júpiter, Marte, Sol, Vénus, Mercúrio, Lua) num contexto astrológico e talismânico.
Ciências matemáticas e filosofia oculta
Durante o Renascimento, os quadrados mágicos suscitam um grande entusiasmo tanto entre os matemáticos como entre os adeptos do esoterismo. É uma época de redescoberta dos conhecimentos antigos: os humanistas europeus entram na posse de compilações árabes e orientais e maravilham-se com estes estranhos objetos matemáticos. Em 1514, o artista alemão Albrecht Dürer imortaliza um quadrado mágico 4×4 (constante 34) na sua célebre gravura Melencolia I. Este quadrado, discretamente integrado na parede da cena, não está ali por acaso: evoca os quadrados talismânicos, demonstrando simultaneamente o domínio intelectual e a melancolia do homem de génio (a melancolia estava então associada a Saturno). Dürer confere assim ao quadrado mágico uma visibilidade inesperada na arte ocidental, a meio caminho entre o jogo matemático e a alusão simbólica.

Gravura Melancolia I, Albrecht Dürer. Fonte: Research Gate
Paralelamente, estudiosos como Girolamo Cardano (em 1539) ou Claude de Boissière (conhecido como Bachet de Méziriac) interessam-se pelos métodos de construção destes quadrados «mágicos». Cardano publica o método conhecido como «em losango» para construir quadrados de ordem ímpar, contribuindo para a divulgação do conceito nos meios eruditos. Contudo, para além do prazer matemático, é no ocultismo do Renascimento que os quadrados mágicos vão adquirir uma nova dimensão. Tornam-se ferramentas centrais da «filosofia oculta», que procura unificar ciência, misticismo e astrologia.
É neste contexto que surge Heinrich Cornelius Agrippa von Nettesheim. Em 1531, este filósofo, médico e mago alemão publica o seu tratado De Occulta Philosophia (Filosofia oculta), uma obra monumental em três livros que visa sintetizar os conhecimentos mágicos do seu tempo. Agrippa dedica o capítulo 22 do Livro II aos sete quadrados mágicos planetários, herdados da tradição medieval, mas apresentados de forma estruturada e reformulada para um público instruído. Chama-lhes as «tábuas sagradas dos planetas», afirmando que possuem grandes virtudes celestes, reflectindo a harmonia divina dos números celestes. Agrippa retoma a correspondência clássica entre cada planeta e um quadrado de ordem determinada (de 3 a 9 casas de lado), associando-lhe todo um aparato simbólico: nomes divinos, anjos (Inteligências) e demónios (Espíritos) que governam cada planeta, selos e caracteres místicos. Ao sistematizar assim o uso esotérico dos quadrados mágicos, Agrippa oferece ao Renascimento uma ponte entre a matemática e a magia, na qual os números se tornam chaves para invocar as influências astrais.
Os sete quadrados planetários de Agrippa
Segundo a cosmologia tradicional retomada por Agrippa, cada planeta da astrologia clássica (Saturno, Júpiter, Marte, Sol, Vénus, Mercúrio, Lua1) possui um quadrado mágico associado, cujo tamanho e números refletem os atributos do corpo celeste. Estes sete quadrados, de ordens 3 a 9, formam um conjunto coerente: o quadrado mais pequeno (3×3) corresponde a Saturno, o planeta mais lento e distante, enquanto o maior quadrado conhecido (9×9) é atribuído à Lua, astro móvel do primeiro céu. Cada um destes quadrados possui uma constante mágica única, bem como uma série de nomes sagrados cujo valor numérico corresponde aos algarismos do quadrado. Agrippa indica também como traçar para cada planeta um signo ou carácter místico derivado do padrão numérico, ligando entre si determinados números do quadrado. Este signo, assim como os selos da Inteligência (anjo protector) e do Génio (espírito planetário), servem como símbolos gráficos que resumem o poder do quadrado.
Note-se que existem várias disposições possíveis para o mesmo quadrado mágico. As tabelas aqui apresentadas correspondem à forma transmitida nas edições antigas da obra de Heinrich Cornelius Agrippa, mas podem surgir outras versões em alguns livros mais modernos: resultam simplesmente de uma rotação ou inversão do quadrado, o que não altera as suas propriedades matemáticas.
O quadrado de Saturno (3×3)
O quadrado de Saturno é o mais célebre e, sem dúvida, o mais antigo. Trata-se de um quadrado de 3 casas por 3, contendo os números de 1 a 9. A sua constante mágica é 15, pois 1+5+9 = 15 em cada coluna, e igualmente em cada linha e diagonal. A soma de todos os números do quadrado dá 45 (o que também corresponde a 15×3). Agrippa apresenta Saturno como a «primeira tabela» e observa que, qualquer que seja a linha ou a coluna escolhida, a adição dos três números dá invariavelmente quinze. Este pequeno quadrado perfeito (representado pelo padrão chinês Lo Shu) está associado às qualidades tradicionais de Saturno: o tempo, a sabedoria austera, a restrição, mas também a proteção contra o mal. Na magia do Renascimento, Saturno é um planeta ambivalente, considerado maléfico quando mal-afetado, mas podendo ser benéfico quando dominado.

Do quadrado de Saturno derivam o selo de Saturno (um símbolo geométrico abstrato que representa o espírito de Saturno) e o caráter de Saturno, que pode ser gravado num talismã. Agrippa indica que deste quadrado se deduzem nomes divinos e angélicos, incluindo um anjo (a Inteligência Agiel) para o bem e um demónio (o Génio Zazel) para o mal, cada um associado à soma total 45.
O quadrado de Saturno era tradicionalmente gravado numa placa de chumbo (metal saturniano) durante uma hora favorável de Saturno. Quando utilizado corretamente, servia como talismã de proteção e de estabilidade; podia afastar influências nefastas, repelir inimigos ou espíritos malignos e conferir a sabedoria contemplativa própria de Saturno. Por outro lado, se fosse ativado sob uma conjuntura astrológica desfavorável, dizia-se que podia provocar o efeito inverso (discórdias, obstáculos e maldições).
O quadrado de Júpiter (4×4)
O quadrado de Júpiter é um quadrado de ordem 4, contendo, portanto, 4 linhas e 4 colunas de algarismos. Contém os números de 1 a 16 e possui uma constante mágica de 34. Por outras palavras, a soma de cada linha vertical ou horizontal dá 34, e a soma de todos os números do quadrado é 136. Agrippa descreve-o como «um quadrado contendo dezasseis números [...] cuja soma em cada linha é de trinta e quatro, e a soma total de cento e trinta e seis». Na simbologia astrológica, Júpiter é o planeta da expansão, da benevolência e da prosperidade. O seu quadrado mágico reflete estes atributos através de uma ordem superior à do quadrado de Saturno, sinal de um poder mais expansivo.

O quadrado de Júpiter também gera um carácter próprio do planeta e selos associados à sua Inteligência e ao seu Génio. Os nomes hebraicos do anjo Yophiel e do espírito Hismael de Júpiter têm, cada um, o valor numérico 136, igual à soma total do quadrado. Pode traçar-se o selo de Júpiter ligando as casas do quadrado segundo uma determinada sequência, sendo este selo posteriormente gravado em talismãs jupiterianos.
Tradicionalmente, o talismã de Júpiter é fabricado gravando o seu quadrado em estanho (metal atribuído a Júpiter), de preferência numa quinta-feira, à hora de Júpiter, quando o planeta está astrologicamente «afortunado». Diz-se que este talismã atrai a sorte, a riqueza e o favor divino. Os magos do Renascimento viam Júpiter como um astro benéfico: o seu quadrado deveria trazer sucesso, honras, saúde e paz interior a quem o usasse, canalizando a «grande fortuna» governada por Júpiter.
O quadrado de Marte (5×5)
O quadrado de Marte é um quadrado de ordem 5, composto por 25 casas preenchidas com os números de 1 a 25. A sua constante mágica é 65: cada linha, cada coluna e cada diagonal principal totaliza 65, e a soma de todos os números dá 325. Agrippa afirma a seu respeito: «É um quadrado de vinte e cinco algarismos […] o total por coluna ou linha é de sessenta e cinco, e a soma total de trezentos e vinte e cinco». Sendo Marte o planeta da guerra, do vigor e do ferro, o seu quadrado mágico está associado à força, à coragem e à proteção nos conflitos.

Do quadrado de Marte extrai-se um carácter do Martelo ou do Escudo (que simboliza a energia marciana), bem como o selo da inteligência Graphiel e o do génio Barzabel, entidades espirituais ligadas a Marte. Estes símbolos são gravados ao lado do quadrado nos amuletos marciais.

Talismã histórico gravado com o quadrado mágico de Marte (5×5) no verso. Fonte: Museum of Witchcraft and Magic
O talismã de Marte é gravado em ferro ou aço (metal marciano) numa terça-feira (dia de Marte), num momento propício. O seu objetivo é armar simbolicamente o seu portador: acreditava-se que lhe conferia coragem em combate, vitória sobre os inimigos e proteção contra agressões. Chegou-nos um exemplo impressionante: um talismã do século XVII encontrado em Inglaterra apresenta, numa face, o quadrado de Marte minuciosamente inscrito e, na outra, o selo de Marte rodeado por vários nomes espirituais. Este pequeno objeto de metal, provavelmente usado por um soldado ou viajante, ilustra concretamente a fé depositada no quadrado de Marte como amuleto protetor.
O quadrado do Sol (6×6)
O quadrado do Sol é um quadrado de ordem 6, que contém os números de 1 a 36. É notável pela sua constante mágica de 111: com efeito, seis números por linha formam um total de 111, e a soma de todos os elementos do quadrado é 666. Agrippa descreve este quadrado solar observando que «estes números, somados vertical ou horizontalmente, dão cento e onze e a sua soma total é de seiscentos e sessenta e seis». O número 6 (dimensão do quadrado) está ligado ao Sol, pois representa o equilíbrio e a harmonia no centro dos sete astros (estando o Sol no meio dos planetas tradicionais). Além disso, o número 666 evoca, na simbologia cristã, a perfeição da Criação em 6 dias, antes de ser mais tarde associado a outras conotações.

O quadrado do Sol fornece o selo do Sol (por vezes chamado selo de Sorath, do nome do espírito solar) e o carácter solar, representado por um círculo que contém uma cruz radiante. Entre outros, os nomes atribuídos ao Sol incluem a Inteligência Nachiel (valor 111) e o Génio Sorath (valor 666).
Gravado em ouro puro (metal do Sol) num domingo ao nascer do Sol, o quadrado solar é um talismã de glória, vitalidade e sucesso. Reforça a vitalidade física e espiritual, traz êxito nos empreendimentos e protege contra a depressão ou a escuridão interior.
O quadrado de Vénus (7×7)
O quadrado de Vénus é um quadrado de ordem 7, com 49 casas contendo os números de 1 a 49. A sua constante mágica é 175: cada série de 7 números alinhados dá 175, e a soma de todos os números do quadrado é 1225 (isto é, 175×7). Agrippa apresenta-o como «a quinta tabela, a de Vénus: 49 números […] a sua adição por coluna ou fila dá cento e setenta e cinco; a soma total é de mil duzentos e vinte e cinco». Vénus, planeta do amor, da beleza e da harmonia, tem atribuído um quadrado mágico mais complexo, mas sempre de equilíbrio perfeito.

Deste quadrado deduz-se o selo de Vénus (que assume a forma de um gracioso entrelaçamento) e o caráter de Vénus, bem como nomes sagrados como o do anjo Hagiel e o do génio Kedemel, cujos valores numéricos correspondem respetivamente a 49 e 175.
O quadrado de Vénus, gravado em cobre (metal venusiano) numa sexta-feira à hora de Vénus, serve de talismã para o amor, a concórdia e a criatividade. Os praticantes de magia atribuem-lhe o poder de atrair a afeição e a benevolência dos outros, estimular a beleza e a inspiração artística ou ainda apaziguar as discussões. Usar este quadrado (ou o seu selo) melhora o encanto pessoal e favorece a harmonia no lar.
O quadrado de Mercúrio (8×8)
O quadrado de Mercúrio é um quadrado de ordem 8, composto por 64 casas ocupadas pelos números de 1 a 64. Tem como constante mágica 260, pois cada fila de 8 números totaliza 260, sendo a soma de todos os números 2080 (isto é, 260×8). Agrippa escreve a seu respeito: «a sexta tabela é a de Mercúrio, consagrada ao número oito: é um quadrado […] os números que nela figuram, somados por coluna ou por fila, dão duzentos e sessenta; o seu total é de dois mil e oitenta». Mercúrio, planeta da inteligência, da comunicação e do movimento, está associado ao maior quadrado depois do da Lua, refletindo a agilidade mental e a complexidade deste mensageiro dos deuses.

Do quadrado de Mercúrio derivam um símbolo específico (o selo de Mercúrio, por vezes representado por uma forma que recorda o caduceu ou a escrita rápida) e o carácter de Mercúrio. Agrippa indica que os nomes da sua Inteligência Tiriel (valor 260) e do seu Génio Taphthartharath (valor 2080) correspondem exatamente às somas que caracterizam o quadrado.
Um talismã mercuriano era gravado em metal líquido, o azougue (Mercúrio), ou numa liga/papel consagrado, à quarta-feira (dia de Mercúrio). Atribuía-se-lhe o poder de aumentar a memória, a eloquência, a astúcia e a rapidez. Um estudante, um comerciante ou um viajante podiam, por exemplo, levar consigo o quadrado de Mercúrio para favorecer o êxito nos exames, o sucesso comercial ou a proteção durante as deslocações, sendo Mercúrio o patrono dos viajantes. Este quadrado era também utilizado para facilitar a adivinhação e os sonhos proféticos, devido ao aspeto psicopompo de Mercúrio, capaz de circular entre os mundos.
O quadrado da Lua (9×9)
O quadrado da Lua é o último da série: um quadrado de ordem& 9, formado por 81 casas contendo os números de 1 a 81. A sua constante mágica é 369, ou seja, cada linha ou coluna totaliza 369, e a soma de todos os números do quadrado chega a 3321 (369×9). Agrippa descreve-o assim: « a sétima tábua é a da Lua: é um quadrado baseado na eneade (9), dividido em oitenta e uma casas […] os números, somados por coluna ou linha, dão trezentos e sessenta e nove; a sua soma é de três mil trezentos e vinte e um ». A Lua, astro da mudança, da imaginação e das emoções, vê-se associada ao quadrado mais extenso, reflexo da sua natureza que engloba todos os fluxos (como os 81 aspectos possíveis da personalidade, poder-se-ia dizer simbolicamente).

Do quadrado lunar extrai-se o selo da Lua (um símbolo em forma de figura geométrica complexa ou de sigilo suave) e o carácter lunar. Os nomes sagrados associados à Lua incluem, por exemplo, a Inteligência Malka betharsith e o Génio Chasmodai (ou Hasmoday), cujo valor numérico corresponde aos números-chave do quadrado lunar (encontram-se 9, 81, 369 em certas combinações das letras hebraicas).
O talismã da Lua é gravado em prata pura (metal lunar) numa segunda-feira, idealmente durante uma noite de lua cheia. É utilizado para a proteção das viagens noturnas, o crescimento espiritual, os sonhos e a recetividade psíquica. Diz-se que ajuda a desenvolver a intuição, favorece a fertilidade (estando a Lua ligada aos ciclos femininos e à germinação das plantas) e protege contra influências lunares perigosas, como a loucura ou os encantamentos. Ao usar ou colocar o quadrado da Lua, o praticante procura captar os benefícios variáveis do astro noturno, protegendo-se simultaneamente da sua instabilidade.
Talismãs e práticas com os quadrados mágicos
Os quadrados mágicos planetários, sistematizados por Agrippa, foram amplamente utilizados na talismania do Renascimento e dos séculos seguintes. Os magos concebiam estes quadrados como condensadores de influências astrais: ao inscrevê-los em suportes materiais adequados e consagrá-los ritualmente, esperavam captar a «virtude» do planeta correspondente e orientá-la para um objetivo específico. Concretamente, o fabrico de um talismã planetário seguia todo um protocolo: era necessário escolher o momento astrológico adequado (por exemplo, que o planeta estivesse dominante no céu, sem ser afetado por aspetos negativos), utilizar o metal ou material associado (chumbo para Saturno, estanho para Júpiter, ferro para Marte, ouro para o Sol, cobre para Vénus, mercúrio2 para Mercúrio, prata para a Lua) e, por vezes, escrever também os nomes sagrados ou traçar os selos derivados do quadrado. Depois de gravado ou escrito o quadrado, o talismã era consagrado com orações, incensos e fórmulas apropriadas, para «fixar» a influência planetária no objeto.
Os usos rituais podiam variar: alguns talismãs eram usados no corpo como amuleto pessoal, enquanto outros eram colocados em casa ou no altar durante cerimónias astrológicas. Podia usar-se o quadrado de Júpiter ao pescoço para atrair prosperidade, ou enterrar o quadrado de Saturno à entrada da propriedade para selar a sua proteção. Muitos grimórios e manuscritos de magia prática dos séculos XVI-XVII reproduzem as instruções para confecionar objetos deste tipo. O Petit Albert ou o Heptaméron, atribuído a Pedro de Abano (inspirado em tradições anteriores), mencionam nomeadamente os talismãs planetários como meios de obter favores das inteligências celestes.
Historicamente, foram encontradas algumas provas materiais destas práticas. Para além do talismã de Marte mencionado acima, foram encontrados quadrados mágicos gravados em joias ou pendentes. Na Europa medieval tardia, era também costume inscrever um quadrado mágico num pergaminho, juntamente com símbolos religiosos, e pendurá-lo em casa como proteção doméstica – uma prática que também se encontra noutros lugares, na Arábia pré-islâmica, onde se penduravam quadrados mágicos em casa para afastar os espíritos malignos. Longe de estarem confinados aos livros, os quadrados de Agrippa tiveram, assim, uma vida ativa na cultura popular esotérica. Circulavam entre alquimistas, astrólogos e até alguns eclesiásticos cultos (que neles viam uma forma de ciência dos números dada por Deus). Naturalmente, o seu uso era geralmente clandestino ou discreto, pois a fronteira entre amuleto piedoso e superstição condenável era ténue. Ainda assim, estes quadrados mágicos perduraram na prática: encontram-se até em alguns rituais da Golden Dawn no século XIX ou entre ocultistas do século XX, sinal de que a sua reputação de poder atravessou os tempos.
Para além de Agrippa
Agrippa marcou duradouramente a tradição ocidental dos quadrados mágicos planetários, a ponto de estes quadrados serem por vezes chamados «kameas» no esoterismo (do termo hebraico para «selo»). No entanto, a ideia de associar quadrados numéricos a influências superiores existe em muitas culturas, independentemente do sistema das sete planetas clássicos.
Na China, o pequeno quadrado Lo Shu mencionado acima deu origem a uma rica simbologia numerológica. Inspirou o diagrama do He Tu e foi associado aos oito trigramas do Yi Jing (Clássico das mudanças). No taoismo e no feng shui, este quadrado mágico é considerado um modelo de harmonia universal: encontra-se em amuletos, em disposições arquitetónicas (as plantas de alguns túmulos imperiais ou templos são concebidas segundo um quadrado mágico 3×3) e até na organização ideal da casa para canalizar o qi (energia vital). Não se trata tanto de uma ferramenta ritual específica, mas de um símbolo cosmológico omnipresente, que representa o equilíbrio perfeito do yin e do yang através dos números. Ainda hoje, na China e na Ásia Oriental, o motivo do quadrado 3×3 com a soma 15 é reconhecido como portador de boa fortuna e de ordem celeste.
Na Índia e nas tradições hindus e budistas, também encontramos quadrados mágicos sob a forma de yantras. Um exemplo conhecido é o Kubera Kolam, um quadrado 3×3 desenhado à entrada das casas no Sul da Índia, com uma disposição específica de nove algarismos cuja soma é 72 em cada direção - este quadrado é dedicado ao deus da riqueza, Kubera, para atrair a prosperidade. De forma mais abrangente, os Navagraha Yantras (talismãs dos nove planetas) integram por vezes quadrados mágicos: cada planeta da astrologia védica (incluindo Rahu e Ketu, os nodos lunares) pode ser representado por um motivo geométrico que contém um quadrado de números conjuratórios. Assim, a prática de utilizar quadrados de algarismos como remédios astrológicos (para apaziguar um planeta maléfico ou reforçar uma influência benéfica) está documentada em textos sânscritos medievais e continua presente na astrologia popular na Índia.
O mundo islâmico e árabe-persa desenvolveu, por sua vez, uma tradição esotérica dos quadrados mágicos que se distinguiu parcialmente da linhagem europeia. Chamados wafq ou afaq, estes quadrados podem conter algarismos ou letras do alfabeto árabe (utilizadas com valor numérico segundo a abjad). Por exemplo, um quadrado 4×4 muito difundido apresentava a palavra árabe B U D U H (correspondente aos números 2-6-4-5 em abjad) de forma a obter a constante 18, sendo considerado um poderoso talismã de proteção na magia islâmica. Mestres sufis, como al-Būnī, mencionado anteriormente, ou ainda os autores de grimórios otomanos, utilizaram estes quadrados para vários fins: proteção contra o ʿayn (mau-olhado), cura de doenças, sucesso nos exames de recitação do Alcorão,... Por vezes, estes quadrados eram inseridos em talismãs-caligrafias, combinados com versículos do Alcorão, para multiplicar a sua eficácia espiritual. Esta tradição paralela mostra que o quadrado mágico, enquanto conceito, transcende as fronteiras religiosas: pode integrar-se tanto num contexto monoteísta (como suporte da palavra divina codificada numericamente) como num contexto pagão ou esotérico.

Fachada da Paixão Sagrada Família. Fonte: Vacatis
Por fim, na cultura ocidental moderna, os quadrados mágicos continuam a surgir ocasionalmente como símbolos ou referências esotéricas. O célebre arquiteto Antoni Gaudí incluiu um quadrado mágico 4×4 na fachada da Sagrada Família, em Barcelona (constante 33, simbolizando a idade de Cristo). Embora este quadrado específico não esteja diretamente relacionado com os planetas de Agrippa, a sua integração numa basílica demonstra como a ideia do quadrado mágico impregnou o imaginário coletivo como sinal de ordem e mistério. Atualmente, encontram-se quadrados mágicos em obras literárias, jogos matemáticos ou conteúdos «new age», e os ocultistas contemporâneos continuam interessados nos kameas planetários de Agrippa, seja na magia cerimonial, na astrologia cabalística ou na bruxaria eclética. A persistência destes quadrados ao longo do tempo e do espaço testemunha o seu alcance universal: nascidos de um simples jogo de números, transformaram-se num poderoso símbolo da busca humana pela harmonia entre o céu, os números e a vida terrestre.
Os quadrados mágicos de Agrippa representam assim uma fascinante encruzilhada entre a ciência dos números e a espiritualidade do Renascimento. Pedagógicos pela sua simplicidade aritmética, poéticos pela sua simetria e místicos pelas crenças que deram origem, despertaram a curiosidade dos principiantes ao mesmo tempo que desafiavam a análise dos eruditos. Quer sejam abordados como um passatempo matemático ou como um legado esotérico, estes quadrados continuam a ser um testemunho da antiga convicção de que o número é a linguagem secreta do Universo.
Notas:
1 Na época de Agrippa, conheciam-se apenas sete astros «planetários» que influenciavam a Terra: cinco planetas no sentido astronómico (Saturno, Júpiter, Marte, Vénus, Mercúrio), mais o Sol e a Lua, frequentemente chamados “planetas” na astrologia antiga.
2 Como o mercúrio (prata-viva) é líquido, alguns talismãs de Mercúrio eram gravados numa liga metálica que continha mercúrio ou num pergaminho amarelo/alaranjado que se acreditava representar este metal esquivo.
Fontes:
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De Occulta Philosophia Libri Tres, Heinrich Cornelius Agrippa, 1531 (edição latina)
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Três Livros de Filosofia Oculta, traduzido por J.F., editado por Donald Tyson, Llewellyn Publications
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Uma História da Magia, da Feitiçaria e do Ocultismo, DK Publishing, 2020
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Os Círculos Mágicos dos Planetas na Filosofia Oculta, Stephen Skinner, Golden Hoard Press
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As Ciências Ocultas no Renascimento, Frances A. Yates, Éditions Gallimard
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A Cabala e as Ciências Ocultas, Gershom Scholem, Payot
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Círculos Mágicos: a sua História e Utilização no Ocultismo Ocidental, Journal of Esoteric Studies, Vol. 22, 2017































Quería saber de dónde y por qué existían estás tablas , la información es muy importante y acertada , muchas gracias
Bonjour !
Je vous remercie pour votre remarque. En effet, des erreurs se sont glissées dans les carrés de Mercure et la Lune, qui sont maintenant corrigées. Notez qu’il s’agit des version originales des écrits d’Agrippa, mais mais d’autres versions peuvent apparaître dans certains livres plus modernes : elles résultent simplement d’une rotation ou d’une inversion du carré, ce qui ne change pas ses propriétés mathématiques.
Olivier