Quando as suas folhas são erguidas diante da luz do dia, o hipericão parece perfurado por uma infinidade de janelas. No entanto, as suas flores amarelas, colhidas por volta de São João, receberam outro papel: proteger as portas, dissipar as aparições noturnas e interrogar o futuro amoroso no momento em que o percurso do Sol atinge o seu auge.
O nome fuga daemonum, «fuga dos demónios», resume a sua reputação europeia. Junto às portas e às janelas, a planta formava uma barreira contra os espíritos, os encantamentos, a trovoada e o trovão. O seu outro nome, Sol terrestris, o «sol terrestre», associava a sua corola luminosa ao poder de expulsar aquilo que pertence à noite.
Esta identidade não resulta de uma correspondência contemporânea aplicada a uma flor amarela. Constrói-se no calendário de São João, nos ramos pendurados nas casas e na astrologia vegetal do século XVII. Nicholas Culpeper coloca o hipericão sob o signo de Leão e do Sol; os costumes de junho conferem-lhe um momento preciso, uma função defensiva e um lugar de ação: a soleira.
A folha perfurada pela luz
O hipericão-perfurado, Hypericum perforatum L., é uma planta vivaz da família das Hypericaceae. Os seus caules eretos apresentam folhas opostas, nas quais pequenas glândulas translúcidas dão, contra a luz, a impressão de perfurações. As flores, com cinco pétalas amarelas, estão pontuadas por glândulas mais escuras e libertam uma coloração vermelha quando são esmagadas.
A Kew situa a sua área nativa entre a Europa e a China central, bem como no Norte de África e em certas zonas do Próximo Oriente. A planta espalhou-se depois muito para além dessa área. A sua identificação é importante, pois o género Hypericum reúne várias centenas de espécies cuja aparência e composição não são idênticas. Kew, Hypericum perforatum.
Os «furos» luminosos e o suco vermelho deram origem a duas interpretações simbólicas complementares. A folha deixa passar a luz do dia; a flor apresenta um vermelho associado ao sangue de São João Batista. Assim, o vegetal reúne a luz solar e a memória de um martírio numa mesma matéria.
A planta do solstício e de São João
A festa de São João Batista, a 24 de junho, ocorre nas proximidades do solstício de verão. Em várias regiões europeias, as plantas colhidas durante este período recebiam um estatuto especial. O hipericão ocupava o primeiro lugar: era colhido na véspera da festa, antes do nascer do dia ou com o orvalho, e depois integrado nos ramos de São João.
Richard Folkard relata que se penduravam espécies de Hypericum nas portas e janelas, juntamente com o lírio, o funcho e a artemísia. O ramo não servia apenas para decorar a casa. Colocava-a sob a protecção do santo durante uma noite tida como carregada de encontros, presságios e perigos. Richard Folkard, Plant Lore, Legends, and Lyrics, « Erva-de-são-joão ».
Esta data dá o seu eixo à planta. A erva-de-são-joão não representa um sol abstracto: é a luz levada à soleira quando o ano muda depois do seu dia mais longo. Colher, atar e suspender compõem uma magia do calendário, regulada por uma festa, uma hora e um lugar.
Fuga daemonum, a fuga dos demónios
Os nomes fuga daemonum e Sol terrestris revelam o cerne mágico da erva-de-são-joão. O primeiro atribui-lhe a capacidade de pôr os demónios em fuga; o segundo compara a flor ao sol terrestre, diante do qual desaparecem as forças nocturnas. Os textos reunidos no século XIX prolongam usos muito anteriores de transporte, suspensão e protecção doméstica.
Em França, na Alemanha, em Itália, na Escócia e no País de Gales, ramos eram usados junto ao corpo ou fixados por cima das aberturas contra a feitiçaria, os espectros e as intempéries temidas. O gesto é notável pela sua simplicidade: a planta permanece inteira e visível. Monta guarda, sem que seja necessário fumo ou bebida.
Culpeper dá uma estrutura astrológica a esta reputação. No seu Complete Herbal, publicado no século XVII, coloca a planta sob o signo de Leão e sob o governo do Sol. A sua descrição já salienta as folhas perfuradas e o sumo vermelho das flores. Nicholas Culpeper, The Complete Herbal, « Erva-de-são-joão ».
O sol por cima da porta. A erva-de-são-joão surge nos relatos como uma luz depositada no lugar por onde o exterior pode entrar. A soleira transforma a flor solar em guardiã da casa.
Ramos de nove flores e presságios
O São João abria também um período de adivinhação amorosa. Na Suécia e na Suíça, jovens mulheres compunham um ramo de nove flores colhidas em nove lugares. A erva-de-são-joão devia ocupar nele um lugar visível. O ramo era depois colocado debaixo da almofada, para que o sono revelasse o futuro marido.
Na Baixa Saxónia, um ramo fixado junto à cama trazia outro presságio: se permanecesse fresco de manhã, esperava-se um casamento no espaço de um ano; se murchasse, a esperança adiava-se. A planta não produzia, portanto, o casamento. Servia de suporte a uma leitura entre o estado do vegetal, o sonho e a expectativa.
Folkard conserva também a instrução atribuída a Visontius: colher a planta numa sexta-feira, à hora de Júpiter, por volta da lua cheia de julho, e usá-la ao pescoço contra a melancolia e os espíritos fantásticos. Este testemunho faz coexistir a identidade solar do hipericão e um horário jupiteriano escolhido para uma operação específica.
Guardar uma soleira com hipericão
Na véspera de São João, coloque algumas sumidades secas num pequeno recipiente fechado, por cima de uma porta ou junto a uma janela. Escreva por baixo aquilo que este limite protege: o descanso, a paz da casa, um projeto ou o direito a não ser incomodado. O gesto retoma a função de proteção sem transformar a planta num remédio.
Para um trabalho solar, observe uma folha em contraluz e depois desenhe a sua rede de pontos num papel. No centro, escreva aquilo que deve ser tornado visível. Guarde o desenho até ao próximo solstício. Esta prática parte de uma característica botânica real e da imagem histórica do Sol terrestris.
Um ramo de nove flores pode ser composto como objeto de memória dos costumes de São João. Coloque-o junto à cama, sem contacto com a almofada, e registe ao acordar as imagens do sonho antes de qualquer interpretação. O ritual continua a ser uma forma de leitura pessoal; não determina um encontro nem a vontade de outra pessoa.
Correspondências históricas
| Referência | Correspondência |
|---|---|
| Nome botânico | Hypericum perforatum L. |
| Nomes rituais | Erva de São João; fuga daemonum; Sol terrestris |
| Planeta e signo | Sol e Leão, segundo Nicholas Culpeper |
| Tempo ritual | Vigília e dia de São João, por volta do solstício de verão |
| Domínios mágicos | Proteção da soleira, defesa contra os espíritos e as trovoadas, presságios amorosos |
| Formas históricas | Ramo usado, ramo de nove flores, planta suspensa nas portas e janelas |









































