Thoth domina o pensamento do Antigo Egito: este deus rege a escrita, os cálculos e a justiça celestial. Influencia a maioria dos sistemas do ocultismo desde a Antiguidade, mas a sua identidade dispersa-se através das traduções e das épocas. Retrato.
As raízes de Djehuty, o mestre das palavras
Djehuty reside no coração de Khemennu, a cidade dos oito que os Gregos mais tarde chamarão Hermópolis, onde preside ao equilíbrio da criação primordial. Os textos da Ogdóade apresentam-no como o demiurgo que surge do oceano primordial pela sua própria vontade consciente. O íbis e o babuíno manifestam a sua essência no mundo físico através de símbolos de vigilância e rigor. O babuíno saúda regularmente o regresso do sol com gritos sonoros, assinalando assim o renascimento da luz e do conhecimento. O íbis remexe o lodo do rio com o seu bico curvo, reproduzindo o gesto do cálamo que grava os sinais no papiro para fixar a memória dos homens. Esta criatura vive entre o céu e a terra, assegurando uma mediação indispensável entre o plano espiritual e a matéria. O papel deste deus ultrapassa em muito uma simples gestão da escrita, pois possui o Heka, essa força mágica capaz de transformar uma ideia numa forma tangível. Thoth pronuncia os nomes de todas as coisas e o universo surge imediatamente sob o efeito da sua voz. A palavra não serve apenas para a troca de informações, mas constitui o instrumento ativo da génese universal. Cada hieróglifo, ou palavra de deus, vibra com uma autoridade real que modifica a ordem dos elementos. O verbo torna-se então uma semente fértil no coração da terra. Thoth age como a língua e o coração do criador, traduzindo uma vontade muda numa lei que cada ser pode compreender.
O próprio tempo obedece aos seus cálculos matemáticos, pois domina os ritmos da lua e do sol com total exactidão. Uma lenda conta como ganhou cinco dias adicionais num jogo para permitir que a deusa Nut desse à luz os seus filhos. Sem esta intervenção lúcida, o ciclo dos anos permanecia bloqueado numa forma incompleta. Torna-se então o mestre das estações, o geómetra que delimita as fronteiras dos territórios e estabelece as leis da vida social. Os sacerdotes estudam os astros sob a sua orientação, pois conhece a posição exacta de cada estrela. A sua sabedoria assegura a perpetuidade da ordem cósmica contra as forças da desordem.
A passagem para o além e a justiça de Ma’at
A sala da verdade acolhe cada defunto para a prova decisiva da pesagem do coração perante a pena de Ma’at. Thoth permanece de pé com a sua paleta de escriba e regista o resultado do exame com uma imparcialidade que impõe respeito. O coração representa o centro da memória e dos actos, enquanto a pena personifica a verdade e o equilíbrio do universo. Djehuty declara a alma justificada se os dois pratos da balança atingirem um nível perfeitamente igual. O babuíno vigia a precisão do instrumento a partir do topo do travessão, para evitar qualquer erro de julgamento. O deus não se limita a julgar, pois garante que a harmonia reine na terra como no céu. O viajante do invisível recebe dele as fórmulas necessárias para ultrapassar os obstáculos da Duat, o reino das sombras. Estas fórmulas poderosas repelem os demónios e abrem as portas guardadas por entidades temíveis. Thoth intercede pela pureza daquele que vive segundo os princípios da justiça e do equilíbrio. A sua presença tranquiliza o espírito, pois conhece os caminhos tortuosos que conduzem ao paraíso dos justos. A sua palavra serve de escudo contra os ataques da escuridão durante a viagem nocturna. A tradição atribui a este deus a redacção de quarenta e dois volumes que contêm a totalidade do conhecimento humano e divino. Estes escritos abrangem todos os domínios da lei, da medicina, da astronomia e da geometria. Destinam-se a uma elite capaz de apreender o verdadeiro sentido oculto por detrás dos símbolos e das imagens. Os sacerdotes conservam estas obras nas partes secretas dos templos, para evitar que caiam em mãos ignorantes. Conta-se que aquele que consegue ler as fórmulas do verdadeiro Livro de Thoth adquire autoridade absoluta sobre os elementos da natureza.
A metamorfose em Hermes Trismegisto
O encontro entre as civilizações grega e egípcia em Alexandria provoca uma fusão das respectivas divindades. Os Gregos reconhecem o seu mensageiro Hermes na figura erudita de Thoth e formam assim a personagem de Hermes Trismegisto. Este nome designa o “Três Vezes Grande”, pois domina as três partes da filosofia do mundo inteiro. Ele encarna um sábio antigo, portador de uma revelação primordial que explica as relações entre o homem e o divino. Esta nova identidade favorece a viagem da sabedoria egípcia por toda a bacia do Mediterrâneo.
O Corpus Hermeticum reúne diálogos nos quais Hermes ensina os mistérios do universo aos seus discípulos mais próximos. A ideia central reside no parentesco entre o intelecto humano e o espírito do criador. O homem não é uma criatura insignificante, mas um deus mortal capaz de recuperar a sua condição luminosa. A gnose permite quebrar as correntes da matéria para regressar à fonte de toda a existência. Estes textos insistem na necessidade de um despertar espiritual através da contemplação da beleza e da ordem do mundo. A razão humana participa então directamente na razão universal.
O hermetismo assenta numa visão orgânica do cosmos, onde tudo se liga através de cadeias invisíveis de simpatia. Os planetas, os metais, as plantas e as partes do corpo humano vibram em uníssono segundo relações harmónicas. O sábio que compreende estas ligações torna-se o verdadeiro mestre da natureza através do conhecimento das influências celestes. O universo parece um livro aberto, redigido pela mão do deus escriba, onde cada objecto constitui uma palavra a decifrar. Ao observar os movimentos dos astros, o iniciado apreende os movimentos do seu próprio coração. A estrutura do mundo torna-se o espelho exacto da estrutura da alma humana.
A Tábua de Esmeralda, o coração da alquimia
Um dos textos mais célebres associados a esta figura continua a ser a Tábua de Esmeralda, descoberta numa cripta selada sob a estátua de Hermes. Este breve documento contém os princípios fundamentais da transmutação da matéria e do espírito. Serve de guia aos alquimistas que procuram transformar o chumbo da ignorância no ouro do conhecimento puro. Cada frase encerra vários níveis de leitura que exigem um estudo atento e grande perseverança. O texto revela uma força capaz de penetrar todas as coisas sólidas e vencer todas as coisas subtis.
O que está em baixo é semelhante ao que está em cima; esta frase ilustra a lei da analogia, no centro do pensamento hermético. O microcosmo humano reflecte fielmente o macrocosmo universal numa unidade de princípio excepcional. Ao compreender os seus próprios mecanismos interiores, o estudante acede aos segredos mais longínquos das estrelas. Esta visão permite passar do plano material ao plano espiritual sem qualquer ruptura de continuidade. Sugere que a unidade reina por detrás da multiplicidade das formas que percepcionamos através dos nossos sentidos físicos.
O texto menciona o sol como pai e a lua como mãe da força criadora. Isto evoca a união necessária das polaridades masculina e feminina, activas e passivas, para realizar a Grande Obra. O alquimista separa o subtil do espesso com grande rigor, para extrair a quintessência da matéria bruta. O objectivo não reside apenas no fabrico de ouro metálico, mas na transformação do próprio ser humano. Esta busca exige pureza de coração e uma disciplina do espírito praticada todos os dias da existência.
A inspiração das sociedades iniciáticas
A figura de Thoth-Hermes alimenta o espírito de numerosas fraternidades que preservam o conhecimento antigo através dos tempos. Os alquimistas do Renascimento vêem nele o seu legítimo patrono, pois encarna a tradição primordial. A sua imagem surge regularmente nos frontispícios dos livros de ciência, para recordar que a curiosidade humana continua a ser um dom da inteligência divina. Movimentos como a Rosa-Cruz adoptam os princípios do hermetismo para estabelecer os seus rituais de iniciação e de reforma espiritual. A maçonaria inspira-se igualmente na arquitectura sagrada e na geometria que o deus escriba utiliza para construir o templo ideal.
No século XX, o ocultismo retoma estas bases para estruturar sistemas de conhecimento muito elaborados, como a Ordem da Golden Dawn. Os membros devem dominar a astrologia, a alquimia e a Cabala hermética sob a égide de Thoth. Aleister Crowley publica o Livro de Thoth em 1944 para acompanhar o seu baralho de tarot, que se torna um verdadeiro mapa da consciência. Este trabalho não procura uma simples previsão, mas propõe uma viagem iniciática através dos arcanos do mundo. O tarot de Thoth integra símbolos complexos para estimular a intuição do investigador e favorecer a sua transformação interior.
O fascínio por esta entidade explica-se pela sua função de mediador entre os diferentes planos do universo. Oferece as ferramentas que permitem ao homem compreender o seu lugar exacto na criação sem recorrer a uma obediência cega. A sua sabedoria representa o ponto central entre a luz e a sombra, onde se estabelece a justa medida. A história de Thoth fragmenta-se ao longo do tempo, mas o seu poder permanece intacto para aquele que procura reunir os seus vestígios. Ele encarna a inteligência soberana que revela o que permanece oculto aos olhos do profano através do rigor do estudo.
A história de Thoth mostra que o conhecimento continua a ser uma força activa e viva no coração dos homens. Permanece aquele que transmitiu a linguagem aos seres humanos, para que pudessem finalmente nomear o seu próprio destino. Enquanto escriba dos deuses e regulador do tempo, vela por cada sinal traçado na argila do mundo.



















