|
NO ÍNDICE...
1. A trajetória de vida de Paracelso |
Paracelso, cujo nome completo é Philippus Theophrastus Aureolus Bombastus von Hohenheim, nasceu em 1493 em Einsiedeln, na Suíça, e faleceu em 1541 em Salzburgo. Médico, filósofo e alquimista suíço, é uma figura emblemática do Renascimento, que revolucionou a medicina ao introduzir o uso de substâncias químicas nos tratamentos, lançando assim as bases da toxicologia moderna. Mas, sobretudo, Paracelso também desenvolveu uma visão holística do universo, considerando o homem como um microcosmo que reflete o macrocosmo. Retrato.
1. A trajetória de vida de Paracelso
Após a morte da sua mãe durante a infância, Paracelso foi criado pelo pai, que lhe transmitiu os seus conhecimentos em medicina, alquimia e ciências naturais. Em 1502, Wilhelm von Hohenheim mudou-se com o filho para Villach, na Caríntia, uma região mineira. Lá, Paracelso foi exposto às realidades da exploração mineira e às doenças profissionais dos mineiros, o que influenciou a sua compreensão das patologias relacionadas com as condições de trabalho. Esta experiência prática, combinada com o ensino do pai, formou as bases da sua futura abordagem médica, aliando observação empírica e saberes alquímicos.
Após os seus estudos, Paracelso empreendeu muitas viagens pela Europa, visitando países como a Suécia, a Grécia e Portugal. Estas viagens permitiram-lhe observar diversas práticas médicas e enriquecer os seus conhecimentos.
Em 1526, instalou-se em Estrasburgo, depois foi chamado a Basileia para tratar o famoso impressor Johann Froben, que sofria de gangrena na perna e estava condenado à amputação pelos seus médicos. Paracelso, com um tratamento adequado e os seus próprios remédios, evitou a amputação e curou-o com tanto sucesso quanto espanto dos seus pares. Este sucesso valeu-lhe uma nomeação em 1527 como médico municipal e professor na Universidade de Basileia. Mas a situação iria rapidamente azedar.
2. É a dose que faz o veneno
2.1. As doutrinas de Galeno e Avicena
É preciso primeiro explicar o contexto médico da época, regido por duas doutrinas: a de Galeno e a de Avicena.
Galeno, médico grego do século II d.C., elaborou a teoria dos humores, um sistema que postulava que o corpo humano é regido por quatro fluidos fundamentais: o sangue (energia vital), a bílis amarela (dinamismo e raiva), a bílis negra (melancolia) e o fleuma (frieza e apatia). Estes humores estavam associados aos quatro elementos — ar, fogo, terra e água — e condicionavam a saúde física e mental. Segundo esta visão, a doença resultava de um desequilíbrio dos humores, chamado "discrasia". Para restabelecer a harmonia, Galeno recomendava tratamentos como sangrias, purgas ou dietas específicas, cada um adaptado ao temperamento e às necessidades supostas do paciente.

Fonte: Sud Ouest
Avicena, filósofo e médico persa do século XI, aprofundou esta teoria na sua obra maior, O Cânone da Medicina. Sintetizando os saberes gregos, persas, indianos e árabes, Avicena elaborou um sistema médico ainda mais completo. Considerava os humores como determinantes, mas também insistia na importância de fatores ambientais como o clima, a alimentação ou as emoções. Sistematicamente aplicou abordagens diagnósticas como a análise da urina e do pulso, enriquecendo a farmacopeia com centenas de remédios naturais. Os seus trabalhos introduziram noções mais precisas de dosagem e combinação das substâncias medicinais.
2.2. Ruptura com a tradição
No século XVI, a medicina europeia baseava-se largamente nestas doutrinas. Paracelso, convencido da inadequação destas abordagens e de carácter forte e rebelde, rejeita categoricamente estes ensinamentos. Em Basileia, em 1527, realizou um ato simbólico ao queimar publicamente na noite de São João obras destes grandes nomes da medicina perante os seus próprios estudantes. Para ele, estes métodos negligenciavam as realidades das doenças e dos pacientes.
Paracelso propõe uma abordagem empírica, ancorada na observação direta dos sintomas e na experimentação. Considera que cada doença possui um remédio específico na natureza, acessível através de um conhecimento aprofundado das plantas, minerais e metais.
Outro detalhe importante: Paracelso ensinava em alemão. Isso mudou muito, pois na época a língua "erudita" era o latim. Todos estes elementos levaram-no a ter muitos detratores, tanto entre médicos como na Igreja, qualificando-o de fanfarrão, mentiroso, marginal ou mesmo bêbado.
2.3. Fundação da toxicologia
Isso não deteve Paracelso, que assinou aí a razão da sua fama ao revolucionar a compreensão das substâncias medicinais pelo princípio segundo o qual tudo pode ser veneno ou remédio, dependendo da dose. Esta ideia, resumida na sua famosa frase "Tudo é veneno, nada é veneno; é a dose que faz o veneno", abre caminho à toxicologia moderna. Pelos seus trabalhos, demonstra que mesmo substâncias consideradas perigosas podem tornar-se benéficas quando corretamente dosadas. E vice-versa.
Como exemplo, usou o mercúrio para tratar a sífilis, uma doença particularmente devastadora na sua época, e explorou as propriedades curativas de metais como o antimónio.
2.4. Medicina alquímica
Paracelso desenvolveu uma disciplina inovadora, chamada iatroquímica, que combina alquimia e medicina para analisar os processos químicos do corpo humano e conceber tratamentos adequados. Considerava o corpo como um sistema químico, onde as doenças são causadas por desequilíbrios internos que devem ser corrigidos com remédios específicos. Ao contrário dos médicos da sua época, privilegiava tratamentos individuais, considerando que cada paciente é único e necessita de uma terapia personalizada. Oponha-se à ideia de prescrições universais e defendia um conhecimento aprofundado do temperamento e das condições de vida de cada indivíduo.

Fonte: National Geographic
Além disso, Paracelso considerava a natureza como uma verdadeira farmácia. Usava a teoria das assinaturas para associar as características das plantas e minerais a doenças específicas.
3. O conceito dos três princípios
Alquimista convicto, Paracelso introduziu o conceito dos três princípios fundamentais: o enxofre, o mercúrio e o sal. Estes três elementos simbólicos substituem os quatro elementos clássicos (terra, ar, fogo, água) para explicar as transformações da matéria. O enxofre representa a combustibilidade e a alma, o mercúrio encarna a fluidez e o espírito, enquanto o sal simboliza a estabilidade e o corpo. Para Paracelso, estes princípios não são apenas conceitos alquímicos; formam também as bases da medicina, permitindo interpretar os desequilíbrios do corpo humano como perturbações nestes três elementos. Este modelo alquímico torna-se uma ferramenta de análise tanto filosófica quanto médica, ligando o corpo e a matéria às leis universais.

Complementarmente, a sua filosofia natural assenta numa visão holística do universo. Paracelso considera que o homem é um microcosmo, uma réplica em miniatura do macrocosmo que é o universo. Esta correspondência universal significa que tudo o que existe no universo exterior tem um equivalente no corpo humano. Esta abordagem integra as influências dos astros, dos elementos e das forças naturais no funcionamento do corpo, insistindo também no papel das energias invisíveis. Para Paracelso, a saúde depende da harmonia entre estas energias internas e as forças cósmicas. Este ponto de vista influencia também a sua prática médica, reforçando a ideia de que os remédios devem estar em ressonância com o universo para serem eficazes.
Paracelso expressou as suas ideias em obras maiores que combinam alquimia, medicina e filosofia. Entre elas, Paragranum e Opus Paramirum ocupam um lugar central. Em Paragranum, critica os fundamentos da medicina tradicional e propõe um novo método baseado em quatro pilares: a filosofia, a astronomia, a alquimia e a virtude do médico. Este texto constitui uma reformulação radical da medicina, ligando-a a uma compreensão mais profunda das forças naturais e espirituais. Opus Paramirum, por sua vez, explora as causas das doenças e os meios para as tratar com base nos princípios alquímicos. Paracelso reafirma aí o seu compromisso com uma medicina empírica e experimental, integrando também elementos metafísicos.
Estas duas obras fazem parte de uma coleção de mais de 350 livros que Paracelso terá escrito (230 de filosofia, 40 de medicina, 12 de política, 7 de matemática e astrologia, 66 de magia e artes secretas). Lenda ou não, nunca se saberá, pois esta contagem viria de um dos seus estudantes.
4. Um fim de vida misterioso
Paracelso faleceu a 24 de setembro de 1541 em Salzburgo, com 48 anos de idade. As circunstâncias que rodearam a sua morte permanecem misteriosas e deram origem a várias especulações.
Segundo algumas fontes, Paracelso terá sido vítima de uma agressão durante um banquete, orquestrada por rivais médicos. Durante esta altercação, terá sofrido uma queda, ferindo-se mortalmente na cabeça. Um exame post-mortem terá revelado uma fratura no osso temporal, sugerindo uma lesão traumática.
Outras hipóteses avançam que Paracelso terá morrido devido a uma doença. Pouco antes da sua morte, terá deixado os seus bens aos pobres da cidade, gesto interpretado por alguns como a consciência de um fim iminente devido a uma afeção grave.
Após o seu falecimento, Paracelso foi sepultado no cemitério da igreja de São Sebastião em Salzburgo. Em 1752, os seus restos foram transferidos para o interior da igreja, onde uma placa comemorativa honra a sua memória.
Outro mistério envolve o seu nome: a hipótese mais difundida sugere que Paracelso deriva do latim para significando "contra", "além de" ou "superior a", e de Celse, um médico romano do século I conhecido pelos seus escritos médicos. Assim, Paracelso poderia traduzir-se por "superior a Celse", sinal do seu desejo não só de superar, mas de contradizer a medicina tradicional.
Para terminar e resumir a vida e o carácter de Paracelso (nunca foi casado nem teve filhos): « A natureza não me teceu com muita subtilidade. E não é costume no meu país usar fios de seda. Não fomos criados com figos, hidromel, pão de trigo; mas com queijo, leite e pão de aveia: não é com isso que se fazem jovens subtilíssimos. E o que recebemos quando jovens permanece connosco até ao fim dos nossos dias. Comparados com pessoas delicadas, limpas como gatos e superiormente refinadas, parecemos grosseiros. E não nos damos bem, nós que crescemos entre pinhas, com aqueles que foram criados em roupas de seda e por mãos de mulher. »















