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O que é o Helenismo?

O que é o Helenismo?

NO ÍNDICE...

 

1. O Helenismo, de cultura a religião da Grécia antiga
2. O Panteão dos deuses do Olimpo
3. Locais de culto, ritos e festas
4. Deuses e fiéis: uma relação de troca
5. Homens, mulheres e sexualidade na ordem helénica
6. Perspetivas filosóficas sobre os deuses
7. Herança e renascimentos modernos do Helenismo


Há, nas ruínas dos templos gregos, algo que não desaparece. O Helenismo foi uma forma de ver o mundo, de viver em ligação com o divino, com a natureza e com a cidade, uma religião antes da religião. Exceto que não se baseia numa revelação, nem num livro sagrado, nem numa fé íntima obrigatória. Não impõe conversão, não promete uma salvação universal. Nascido nas margens do mar Egeu, nunca desapareceu totalmente. Ainda hoje existem vozes que chamam Apolo, honram Deméter ou saúdam Zeus. É para esta tradição que nos voltamos aqui.

1. O Helenismo, de cultura a religião da Grécia antiga

O Helenismo designa a religião politeísta praticada na Grécia antiga durante mais de 1 000 anos, desde o 2º milénio a.C. até ao século IV d.C. Desenvolveu-se sem escritura sagrada nem dogma imposto, apoiando-se num rico conjunto de mitos e ritos transmitidos pela tradição. No centro desta fé estão muitas divindades antropomórficas (deuses e deusas com forma humana) que conhecemos pelo menos de nome, lideradas por Zeus, o rei do céu. Honrar os deuses faz parte integrante da vida cívica e familiar: trata-se de uma religião vivida no quotidiano, desde o lar doméstico até aos grandes santuários pan-helénicos.

A palavra Helenismo vem do grego antigo Hellēnismos, que inicialmente significava «a língua e a cultura gregas», em oposição ao que era estrangeiro (barbaros). Com o tempo, hellēnismos passou a designar a identidade grega no seu conjunto: a forma de viver, pensar, falar, honrar os deuses. Na época helenística (após Alexandre, o Grande), a palavra ganhou um significado mais amplo: abrange a difusão da cultura grega por toda a bacia do Mediterrâneo, mas também a manutenção das práticas religiosas gregas num mundo cada vez mais cosmopolita. Só muito mais tarde, na época moderna, é que a palavra “Helenismo” passou a ser usada para designar a religião grega antiga em si.

O Helenismo é por vezes definido como a celebração do belo, o que é correto de certa forma, mas não é apenas o que agrada ao olho ou seduz os sentidos. É o que manifesta a ordem, a harmonia, a proporção, a clareza, a justeza. Esse belo está ligado à verdade, ao bem, ao cosmos, e atravessa tudo: o corpo, a palavra, o gesto ritual, o templo, a lei, a música, a atitude moral. É uma manifestação visível do equilíbrio divino. Os gregos não inventaram a beleza, mas pensaram-na como um reflexo do divino no mundo sensível. É por isso que os deuses são belos tanto quanto o seu templo: não por vaidade, mas porque encarnam a medida perfeita de cada coisa.

2. O Panteão dos deuses do Olimpo

O panteão helénico é composto por uma multitude de deuses e heróis venerados pelos seus poderes sobre o mundo natural e a sociedade humana. No topo está Zeus, claro, mestre do céu e da tempestade, garante da ordem cósmica e social. Ao lado de Zeus sentam-se as grandes divindades olímpicas, a sua família divina: Hera, sua esposa, é a protetora do casamento e da fertilidade; Atena, nascida só de Zeus, deusa da sabedoria e da estratégia guerreira, protege as cidades; Apolo, filho de Zeus e de Leto, deus solar das artes, dos oráculos e da poesia, distribui música e profecias; a sua irmã Ártemis reina sobre a natureza selvagem e a caça. Posídon, irmão de Zeus, governa o mar e os terramotos, enquanto Deméter faz amadurecer as colheitas e garante a fertilidade da terra. Entre eles também estão Ares, o impetuoso deus da guerra ofensiva, Afrodite, deusa do amor e da beleza nascida da espuma, Hermes, mensageiro divino com sandálias aladas, patrono dos viajantes e comerciantes, e Hefesto, deus ferreiro do fogo e dos vulcões. Segundo a tradição, estes doze grandes deuses residem no monte Olimpo e formam uma corte celestial unida em torno de Zeus. Na realidade, a composição do Dōdekatheon (o grupo dos «doze deuses») varia conforme as regiões (naquela época, a Grécia antiga era um mundo fragmentado em cidades-estado autónomas).

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Templo de Zeus ou Olympiéion, Atenas

À volta dos Olímpicos gravita uma multidão de outros seres sagrados. Os deuses locais abundam: cada cidade, cada região da Grécia honra divindades tutelares particulares, identificadas com os Olímpicos por epítetos distintivos (por exemplo Zeus Ammon na Líbia, assimilado a um deus berbere). A religião grega integra também as potências da natureza: os bosques, os rios e as montanhas são povoados por ninfas e deuses rústicos como Pã, o deus-bode dos pastores, ou as Nereidas, ninfas do mar. Os conceitos abstratos podem tomar forma divina, à imagem das Moiras (destinos) que tecem a vida dos mortais, ou de Niké (a Vitória). Os deuses gregos têm em comum o traço de adoptar formas e comportamentos comparáveis aos dos humanos. Casam, geram filhos, festejam e podem até discutir, manifestando ao mesmo tempo um poder extraordinário e uma imortalidade que os eleva muito acima dos homens. Por fim, os gregos prestam um culto aos heróis: estas personagens semi-divinas, nascidas mortais mas dotadas de prestígio, continuam após a sua morte a interceder junto dos deuses e a proteger o seu povo. Heróis lendários como Hércules (Héracles) – filho de Zeus acolhido entre os deuses do Olimpo após os seus feitos – ou Asclépio, Teseu e muitos outros, possuem os seus túmulos sagrados e recebem oferendas nos seus santuários locais. Na época clássica, Perséfone (Prosérpina), filha de Deméter e rainha do Inferno, conta também entre as divindades maiores honradas em ligação com o ciclo das estações e o mundo subterrâneo.

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Teatro de Dionísio, Atenas

De facto, Perséfone vive primeiro no seio do Olimpo, na luz do mundo dos vivos. Mas um dia, Hades, rei do Inferno, surge da terra e leva-a para o seu reino subterrâneo para a fazer sua rainha. Deméter, atingida pela dor, abandona o Olimpo e interrompe todo o crescimento na terra. Nada mais germina, nada mais cresce, os campos tornam-se estéreis.

Perante este sofrimento, Zeus intervém. Exige que Hades devolva Perséfone à sua mãe. Mas Hades, antes de a deixar partir, faz-lhe provar seis sementes de romã (é preciso dizer que ela estava faminta), símbolo de um vínculo irreversível com o mundo dos mortos. A partir daí, impõe-se um compromisso: Perséfone passará parte do ano com a mãe, na terra, e outra parte no Inferno, junto de Hades.

É esse vai-e-vem que marca o ritmo das estações. Quando Perséfone regressa à superfície, a natureza floresce, as colheitas renascem: é primavera e verão. Quando ela volta para o subsolo, a terra fecha-se, a vegetação morre, e chega o outono seguido do inverno.

3. Locais de culto, ritos e festas

O culto helénico expressa-se sobretudo por atos rituais, cumpridos segundo o costume para honrar os deuses. O local central da prática religiosa é o santuário (hierón), espaço sagrado ao ar livre. Encontra-se tipicamente um altar (bōmós) – o coração do ritual – e frequentemente um templo (naós) que alberga a estátua de culto da divindade. O templo grego é a «morada do deus»: contém a sua imagem e as suas oferendas, mas as cerimónias públicas decorrem apenas no exterior, na esplanada e em redor do altar. Alguns santuários, como o de Zeus em Olímpia ou de Apolo em Delfos, atraem periodicamente multidões de peregrinos de todo o mundo grego, durante festas pan-helénicas. Outros locais de culto são mais modestos, dedicados a uma divindade protetora de uma cidade ou de uma comunidade rural. Em cada nível – do lar doméstico aos grandes templos – os rituais visam estabelecer uma ligação tangível entre a comunidade humana e o mundo divino.

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Templo de Atena Niké, Atenas

O sacrifício de animais, embora cruel, é o rito central da religião grega clássica. Este ritual segue um procedimento codificado: após a procissão e a oração, um animal sem defeitos (boi, cabra, ovelha, etc.) é imolado no altar, geralmente ao amanhecer. Os gregos partilham então a vítima com os seus deuses segundo uma repartição simbólica durante um banquete pelos participantes humanos, enquanto os deuses recebem em oferta a fumaça dos ossos e da gordura queimados para eles. Este banquete sagrado sela a aliança entre o céu e a cidade, ao mesmo tempo que reforça a coesão da comunidade dos fiéis em torno da mesa comum. Para além dos sacrifícios de animais, praticam-se também oferendas não sangrentas: libações de vinho derramado no chão ou no altar, libações de mel ou leite, bolos de farinha, frutos, flores, incenso e diversos objetos de valor são apresentados aos deuses para solicitar a sua bênção. Um simples grão de incenso lançado no fogo sagrado pode ser suficiente para manifestar a piedade no dia a dia. Os depósitos votivos (oferta material) também são comuns: os gregos depositam nos santuários armas, tesouros ou estatuetas, em agradecimento por um voto atendido ou em oração por uma proteção particular. Todo ritual importante começa com purificações (lustrações com água lustral, fumigações) e é acompanhado de orações formuladas em voz alta, braços erguidos para o céu, para expressar o pedido dirigido ao deus honrado.

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Baixo-relevo ilustrando os Panateneias, Atenas. Fonte : Louvre

As celebrações religiosas inserem-se no calendário cívico. Cada cidade grega organiza ao longo do ano grandes festas (ἑορταί) em honra das suas divindades. Estas festas combinam rituais solenes e alegrias coletivas: sacrifícios públicos de uma amplitude excecional (por exemplo a Hecatombe, que teoricamente envolve cem bois), procissões ricamente ornamentadas nas ruas, concursos atléticos, musicais ou dramáticos, e banquetes abertos aos cidadãos. Assim, em Atenas, as Panateneias em honra de Atena (e a festa mais importante da cidade) apresentam uma procissão grandiosa até à Acrópole, enquanto em Delfos ou Dodona jogos e cânticos eram dedicados a Apolo. Da mesma forma, as Grandes Dionisíacas de Atenas celebram Dionísio com procissões de thiasos (cortejos de fiéis exaltados) e a organização de concursos teatrais de tragédias e comédias. Em Olímpia, a festa de Zeus, organizada de quatro em quatro anos, reúne os gregos de todas as cidades para provas desportivas sagradas: são os famosos Jogos Olímpicos, considerados ofertas de excelência do corpo humano ao rei dos deuses. Estas festividades religiosas têm uma forte dimensão cívica: permitem assegurar o favor dos deuses sobre a cidade para o ano seguinte, prestando-lhes todas as honras que lhes são devidas. São também uma ocasião para a população celebrar a sua identidade comum na fervor, na música e na partilha do sacrifício.

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Representação dos Komastes numa taça (participantes numa komos, procissão alegre associada a Dionísio). Fonte: Open Edition

Entre os rituais essenciais está finalmente a adivinhação, meio privilegiado de comunicar com a vontade divina. Os gregos procuram conhecer a opinião dos deuses antes das decisões importantes (criação de uma colónia, projeto militar, etc.) consultando oráculos, leitores do futuro. O mais prestigiado é o oráculo de Apolo em Delfos: a Pítia, sacerdotisa inspirada pelo deus, dá respostas enigmáticas aos peregrinos no templo do santuário de Delfos.

Um exemplo representativo é o do rei Crésus da Lídia (século VI a.C.). Antes de partir para a guerra contra o Império persa, Crésus consulta o oráculo de Delfos. A Pítia responde:

Se atravessares o rio Halys, destruirás um grande império.

Crésus pensa que se trata do império persa. Lança então o seu ataque... e perde. O oráculo dizia a verdade: ele destruiu um grande império, o seu próprio.

Outros oráculos famosos incluem o de Zeus em Dodona (onde os sinais são interpretados pelo sussurro das folhas dos carvalhos sagrados ou pelo som dos caldeirões) e o de Zeus Ammon no Egito. A adivinhação pode também exercer-se pela observação dos sinais (sēmeia) na vida quotidiana: o voo dos pássaros, um relâmpago no céu, ou ainda o exame das entranhas de uma vítima sacrificial são tantas mensagens que os adivinhos tentam decifrar. Se o sonho pela Oniromancia é considerado um canal de revelação, é sobretudo a prática oracular institucionalizada que marca a relação consultiva entre os gregos e os seus deuses. Por estas diversas mediações, o Helenismo oferece aos fiéis um quadro para compreender as vontades divinas e procurar conselho junto delas nos momentos decisivos.

4. Deuses e fiéis: uma relação de troca

A religião grega antiga baseia-se num pacto de troca implícito entre os humanos e o divino. Os mortais honram os deuses através de ritos e oferendas, e em troca esperam proteção, abundância e prosperidade. « Eu dou para que tu dês » – segundo o princípio mais tarde formulado em latim do ut des – resume o espírito dos cultos cívicos. Cada sacrifício, cada festa recorda assim aos deuses as homenagens prestadas e solicita a sua benevolência em contrapartida. Não se trata de uma simples transação material, mas da manutenção da harmonia: ao alimentar os deuses com respeito e oferendas, os gregos asseguram-se de não atrair a ira celestial e de conservar a ordem do mundo tal como desejada por Zeus. A piedade (eusebeia) é, aos seus olhos, uma virtude fundamental, consistindo em mostrar aos deuses um respeito escrupuloso tanto nos ritos como na vida moral. Ofender os deuses por orgulho ou sacrilégio – ou seja, cometer uma hybris (desmedida) – chama em retorno um castigo exemplar. Os mitos abundam em relatos de mortais punidos pela sua irreverência ou arrogância (como Níobe petrificada em rocha por se ter comparado a Leto, ou Ícaro fulminado por desafiar os céus). Pelo contrário, os exemplos de favor divino incentivam a piedade: os heróis protegidos por Atena ou Apolo triunfam graças à sua devoção, e certas famílias ou cidades prosperam sob a proteção de um deus tutelar.

Para os amantes de séries em streaming, podem ver a série Kaos na Netflix que resume muito bem este culto e sobretudo as consequências da ira de Zeus.

No entanto, e isso é importante, a religião grega não ensina uma moral obrigatoriamente recompensada na vida após a morte. O destino da alma após a morte é geralmente encarado sem exaltação: os falecidos comuns descem ao reino de Hades, um universo cinzento e melancólico onde as sombras subsistem sem alegria, mas que não é um mundo de castigo. Apenas alguns heróis escolhidos desfrutam de um repouso feliz nas Ilhas dos Bem-Aventurados ou nos Campos Elísios, enquanto os criminosos impenitentes sofrem castigos eternos no Tártaro. O Helenismo clássico valoriza sobretudo a vida presente, onde o homem piedoso espera a timè – a honra concedida pelos deuses e pelos homens – em vez de uma salvação pós-morte. O papel da religião é antes de tudo preservar o equilíbrio entre a humanidade e o divino aqui na Terra. Assim, os sacerdotes e sacerdotisas gregos são servos do culto mais do que guias espirituais: zelam pela boa execução das cerimónias e pela pureza dos santuários, sem constituir um clero separado da sociedade. Nenhum credo é imposto ao fiel além do reconhecimento dos deuses e da prática ritual: não existe catecismo nem « ortodoxia » definida que regule o pensamento religioso, sendo este conceito mesmo estranho aos Antigos. Basta que um Grego « faça o que é piedoso » – celebrar os ritos da sua cidade e respeitar os interditos sagrados – para ser considerado um bom praticante, sem que o seu foro íntimo seja questionado. Esta liberdade de pensamento explica que, apesar da "religiosidade" ambiente, espíritos críticos como Xenófanes ou Sócrates tenham podido questionar os mitos ou a moralidade dos deuses (embora Sócrates tenha sido finalmente condenado por asebeia, impiedade). De facto, a partir do século V a.C., a reflexão filosófica e ética leva alguns a encarar os deuses de forma mais alegórica ou racional, sem contudo romper o quadro tradicional do culto. Uma visão do culto finalmente muito aberta e vanguardista.

Na tradição grega, os interditos sagrados referem-se mais a gestos, atitudes ou transgressões graves contra a ordem e os deuses. São os atos de hybris (excesso) que conduzem a castigos eternos no Tártaro. Alguns exemplos:

  • Não se compara aos deuses: quando um mortal se compara a um deus ou tenta igualá-lo, ultrapassa um limite que a ordem divina não tolera. É o que acontece a Níobe, que se gaba de ter mais filhos que a deusa Leto. Os seus filhos são mortos por Apolo e Ártemis, e ela fica petrificada de tristeza.

  • Não se enganam os deuses: Tântalo, rei nobre e próximo dos deuses, comete uma falta absoluta ao servir a carne do seu próprio filho como refeição aos imortais, para testar o seu conhecimento divino. Os deuses reconhecem o horror, rejeitam a oferta e punem-no no Tártaro. Lá, permanece de pé na água, sob árvores frutíferas, mas a água recua e os frutos escapam sempre que tenta alimentar-se.

  • Não se trai um deus: Íxion é acolhido por Zeus apesar de um passado duvidoso. Em troca, tenta seduzir Hera. Para o apanhar, Zeus envia-lhe uma ilusão de Hera, com quem Íxion se une. Por esta afronta, Íxion é precipitado no Tártaro, acorrentado a uma roda em chamas que gira sem fim.

  • Não se escapa aos deuses: Sísifo, rei astuto, tenta escapar à morte acorrentando Tânatos (a própria Morte), depois volta voluntariamente ao mundo dos vivos, alegando ter esquecido um rito funerário. Quando os deuses o alcançam, enviam-no para o Tártaro, onde deve rolar eternamente uma pedra até ao topo de uma colina, que cai sempre.

5. Homens, mulheres e sexualidade na ordem helénica

Na religião grega antiga, os deuses não impõem uma ordem moral única, mas a sua existência molda a forma como homens e mulheres se percebem no cosmos, na cidade e no culto. Os relatos mitológicos mostram deuses ativos, carnais, poderosos, capazes de amar, desejar, sentir ciúmes ou punir. Estas figuras divinas, embora imortais, partilham com os humanos uma vida afetiva, sexual e política. Isso faz com que a religião helénica esteja integrada no ciclo natural e social.

Os homens têm um lugar preponderante nos grandes cultos cívicos. Presidiam os sacrifícios públicos, participavam nos concursos, conduziam as procissões, sentavam-se nos conselhos religiosos. Mas as mulheres, longe de estarem ausentes, possuem funções rituais essenciais: atuam como sacerdotisas, tecem as vestes sagradas, preparam as oferendas, animam cultos femininos autónomos. Algumas festas, como as Tesmofórias em honra de Deméter e Perséfone, são-lhes exclusivamente reservadas. As sacerdotisas de Atena, Apolo, Ártemis ou Dionísio têm um papel ativo na mediação entre os deuses e os vivos, e a sua função é reconhecida, respeitada, transmitida. No mundo grego, os deuses precisam das mulheres.

O corpo humano não é vivido como uma fonte de vergonha. É objeto de cuidado, de força, de beleza, frequentemente representado nu na arte sagrada como nos santuários. A sexualidade não é objeto de qualquer prescrição religiosa. Não é nem punida, nem santificada, nem reduzida a uma norma única, é de facto normalizada. Os próprios deuses amam tanto no feminino como no masculino. Zeus seduz tanto Hera como Europa (mulher), Ganimedes (jovem) ou Calisto (jovem mulher). Apolo ama Jacinto (jovem). Dionísio por vezes muda de aparência, de género, ou inspira nos seus fiéis estados de exaltação onde as identidades se misturam. A religião não condena estes relatos: transmite-os como simples verdades do mundo.

Na sociedade, as relações sexuais entre homens não são tabu. Podem inscrever-se num contexto educativo, afetivo ou ritual, sem serem reduzidas a um simples ato ou a uma orientação. Em particular em Atenas, as relações entre homens livres podiam seguir um quadro estruturado, reconhecido socialmente, chamado paiderastia (literalmente amor dos rapazes numa relação estruturada e social, que mais tarde será usado de forma muito pejorativa como "pedofilia"). Este vínculo unia um homem adulto, chamado erastès (o “amante”, aquele que dá), a um adolescente pubescente, chamado eromenos (o “bem-amado”, aquele que recebe). Não se tratava de uma relação passageira, mas de um vínculo educativo, afetivo e simbólico, baseado na transmissão de saberes, valores e hábitos cívicos, em todos os aspetos da vida, mesmo os mais íntimos (mesmo que esta visão da intimidade não existisse ou existisse pouco na sociedade grega).

O erastès colocava-se num papel de modelo: oferecia a sua atenção, os seus conselhos, a sua experiência. Atenção, devia mostrar contenção, respeito e um compromisso sincero. O eromenos, por sua vez, não devia submeter-se passivamente nem procurar o favor sem dignidade: devia escolher livremente o seu erastès, e a sua reputação dependia da sua capacidade para encarnar as virtudes esperadas de um futuro cidadão.

O que é o Helenismo?

Um erastès oferecendo uma lebre a um eromenos, um presente tradicional que simboliza o afeto e o interesse romântico.

As famílias vigiavam estas relações, os poetas falavam delas, os filósofos comentavam-nas. Os abusos grosseiros, as relações forçadas, a mercantilização ou os excessos brutais eram mal vistos e podiam levar à desonra pública para o adulto e também, como vimos acima, a um lugar no Tártaro. Em Atenas, existiam leis para proibir a um homem que tivesse tido relações "não virtuosas" com um jovem cidadão de exercer certas funções públicas. O espaço político, social e divino impunha assim um controlo indireto.

O objetivo desta relação não era simplesmente carnal. Visava formar o adolescente para o seu futuro papel de homem livre, por imitação, diálogo e proximidade. Esta pedagogia pela amizade amorosa baseava-se em códigos estritos: uma vez adulto, o eromenos deixava de estar disponível para este tipo de ligação, tornava-se por sua vez erastès, e por vezes casava-se. Esta lógica não excluía as relações heterossexuais, mas colocava a sexualidade masculina num ciclo de formação e transmissão.

Estas ligações não anulam o casamento, nem o lugar das mulheres, mas inserem-se numa visão do desejo mais fluida e mais incorporada. O mundo está cheio de formas, de desejos, de impulsos. O que importa não é o género do parceiro, mas o equilíbrio, o limite, a decência na relação com o corpo e com o outro.

O Helenismo não traça uma linha de separação entre o sagrado e a sensualidade. O prazer, o desejo, a fertilidade, a força, a beleza — tudo isso participa na ordem divina. Afrodite não é um símbolo abstrato: ela habita os corpos vivos, as uniões férteis, os gestos de atração ou ternura. Em certas festas em honra de Dionísio ou Pã, os excessos permitidos durante algum tempo recordam que o divino por vezes ultrapassa as regras humanas, e que o mundo não se resume à razão.

6. Perspetivas filosóficas sobre os deuses

Várias correntes filosóficas da Antiguidade propuseram leituras inovadoras da religião grega, mantendo um profundo respeito pelo divino. Estas escolas procuravam conciliar as práticas cultuais herdadas com uma compreensão mais abstrata ou ética dos deuses, iluminando assim certos valores espirituais do Helenismo.

6.1. O Orfismo

Surgida desde a época arcaica, a corrente órfica apresenta-se como um caminho iniciático centrado na purificação da alma e na salvação pós-morte. Os órficos reivindicam o mítico poeta Orfeu, que teria trazido ensinamentos sagrados da sua viagem ao Mundo Inferior. Propõem um mito cosmogónico onde Dionísio Zagreus, filho de Zeus, é morto pelos Titãs e depois ressuscita, a humanidade nascendo das cinzas dos Titãs atingidos por Zeus. Deste relato resulta uma visão da condição humana: em cada ser brilha uma centelha do divino Dionísio misturada com a herança culpada dos Titãs. A alma deve purificar-se das impurezas materiais para reencontrar a sua parte celestial. Os adeptos órficos seguem assim regras de vida ascéticas (como o vegetarianismo) e celebram ritos iniciáticos secretos, com hinos e fórmulas sagradas, destinados a assegurar um destino melhor no além. Ao contrário do sacrifício público clássico, praticam sobretudo oferendas simbólicas (como o incenso) e rejeitam o sacrifício sangrento, valorizando uma relação mais interior com o divino. O Orfismo influenciou o pensamento religioso grego ao enfatizar a pureza da alma, a eventual reencarnação das almas culpadas e a busca de uma forma de salvação individual, elementos que contrastam com a religião cívica orientada para a comunidade.

6.2. O Estoicismo

Os filósofos estóicos da época helenística (Zenão, Cleanto, Crisipo) e romana (Sêneca, Epicteto, Marco Aurélio) propõem uma visão do mundo onde Deus é concebido como um princípio único, imanente e racional. Para eles, Zeus não é apenas o rei dos deuses da mitologia, ele é a Alma do mundo, a Razão universal (Logos) que ordena o cosmos. Cleanto, discípulo de Zenão, celebra no seu Hino a Zeus esta Providência divina que «dirige todas as coisas segundo a lei» e à qual convém que os mortais se unam vivendo virtuosamente. Os Estóicos interpretam assim os deuses tradicionais como tantas manifestações do Logos: por exemplo, Zeus representa o fogo e a razão soberana, Poseidon o elemento aquático, Hera o éter, e assim por diante. Esta leitura dá uma dimensão monoteísta ao politeísmo: um único Deus-natureza desdobra-se numa multiplicidade de potências divinas. No plano cultual, os Estóicos continuam a praticar os ritos públicos da sua cidade, considerando que a eusebeia (piedade) faz parte dos deveres do sábio. Contudo, a sua piedade enfatiza a virtude moral: honrar Zeus é, antes de mais, viver em acordo com a Razão universal e aceitar com serenidade a ordem do mundo tal como é. O Estoicismo ilustra assim uma espiritualização do Helenismo, onde a mitologia é relida alegoricamente e onde servir os deuses equivale a cultivar a ética e a razão.

6.3. Platonismo

O famoso filósofo Platão (século V - IV a.C.) e seus sucessores introduzem um olhar crítico e metafísico sobre os deuses da cidade. Na sua obra A República, Platão questiona os mitos tradicionais que atribuem aos deuses ações imorais ou indignas, considerando que a divindade deve ser boa e perfeita.

O que é o Helenismo?


É preciso dizer que existe uma verdadeira tensão no pensamento grego: por um lado, os deuses são honrados como garantidores da ordem do mundo, patronos da justiça, da beleza, da sabedoria, etc.; por outro, ou pelo menos contraditórios:

  • Zeus multiplica as traições e metamorfoses para seduzir ou forçar mortais.

  • Hera é ciumenta, cruel e astuta.

  • Ares age por impulsividade e prazer do carnificina.

  • Afrodite traiu o seu marido Hefesto para se deitar com Ares.

Ele preconiza purificar a religião dos seus elementos demasiado humanos para reter apenas o que eleva a alma para o Bem. Platão concebe no topo da sua hierarquia uma realidade suprema, o Bem ou o Um, princípio transcendente que ultrapassa até Zeus. No entanto, reconhece a existência dos deuses intermédios – que chama demónios (daimones) ou deuses subalternos – encarregados de administrar o mundo sensível de acordo com as ordens do demiurgo (artesão divino). Os filósofos platónicos posteriores, nomeadamente na época imperial (Plotino, Jâmblico, Proclo), foram mais longe ao integrar plenamente a religião tradicional num sistema teológico complexo. O neoplatonismo interpreta os deuses do Olimpo como emanações do Um, e pratica ritos de teurgia para se unir às inteligências divinas (que visa entrar em contacto com os deuses não só pela oração, mas por ritos, símbolos, gestos e invocações). O imperador Juliano no século IV d.C., educado no neoplatonismo, tenta restaurar a antiga religião dotando-a de uma teologia filosófica unificada: para ele, os mitos são apenas símbolos, e o sábio deve desvendar o seu sentido para honrar o Deus único através do culto de todos os deuses. Assim, o Platonismo e os seus herdeiros procuraram elevar o Helenismo ao nível de uma filosofia universal, insistindo na busca do Bem, na purificação intelectual e na compreensão alegórica das tradições.

Graças a estas abordagens, os filósofos enriqueceram o Helenismo ao lhe trazer reflexões sobre a virtude, o destino da alma, a unidade do divino ou a natureza simbólica dos mitos, testemunhando a profundidade espiritual que um culto aparentemente politeísta e mitológico podia conter.

7. Herança e renascimentos modernos do Helenismo

Após a Antiguidade, o Helenismo declinou progressivamente com a cristianização do Império Romano. O triunfo do monoteísmo cristão nos séculos IV e V relegou a antiga religião ao estatuto de tradição pagã perseguida, depois esquecida. No entanto, a influência da religião grega perpetua-se de forma difusa: muitos dos seus mitos e figuras divinas sobrevivem na literatura, nas artes ou mesmo sob a forma de santos e lendas locais. Uma prova: todos nós a conhecemos, pelo menos em parte. Na Renascença, a redescoberta dos textos antigos e a admiração pela beleza dos deuses esculpidos despertam o interesse pelo paganismo greco-romano. Este legado cultural alimenta até aos dias de hoje o imaginário e o pensamento: os nomes dos deuses do Olimpo pontuam o nosso vocabulário, os nossos planetas, as nossas obras artísticas, testemunhando a marca duradoura do Helenismo na civilização ocidental.

A partir do século XX, e ainda mais no século XXI, alguns grupos começaram a reviver explicitamente a religião helénica como prática espiritual. Este movimento, qualificado como neopagão ou reconstrucionista, visa recuperar a veneração dos deuses gregos antigos com seriedade e autenticidade. Na própria Grécia, foram fundadas associações oficiais para promover o retorno do culto antigo: o Conselho Supremo dos Helenos Étnicos, abreviado YSEE, criado em 1997, luta pelo reconhecimento do Helenismo politeísta como religião a sério. Os seus membros, assim como outros fiéis na Europa ou América, definem-se como «Helenos étnicos», herdeiros da religião nacional grega transmitida ao longo dos séculos. Aliás, preferem o termo helenismo étnico ou dodecateísmo («culto dos doze deuses») à designação «neopagão», para sublinhar a continuidade com a Antiguidade em vez de uma novidade moderna.

O que é o Helenismo?

Ritual contemporâneo na Grécia organizado por uma associação helenista: vestidos com túnicas brancas, os participantes honram os deuses do Olimpo com orações e oferendas coletivas. Fonte: Wikipédia

Concretamente, os grupos helenistas atuais procuram reconstruir os ritos antigos com base nas fontes históricas. Cerimónias são organizadas nas datas simbólicas do calendário ático (ano novo grego, solstícios, festas de Atena, Apolo, Deméter, etc.), onde se realizam orações, oferendas de frutas, bolos ou incenso, e libações de vinho em honra dos deuses olímpicos. A recitação de hinos homéricos ou órficos, o uso do grego antigo nas orações, e a recriação de procissões ou danças sagradas fazem parte das suas atividades. Os sacrifícios de animais, por outro lado, são geralmente substituídos por oferendas simbólicas, em conformidade com as sensibilidades contemporâneas. Estes fiéis modernos de Zeus, Hera, Atena ou Apolo reivindicam assim um modo de espiritualidade alternativo às religiões monoteístas dominantes, focado na pluralidade divina, na harmonia com a natureza e na fidelidade às raízes históricas da Europa. Embora minoritária, esta corrente ganhou visibilidade: na Grécia, foram erguidos templos privados dedicados aos deuses antigos, e realizam-se encontros públicos regularmente, por exemplo nas encostas do monte Olimpo ou em Delfos, para celebrar ritualmente o antigo Panteão.

Os neo-helenistas enfatizam os valores humanistas e cívicos herdados da Antiguidade: a tolerância religiosa (nenhuma exclusividade no culto), o respeito pela diversidade dos deuses e das culturas, a busca da virtude na vida pública como parte integrante da piedade. Vêem no Helenismo uma tradição viva, capaz de inspirar uma melhor compreensão de si mesmo e do mundo, sem sectarismo nem proselitismo agressivo. O movimento mantém-se, no entanto, discreto face às Igrejas estabelecidas – nomeadamente a Igreja Ortodoxa na Grécia, que continua predominante e por vezes crítica em relação a este renascimento pagão. Os praticantes atuais do Helenismo afirmam seguir um caminho de reconexão espiritual com os antigos deuses: longe de um folclore superficial, reivindicam uma fervor sincero pelos theoi (deuses) e theai (deusas) da Grécia antiga. Ao celebrarem novamente Zeus, o Pai celeste, Atena a sábia, Apolo o luminoso e todos os outros, fazem eco, a mais de dois milénios de distância, da voz dos antigos Helenos.

Desde a Antiguidade até aos dias de hoje, o Helenismo aparece assim como uma religião completa e coerente. Estrutura politeísta elaborada, ritos públicos, enraizamento na vida da cidade: a religião grega antiga não é um capricho mitológico nem um simples folclore, mas um pilar da civilização helénica. Soube dar sentido às ações humanas ligando-as ao divino, ao mesmo tempo que deixava espaço para a razão e para a liberdade interior. O Helenismo não pertence apenas ao passado. Enquanto houver vozes para nomear os deuses, gestos para os honrar e olhares para procurar a ordem no mundo, esta tradição permanecerá viva.

Olivier d’Aeternum
Par Olivier d’Aeternum

Apaixonado pelas tradições esotéricas e pela história do oculto desde as primeiras civilizações até ao século XVIII, partilho alguns artigos sobre estes temas. Sou também co-criador da loja esotérica online Aeternum.

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