Estamos todos de acordo em dizer que existe apenas uma magia. Assim, a magia vermelha, verde ou negra resulta, na verdade, do uso que dela se faz. É portanto útil definir cada intenção mágica para conhecer os seus limites, mas também as origens históricas, infelizmente cada vez mais deixadas de lado. Vamos então partir à descoberta (um pouco filosófica) da tão famosa magia dita negra e os seus desafios.
1. A magia, entre o bem e o mal
À primeira vista, o termo « magia negra » evoca uma prática oculta carregada de conotações sombrias e nefastas. Ao longo da história, a noção de « escuridão » associada à magia adquiriu significados variados conforme os contextos culturais, religiosos e filosóficos.
Nas primeiras civilizações, a magia não era categorizada em « negra » ou « branca » de forma tão marcada como hoje. No Antigo Egito, por exemplo, a magia, ou heka, era considerada um dom divino, permitindo manter a ordem universal. Os sacerdotes e magos invocavam forças para cura e proteção, mas podiam também usar práticas que hoje poderiam ser vistas como manipuladoras ou prejudiciais. A fronteira entre « bem » e « mal » na magia era então fluida e dependia principalmente da intenção por trás dos atos mágicos.
Com a ascensão das religiões abraâmicas, a perceção da magia começou a polarizar-se. A « magia negra » foi progressivamente associada a práticas consideradas heréticas ou contrárias às leis divinas, enquanto a « magia branca » passou a ser associada à pureza e às intenções benéficas. Na Idade Média, esta distinção foi acentuada pela influência da Igreja Católica, que via na « magia negra » uma ameaça às doutrinas religiosas e um perigo para as almas. As práticas consideradas como « magia negra », como a invocação de demónios ou a criação de maldições, eram severamente condenadas e frequentemente reprimidas por caças às bruxas.
Na Ásia, nomeadamente na Índia, a magia também estava presente nas práticas espirituais. Os termos « Tantra negro » (ou Aghori Tantra) designavam práticas ocultas usadas para fins de dominação ou destruição. Ao contrário de outras formas de magia, o Tantra negro visava manipular as forças destrutivas do universo e foi muitas vezes mal interpretado por observadores ocidentais que o associaram à « magia negra » no sentido europeu, embora não seja maléfico em si.
2. Maniqueísmo mágico
A dicotomia entre magia negra e magia branca provém em parte do maniqueísmo, um pensamento dualista de origem persa, ainda presente hoje, que concebia o universo como uma luta constante entre a luz e as trevas. Este conceito influenciou o pensamento ocidental que popularizou a ideia de uma batalha entre o bem e o mal. Na magia, esta dualidade traduz-se na oposição entre as forças supostamente benéficas (magia branca) e as práticas supostamente nocivas ou perigosas (magia negra).
A magia branca é assim vista como uma força de harmonia, cura e proteção, frequentemente associada às práticas de curandeiros, xamãs ou religiosos. A magia negra, pelo contrário, é atribuída a feiticeiros e magos que invocam entidades consideradas malévolas ou que procuram manipular a vontade alheia para ganhos pessoais. Nesta oposição, a « escuridão » assume uma conotação moral: representa a transgressão das leis naturais ou divinas, a ambição desmedida e o recurso a forças ocultas para fins de dominação.
3. A busca pelo poder pessoal...
No cerne da magia negra reside, a priori, a busca pelo poder pessoal e controlo sobre as forças invisíveis. Os magos procuram manipular energias consideradas obscuras para influenciar o mundo material segundo os seus desejos. Esta abordagem implica a invocação de entidades ou forças sobrenaturais percebidas como malévolas ou perigosas. Citamos o exemplo dos textos de Cornelius Agrippa que exploram rituais para invocar espíritos ou demónios para obter conhecimentos ou poderes específicos.
A magia negra está também associada à exploração das forças sombrias da natureza humana e do universo. Em vez de rejeitar essas energias, os magos integram-nas nos seus rituais para explorar aspetos mais profundos da existência. Em algumas culturas africanas, por exemplo, a distinção entre magia negra e magia branca é menos marcada, e o uso de forças percebidas como negativas pode ser considerado parte integrante da prática mágica.
4. ...ou uma ferramenta de rebelião?
A transgressão é um elemento central da filosofia da magia negra. Implica a ruptura com as normas morais, religiosas e sociais estabelecidas. Historicamente, as práticas de magia negra foram frequentemente vistas como atos de rebelião contra as autoridades religiosas e sociais. Na Idade Média, por exemplo, a Igreja Católica condenava severamente as práticas associadas à magia negra, considerando-as heresias e ameaças à ordem social. Mas convém esclarecer: a magia negra era um pretexto para condenar a magia em si? E por extensão todos os seus adeptos cuja forma de pensar estava bem distante do dogma religioso.
No plano psicológico, a magia negra pode ser vista como um meio de libertação das convenções sociais nas quais o mago não se reconhece. Permite a cada um explorar aspetos reprimidos da sua psique, confrontar os seus medos e desejos proibidos. Esta exploração é por vezes considerada um caminho para o autoconhecimento e transformação pessoal. Em algumas tradições xamânicas, por exemplo, o uso de rituais percebidos como transgressores visa restabelecer o equilíbrio entre o indivíduo e o universo.
5. Magia negra e perspetiva moral
A distinção entre bem e mal tem sido o centro de muitas reflexões filosóficas ao longo do tempo. No contexto da magia negra, esta dualidade torna-se particularmente complexa, pois toca em práticas vistas como marginais. Para explorar se o bem é realmente « bem » e o mal intrinsecamente « mau », podemos fazer um paralelo com dois dos filósofos mais famosos do nosso tempo cujas reflexões se aplicam bem ao nosso tema (embora os seus trabalhos não tenham incidido sobre a magia).
5.1. Kant e o « mal radical »
Emmanuel Kant, em A Religião nos Limites da Simples Razão, propõe o conceito de « mal radical ». Para ele, o mal não se reduz a uma ausência de bem, mas constitui uma inclinação própria à natureza humana. Afirma que cada indivíduo possui uma tendência a privilegiar os seus interesses e desejos pessoais em detrimento das leis morais. Nesta visão, o mal é uma parte da condição humana, enquanto o bem requer uma escolha consciente e uma vontade de superação.
Aplicado à magia negra, esta perspetiva kantiana poderia sugerir que certas práticas, aparentemente transgressoras, refletem essa tendência natural para o mal. No entanto, Kant lembra que a razão e a vontade moral permitem transcender essa inclinação, sublinhando que o bem se define pela capacidade de fazer escolhas morais apesar dos desejos pessoais.
5.2. Nietzsche e as construções sociais
Friedrich Nietzsche, em Para Além do Bem e do Mal, critica a moralidade tradicional e sustenta que as noções de bem e mal são construções sociais e culturais. Para ele, estas categorias são meios de manter uma ordem e conter os indivíduos em normas coletivas. Nietzsche propõe antes ultrapassar essas distinções morais para avaliar as ações segundo a sua capacidade de afirmar a vontade do indivíduo e a sua força vital.
No âmbito da magia negra, uma perspetiva nietzschiana leva a reavaliar as práticas qualificadas de « más » ou « nefastas » em função da sua afirmação da vontade pessoal. Nietzsche convida a uma redefinição dos julgamentos morais habituais, questionando se a magia negra não é também um meio de explorar facetas do poder individual.
6. A neutralidade das energias
Há um facto comprovado que ainda não abordámos: as energias mágicas são neutras por natureza. A magia é vista como uma interação com forças universais que não possuem moralidade intrínseca nem orientação pré-definida. Essas forças, frequentemente descritas como correntes naturais, vibrações ou energias cósmicas, respondem às intenções de quem as canaliza sem distinção moral. Esta visão é partilhada por várias filosofias e práticas espirituais.
No xamanismo, por exemplo, os espíritos e forças naturais invocados durante os rituais não são bons nem maus em si mesmos. O seu papel depende da forma como o xamã interage com eles, seja para curar, proteger ou influenciar uma situação particular. De forma semelhante, a filosofia taoísta propõe uma visão do mundo onde o yin e o yang, representando forças opostas mas complementares, encarnam um equilíbrio fundamental. Neste contexto, luz e escuridão não se opõem moralmente, mas coexistem em harmonia para manter a ordem universal. Finalmente, no hermetismo ocidental, as energias mágicas são vistas como leis naturais universais que o ser humano pode compreender e influenciar, sem que sejam fundamentalmente boas ou más.
No vodu, as energias não são influenciadas pelo sacerdote ou sacerdotisa, mas pelos lwa, que por sua vez não são definidos por uma moralidade fixa. Eles encarnam forças da natureza, aspetos da condição humana e arquétipos universais. Cada lwa possui atributos variados, incluindo traços "luminosos" e "sombrios", que refletem o seu papel no ciclo universal. Os lwa Petro, associados a práticas de magia mais intensas ou coercitivas, não são fundamentalmente malévolos. Representam energias de transformação, de poder bruto ou de defesa, que podem ser invocadas para necessidades específicas.
7. Magia ou magia negra?
A nossa abordagem mostra que as forças mobilizadas na magia negra não são "más" por essência. São neutras e tornam-se uma ferramenta moldada pelas intenções. Tal como uma faca pode servir para alimentar ou ferir, as energias mágicas ajustam-se à vontade de quem as manipula. Assim, um ritual destinado a proteger um ente querido ou a neutralizar uma ameaça pode basear-se em práticas ditas "sombras", sem ser moralmente condenável. Pelo contrário, essas mesmas energias, usadas para manipular ou causar dano, assumem uma conotação negativa.
Se tivéssemos de explicar a existência da magia negra, poderíamos simplesmente afirmar que ela existe porque o ser humano existe. Quando um trabalho mágico envolve manipulação, controlo, maldições de todo o tipo, vingança, ataque, transforma-se sem sequer se dar conta a energia neutra em energia negra.
8. A magia negra é condenável?
Para uma pessoa maltratada, o desejo de se defender ou reagir é uma resposta natural face a uma agressão ou injustiça. Neste contexto, lançar uma maldição pode ser visto como uma forma de retomar o poder, especialmente se a pessoa se sente impotente perante sistemas de justiça tradicionais que podem não responder à sua necessidade de proteção ou reparação. É uma forma de simbolicamente ou magicamente restabelecer um equilíbrio.
No entanto, esta reação, embora compreensível, pode ser influenciada por emoções como raiva, dor ou desespero. Estes estados emocionais intensos podem afetar a clareza do julgamento e levar a pessoa a agir sem considerar plenamente as consequências, tanto para si como para o outro.
Na Wicca, toda ação mágica, seja benéfica ou maléfica, é acompanhada de consequências kármicas. Estes sistemas recordam que a energia que se envia para o universo, em bem ou em mal, retorna a quem a emitiu. Assim, mesmo que uma maldição seja justificada no momento, pode acarretar repercussões espirituais para quem a lançou, que poderá sofrer um retorno de energia inesperado.
Isto convida a refletir sobre alternativas: em vez de lançar uma maldição, não seria melhor fortalecer-se a si próprio em vez de se concentrar nessa causa exterior? Para meditar...















