O famoso torii flutuante do santuário de Itsukushima ergue-se na maré alta, simbolizando a fronteira entre o mundo sagrado dos kami e o mundo profano. Imaginemos: numa fresca manhã de outono, enquanto a névoa se levanta sobre uma floresta de cedros milenares, um sacerdote xintoísta vestido de branco avança sob um portal vermelho. Atrás dele, uma jovem miko carrega oferendas de arroz e saké. O tilintar de um sino sagrado mistura-se com o sussurrar do vento nas folhas. Esta cena intemporal, que poderia muito bem decorrer no século VIII ou no século XXI, mergulha-nos no coração do xintoísmo, o «caminho dos deuses». Nascido dos mitos e da natureza japonesa, o xintoísmo ainda hoje anima a vida quotidiana do Japão. Ao longo dos séculos, evoluiu em diálogo com o budismo e conforme as leis dos imperadores, mas sem renegar as suas crenças fundamentais. Uma imersão na história, espiritualidade e filosofia da cultura japonesa.
1. Mitos fundadores ao Estado moderno
A história do xintoísmo começa na noite dos tempos. Segundo o Kojiki e o Nihon Shoki, crónicas mitológicas compiladas no século VIII, o Japão teria nascido da união primordial do casal divino Izanagi e Izanami. Dos seus gestos nasceram as ilhas do Japão e uma miríade de divindades, sendo a mais ilustre a deusa do Sol Amaterasu. Diz-se que foi ela quem enviou à Terra o seu neto Ninigi para fundar a linhagem imperial, fazendo do seu bisneto Jimmu o primeiro imperador do Japão. Esta reivindicação de uma ascendência divina concedeu aos soberanos do Japão uma legitimidade «de direito divino» que marcaria a história política do país durante séculos.
1.1. Sincretismo com o budismo e as tradições medievais
Muito antes de o termo shintoísmo existir, os habitantes do arquipélago já praticavam um animismo ancestral, prestando culto aos espíritos da natureza em locais sagrados delimitados por torii (os famosos portais tradicionais japoneses). No século VI, ocorre uma grande transformação: o budismo é introduzido a partir da península coreana. Longe de substituir as crenças locais, esta nova fé vai coexistir com elas. Em vez de opor Buda e os kami (os espíritos do xintoísmo), os japoneses elaboram uma visão sincrética: o shinbutsu shūgō, literalmente «fusão dos kami e do buda». Explica-se então que os kami xintoístas são apenas manifestações locais das figuras budistas. A deusa solar Amaterasu é assim associada ao Buda Vairocana, o «Grande Iluminado», enquanto muitos bodhisattva (figuras centrais do budismo) são identificados com divindades indígenas. Esta fusão é tal que, por todo o país, os templos budistas abrigam pequenos santuários xintoístas no seu interior, e vice-versa. Durante mais de um milénio, o povo venera indiferentemente budas e espíritos locais nos mesmos festivais.
Durante a Idade Média japonesa, o xintoísmo mantém um estatuto difuso, incorporado no budismo. Alguns estudiosos procuram, no entanto, recuperar a «pureza» original do caminho dos deuses. Na época de Edo (1603-1868), pensadores do movimento kokugaku («estudos nacionais») como Motoori Norinaga estudam avidamente os textos antigos. Eles defendem um regresso aos mitos indígenas e aos valores japoneses autênticos (como o magokoro, a sinceridade do coração) em reação às influências estrangeiras. As suas pesquisas preparam o terreno para um ressurgimento identitário do xintoísmo quando uma revolução política importante irrompe no século XIX.
1.2. O Xintoísmo de Estado na era Meiji
Em 1868, a restauração Meiji derruba o shogunato (regime militar feudal) e devolve o poder ao imperador. O novo governo modernizador quer fazer do xintoísmo o cimento espiritual da nação japonesa nascente. Decreta a separação forçada do budismo e do xintoísmo (política de Shinbutsu bunri) para eliminar o sincretismo considerado contrário à ideia de uma religião de Estado puramente japonesa. Templos milenares são despidos das estátuas budistas que abrigavam, e por vezes eclodem motins anti-budistas (haibutsu kishaku). O xintoísmo é erigido em tradição oficial, ou xintoísmo de Estado (Kokka Shintō). Em cada escola, em cada aldeia, incute-se o respeito pelo Imperador, agora venerado como um kami vivo, descendente direto de Amaterasu. Os santuários importantes passam para controlo governamental, os seus sacerdotes tornando-se funcionários públicos. Rituais imperiais grandiosos são retomados, como o Daijōsai (a cerimónia do primeiro arroz) que o imperador realiza na sua entronização, sozinho numa sala escura, oferecendo grãos às divindades do céu e da terra.
Esta instrumentalização do xintoísmo ao serviço do nacionalismo atinge o seu auge no início do século XX, quando o Japão imperial se expande na Ásia. Em todo o lado, são implantados santuários xintoístas nas colónias (Coreia, Taiwan…) para aí exportar o culto do imperador. Após a derrota de 1945, os Aliados impõem o fim do xintoísmo estatal: a constituição de 1946 estabelece a liberdade religiosa e o imperador Hirohito deve declarar publicamente que não é um deus. O xintoísmo regressa então à sua esfera privada e comunitária. No entanto, o fervor popular pelas tradições não desaparece. Os santuários continuam a ser mantidos pelos habitantes e os sacerdotes recuperam a sua independência. Assim, a religião ancestral sobrevive a esta tormenta, pronta para iniciar um novo capítulo da sua história no Japão contemporâneo.
A espiritualidade xintoísta, muito próxima dos kami
Se a história do xintoísmo teve altos e baixos, os seus fundamentos espirituais são notavelmente constantes. No coração desta fé está o conceito de kami (神). Ao contrário da ideia ocidental de um deus único e transcendente, os kami do xintoísmo são incontáveis e omnipresentes. Geralmente traduz-se este termo por «divindades» ou «espíritos», por falta de melhor (o japonês é uma língua rica em subtilezas). Os kami podem ser as próprias forças naturais (o vento, a tempestade, uma montanha sagrada), elementos da paisagem (uma cascata, uma rocha, uma árvore ancestral), animais, espíritos de ancestrais heróicos, ou ainda personagens lendários divinizados após a sua morte. A tradição evoca poeticamente «yaoyorozu no kami», oito milhões de kami, para significar que são incontáveis. Em outras palavras, cada partícula de vida no universo contém uma essência espiritual. O xintoísmo é assim fundamentalmente animista: reconhece uma alma ao grande Todo da natureza.

Estátua de uma criança guardiã do santuário
Venerar os kami é perceber o mundo como vivo e sagrado. O divino não está separado do quotidiano, impregna-o. Um ruído nas folhagens pode sinalizar a presença brincalhona de um espírito raposa. Um belo impulso do sumotori durante um combate pode ser inspirado pelo kami tutelar do dohyō (o ringue sagrado). A luz da manhã filtrando através de um torii pode ser interpretada como uma saudação da própria Amaterasu. No xintoísmo, as fronteiras entre o visível e o invisível são ténues. O fiel vê sinais do sagrado na névoa no topo do monte Fuji ou no espelho tranquilo de um lago.
Curiosamente, o xintoísmo não tem profeta fundador nem texto sagrado. Trata-se antes de um conjunto de mitos e rituais transmitidos pela tradição oral, depois compilados em crónicas como o Kojiki. O caminho dos deuses (tradução literal de Shintō) aprende-se primeiro pela prática, dentro da família e da comunidade, em vez de pela leitura de dogmas. É uma religião da experiência vivida: honra-se os kami através de gestos, danças, oferendas, mais do que por orações formuladas ou um catecismo. Cada santuário tem as suas próprias lendas locais, os seus kami específicos e as suas festas anuais. Existem, claro, pontos comuns (o ritual de purificação à entrada, ou o sino que se toca para chamar a divindade), mas nenhuma autoridade centralizada unifica estritamente o culto. Esta diversidade é aceite como reflexo da própria profusão dos espíritos.
No centro da espiritualidade xintoísta encontra-se também a ideia de pureza (kiyome) e o seu oposto, a impureza (kegare). O mundo natural é puro e harmonioso por essência, mas certos eventos podem criar um desequilíbrio espiritual – por exemplo, a morte, o sangue derramado ou atos malévolos. Essas contaminações requerem então um ritual de purificação (harai). Esta preocupação com a pureza não é moral no sentido estrito, é mais um imperativo ritual e físico para evitar contrariar os kami. Purificar o corpo e o espírito, por exemplo, lavando as mãos e a boca com água limpa à entrada de um santuário, é apresentar-se de forma adequada perante o divino omnipresente.
Por fim, a relação com a natureza está no centro da fé xintoísta. A natureza é venerada por si mesma e não como uma criação de uma entidade superior: ela é o divino. Essa sensibilidade gera um profundo respeito ecológico antes do seu tempo. Desde a Antiguidade, preservam-se ao redor dos santuários bosques sagrados (chinju no mori), refúgios invioláveis para plantas e animais. Uma árvore velha e nodosa, rodeada por uma corda de palha (shimenawa) indicando a presença de um kami, será protegida do machado do lenhador. Ainda hoje, embora o Japão seja altamente modernizado, tais refúgios verdes subsistem no coração das cidades.
3. Alma, moralidade e lugar do ser humano
O xintoísmo não apresenta uma doutrina filosófica abstrata, mas propõe uma visão do mundo coerente, implícita nos seus mitos e práticas. A questão da alma é percebida de forma fluida. Cada ser humano possui um tama, uma essência espiritual que o anima. Na morte, essa alma não desaparece: pode tornar-se um ancestral venerado pela sua família, ou mesmo, para personagens fora do comum, elevar-se ao estatuto de kami. Assim, muitos heróis, imperadores ou artesãos eminentes foram divinizados após a sua morte. Por outro lado, uma alma perturbada pela raiva ou ressentimento pode tornar-se um espírito errante ou vingativo (onryō). O objetivo da comunidade será então apaziguar esse espírito através de rituais apropriados para o reintegrar na harmonia geral.

Santuário na gruta Amanoyasukawara
Uma anedota famosa ilustra bem esta conceção: a história de Sugawara no Michizane. Alto funcionário erudito do século IX, foi injustamente exilado longe da corte de Kyōto devido a invejas políticas. Após a sua morte no exílio, terríveis calamidades abateram-se sobre a capital (tempestades destrutivas, epidemias, incêndios misteriosos). O povo aterrorizado viu aí a obra do espírito irado de Michizane. Para o acalmar, o imperador mandou construir em sua honra um grande santuário, o Kitano Tenmangū, no final do século X. O desgraçado foi deificado sob o nome de Tenjin, kami protetor das letras e das artes. Imediatamente, diz a lenda, as catástrofes cessaram. Ironia da história, a alma que semeava o infortúnio tornou-se um guardião benevolente – Tenjin é hoje venerado pelos estudantes japoneses que rezam para ter sucesso nos seus exames, sem suspeitar que ele foi outrora um fantasma vingativo. O infortúnio provém muitas vezes de um desequilíbrio (injustiça, ofensa aos kami) e pode ser reparado pela reconciliação e pelo ritual.
No plano da moralidade, precisamente, o xintoísmo não prescreve um código rígido de leis. Não existe pecado original nem salvação a ganhar pela fé. Em vez disso, uma ética informal emerge da relação com os kami e com a comunidade. O comportamento ideal é ditado pela busca da harmonia: harmonia com a natureza, com os outros humanos, com os antepassados e os deuses. As noções de sinceridade (makoto) e de lealdade são consideradas virtudes cardinais. Dizer a verdade, honrar a palavra, respeitar os ciclos naturais e as tradições, isso é o que é «bom». O «mal», por sua vez, confunde-se com aquilo que perturba a ordem e a pureza: a violência gratuita, a falta de respeito, o egoísmo que rompe o equilíbrio social, ou qualquer ação que suscite a ira dos kami.
Na filosofia xintoísta, o ser humano não está separado do resto do mundo, nem é qualitativamente superior aos outros elementos da criação. A humanidade é uma componente da grande família dos seres vivos – certamente dotada de consciência, mas sujeita às mesmas forças subtis. É apenas uma criança da Natureza, ao lado dos animais, das plantas, das pedras habitadas. Esta perspetiva gera humildade e responsabilidade: o humano deve colaborar com os kami para manter a fertilidade dos arrozais, a suavidade das estações, a prosperidade da comunidade. Se agir com arrogância ao sobreexplorar a terra ou ao faltar ao respeito pelos equilíbrios, caminha para a catástrofe espiritual e material. Pelo contrário, um soberano que governa com retidão e piedade atrairá o favor dos deuses para o seu povo. Aqui encontra-se o ideal antigo do Kannagara, viver «segundo o caminho dos kami», ou seja, em profunda harmonia com a natureza e a moral intuitiva do universo.
Quanto ao além, o xintoísmo mantém-se discreto. Não oferece uma descrição detalhada do destino da alma após a morte. Os mitos mencionam o Yomi, um país das sombras onde a deusa Izanami permaneceu após o seu falecimento, mas este além não é apresentado como um objetivo da vida terrena nem como um lugar de julgamento moral. Na prática, os japoneses confiaram tradicionalmente a gestão da morte e dos funerais ao budismo, que propõe conceitos de reencarnação ou paraíso do Oeste. O xintoísmo prefere concentrar-se na vida presente e na continuidade entre gerações. O que importa é que os falecidos integrem o mundo invisível dos ancestrais tutelares que vigiam os seus descendentes. Cada lar xintoísta mantém assim um pequeno altar doméstico onde se honra diariamente os antepassados com incenso e oferendas de água ou arroz. A morte não é o fim: é uma transformação da alma que se junta ao reino dos espíritos – que coexiste com o nosso. Não há inferno eterno nem paraíso distinto, apenas outro lado da realidade onde continuam a existir os laços de família e comunidade, transcendendo o tempo.
4. Os santuários, rituais e tradições vivas
A espiritualidade xintoísta manifesta-se numa rica mosaico de práticas e tradições que marcam a vida dos japoneses desde o berço até ao túmulo. É uma religião vivida principalmente através de ritos concretos, alegres e coloridos, enraizados tanto na cultura popular como no sagrado.
4.1. Os santuários, moradas dos kami
O coração pulsante do xintoísmo é, sem dúvida, o santuário (jinja). Estima-se que existam hoje cerca de 80.000 santuários xintoístas por todo o arquipélago. Estes locais sagrados são as casas dos kami. Cada um abriga uma ou várias divindades específicas, simbolizadas por um objeto sagrado escondido no honden (edifício principal proibido ao público). A arquitetura de um santuário xintoísta é concebida para favorecer o encontro respeitoso entre humanos e espíritos. Na entrada ergue-se geralmente o famoso portal torii, dois pilares ligados por uma trave, que marca a fronteira entre o mundo profano e o recinto sagrado. Ao atravessá-lo, o visitante purifica a alma dos seus pensamentos quotidianos para penetrar no espaço dos kami.

Fushimi Inari Taisha, o santuário dos 10 000 torii
Um caminho de cascalho ladeado por árvores conduz ao pavilhão de culto (haiden), diante do qual se reza. Mas antes disso, o fiel deve purificar-se corporalmente: para na fonte de ablução (chōzuya) para lavar as mãos e a boca com uma concha de água limpa – um gesto ritual breve que apaga as impurezas invisíveis do mundo exterior. Está agora pronto para saudar a divindade do local. Chegando ao altar, sob o olhar benevolente da estátua de uma raposa de pedra ou de um casal de leões, puxa uma corda ligada a um sino para sinalizar a sua presença ao kami, lança algumas moedas na caixa de ofertas, inclina-se duas vezes, bate palmas duas vezes (para chamar a atenção do espírito), e inclina-se uma última vez em silêncio, com o coração cheio de respeito. Este ritual da dupla inclinação, duplo aplauso, inclinação é comum à maioria dos santuários.

Fonte de ablução na entrada de um santuário
No interior do honden, o kami está simbolicamente presente, por vezes sob a forma de um espelho (representando a alma do deus) ou de outro objeto sagrado. O fiel não o vê, mas sente-o na atmosfera pacífica do santuário ou no tremor dos kakemono (têxteis pendurados). Os santuários xintoístas são simples e abertos para o exterior: sem grandes estátuas nem bancos, mas um espaço vazio ao ar livre ou sob um telhado onde se fica de pé. Esta simplicidade permite deixar circular melhor a presença do kami, senti-lo na natureza envolvente. Aliás, muitos santuários fundem-se na paisagem: encosta de montanha, floresta de criptomérias, rocha à beira-mar. O santuário de Ise, o mais venerado de todos, está mesmo escondido no coração de uma floresta secular que só os sacerdotes podem atravessar até ao santo dos santos.

Santuário Ise-jingū, composto por mais de uma centena de edifícios
Existem santuários de todos os tamanhos e funções. Alguns protegem uma localidade inteira, outros uma comunidade específica (pescadores, agricultores, estudantes, etc...), outros ainda são dedicados a um aspeto da vida (a saúde, o parto, os negócios…). Entre os mais famosos e antigos ainda em atividade, podemos citar: Ise-jingū, o grande santuário imperial dedicado a Amaterasu na prefeitura de Mie, cuja particularidade é ser reconstruído de forma idêntica a cada vinte anos desde pelo menos o século VII – o edifício atual inaugurado em 2013 é a 62ª réplica exata do santuário original, uma tradição de renovação que simboliza a juventude perpétua do divino. Outro local importante: Izumo-Taisha, em Shimane, reputado como o santuário mais antigo do Japão (consagrado ao deus Ōkuninushi, patrono dos casamentos) e onde, segundo a lenda, todos os kami do país se reúnem anualmente no outono para realizar um conselho. Atsuta-jingū em Nagoya, por sua vez, conserva um dos três tesouros sagrados da coroa imperial (a espada Kusanagi) e atrai milhões de visitantes. Em Quioto, o icónico santuário Fushimi Inari-taisha estende na colina de Inari um caminho de caminhada sob túneis de milhares de torii vermelhos alinhados um atrás do outro, oferecidos por fiéis agradecidos – ali venera-se Inari, o kami da fertilidade e do arroz, acompanhado por raposas astutas que lhe servem de mensageiras. No coração de Tóquio, Meiji-jingū homenageia o imperador Meiji e sua esposa Shōken: construído no início do século XX no meio de uma floresta artificial hoje luxuriante, este santuário urbano tornou-se um refúgio de paz muito apreciado. A cada Ano Novo, mais de três milhões de pessoas acorrem em poucos dias para a primeira oração do ano (hatsumōde), fazendo de Meiji-jingū um dos santuários mais visitados do Japão contemporâneo. Outros santuários, como Yasukuni-jinja em Tóquio (memorial controverso dos soldados mortos pelo Japão) ou Itsukushima-jinja em Miyajima (com o seu portal no mar, emblema do património nipónico), mostram a diversidade dos rostos do xintoísmo – ora político, popular, marítimo, montanhoso.
4.2. Rituais do quotidiano e do ciclo da vida
O xintoísmo acompanha os japoneses nas etapas-chave da existência e durante as transições sazonais. Muitas destas práticas não requerem necessariamente um sacerdote e realizam-se em família ou na comunidade.
Desde o nascimento, um bebé é apresentado ao kami local durante o rito do Hatsumiyamairi (primeira visita ao santuário). Levado nos braços da avó, o recém-nascido – vestido de branco – é conduzido diante do altar do santuário do bairro para expressar gratidão e pedir proteção. O sacerdote por vezes celebra pronunciando bênçãos, enquanto os pais recebem uma amuleto especial para a criança. Por volta do mês de idade, este rito integra oficialmente o bebé na comunidade dos vivos sob o olhar dos antepassados.

Duas crianças em quimono tradicional durante a festa de Shichi-Go-San
Mais tarde, aos 3, 5 e 7 anos, celebra-se a festa de Shichi-Go-San (« 7-5-3 »). Todos os outonos, por volta de 15 de novembro, as famílias vestidas a rigor dirigem-se ao santuário para assinalar a passagem destas idades cruciais da infância. As meninas de 3 e 7 anos em quimono colorido e os meninos de 5 anos em hakama orgulhosamente atado rezam para crescerem com saúde. Entregam-lhes doces Chitose-ame que simbolizam uma vida longa como mil anos.
Na adolescência, na segunda segunda-feira de janeiro, a sociedade japonesa celebra os jovens de 20 anos durante o Seijin Shiki (Dia da Maioridade). Após uma cerimónia civil, muitos novos adultos aproveitam este dia para tirar uma previsão sagrada (omikuji) no santuário ou agradecer ao kami protetor da sua infância antes de entrar na vida ativa.
Segue-se então o tempo dos amores. Se os funerais são quase sempre budistas, os casamentos oscilam entre o estilo ocidental e a tradição xintoísta. O casamento xintoísta decorre geralmente no pequeno santuário adjacente a um hotel ou mesmo dentro de um grande santuário famoso por unir casais (como o Meiji-jingū ou o Tsurugaoka Hachiman-gū em Kamakura). A noiva, a testa coberta por um grande véu branco (tsunokakushi), avança sob um guarda-chuva de papel encerado ao lado do noivo em montsuki preto. Um sacerdote celebra uma liturgia sóbria diante do altar, pontuada por goles de saquê ritual partilhados pelos cônjuges (troca dos san-san-kudo, « três goles por três vezes »). Reza-se aos kami para garantir a harmonia do lar. Por vezes, duas miko executam uma dança lenta ao som de uma flauta e de um tambor, agitando sinos para chamar a boa sorte ao casal. A cerimónia, íntima, realiza-se em pequeno comité familiar, longe do esplendor de um casamento cristão à ocidental. Mesmo que hoje muitos casais optem por um vestido branco e um “sim” numa capela, o casamento xintoísta continua a ser um belo exemplo de ritual sincrético moderno – a noiva podendo muito bem passar do vestido europeu para um quimono tradicional no mesmo dia. O que importa é que a união seja colocada sob a dupla bênção de Deus e dos kami, prova de um espírito pragmático bem japonês!

Cerimónia de casamento tsunokakushi
Para além dos ritos de passagem, o xintoísmo também marca o ciclo das estações com festas coletivas chamadas matsuri (festivais). Cada santuário organiza pelo menos um matsuri anual, muitas vezes numa data fixa ou segundo o calendário lunar, para honrar a sua(s) divindade(s) e rezar pela comunidade (boa colheita, proteção contra desastres, ...). Estes festivais são verdadeiros espetáculos populares onde o sagrado e o festivo se misturam. As ruas enchem-se de lanternas, bancas de comida de rua e jogos de feira, enquanto os habitantes vestem o yukata (kimono leve de verão) ou o happi (casaco tradicional com o emblema do bairro).
O elemento central de muitos matsuri é a procissão do mikoshi – um santuário portátil ricamente decorado, uma espécie de palanquim divino com telhado, que representa o assento temporário do kami. Durante o matsuri, a divindade é simbolicamente retirada do seu santuário habitual para ser passeada pelas ruas, para que abençoe todo o bairro com a sua presença. Ao sinal do taiko (grande tambor), dezenas de homens e mulheres levantam o mikoshi aos ombros, entoando incentivos ritmados (« wasshoi! wasshoi! » ou « sōrya! sōrya! » conforme a região). Portadores em trajes tradicionais fazem o mikoshi dourado ondular na fervorosa Sanja Matsuri em Asakusa (Tóquio), transportando o kami protetor do bairro entre a multidão. Avançam com passo vivo e alegre, fazendo por vezes o pesado palanquim oscilar da esquerda para a direita como um navio na ondulação, para divertir a divindade a bordo. O suor escorre, os ombros curvam-se sob o peso, mas o entusiasmo coletivo sustenta a equipa. Por vezes, o mikoshi para: os portadores levantam-no e abaixam-no em cadência, provocando aclamações dos espectadores entusiasmados. Noutras festas, serão as danças sagradas que predominam: as danças do leão (shishi-mai) para afastar os demónios, ou as danças graciosas das miko (chamadas kagura) ao som de sinos e cânticos antigos. Sempre, a intenção é a mesma: fazer descer a bênção dos kami no meio das pessoas, numa alegria partilhada. Os matsuri mantêm tanto o vínculo social como o espiritual: é a ocasião para a comunidade se reunir, celebrar a sua identidade e recordar as suas lendas locais. Vêem-se perpetuar tradições seculares, como a parada dos cavalos divinos, as tiradas rituais em dialeto antigo ou a confeção de oferendas culinárias específicas (mochis, saquê novo,...).

Amuletos omamuri
Os objetos sagrados e amuletos de sorte também ocupam um lugar importante na cultura xintoísta. Depois de rezar, os visitantes do santuário gostam de levar uma lembrança abençoada que prolongará a proteção divina no seu dia a dia. O exemplo mais comum é o dos omamori (amuletos de proteção). São pequenos saquinhos coloridos em tecido bordado, contendo uma mensagem curta ou uma oração. Existem para todas as ocasiões: sucesso escolar, segurança no carro, boa saúde, felicidade no casal, etc... Pendura-se no saco escolar, no carro ou no telemóvel como um talismã discreto mas reconfortante. Os santuários também oferecem ema, pequenas placas de madeira onde se escreve um desejo ou um agradecimento ao kami, antes de as pendurar num expositor dedicado. Passeando perto do haiden, pode-se ler esses desejos deixados por outros: uma pessoa a pedir o sucesso de um projeto, outra a cura de um familiar, e muitos estudantes a rabiscar fervorosos votos de admissão na universidade. Outra tradição apreciada é a dos omikuji, as tiras de adivinhação: por uma modesta oferta, tira-se ao acaso um pequeno papel impresso que indica a tendência da sua sorte (grande felicidade, pequena felicidade, azar). Se a previsão for positiva, guarda-se consigo; se for negativa, prende-se num suporte no santuário (um arame ou um ramo designado) para que o mau agouro fique lá e não o acompanhe.

Bandelettes omikuji
Entre outros objetos simbólicos omnipresentes, destacam-se os talismãs ofuda, pequenas tábuas de madeira ou papel com o nome do santuário e do kami, que se colocam no altar doméstico (kamidana) para proteger toda a casa. Muitas famílias japonesas possuem um kamidana numa prateleira alta da cozinha ou da sala, com alguns ofuda recebidos anualmente do santuário local, renovados a cada Ano Novo. Diariamente, deposita-se um pouco de sal, água ou arroz em oferta, perpetuando assim em casa um mini-rito diário. Os símbolos visuais do xintoísmo também se tornaram parte integrante da paisagem cultural do Japão: as cordas shimenawa decoradas com tiras de papel branco em zig-zag (os gohei), que assinalam um local ou objeto particularmente sagrado; ou ainda as famosas estátuas de raposa com as babas vermelhas, mensageiras do deus Inari, que se encontram à entrada dos seus inúmeros santuários.
5. O xintoísmo no Japão contemporâneo
Apesar das enormes mudanças que o Japão sofreu no último século, o xintoísmo continua a ser um elemento vivo do seu panorama social, cultural e até político. Hoje, a maioria dos japoneses não se define como «crentes» no sentido ocidental do termo, e no entanto continuam massivamente a praticar os rituais xintoístas dos seus antepassados de forma natural. Esta aparente contradição explica-se pelo facto de que, para muitos, o xintoísmo é menos uma «religião» e mais um património cultural e um conjunto de costumes identitários.
Segundo as estatísticas oficiais, cerca de 70% dos japoneses estariam afiliados a um santuário xintoísta – um número que coincide com o dos afiliados budistas, o que revela que uma mesma pessoa muitas vezes se considera ambos ao mesmo tempo. Na prática, quase toda a gente no Japão participa em alguma prática xintoísta ao longo do ano. A mais universal é provavelmente a visita de Ano Novo (Hatsumōde): desde os primeiros dias de janeiro, multidões imensas dirigem-se desde o santuário de bairro até aos maiores locais sagrados do país para realizar a primeira oração do ano, tirar um omikuji e comprar um novo omamori amuleto da sorte para o ano que vem. Em Tóquio, além do Meiji-jingū já mencionado, o santuário Hie ou o Kanda Myōjin recebem cada um centenas de milhares de pessoas em apenas três dias.

Celebração do Ano Novo no templo Senso-ji em Tóquio. Fonte: Nomad
Para além do Ano Novo, os matsuri locais continuam a animar as cidades e o campo ao longo do ano. Do festival da neve em Sapporo (onde se homenageiam os kamis do inverno esculpindo estátuas de gelo) às danças do Awa Odori em Tokushima no verão (originárias de uma festa do Bon para os mortos, misturando influências xintoístas e budistas), cada região mantém o seu calendário festivo herdado do passado. As autarquias e os comités de bairro estão frequentemente envolvidos na organização, provando que estas celebrações não são simples relíquias folclóricas: fazem parte integrante da vida local moderna. Muitas delas tiveram de se reinventar e promover para sobreviver – algumas atraem hoje um turismo considerável, tanto doméstico como internacional. Assim, o Gion Matsuri de Kyōto ou o Nebuta Matsuri de Aomori (com as suas imensas lanternas em forma de guerreiros) são vitrinas do património japonês.
No plano estritamente religioso, o xintoísmo atual está organizado em torno da Associação dos Santuários Xintoístas (Jinja Honchō), criada após a guerra para substituir o antigo Escritório dos Assuntos Xintoístas do Estado. Esta associação supervisiona os 80 000 santuários e atua como um órgão de coordenação, sem impor um dogma. Publica revistas, forma os jovens sacerdotes (kannushi) e zela pela transmissão dos conhecimentos rituais. No entanto, a fé xintoísta permanece muito local, e cada santuário mantém uma grande autonomia de facto. O recrutamento dos sacerdotes é feito de pai para filho em algumas linhagens (o sacerdócio xintoísta não é exclusivo, um sacerdote pode ter outra profissão e servir a tempo parcial). Quanto às miko, outrora verdadeiras xamãs por vezes videntes, hoje são na maioria jovens empregadas a meio tempo, por exemplo estudantes que, ao fim de semana, vestem o traje branco e vermelho para assistir o sacerdote, dançar o kagura ou vender amuletos aos visitantes. Estes aspetos mostram como o xintoísmo soube adaptar-se com flexibilidade à modernidade: funciona também com voluntários, tempos parciais, e integra mesmo mulheres sacerdotes desde o final do século XX (algo impensável em algumas religiões mais hierarquizadas).
O xintoísmo ainda impregna a cultura popular do Japão de múltiplas formas. Vê-se na proliferação de imagens e símbolos xintoístas nos mangas, animes ou videojogos. Um dos nossos filmes preferidos, A Viagem de Chihiro de Hayao Miyazaki, retrata um universo de espíritos e divindades (o banho público para os kami, o deus rio poluído que é preciso purificar) que é diretamente inspirado pela sensibilidade xintoísta: o invisível coabita connosco e deve ser respeitado sob pena de desequilíbrio. Da mesma forma, a proliferação de yōkai (criaturas sobrenaturais travessas) no folclore retomado pela cultura pop – como os tengu (espíritos-goblins de nariz comprido) ou os kitsune (raposas com poderes mágicos) – remete para o imaginário xintoísta dos espíritos da natureza. Os jovens japoneses, mesmo que não pensem em termos religiosos, estão imersos nestas referências. Não é raro que um videojogo proponha uma missão num santuário abandonado onde é preciso apaziguar um kami zangado, ou que um grupo de ídolos de J-pop vá rezar pelo sucesso de um concerto no santuário Meiji. O xintoísmo serve assim de pano de fundo cultural, como os torii vermelhos ao pôr do sol, símbolo visual do «Japão eterno».

Santuário Kanda Myojin no bairro de Chiyoda (Tóquio)
A persistência do xintoísmo manifesta-se também em certas atitudes sociais. Um exemplo flagrante, o cuidado extremo com a limpeza no Japão – desde o ritual de tirar os sapatos ao entrar em casa, até à limpeza meticulosa das escolas pelos alunos – pode ser associado à noção xintoísta de pureza. Da mesma forma, a importância da coesão do grupo e do respeito pelos antepassados encontra eco no respeito pelos kami familiares e tutelares. Sem intelectualizar demasiado, pode dizer-se que a mentalidade japonesa contemporânea integrou o xintoísmo como uma base difusa: não se vê sempre, mas está lá, em filigrana, na relação do homem japonês com a natureza (mistura de receio e familiaridade), na sua relação com os rituais (adora as cerimónias protocolares, as fórmulas de cortesia um pouco sacramentais), ou ainda na facilidade com que conjuga várias crenças sem conflito (espírito de sincretismo herdado do shinbutsu shūgō).
No plano político e ambiental, o xintoísmo atual desempenha um papel mais subtil. Oficialmente, o Japão é um Estado laico desde 1946, e nenhuma religião é favorecida. Contudo, os políticos, quaisquer que sejam as suas convicções privadas, não deixam de sublinhar o seu respeito pelas tradições xintoístas. É habitual que o primeiro-ministro recém-eleito visite o santuário de Ise para anunciar o seu mandato à deusa solar e solicitar simbolicamente a sua benevolência. Da mesma forma, todos os anos, ministros ou parlamentares prestam homenagem ao santuário Yasukuni na data do aniversário do fim da guerra, provocando sempre reações diplomáticas da China e da Coreia vizinhas – sinal de que este santuário continua a ter um peso político importante (é visto por alguns como o vestígio do xintoísmo nacionalista, honrando até criminosos de guerra como eirei ou «almas dos heróis»). À parte estas controvérsias, o xintoísmo também influencia a política através da Agência da Casa Imperial, que mantém um calendário anual de ritos xintoístas realizados pelo imperador. O imperador do Japão, embora teoricamente desacralizado, continua a ser o sumo sacerdote honorário do xintoísmo: realiza, por exemplo, todos os outonos o Niiname-sai, cerimónia das primeiras colheitas, onde oferece os novos grãos de arroz aos deuses para assegurar a prosperidade do país. Estes rituais imperiais decorrem a portas fechadas, mas a sua própria existência influencia a forma como a família imperial é vista – guardiã das tradições e da identidade espiritual nipónica.

Intronização do imperador Naruhito (2019). Fonte: Le Dauphiné Libéré
No que diz respeito ao ambiente, a ética xintoísta de respeito pela natureza conhece um renovado interesse na era das preocupações ecológicas. Investigadores e sacerdotes destacam que a veneração das florestas sagradas e dos espíritos dos rios pode incentivar uma abordagem mais sustentável da gestão dos recursos. Concretamente, alguns santuários envolvem-se na preservação de ecossistemas locais, por exemplo protegendo florestas urbanas (a floresta sagrada de Meiji-jingū em Tóquio é mantida como um verdadeiro pulmão verde no coração da metrópole), ou organizando dias de limpeza de rios combinados com rituais de oferendas à água. Claro que não se deve idealizar: o Japão moderno também sacrificou muitos espaços naturais no altar do progresso económico, por vezes sem grande consideração espiritual. Mas observam-se aqui e ali iniciativas onde a tradição xintoísta serve de alavanca moral para a causa ambiental, como programas de reflorestação associados ao plantio de novos bosques sagrados.
Tudo isto acontece sem discurso, sem proselitismo, muitas vezes sem sequer uma consciência aguda de estar a fazer «um ato religioso». É simplesmente ser japonês.
6. O caminho dos deuses, um relato ininterrupto
No final desta exploração, o xintoísmo aparece como uma trama contínua que tece o Japão desde a Antiguidade mítica até à modernidade tecnológica. Ora culto animista das origens, religião de Estado instrumentalizada, tradição e fonte de valores filosóficos, soube adaptar-se sem se negar. A sua história está salpicada de anedotas fascinantes – deusas que se escondem em cavernas, imperadores proclamados filhos do Sol, fantasmas apaziguados pela construção de templos – que lhe conferem um aroma de lenda viva. No plano espiritual, oferece uma visão do mundo onde cada coisa tem uma alma e onde o humano avança de mãos dadas com a natureza e os seus mistérios. No plano filosófico, convida à sinceridade do coração, à pureza das intenções e ao respeito por uma ordem harmoniosa em vez da busca de uma verdade absoluta. Culturalmente, manifesta-se em mil gestos e celebrações que alegram e unem a comunidade – das fogueiras de Ano Novo aos suntuosos desfiles de mikoshi – e em lugares sagrados que são tantos refúgios de beleza e serenidade no meio do mundo moderno.
Ao contar o xintoísmo, conta-se também o próprio Japão: as suas origens, a sua relação com o tempo e o espaço, a sua verdadeira alma. É a história de um povo que transformou o seu ambiente natural num santuário a céu aberto, que transformou os seus heróis em estrelas do firmamento espiritual, e que ainda hoje encontra na simples palma de mãos diante de um altar a esperança de uma bênção. O xintoísmo, um caminho humilde e grandioso ao mesmo tempo, continua assim o seu relato – um relato onde o divino e o humano caminham lado a lado, onde o passado ilumina o presente, e onde cada instante da vida pode tornar-se uma oferenda aos deuses familiares do Japão.
















Merci beaucoup. pour cette offrande de connaissances au tout venant sur votre site