A coruja, esta ave de rapina noturna, sempre inspirou a magia pela sua aparência enigmática e pela sua capacidade de caçar na escuridão. Dotada de grandes olhos penetrantes que lhe conferem uma visão noturna excecional, de uma cabeça redonda e giratória e de uma silhueta robusta, é frequentemente confundida com a mocho, embora pertençam a espécies diferentes. A coruja reconhece-se principalmente pelas suas penugens, esses pequenos tufos de penas situados na cabeça, que lhe dão um ar quase ameaçador, o que lhe valeu reputações tanto benevolentes como nefastas. Apresentação.
1. A coruja, entre a escuridão e a clarividência
A coruja, com os seus olhos capazes de penetrar as trevas, é há muito um símbolo poderoso de clarividência e sabedoria. A sua capacidade de ver na escuridão inspirou muitas culturas a associá-la à visão interior, aquela que permite discernir a verdade para lá das aparências.

Como criatura noturna, a coruja encarna a luz do conhecimento na escuridão da ignorância, oferecendo uma perspetiva valiosa nos momentos de confusão. A coruja é também respeitada como um guia espiritual que revela verdades ocultas e protege as almas em busca de conhecimento.
Assim, a coruja não é apenas uma observadora silenciosa da noite, mas também uma mensageira da verdade, capaz de iluminar as mentes e guiar aqueles que procuram compreender o mundo com uma clareza e profundidade raras.
2. O mensageiro de Átropos na Antiguidade
Vamos partir para a mitologia grega. Neste contexto, a coruja não é apenas um mensageiro anunciador da morte, mas também um intermediário que compreende e traduz as vontades da Moira mais temida, Átropos, aquela que corta o fio da vida.

De facto, Átropos é aquela que determina o momento preciso da morte de um indivíduo ao cortar o fio da sua vida. Este gesto simboliza a inevitabilidade do destino e o fim de toda a existência terrena. A coruja, como intérprete de Átropos, detém a capacidade de compreender as intenções insondáveis da Moira e de as traduzir no mundo dos mortais. É provavelmente assim que a coruja está associada há muito tempo ao mundo dos mortos, mas inicialmente não de forma negativa. É aliás por vezes considerada um psicopompo, essa entidade que acompanha as almas no além.
3. Depois um emissário das trevas na Idade Média
Durante a Idade Média, a coruja era principalmente vista na Europa como uma ave de mau presságio, estreitamente ligada às forças das trevas e às superstições populares. O seu grito "lugubre" e a sua natureza noturna (a noite sendo o território do ocultismo), que a tornavam um ser à parte, formavam o duo perfeito para suscitar o medo. Nas superstições medievais, a presença de uma coruja, particularmente quando aparecia perto de um lar ou numa aldeia, era interpretada como um sinal funesto, prenúncio de calamidades como doença, morte ou catástrofes naturais. A coruja, pela sua simples aparição, tornava-se um mensageiro dos males vindouros.

É preciso dizer que na época, a coruja estava associada à bruxaria e às práticas ocultas. No imaginário medieval, as bruxas, frequentemente representadas como servas do diabo, usavam a coruja como familiar ou até se transformavam nesta ave para cumprir os seus desígnios malévolos.
Considerada uma ferramenta de magia negra, práticas tristes consistiam em pregar uma coruja morta na porta de um celeiro ou de uma casa, na esperança de afastar os maus espíritos e prevenir os males. Com o tempo e o desenvolvimento do cristianismo, a coruja tornou-se o oposto estrito da Águia, símbolo do divino.
4. Ou o próprio diabo?

A aparência da coruja só reforçou as crenças nefastas a seu respeito. Imagine uma coruja de grande porte, cujas penas, com padrões misteriosos, parecem absorver a luz envolvente, criando uma impressão de escuridão móvel à sua volta. Os seus olhos, de um amarelo incandescente, brilham com um fulgor sobrenatural, evocando as chamas do inferno e emanando uma intensidade malévola que perfura a alma de quem ousa fixá-la. A própria ideia de que ela o fixe significa que lhe lança um mau-olhado. Sem falar das suas penugens, que seriam nada mais nada menos que os chifres do diabo. Junte-se a isso a sua furtividade, as suas habilidades de caçador carnívoro e a sua frieza emocional: não era preciso mais para a considerar uma das encarnações do Maligno.
5. Finalmente, a coruja é um bom presságio
Mesmo que na Europa as crenças tenham sido fortemente influenciadas pela imagem da bruxaria e do mal, a coruja continua a ser um animal de bom presságio em muitas tradições pelo mundo.
No Japão, por exemplo, embora o mocho (particularmente nas culturas modernas) seja mais comumente associado à boa sorte, algumas espécies de coruja, como o Coruja Blakiston (também venerada pelos Aínus), são consideradas protetoras. A coruja é por vezes vista como um guardião contra os maus espíritos e as forças negativas, e a sua presença é tida como portadora de sorte e segurança.
Entre os Zunis (povo ameríndio), a coruja é considerada um guardião contra os maus espíritos e um símbolo de proteção para a comunidade. Ver uma coruja ou ouvir o seu grito podia ser interpretado como um sinal de que os antepassados velavam pela comunidade, assegurando a paz e a segurança.
Também, em algumas regiões da China, a coruja é vista como um símbolo de riqueza e longevidade. É por vezes representada na arte chinesa para simbolizar uma proteção duradoura e uma boa fortuna financeira, um contraste marcante com as perceções mais negativas desta ave no Ocidente.
Hoje, a imagem negativa dissipou-se para fazer dela principalmente um ser de sabedoria e um amigo dos médiuns. Por isso, não tenha medo se ouvir ou ver uma coruja, ela traz-lhe simplesmente a verdade.















