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O gnosticismo, história de uma corrente esotérica antiga

O gnosticismo, história de uma corrente esotérica antiga

NO ÍNDICE...

 

Nas origens históricas do gnosticismo
Os textos e fontes principais da gnose
Conceitos fundamentais e doutrinas centrais
As correntes e escolas gnósticas principais
Relações com o cristianismo primitivo, o judaísmo e o Império Romano
Reaparições modernas e interpretações contemporâneas


E se o Deus da Bíblia não fosse o verdadeiro Deus? E se o mundo em que vivemos fosse apenas uma prisão criada por erro – ou por orgulho – por uma entidade inferior que se faz passar pelo Todo-Poderoso? Por trás destas ideias radicais está o gnosticismo, um movimento espiritual surgido na Antiguidade, marginalizado, combatido e depois quase esquecido. No entanto, os seus textos ressurgem com uma força intacta. Eles falam de alma perdida, de conhecimento proibido, de libertação interior – temas que são surpreendentemente muito atuais... embora este movimento tenha nascido no século II. Explicações.

Nas origens históricas do gnosticismo

Um contexto sincrético na Antiguidade greco-oriental

As origens exatas do gnosticismo são objeto de debate, pois este movimento não parece derivar de uma única fonte, mas resulta antes de um sincretismo cultural e religioso bastante complexo. O que se sabe é que ele tem raízes no rico solo espiritual da Antiguidade tardia, onde se misturam influências orientais e filosofias gregas. Segundo alguns historiadores das religiões, a gnose teria nascido de uma mistura de religiões orientais e filosofia grega na época helenística, ou seja, após as conquistas de Alexandre, o Grande, no século IV a.C. Esta hipótese coincide com a opinião expressa já no século III pelo teólogo cristão Hipólito de Roma: segundo ele, as doutrinas gnósticas não provêm das Escrituras sagradas, mas tomaram suas ideias do pensamento pagão grego, dos mistérios orientais e das especulações astrológicas. Neste sentido, o gnosticismo pode ser visto como o herdeiro de correntes filosóficas platónicas (dualismo espírito/matéria), tingido por mitologias orientais (ideias persas ou babilónicas de combate entre Luz e Trevas) e por motivos religiosos egípcios ou mesopotâmicos.

Paralelamente, outros investigadores destacam o papel do judaísmo helenístico e do cristianismo primitivo no surgimento da gnose. De facto, é no contexto conturbado do final do século I – após a destruição do Templo de Jerusalém em 70 d.C. – que uma crise profunda abala as comunidades judaico-cristãs. Surgem então numerosos grupos dissidentes, misturando tradições judaicas e novas especulações: emergem seitas heterodoxas (entendendo-se por isso grupos minoritários e dissidentes) que mais tarde serão qualificadas como «gnósticas», tais como aquelas associadas a figuras como Simão, o Mago, Menandro da Samaria, Cerinto, Saturnino de Antioquia, ou ainda os grupos chamados sethianos, barbelitas, discípulos de Carpócrates ou de Basilides. Estes movimentos judaico-cristãos radicais procuram reinterpretar o Génesis e a teologia bíblica à luz de uma revelação esotérica: veem na queda de Adão e Eva não o pecado original, mas o símbolo da alma divina caída na matéria, e na serpente do Éden um mensageiro salvador em vez de um tentador. Os historiadores consideram assim que o gnosticismo, enquanto corrente dualista estruturada, poderá ter nascido entre 70 e 140 d.C.. no seio destes meios judaico-cristãos marginais em crise.

Esta dupla origem – greco-oriental por um lado, judaico-cristã por outro – explica a diversidade dos mitos gnósticos e a dificuldade em traçar uma génese linear do movimento. Em vez de ser uma «grande nebulosa» uniforme de ideias anticosmicas e dualistas, a gnose antiga aparece como um conjunto de crenças enraizadas na sociedade da Antiguidade tardia, partilhando tendências comuns (rejeição do mundo material, busca da salvação pelo conhecimento,...) mas apresentando cada uma traços específicos. Em todo o caso, foi nos grandes centros intelectuais do mundo greco-romano – nomeadamente a província romana do Egito (Alexandria) e da Ásia Menor (Síria, Anatólia) – que o gnosticismo tomou forma e floresceu a partir do início do século II.

Às margens do judaísmo e do cristianismo nascente

Do ponto de vista das religiões estabelecidas da época, a gnose apresenta-se como uma corrente dissidente, desenvolvendo uma visão do divino em ruptura com o monoteísmo clássico. Os pensadores judeus e cristãos ortodoxos viram no ensino gnóstico uma ameaça herética. Assim, os rabinos mencionam e condenam desde o século II a doutrina das «duas Potências no Céu», ou seja, a ideia de que existiriam dois princípios divinos supremos concorrentes (concepção totalmente estranha ao judaísmo bíblico). Esta reação dos sábios judeus visa provavelmente correntes aparentadas à gnose, que eles amalgamam com as primeiras seitas cristãs. De facto, aos olhos dos doutores da Lei, afirmar a existência de um Deus do Bem oposto ao Deus Criador era uma grave heresia – fosse pregada por gnósticos ou por certos cristãos dualistas.

Do lado do cristianismo primitivo, as interações com a gnose foram tanto diretas como complexas. Muitos gnósticos consideravam-se a si próprios cristãos: veneravam a figura de Jesus Cristo, mas atribuindo-lhe um papel diferente daquele que a Igreja nascente lhe conferia. Para os gnósticos, Jesus era menos um redentor pelo seu sacrifício do que o Revelador que veio transmitir aos poucos eleitos o conhecimento salvador escondido desde a fundação do mundo. Vários movimentos gnósticos – como a escola de Valentim ou a de Basílides – desenvolveram-se dentro das próprias comunidades cristãs do século II, em particular em Alexandria e Roma, antes de serem excluídos. O historiador da religião David Brakke recorda que, segundo a tradição eclesiástica, o gnosticismo terá ameaçado seriamente a unidade da Igreja primitiva, que se construiu em grande parte em reação contra estas doutrinas consideradas desviantes. A luta contra a gnose contribuiu assim para moldar a «Grande Igreja» católica nascente, obrigando-a a precisar o seu dogma (a afirmação de um Deus único, ao mesmo tempo criador e bom, contra o dualismo gnóstico) e a definir o cânone das Escrituras autorizadas, excluindo os evangelhos e revelações gnósticas.

Os textos e fontes principais da gnose

Durante séculos, o conhecimento que se tinha do gnosticismo provinha essencialmente das obras escritas contra ele pelos seus adversários cristãos. Os Pais da Igreja – em particular São Irineu de Lyon no século II, depois Hipólito de Roma, Tertuliano de Cartago, Orígenes de Alexandria ou Epifânio de Salamina – deixaram volumosos tratados refutando ponto por ponto os «erros» dos gnósticos. Através dos seus Adversus haereses («Contra as heresias»), transmitiram-nos uma visão (parcial e muitas vezes polémica por natureza) dos mitos e doutrinas gnósticas. Estes testemunhos de segunda mão constituíram durante muito tempo a principal fonte de informação sobre a gnose antiga. No entanto, foram redigidos numa perspetiva apologética, por vezes caricaturando as posições opostas; além disso, citavam apenas excertos dos evangelhos ou tratados gnósticos originais, sem os reproduzir sempre na íntegra.

Foi necessário esperar pelo século XIX e sobretudo pelo século XX para que fossem exumados textos gnósticos originais, revolucionando a nossa compreensão deste movimento. Um primeiro marco ocorreu em 1896, quando camponeses egípcios descobriram perto de Akhmîm um conjunto de pergaminhos que foram vendidos a antiquários. Neste lote encontrava-se, nomeadamente, um exemplar do Evangelho de Maria (escrito atribuído a Maria Madalena), um Livro secreto de João (também chamado Apócrifo de João) e uma Sabedoria de Jesus Cristo – três tratados gnósticos em língua copta que testemunhavam uma tradição até então quase desconhecida. Algumas décadas depois, em dezembro de 1945, ocorreu uma descoberta ainda mais decisiva: perto da aldeia de Nag Hammadi, no Alto Egito, camponeses encontraram um jarro selado contendo treze códices de papiro. Estes manuscritos, datados do século IV (mas copiando obras provavelmente compostas entre o século I e o III), continham 52 tratados pertencentes a várias escolas gnósticas. Entre eles estavam escritos até então perdidos ou apenas conhecidos pelas críticas feitas pelos Pais da Igreja: o Evangelho segundo Tomé, um conjunto de palavras atribuídas a Jesus distinto do Novo Testamento; o Evangelho da Verdade (provavelmente de origem valentiniana); o Apocalipse de Adão; o Livro dos segredos de João mencionado anteriormente; assim como textos propriamente gnósticos como o Diálogo do Salvador, a Hipóstase dos Arcontes, entre outros. Esta biblioteca de Nag Hammadi contém também obras de inspiração cristã mais clássica (como epístolas apócrifas) e até escritos relacionados com o hermetismo. Constitui um verdadeiro instantâneo do pensamento gnóstico no Egito por volta do século IV. Os especialistas salientam, no entanto, que os textos gnósticos frequentemente circulavam sob a forma de coleções móveis, compiladas e reformuladas ao longo do tempo: a «fotografia» fornecida por Nag Hammadi corresponde ao estado dessas tradições numa data específica, e não a uma forma fixa para toda a sua história.

Para além dos códices de Nag Hammadi, outros manuscritos isolados enriqueceram o corpus gnóstico disponível. O Evangelho de Judas, – um texto provavelmente sethiano onde o apóstolo Judas Iscariotes é reabilitado como o discípulo mais esclarecido – foi encontrado nos anos 1970 (códice Tchacos) e publicado em 2006. Da mesma forma, um importante manuscrito copta, o Códice Askewianus, adquirido pelo British Museum já em 1785, continha um longo tratado gnóstico intitulado Pistis Sophia. Esta obra, provavelmente redigida no século III, apresenta um diálogo esotérico de Jesus ressuscitado com os seus discípulos, durante o qual revela os arcanos do universo e da salvação, nomeadamente o mito da queda e depois da reabilitação da figura de Sophia (a Sabedoria). A Pistis Sophia foi traduzida e publicada no final do século XIX, oferecendo um raro testemunho direto sobre a doutrina de uma escola gnóstica de influência cristã e provavelmente valentiniana.

Assim, a documentação de que dispomos hoje sobre o gnosticismo é dupla: por um lado, os escritos polémicos dos teólogos cristãos que o combateram (fonte indispensável para conhecer certas seitas cujos próprios textos não sobreviveram), e por outro lado um conjunto agora rico de textos gnósticos autênticos, recuperados em tradução copta (e para alguns fragmentos, em grego). Entre estes últimos, podemos citar a título de ilustração: o Evangelho segundo Tomé, o Evangelho de Filipe, o Evangelho de Maria, o Apócrifo de João, o Tratado Tripartido, o Livro sagrado do Grande Espírito Invisível (também chamado Evangelho dos Egípcios na biblioteca de Nag Hammadi), a Hipóstase dos Arcontes, as Apocalipses de Tiago, sem esquecer escritos mais filosóficos como o Poema da Pérola atribuído aos atos de Tomé, ou o Thunder, Perfect Mind (um monólogo alegórico da Sabedoria divina).

Conceitos fundamentais e doutrinas centrais

Um dualismo radical entre Deus e o mundo

No coração de todas as doutrinas gnósticas antigas encontra-se um dualismo metafísico radical. Os gnósticos postulam a existência de dois níveis de realidade absolutamente heterogéneos: por um lado o mundo divino supremo, imaterial e perfeito, e por outro o mundo material inferior, manchado pelo mal. Ensinam que no princípio do universo existem duas entidades divinas distintas: o Verdadeiro Deus, por um lado, princípio do Bem, totalmente transcendente, invisível e incognoscível, e por outro um demiurgo malévolo, criador do universo material. Segundo o mito gnóstico, um drama primordial introduziu esta cisão no divino: trata-se de uma culpa ou queda ocorrida antes da criação do mundo, pela qual uma porção do divino se perdeu fora da Plenitude celestial. Esta culpa original – simbolizada pela desventura de Sophia (a Sabedoria) – gera uma emanação inferior, imperfeita: o Demiurgo. Cortado do Deus supremo, do qual ignora até a existência, este Demiurgo arrogante empreende criar ex nihilo o seu próprio universo, que organiza à sua vontade acreditando ser o único Deus. O mundo material, no qual vivemos, é assim explicado pelos gnósticos como obra de um demiurgo imperfeito, reflexo degradado e caricatura do verdadeiro mundo espiritual.

O gnosticismo, história de uma corrente esotérica antiga

Representação do Demiurgo Ialdabaoth. Fonte

A cosmologia gnóstica descreve em detalhe a estrutura destes dois níveis de realidade. O domínio divino superior é chamado Plérôme (do grego plērōma, « plenitude »). Trata-se da totalidade plena do Ser divino, incluindo o Deus supremo e o conjunto das suas emanações, chamadas Éons. Os Éons são entidades divinas que procedem do Deus incognoscível em pares (sizígias) masculino/feminino e encarnam cada um um aspeto da perfeição (Verdade, Sabedoria, Vida, Inteligência,...). É a mais jovem destas emanações, Sophia (a Sabedoria), que, em muitos sistemas, é a origem da desordem: seja por vaidade (desejo orgulhoso de gerar sozinha, sem o seu princípio masculino), seja por paixão mal orientada (amor pelo reflexo ilusório do Deus supremo), Sophia transgride a harmonia do Plérôme. Do seu ato inconsiderado nasce um ser informe e monstruoso, Ialdabaoth, primeiro arconte do mundo inferior, ou seja, chefe das potências caídas. Sophia, tomada de remorso, esconde este ser fora do Plérôme, atrás de um véu que se torna o limite entre o mundo espiritual e o mundo material – este véu formando, de certa forma, o céu abaixo do Plérôme. Ialdabaoth, exilado nas trevas fora da Plenitude, toma-se então por Deus; rodeado por uma coorte de Arcontes que gerou (os quais presidem aos sete planetas ou aos doze signos do zodíaco, segundo motivos astro-teológicos), molda o universo material e a humanidade. Ignorando tudo da esfera celestial superior, Ialdabaoth declara orgulhosamente: « Não há outro deus além de mim » – palavra de arrogância que os gnósticos identificam com a famosa proclamação do Deus bíblico no Livro de Isaías. Para os adeptos da gnose, esta cena mítica revela a verdadeira identidade do Deus do Antigo Testamento: não o Princípio supremo, mas um demiurgo usurpador, cego pela sua ignorância e pelo seu ódio à Luz.

Os gnósticos descrevem, portanto, a condição humana como o resultado deste drama cósmico. O ser humano é concebido à imagem do Adão moldado pelo Demiurgo e seus Arcontes: uma criatura material imperfeita, sujeita à fatalidade astral e aos sofrimentos do mundo corruptível. No entanto – e este é um ponto crucial – a alma humana contém uma centelha de divindade: uma parcela da Luz do Plérôme, vinda do Alto. Segundo o mito, esta centelha divina entrou em Adão quase contra a vontade do Demiurgo: em alguns relatos sethianos, o verdadeiro Deus incita Ialdabaoth a soprar um espírito de vida no homem, o que permite que uma alma luminosa entre em Adão. Horrorizados com esta intrusão do Bem na sua criação, os Arcontes tentam aprisionar o espírito de Adão na matéria do Éden, chegando mesmo a proibir-lhe o acesso à árvore do conhecimento. Mas as potências celestes, compassivas, enviam então um mensageiro para despertar o primeiro homem: sob a forma de uma Serpente, o Salvador do Alto incita Adão e Eva a provar o fruto proibido que contém a gnose e a vida. Esta audaciosa releitura do relato do Génesis – onde o pecado original se inverte em ato de libertação – ilustra perfeitamente a inversão da perspetiva gnóstica: o que o mundo chama Bem (a obediência ao Criador) é na realidade o mal, e o que chama Mal (a desobediência emancipadora) é uma bênção divina.

Salvação pelo conhecimento e eleição espiritual

Na visão gnóstica, o problema fundamental não é moral (não se trata principalmente do pecado), mas ontológico: é a ignorância (agnôsia) que mantém a alma em escravidão no mundo inferior. Por ignorar a sua verdadeira origem, a centelha divina no homem identifica-se erroneamente com o seu invólucro carnal corruptível. A salvação da alma consiste, portanto, em tomar consciência da sua nobre proveniência e em lembrar-se de que ela não pertence a este mundo. Esta iluminação interior vem da gnose: um conhecimento revelado dos mistérios divinos. Não se trata de um saber intelectual acessível a todos, mas de uma revelação esotérica transmitida por um mensageiro divino (como o Cristo) e compreendida apenas por aqueles que estão "despertos". Este conhecimento salvador implica, nomeadamente, compreender a verdadeira estrutura do cosmos (a divisão entre o Plérôme de Luz e o mundo das Trevas) e o drama que aí se desenrola, conhecer a origem celestial da alma e o caminho para regressar ao Deus supremo. Adquire-se por um ensino iniciático e por uma experiência pessoal, descrita como uma sucessão de iluminações interiores.

Uma consequência desta doutrina é a ideia de uma humanidade dividida em categorias espirituais desiguais. Como só uma elite recebe a gnose, os gnósticos consideram que nem todos os seres humanos são igualmente capazes de alcançar a salvação. Em alguns sistemas (nomeadamente entre os valentianos), distingue-se assim os homens “pneumáticos” (espirituais), portadores da centelha divina e predestinados à redenção através da gnose; os “psíquicos” (anímicos), crentes sinceros mas com uma fé intermédia, capazes no máximo de uma forma inferior de salvação pela fé moral; e finalmente os “hílicos” (materiais), massa de seres totalmente voltados para a matéria, desprovidos de alma despertável e destinados à perdição final. Só a elite espiritual – os pneumáticos – está chamada a unir-se a Deus após a morte graças ao conhecimento. Esta conceção elitista, que opõe os «eleitos» iluminados ao comum ignorante, é recorrente na gnose. Contudo, os textos gnósticos insistem na graça do Deus transcendente que envia Salvadores para socorrer o elemento divino exilado. A gnose não é considerada um saber acessível por um esforço humano comum, mas sim uma revelação conferida pelo Cristo ou outros emissários divinos, através de símbolos, visões ou palavras veladas.

No plano ético e ritual, as doutrinas gnósticas conduziram a atitudes divergentes conforme as escolas, mas sempre ligadas ao desprezo pelo mundo material. A maioria das seitas defendia uma forma de ascetismo rigoroso (enkratismo): uma vez que o corpo e a matéria são obra do Demiurgo, é conveniente afastar-se deles o máximo possível. Muitos gnósticos promoviam assim a abstinência sexual (para não gerar novos seres prisioneiros da carne), o vegetarianismo ou o jejum, e uma vida frugal voltada para a contemplação do divino interior. No entanto, alguns grupos minoritários adotaram a postura oposta, dita “antinomista” ou libertina: considerando que as leis morais do mundo não têm valor aos olhos do verdadeiro Deus, autorizavam-se a transgredir os interditos (incluindo sexuais ou alimentares) para demonstrar o seu desprezo pela matéria. Autores antigos acusaram assim certas seitas (como a de Carpócrates) de práticas imorais deliberadas, embora esses relatos possam estar exagerados pela polémica.

As correntes e escolas gnósticas principais

Apesar da unidade de perspetiva geral que acabámos de descrever, o gnosticismo antigo não forma uma Igreja unificada, mas divide-se em numerosos correntes e “escolas” distintas. Os heresiologistas cristãos e depois os historiadores modernos atribuíram nomes convencionais a esses vários grupos, baseando-se quer no nome do seu fundador, quer numa figura teológica própria. É preciso ser cauteloso, pois algumas dessas seitas só nos são conhecidas por testemunhos hostis e a sua existência histórica efetiva é por vezes incerta. No entanto, podemos apresentar as principais correntes gnósticas identificadas na época antiga.

O valentinismo

Trata-se provavelmente da escola gnóstica mais influente e conhecida, fundada por Valentim (ou Valentinus) por volta de meados do século II. Nascido no Egito e formado em Alexandria, Valentim ensinou em Roma entre cerca de 135 e 160 d.C.; terá mesmo sido um candidato sério ao episcopado romano antes que as suas doutrinas esotéricas o fizessem ser excluído da Igreja. O valentinismo propõe uma mitologia elaborada: o Plérôme compreende 30 eões organizados em sísigias, e a queda do eão Sofia gera uma ruptura que resulta na formação fora do Plérôme de um demiurgo chamado Ialdabaoth. A matéria é para os valentinos o produto do erro de Sofia, e Cristo veio salvar a criação trazendo a gnose. Valentim e os seus discípulos (como Ptolomeu, Heracleão ou Teodoto) elaboraram um sistema teológico refinado, em diálogo com a teologia cristã: não rejeitavam as Escrituras nem a figura de Jesus, mas interpretavam-nas de forma radicalmente alegórica, lendo um sentido oculto acessível apenas aos iniciados. O Evangelho da Verdade, encontrado em Nag Hammadi, é um exemplo provável de sermão valentiniano, assim como o Evangelho de Filipe. A seita valentiniana parece ter-se subdividido em correntes « oriental » e « ocidental » após a morte de Valentim. Apesar dos ataques violentos dos Pais da Igreja (Tertuliano compôs um tratado inteiro Contra os valentinos), a influência de Valentim foi tal que a sua escola perdurou pelo menos até ao século IV.

O sethianismo

É o nome dado pelos investigadores modernos a uma corrente gnóstica provavelmente entre as mais antigas, centrada na figura bíblica de Sete (terceiro filho de Adão e Eva). Os «sethianos» consideravam-se descendentes espirituais de Sete, que viam como o pai de uma linhagem de almas eleitas, estranha ao Deus criador. O sethianismo é qualificado como «hipotético» por alguns historiadores, pois é sobretudo conhecido através de textos anónimos de Nag Hammadi em vez de autores identificados. No entanto, tratados como o Livro secreto de João (Apócrifo de João), a Hipóstase dos Arcontes ou o Evangelho dos Egípcios (NH III) apresentam um mito gnóstico muito elaborado que parece típico desta corrente: Sophia desempenha um papel central, Ialdabaoth é nomeado explicitamente como demiurgo, e Sete aparece como o ancestral das «raças espirituais» eleitas. Alguns textos sethianos oferecem uma exegese gnóstica (nova análise e interpretação) completa do Génesis, onde as personagens do Antigo Testamento (Adão, Eva, a serpente) são reinterpretadas esotericamente. Segundo a tradição heresiológica (estudos cristãos do que é considerado heresia), a seita dos sethianos terá sido fundada por discípulos de Simão, o Mago, após a queda de Jerusalém em 70, mas isso permanece conjectural. Seja como for, o sethianismo parece representar um gnosticismo de origem judaico-cristã, muito anticosmológico, cujos escritos enfatizam a revelação de um Deus desconhecido e a denúncia do Demiurgo bíblico.

O basilidianismo

Fundado por Basílides de Alexandria, ativo entre 125 e 155 d.C., este movimento floresceu no Egito no século II. Basílides terá escrito um evangelho esotérico e um tratado em vinte e quatro livros (Exégètica) expondo a sua doutrina. A sua cosmologia incluía a ideia de 365 céus empilhados (daí o símbolo da palavra-passe «Abraxas», cujo valor numérico é 365), e de um Grande Arconte governando o mundo sublunar sob a autoridade de um Deus supremo distante. Basílides ensinava que este Grande Arconte acreditava ser o único Deus até descobrir a existência do Deus desconhecido acima dele – tema clássico gnóstico. No plano cristológico, Basílides terá professado uma forma de docetismo (Cristo tendo apenas aparência humana), chegando a dizer que foi Simão de Cirene quem foi crucificado em lugar de Jesus. O seu filho Isidoro sucedeu-lhe na liderança da escola basilidiana. Embora menos documentada que o valentinianismo, a seita de Basílides marcou suficientemente as mentes para ser refutada em detalhe por Irineu e Hipólito.

O marcionismo

Marcião de Sinope (c. 85 – c. 160) é por vezes associado ao gnosticismo devido à sua doutrina dualista, embora constitua um caso à parte. Marcião foi um pregador cristão da Ásia Menor que veio a Roma por volta de 140 d.C.; ensinava que o Deus amoroso anunciado por Jesus era distinto do Deus criador do Antigo Testamento, este último visto por ele como um deus inferior, cruel e legalista. Rejeitando completamente a herança judaica, Marcião constituiu o primeiro cânone cristão expurgado: retinha apenas o evangelho de Lucas (editado) e dez epístolas paulinas, excluindo todo o Antigo Testamento. Condenado pela Igreja de Roma, fundou a sua própria Igreja marcionita rival, que teve grande sucesso no Império durante os séculos II e III. Embora Marcião não transmitisse uma mitologia tão elaborada como os gnósticos "clássicos", a sua oposição clara entre o Deus bom desconhecido e o Demiurgo criador vingativo insere-se claramente na mesma linha de ideias. Os autores cristãos associaram-no frequentemente aos gnósticos e combateram-no da mesma forma.

Os ofitas e naassenos

Estas duas designações (« ofitas » do grego ophis, serpente; « naassenos » do hebraico na’hash, serpente) referem-se a grupos gnósticos que honravam simbolicamente a serpente do Gênesis como agente da revelação. Irineu e Orígenes mencionam os « ofitas » que possuíam diagramas esotéricos representando os mundos celestes, e que praticavam rituais idólatras em torno de serpentes domesticadas – embora seja difícil distinguir o mito da realidade nestes relatos. De qualquer forma, o símbolo da serpente salvadora é comum na literatura gnóstica (como se viu no Hipóstase dos Arcontes em particular), o que sugere a existência de correntes onde este tema era central. Os naassenos, por sua vez, são conhecidos por uma longa exposição feita por Hipólito: veneravam todo tipo de divindades (gregas, egípcias, babilónicas) num sincretismo complexo, viam na serpente um princípio de sabedoria, e celebravam mistérios ligados à designação de Eva como « Prôneia » (a Providência). Trata-se provavelmente de um gnosticismo muito esotérico, operando uma mistura de múltiplas mitologias pagãs em torno do tema do conhecimento.

A corrente “libertina” de Carpócrates

Carpócrates de Alexandria (meados do século II) e seu filho Epifânio representam uma tendência singular do gnosticismo, acusada de defender a imoralidade. Segundo Irineu, os carpocracianos ensinavam que, para se libertar totalmente das potências cósmicas, a alma devia ter experimentado tudo (incluindo os atos reputados como pecados) para não ter que renascer. Praticavam o compartilhamento das mulheres e outras formas de comunhão extrema, o que chocou seus contemporâneos. É delicado saber qual parte dessas acusações corresponde à realidade ou à calúnia anti-herética. De qualquer forma, a existência de uma corrente gnóstica que defendia a transgressão como meio de salvação ilustra a diversidade das conclusões éticas a que podia levar o anti-materialismo radical da gnose.

O maniqueísmo

Fundado no século III na Mesopotâmia pelo profeta Mani (216-276), o maniqueísmo é considerado um herdeiro tardio do gnosticismo – embora seja uma religião distinta, organizada de forma autónoma. Mani reclamava ser apóstolo de Jesus Cristo, mas também continuador de Buda e de Zoroastro: a sua doutrina sincrética combina elementos do cristianismo, do budismo, do zoroastrismo e de outras tradições orientais. O maniqueísmo retoma o dualismo absoluto entre Luz e Trevas: concebe a existência de dois Princípios coeternos em luta desde a origem do tempo – o Deus da Luz e o Princípio do Mal. No início, explicava Mani, os dois reinos (Luz e Trevas) estavam separados, mas uma invasão das Trevas no domínio da Luz provocou a criação do mundo material, onde partículas de Luz ficam presas na matéria. A salvação maniqueísta consiste em libertar progressivamente esses elementos de Luz por uma vida ascética extrema (estrito vegetarianismo, castidade, oração,...), conduzida idealmente pelos «Eleitos» maniqueus. Mani estruturou a sua Igreja com uma hierarquia de mestres e discípulos, e redigiu os seus próprios escritos sagrados. O maniqueísmo difundiu-se com uma rapidez notável do Médio Oriente até à China e ao Ocidente; prosperou durante vários séculos, apesar das perseguições ferozes de que foi alvo no Império Romano e na Pérsia. Qualifica-se de «gnóstico» a visão maniqueísta pelo seu dualismo e pela importância que atribui ao conhecimento revelado (Mani dizia-se “Apóstolo da Luz”). Contudo, o maniqueísmo distingue-se do gnosticismo clássico por postular a existência de dois Princípios opostos desde toda a eternidade (onde os gnósticos derivam o mal de uma degradação da substância divina inicial). Não deixa de ser verdade que, na Antiguidade tardia e na Alta Idade Média, os maniqueus foram vistos pelos cristãos como os continuadores por excelência da gnose: o próprio termo “maniqueu” acabou por se tornar sinónimo de dualista exagerado.

Muitas outras seitas gnósticas poderiam ser mencionadas – os cainitas (que veneravam figuras bíblicas amaldiçoadas como Caim ou Judas, vendo nelas portadoras de uma verdade oculta), os peratas, os barbelitas,... –, mas a sua historicidade permanece incerta ou o seu impacto foi marginal. As principais correntes descritas acima são suficientes para dar uma ideia da diversidade interna do gnosticismo antigo, diversidade que se expressa tanto nos mitos e teologias quanto nas práticas e organização dos grupos.

Relações com o cristianismo primitivo, o judaísmo e o Império Romano

Face ao cristianismo: rivalidade doutrinária e influências recíprocas

O gnosticismo desenvolveu-se em paralelo com o cristianismo primitivo e bebeu do fundo escritural e doutrinário cristão, reinterpretando-o radicalmente. Muitos gnósticos consideravam-se os verdadeiros cristãos, detentores de um ensinamento secreto de Jesus transmitido discretamente aos seus discípulos mais espirituais.

O gnosticismo, história de uma corrente esotérica antiga

Separação entre os mundos

Nos primeiros tempos, a fronteira entre cristianismo e gnosticismo foi por vezes ténue. Sabe-se que Valentim, antes de fundar a sua escola separada, ensinava dentro da própria comunidade cristã de Roma. Da mesma forma, Marcião era um membro importante da Igreja de Roma antes da sua excomunhão. Existiu, portanto, um período em que a Igreja “católica” em formação e os grupos gnósticos coexistiam, dialogavam e influenciavam-se mutuamente. Os gnósticos tomaram das Escrituras cristãs muitos dos seus conceitos (o Logos, o Pai, o Salvador, etc.), adaptando-os à sua visão dualista. Em contrapartida, a presença dos gnósticos obrigou a Igreja a clarificar as suas posições teológicas. Por exemplo, a insistência dos gnósticos num Jesus puro espírito (nem nascido, nem realmente sofredor) levou a Grande Igreja a formular mais claramente a doutrina da encarnação e da realidade da cruz. Da mesma forma, perante a ideia gnóstica de um Deus supremo distinto do Criador, os Padres salientaram a identidade entre o Deus do Antigo Testamento e o Pai de Jesus Cristo, insistindo na unidade e bondade do único Deus criador.

A rivalidade cristalizou-se particularmente no século II, quando a Igreja estruturou o seu “cânone” bíblico e os seus símbolos de fé. Várias afirmações do Símbolo dos Apóstolos ou de Niceia – « Deus único, Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra… Jesus Cristo, nascido… crucificado sob Pôncio Pilatos… ressuscitado segundo as Escrituras… » – podem ser lidas como respostas implícitas às doutrinas gnósticas (afirmação de que o Pai é realmente o Criador, que o Cristo veio em carne numa época precisa, que morreu realmente e não apenas em aparência, etc.). A Igreja, ao definir a ortodoxia, traçava implicitamente o limite a não ultrapassar, encarnado precisamente pela gnose.

Por outro lado, seria caricatural ver a relação entre cristianismo e gnosticismo apenas sob o ângulo da oposição. Os dois movimentos partilhavam uma mesma efervescência espiritual, um mesmo horizonte escatológico e apocalíptico (redenção da humanidade, revelação da verdade divina). Os investigadores notam que alguns escritos do Novo Testamento (o Evangelho segundo João, as epístolas paulinas, o Apocalipse de João) contêm acentos ou imagens que os gnósticos apreciavam – como a figura do Logos descendo ao mundo, a luz que brilha nas trevas, a oposição entre o espírito e a carne,... De tal forma que os gnósticos usaram esses escritos para apoiar as suas teses, e por vezes é difícil saber se foram eles que influenciaram a redação ou simplesmente interpretaram à sua maneira textos cristãos já existentes. A maioria dos exegetas hoje considera que o Evangelho de João, por exemplo, não foi emprestado a uma gnose pré-existente, mas que pôde ter sido lido em meio gnóstico mais tarde. Não deixa de ser verdade que o cristianismo primitivo e a gnose estavam imersos num clima conceptual comum, e que a sua separação clara só ocorreu ao longo do século II, num processo de « delimitação das fronteiras ». Pensadores cristãos como Clemente de Alexandria (final do século II) tentaram mesmo recuperar positivamente a noção de “gnose”, falando de uma gnose cristã ortodoxa (conhecimento místico de Cristo reservado aos cristãos perfeitos), em oposição à falsa gnose dos hereges. A própria palavra gnosticismo é uma construção posterior, pois os protagonistas da época viam-se todos como detentores da verdadeira gnose.

Face ao judaísmo: uma ruptura iconoclasta

As relações entre a gnose e o judaísmo do século II foram essencialmente marcadas pela hostilidade e incompreensão. O cerne da teologia gnóstica – a desvalorização do Deus criador do mundo material – constituía um ataque frontal à fé judaica tradicional num Deus único, todo-poderoso e bom, criador dos céus e da terra. Os gnósticos ousavam qualificar Yahvé (o Deus bíblico) como um ser imperfeito, ignorante ou mesmo maléfico, negando-lhe o estatuto de divindade suprema. Reinterpretavam os relatos da Torá de forma sacrílega do ponto de vista judaico: a criação do mundo por Deus no Génesis tornava-se a obra trágica de um Demiurgo limitado; Adão e Eva apareciam não como culpados, mas como vítimas libertadas pela serpente; os patriarcas podiam ser retratados de forma negativa, enquanto figuras odiadas como Caim ou Esaú eram por vezes elevadas a heróis detentores de um saber oculto (é o caso dos gnósticos chamados «caínitas»). Tal inversão dos valores bíblicos só podia escandalizar os judeus piedosos.

De facto, as raras alusões que se detectam na literatura rabínica a doutrinas que evocam a gnose são formuladas no âmbito da polémica contra os minim (hereges, identificados com os primeiros cristãos). Como já notámos, os rabinos do final do século II falam da heresia dos «dois poderes no céu» e parecem atribuí-la aos cristãos. É provável que se referissem tanto aos cristãos trinitários (cuja fé caricaturavam dizendo que adoram Deus e Jesus como dois deuses distintos) como às correntes gnósticas que postulavam um Deus bom oposto ao Deus mau. Em todos os casos, o judaísmo rabínico pós-70 estruturou-se rejeitando firmemente qualquer leitura dualista ou politeísta da divindade. Textos judaicos da época (por exemplo, algumas passagens do Sefer Ha-Razim ou dos hekhalot, literatura mística judaica nascente) testemunham um esoterismo judaico não gnóstico, onde o conhecimento dos segredos divinos visa glorificar o Deus único e não libertar-se dele. Pode-se portanto dizer que entre a gnose e o judaísmo rabínico houve um fosso claro: a gnose nasceu em contexto judaico, mas rejeitando a essência do monoteísmo bíblico, o que a isolou rapidamente e cortou das suas raízes judaicas. Apenas correntes judeo-cristãs marginais (como os ebionitas ou elcasaitas heterodoxos) parecem ter servido de pontes temporárias, antes de desaparecerem também.

Perante o Império Romano: discrição, desconfiança e perseguições

No que diz respeito às autoridades políticas romanas, o gnosticismo não foi identificado como um movimento distinto dos outros grupos religiosos dissidentes antes do século III. No século II, os adeptos da gnose misturavam-se na massa mais ampla das comunidades cristãs ou sincréticas, de modo que, quando ocorriam perseguições imperiais (sob Marco Aurélio por volta de 177, ou Septímio Severo por volta de 202), estas atingiam os cristãos sem distinção das nuances teológicas internas. Não se conhece nenhum caso em que um gnóstico tenha sido especificamente incomodado como tal pelo poder pagão. Isso deve-se também ao facto de os gnósticos, inclinados à discrição e ao segredo iniciático, formarem círculos relativamente fechados e pouco visíveis. Os seus números modestos e o seu comportamento frequentemente ascético não os tornavam particularmente identificáveis nem ameaçadores do ponto de vista do Estado romano pagão.

Foi com a chegada do maniqueísmo – em meados do século III – que o poder romano começou a perceber o perigo potencial de um movimento dualista organizado. Em 297 d.C., o imperador Diocleciano publicou um édito especificamente dirigido contra os maniqueus: denunciava uma «seita nova e pérfida vinda da Pérsia» (portanto suspeita de conluio com o inimigo sassânida) e ordenava a execução dos seus líderes e a queima dos seus livros. Esta perseguição anti-maniqueísta foi localmente violenta (no Norte de África, o procônsul da África recebeu instruções para agir com a maior severidade), mas não durou muito tempo: logo com o édito de tolerância de 311 e depois o de Milão em 313, a prioridade do poder romano passou a ser apaziguar os conflitos religiosos internos para se concentrar na unificação cristã do Império. No entanto, a hostilidade à doutrina maniqueísta persistiu: no século IV, sob os imperadores cristãos, leis reiteraram a proibição do maniqueísmo, qualificando-o como uma superstição «abominável» de origem bárbara, e punindo com a morte os seus propagadores.

Quanto às seitas gnósticas não maniqueístas, é provável que tenham desaparecido por si mesmas ou se fundido em outros grupos durante o século IV, devido à ascensão da Igreja oficial. Após o Concílio de Nicéia (325), o Império, agora cristão, promulgou éditos contra várias heresias; os gnósticos remanescentes, se ainda existissem, foram incluídos nessas categorias sem que se tomasse sempre o cuidado de os nomear especificamente.

A opressão mais feroz contra a herança gnóstica manifestou-se, contudo, na Idade Média, quando a Igreja Católica enfrentou novos movimentos dualistas que associou – com razão ou sem ela – aos antigos maniqueus. Os bogomilos (do século X na Bulgária) e sobretudo os cátaros ou albigenses (nos séculos XII–XIII no sul de França) professavam, de facto, uma forma de dualismo bem/mal próxima do maniqueísmo: o mundo material era visto como obra do Maligno, e a salvação consistia em libertar a alma da carne através de uma vida pura. A Igreja medieval, alarmada, decretou estas doutrinas como heréticas e combateu-as militar e juridicamente. A cruzada dos albigenses (1209-1229) levada a cabo no Languedoc, seguida da ação da Inquisição no século XIII, resultaram na erradicação das comunidades cátaras. Os escritos destes últimos foram destruídos (conservam-se poucas fontes cátaras diretas, exceto alguns rituais e tratados como A Carta do Consolamentum ou O Livro dos Dois Princípios). Na mente dos inquisidores, estas seitas medievais não eram senão uma reaparição do antigo mal gnóstico ou maniqueu; a palavra “maniqueu” era aliás a que usavam com mais frequência para designar cátaros e outros hereges dualistas. Assim, embora o gnosticismo antigo tivesse desaparecido enquanto tal há muito tempo, o seu espectro continuou a assombrar o imaginário religioso: tornou-se o arquétipo da heresia sorrateira a erradicar.

Em conclusão desta parte, pode-se dizer que o gnosticismo entrou em conflito com todas as autoridades estabelecidas do seu tempo: conflito teológico com a nascente Igreja cristã, conflito ideológico com o judaísmo rabínico e, finalmente, conflito político com o Estado romano (sobretudo através do maniqueísmo). Rejeitado e perseguido, sobreviveu algum tempo na clandestinidade antes de desaparecer, com os seus últimos lampejos a ressurgirem sob outras formas em épocas posteriores.

Reaparições modernas e interpretações contemporâneas

Após o desaparecimento das seitas gnósticas antigas, a noção de gnose perdurou, mas mais como um conceito doutrinário ou místico nos escritos eruditos. Foi necessário esperar até ao final do século XIX para ver uma verdadeira ressurreição de movimentos que se reivindicavam do gnosticismo. Este renascimento insere-se no contexto mais amplo do renovado interesse pelo esoterismo e ocultismo na Europa dessa época.

Em 1890, em França, o ocultista Jules Doinel funda a Igreja Gnóstica de França, ato que apresenta como o início do « Ano I da restauração da Gnose ». Doinel, que toma o título de Patriarca Valentin II em homenagem a Valentin, afirma ter recebido em visão uma missão do Eón Jesus para restabelecer a verdadeira Igreja gnóstica. Organiza cerimónias neo-gnósticas, misturando esoterismo cristão, referências cátaras (proclama-se bispo de Montségur) e doutrinas de inspiração valentiana. Este movimento atrai alguns intelectuais parisienses em busca de espiritualidade alternativa. Embora Doinel abandone a sua Igreja dois anos depois para regressar ao catolicismo, a Igreja Gnóstica que iniciou perdura: relançada por sucessores como Léonce Fabre des Essarts (Tau Synésius) e Joanny Bricaud, dota-se de uma hierarquia episcopal e prolonga-se no século XX, fundindo-se com várias ramificações ocultistas. Figuras notáveis do ocultismo francófono, como Papus (Gérard Encausse) ou o escritor Joséphin Péladan, interessam-se por ela durante algum tempo. Esta Igreja gnóstica moderna pretende ser ecuménica esotérica, honrando o Cristo esotérico enquanto integra elementos de teosofia ou martinismo. Tem uma influência limitada mas real na nebulosa oculta do início do século XX.

Paralelamente, em 1908, a Ordem esotérica do Ordo Templi Orientis (O.T.O.), fundada por Theodor Reuss, incorpora um rito chamado Ecclesia Gnostica Catholica. Sob o impulso de Aleister Crowley, esta Igreja gnóstica do O.T.O. celebra uma « missa gnóstica » com símbolos alquímicos e libertinos. Não se trata propriamente de uma doutrina gnóstica antiga, mas sim do uso do termo gnóstico para qualificar uma forma de espiritualidade esotérica universal libertada dos dogmas.

Nas décadas de 1920-1930, vários círculos ocultistas na Europa e na América referem-se ao gnosticismo. O psiquiatra suíço Carl Gustav Jung interessou-se vivamente pelos textos gnósticos recentemente disponíveis (possuiu um manuscrito do Evangelho de Simão descoberto em Akhmîm). Jung vê na mitologia gnóstica uma prefiguração dos arquétipos do inconsciente. Em 1916, escreveu mesmo Sete Sermões aos Mortos, um texto com tonalidade explicitamente gnóstica (atribuído ficticiamente a Basilides). Na primeira metade do século XX, autores como Hermann Hesse ou o erudito G.R.S. Mead (próximo da Sociedade Teosófica) popularizaram uma imagem do gnosticismo como caminho místico de conhecimento de si próprio à margem das Igrejas estabelecidas.

Na cultura contemporânea mais ampla, o termo gnóstico foi usado – por vezes de forma abusiva, nomeadamente por movimentos sectários famosos – para qualificar obras ou pensamentos que destacam a alienação do homem no mundo material e a necessidade de uma tomada de consciência salvadora. Filósofos ou escritores modernos foram qualificados de « gnósticos » por terem desenvolvido visões do mundo dualistas ou esotéricas (pode falar-se de um « gnosticismo » em William Blake, em alguns românticos, ou na filosofia existencialista). Contudo, estes usos pertencem mais à analogia temática do que a uma filiação histórica direta.

No plano religioso institucional, ainda existem hoje pequenas Igrejas que se reclamam do gnosticismo, sobretudo na esteira de Doinel ou de movimentos ocultistas subsequentes. Por exemplo, a Igreja Gnóstica Apostólica perpetua em França e no Canadá um culto neo-gnóstico cristão; nos Estados Unidos, encontra-se a Ecclesia Gnostica do bispo Stephan Hoeller, que enfatiza o estudo dos evangelhos de Nag Hammadi e a experiência interior; o movimento New Age também recuperou alguns temas gnósticos (a ideia da centelha divina em si, do mestre interior, ...), mas sem referência direta às fontes antigas.

Finalmente, a noção de gnose foi mesmo integrada no discurso religioso oficial, de forma crítica: o papa Francisco denunciou por várias vezes as tentações de um « neo-gnosticismo » em alguns cristãos de hoje, entendendo por isso uma tendência para procurar um elitismo espiritual desligado da realidade material e da caridade concreta. Ao fazer isso, o chefe da Igreja Católica mostra que o termo gnosticismo continua vivo no vocabulário, principalmente como antítese dos valores que defende.


Fontes :

  • Os Gnósticos de Jacques Lacarrière (referência literária e histórica acessível)

  • A gnose e o tempo de Michel Tardieu (especialista reconhecido do gnosticismo e do maniqueísmo)

  • Escritos gnósticos: A biblioteca de Nag Hammadi (coleção sob a direção de Jean-Pierre Mahé e Paul-Hubert Poirier, na Gallimard, col. La Pléiade)

  • Gnosis: A Natureza e História do Gnosticismo de Kurt Rudolph (obra de referência em inglês, muito usada em meios académicos)

  • Uma História do Gnosticismo de Giovanni Filoramo (tradução inglesa de um trabalho italiano reconhecido)

  • Os Evangelhos Gnósticos de Elaine Pagels (professora em Princeton, obra de divulgação mas muito bem documentada)

  • Os Gnósticos e o mundo de Simone Pétrement (análise estruturada das doutrinas gnósticas)

  • Escrituras de Nag Hammadi editado por Marvin Meyer (versão inglesa moderna dos textos encontrados)

  • O tratado tripartido e outros textos da biblioteca de Nag Hammadi (estudos comentados)

  • Contra as heresias de Irineu de Lyon (fonte héresiológica direta do século II, muito importante apesar do seu viés)

Olivier d’Aeternum
Par Olivier d’Aeternum

Apaixonado pelas tradições esotéricas e pela história do oculto desde as primeiras civilizações até ao século XVIII, partilho alguns artigos sobre estes temas. Sou também co-criador da loja esotérica online Aeternum.

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