Como talvez saiba, por trás da Aeternum está uma pequena empresa sediada na Bretanha (no sul do Finistère, para ser preciso). E é bem conhecido que este território vive ao ritmo das lendas, mitos e práticas mágicas mais ou menos conhecidas (Brocéliande, Merlin, a Fada Viviane, os Alinhamentos e muitos outros). Assim, para dar destaque ao nosso belo território, publicaremos regularmente lendas pouco conhecidas da história bretã.
Vamos descobrir juntos a lenda da cidade desaparecida de Ys e o seu forte simbolismo pagão. Note que existem várias versões desta lenda, algumas fortemente influenciadas pelo catolicismo. Tentamos aqui apresentar a história original.

Imerso nas tradições pagãs, o jovem Gradlon, seduzido por Malgven, a rainha do septentrião, conhece esta soberana durante uma incursão guerreira. Esta última, semelhante a uma fada-druidesa, cativa o seu coração. Contudo, Gradlon atrai a ira desta ao abraçar o cristianismo e ao pedir orientação a São Guénolé, um eclesiástico do século V na Bretanha.
Ao atravessar um curso de água impetuoso para se afastar dele, Malgven desafia Gradlon a não a seguir. Ignorando o seu aviso, o bretão loucamente apaixonado lança-se na correnteza furiosa. Forçada a salvar Gradlon do afogamento, Malgven, embora o salve, não consegue reprimir a sua animosidade para com ele, revelando que as chamas do seu amor não estavam totalmente apagadas.
Anos mais tarde, esse amor perdido reaparece através de Dahud (ou Dahut), filha de Gradlon e Malgven.

O termo Dahud, de origem celta, traduz-se por «boa magia». Ela encarna uma entidade do Outro Mundo celta, chamado Sidh (ou Inframundo, Além, Ultramundo conforme as crenças).
Dahud, assim herdeira, personificava o espírito e as tradições da rainha do Norte. Apegada aos ritos das deusas antigas, Dahud criticava abertamente o bispo Corentin de Quimper, acusando-o de mergulhar a região na morosidade e no tédio. Ela opunha-se frontalmente aos monges e pedia ao pai a construção de uma cidade, Ys ou Ker-Is, onde se viveria segundo os preceitos pagãos, numa cidade sem igreja.
Assim começou a construção de Ys (ou Is), uma cidade rapidamente emblemática da antiga civilização celta confrontada com a chegada do cristianismo. Em Ys, o prazer dominava, um modo de vida considerado insuportável pela nascente religião cristã. Sob o reinado de Gradlon, a cidade era um modelo de igualdade. Os seus habitantes gozavam de grande riqueza, e a cidade, aberta a diversos povos e crenças, brilhava pela sua opulência e esplendor.
Situada na baía de Douarnenez, na Cornualha, Ys era considerada a mais magnífica das cidades do mundo, superando até Lutécia, que foi renomeada Paris, pois em bretão Par-Ys significa "semelhante a Ys".
Dominando Ys com a sua autoridade incontestada, Dahud apresentava-se como protetora das crenças ancestrais celtas, resistindo à ascensão do cristianismo. Profundamente ligada à deusa da terra, a quem as montanhas de Arrée talvez devam o seu nome (algumas versões indicam que Dahud também se chamaria Ahès), Dahud prestava-lhe homenagem com passeios regulares na floresta, celebrando assim as alegrias da natureza e da sensualidade.
Vivendo em acordo com os princípios do amor livre, Dahud não se tinha casado. Todas as noites, convidava um novo amante ao palácio, fazendo-o usar uma máscara de seda. Ao primeiro raiar do sol, o amante era convidado a deixar rapidamente o quarto.

Este modo de vida, considerado pecaminoso, atraía as constantes admoestações do muito piedoso São Guénolé, que não deixava de a advertir através dos seus sermões.
A chegada de enviados da Igreja Católica Romana marca um ponto de viragem para a cidade de Ys. Eles trazem um ultimato para Gradlon: aceitar a construção de uma igreja na cidade, ou ver Ys destruída pelas forças romanas. Perante esta ameaça, Dahud, indignada pela pressão exercida sobre o seu povo e as suas tradições, abandona a cidade para se refugiar nas montanhas de Arrée. Lá, implora a ajuda de Cernunnos, divindade celta da fertilidade, reconhecível pelos seus chifres de veado.

Esta característica física, interpretada mais tarde pela Igreja como um sinal diabólico, contribuiu para a assimilação de Cernunnos com o diabo.
Ele aconselha-a a regressar a Ys, prometendo que, sob o véu da noite, intervirá para salvar a cidade.
A barbárie e a determinação da Igreja sendo sem limites, reparou que a cidade de Ys estava construída abaixo do nível do mar. Que assim seja, a chave das barragens foi roubada a Gradlon e a água inundou e depois submergiu toda a cidade, abafando os gritos e súplicas dos habitantes.
Gradlon levou por pouco a sua filha Drahud graças a Morvach, um cavalo dos mares enviado por Malgven. Louco de raiva com esta tentativa, São Guénolé obrigou o rei a abandonar a filha na tempestade, ela que representava toda a quintessência do pecado. A tragédia que submergiu Ys sob o oceano provoca o desaparecimento da princesa Dahut.

No entanto, a lenda afirma que ela não pereceu mas continua a vaguear na baía de Douarnenez, metamorfoseada em sereia (tornando-se Morgana, a deusa dos mares bretões). Ys permaneceria intacta e viva sob as águas, os seus habitantes tendo adquirido a imortalidade.
A profecia diz que um dia, alguém conseguirá avistar a cidade submersa e aventurar-se nela, quebrando assim o encanto protetor de Cernunnos. Nesse momento, Ys emergirá das profundezas, mais brilhante do que nunca, sinalizando o regresso dos heróis bretões do Outro Mundo, o reino dos mortos celta. Também se conta que, sob certas luzes solares, as muralhas da cidade desenham-se sob as ondas e que os sinos das suas torres ainda tocam, especialmente em dias impregnados de magia, como no dia 1 de maio.
Não hesite em abrir os ouvidos se passar pela região...




























































































































