A sala de audiências sempre foi um palco onde o Invisível podia intervir, ainda mais com as orações, esperanças e egregores múltiplos e intensos. Desde sempre, aqueles que arriscavam a vida ou a honra perante a justiça invocaram secretamente outras forças para inclinar a balança. Isto é o que se chama magia judicial, uma forma de magia de influência.
Rituais para influenciar o veredicto
Influenciar um julgamento pode ser uma maldição ofensiva ou um encanto persuasivo. Por um lado, o praticante pode tentar impedir os seus opositores – esta é a tradição dos feitiços de amarração. O objetivo é claro: calar a palavra de uma testemunha hostil, paralisar o advogado da parte contrária ou confundir a mente dos jurados. Na Roma antiga, escrevia-se em tábuas: « Que a língua de [Nom] se enrole, que os seus argumentos desapareçam perante o juiz ». Enterrando-as sob o tribunal ou na sepultura fresca de um morto, confiava-se aos deuses infernais o cuidado de realizar essa vingança. Estes feitiços de tribunal, embora usados secretamente, mostram a convicção de que, por um rito bem dirigido, a verdade oficial pode ser distorcida.
Por outro lado, a magia judicial também usa encantos de influência, na fronteira entre o feitiço e a oração, para suavizar o coração dos juízes e guiar as suas decisões. Aqui não há maldição, mas um trabalho subtil sobre as emoções e a benevolência. Os praticantes ocidentais transmitiram rituais de « suavizar » – assim se chamam estes feitiços com açúcar ou mel destinados a « adoçar » a atitude do juiz. Prepara-se um pequeno pote de mel onde se coloca o nome do magistrado, misturado com ervas de clemência como a melissa e a violeta, enquanto se recitam palavras de harmonia. A intenção é atrair para o decisor uma aura de compreensão e piedade. O Hoodoo retomou o princípio do honey jar para suavizar diferentes aspetos da vida quotidiana.
Esta ideia de tocar a alma do juiz pela magia tem raízes também religiosas. Rezava-se a Santa Catarina ou a São Judas para iluminar os jurados, usavam-se medalhas abençoadas. Um exemplo famoso é a oração do Justo Juiz, que invoca Cristo como juiz supremo para que inspire a justiça terrena. Por palavras fervorosas – « Ó Justo Juiz, Tu cujo trono é equidade, cobre-me com o teu manto perante o tribunal dos homens » – o acusado pedia uma proteção divina que desviasse o coração dos poderosos de qualquer severidade injusta. Estas orações, embora cristãs na aparência, estão integradas no repertório do mago judicial. Encontram-se copiadas em grimórios ao lado de fórmulas mais esotéricas.
Proteções ocultas contra o julgamento
Quando chega uma convocação ou uma acusação ameaça, a primeira reação do praticante é proteger-se. Antes mesmo de tentar influenciar os outros, é preciso precaver-se contra os ataques visíveis e invisíveis do julgamento. Proteger-se contra um julgamento começa muitas vezes por um ritual de purificação: varre-se de si as energias de medo e injustiça, lava-se ritualmente ao amanhecer do dia da audiência com uma água lustral infundida de manjericão (erva de proteção) e sal bento. Por esta lavagem simbólica, o acusado « remove » os feitiços que o possam rodear e apresenta-se purificado perante a justiça dos homens.
Segue-se o tempo da amuleto. Levar consigo um talismã durante a audiência é uma constante das práticas ocultas ocidentais. Na tradição dos sábios do campo, aconselhava-se ao acusado que colocasse no bolso um pequeno saco de couro contendo plantas e símbolos de justiça. Nos grimórios populares do século XIX, lê-se que o simples facto de levar uma pedra consagrada a Júpiter « faz ganhar os seus processos ». Júpiter, planeta da lei e da autoridade, impregna a gema com a sua influência; o talismã, mantido junto ao coração, confere segurança, retidão percebida e alinhamento com a sorte judicial. Do mesmo modo, as tradições de magia dita « branca » recomendam mastigar suavemente um pedaço de galanga – raiz chamada Chewing John pelos praticantes afro-americanos – pouco antes de falar no tribunal. Este rizoma, reputado por dar peso às palavras, serve para tornar o seu testemunho mais convincente e para amarrar a língua da oposição.
A proteção oculta visa também os ataques energéticos que se possam sofrer no tribunal. Um acusado pode sentir-se psicologicamente agredido pelo olhar do procurador ou pela hostilidade da multidão. Para remediar, alguns levam o espelho de um pequeno talismã que reflete o mau-olhado. Outros traçam na pele, com tinta invisível (sumo de limão ou água de bolota), o sinal cabalístico do Perfeito Silêncio pouco antes da audiência: um triângulo atravessado por uma barra horizontal. Este sinal, vindo de manuscritos herméticos, supõe-se que desvia as calúnias e protege contra as « setas » das acusações falsas. Assim blindado, o acusado avança para a barra com a confiança tranquila de quem se cercou dos seus próprios guardiões invisíveis.
Desviar um julgamento pela arte oculta
Se a proteção e a influência subtis falharem, resta um caminho mais radical e perigoso: desviar um julgamento por um ato de alta magia. Isto significa tentar desviar o curso normal da justiça, seja provocando um evento inesperado que anule ou atrase o julgamento, seja recorrendo à ilusão para enganar os sentidos dos juízes. Esta prática beira a ideia do mago como falsificador do destino, pronto a desafiar a ordem estabelecida.
Um meio tradicional de desviar um julgamento é recorrer à magia da ilusão. Fala-se de encantamentos onde o acusado assume, durante a audiência, a aparência de um velho inocente ou de uma vítima doente, suscitando piedade em vez de raiva. Por trás da imagem esconde-se uma prática real: o uso de pós de ilusão. Um grimório do século XVII sugere preparar um pó fino com raiz de mandrágora seca e licopódio (pó inflamável), para soprar discretamente na sala. A fumaça assim criada perturbava a mente dos presentes, ocultando por um momento a verdade. Claro que tais tentativas são arriscadas e tocam a magia negra – manipular perceções pode facilmente ser assimilado a um pacto diabólico.
Alguns rituais para fazer desaparecer provas assemelham-se também a um desvio de justiça. Num manuscrito do final da Idade Média, encontra-se uma receita para « apagar a verdade escrita »: trata-se de pintar o pergaminho do ato de acusação com uma mistura de tinta de choco e fel de boi, enquanto se invoca o anjo do esquecimento. Diz-se que o texto se apagará aos olhos de quem o ler, tornando-o ilegível ou parecendo inofensivo. Imagine por um momento o espanto de um escrivão ao descobrir que a peça principal do processo se tornou um pergaminho em branco...
Finalmente, desviar um julgamento pode querer dizer atrasar indefinidamente o desfecho, até o tornar caducado. Mais uma vez, a magia tem os seus estratagemas: um feiticeiro podia enterrar uma bola de cristal negra junto ao muro do tribunal, símbolo do escurecimento da clarividência da justiça. Enquanto essa bola permanecesse enterrada e ativa, os juízes giravam em discussões sem nunca concluir. Este ritual de congelamento do veredicto é mencionado em algumas crónicas, onde se relatam julgamentos inexplicavelmente prolongados, até que uma purificação do local permitisse finalmente a decisão.
Clemência do juiz e ritos de súplica oculta
Obter a clemência do juiz é geralmente o objetivo final procurado pelo mago judicial quando sabe que está em falta ou teme uma pena demasiado pesada. Em vez de forçar a decisão ou enganar a justiça, trata-se aqui de amolecer a severidade do veredicto, de fazer nascer no juiz um impulso de misericórdia inesperado. Os grimórios estão cheios de rituais de súplica oculta que acompanham, ou até reforçam, os procedimentos legais clássicos de pedido de graça.
Um dos grandes princípios destes rituais baseia-se na correspondência emocional: procura-se em si a vibração da piedade para a amplificar e projetar para o decisor. Recomenda-se ao acusado que medite na véspera do julgamento numa memória em que ele próprio perdoou alguém. No auge dessa emoção, deve levantar um véu branco diante de uma vela e pronunciar uma invocação com voz humilde. Esta invocação pode variar, mas uma fórmula conhecida começa assim: « Que o coração daquele que me julgar se tinga da mesma claridade que esta chama », invocando o arcanjo Rafael, espírito da cura, para curar a dureza do juiz. O véu branco serve de canal, supostamente para transportar este sentimento de perdão ao coração do magistrado no momento crucial.
Outros rituais mais concretos recorrem à magia dos nomes divinos. Uma tradição cabalística recomenda escrever num pergaminho o nome do juiz, em letras quadradas hebraicas, logo abaixo de um Nome Sagrado como El Rahim (« Deus da Misericórdia »). Este pergaminho é guardado num saquinho de seda azul celeste (cor da clemência) com três pétalas de rosa secas. Na manhã do julgamento, o praticante leva o saquinho no peito, por baixo da camisa, de modo a que fique perto do coração quando enfrenta o juiz. Diz-se que esta simples proximidade do Nome divino e do nome do juiz, colocados juntos sobre o coração do acusado, inclina invisivelmente a alma do magistrado para a compaixão. Muitos magos afirmam ter assim evitado o pior, vendo o seu juiz normalmente inflexível conceder um adiamento ou uma pena mais leve sem saber bem porquê.
A clemência procurada pode também ser apoiada pela invocação dos santos padroeiros das causas desesperadas – nomeadamente São Expedito, invocado em casos judiciais duvidosos. Uma oração antiga, recitada em latim, dizia: « Sancte Expeditus, tu qui nosti urgentiam iustitiae, impetra a Summo ut iudex humanitatem ostendat ». Recitada de joelhos nos degraus do tribunal pouco antes da audiência, esta oração era acompanhada pelo acender de uma pequena vela verde (cor da esperança) que se deixava queimar discretamente no local. Atrair a clemência do juiz era então um verdadeiro rito sagrado, onde se juntava a fé católica popular aos saberes esotéricos.
Grimórios das masmorras e bruxaria do confinamento
A magia judicial não termina à porta da prisão – pelo contrário, o estado de confinamento gerou as suas próprias práticas ocultas. No Ocidente mágico, as masmorras por vezes ressoaram com palavras incantatórias durante a noite, e as suas paredes abrigaram grimórios secretos copiados. A existência de grimórios redigidos ou copiados na prisão é atestada por anedotas e descobertas surpreendentes. Os arquivos judiciais relatam, por exemplo, o caso de Gracien Detcheverry, um famoso feiticeiro basco do século XVIII. Detido em 1733, Detcheverry possuía um manuscrito proibido intitulado Agripa Negra. Armado com este grimório, gabava-se de poder encontrar tesouros escondidos e até « abrir as portas das prisões » como lhe apetecesse. Preocupado com tais poderes, o tribunal de Bayonne mandou traduzir e copiar integralmente o livro apreendido, antes de o mandar queimar publicamente. O manuscrito prisional de Detcheverry, conservado como prova, revela-nos um saber esotérico composto: contém conjurações de tesouro e evocação de espíritos (reconhecem-se excertos do Grimório do Papa Honório), e provavelmente as famosas receitas para quebrar trancas e cadeados pelo verbo sagrado.
Para além dos livros, há as práticas ocultas ligadas ao confinamento. Um relato famoso do final da Idade Média evoca uma bruxa presa que, todas as noites, conseguia fugir da sua cela para ir ao sabá, antes de voltar às suas correntes ao amanhecer – para grande terror dos seus carcereiros. Estes habituaram-se a prender os prisioneiros acusados de bruxaria com grilhões especiais, amarrando-lhes os polegares e os dedões dos pés por medo de que se transformassem numa criatura capaz de escapar pelo buraco da fechadura. A lenda junta-se aqui à precaução muito real: o medo do poder oculto obrigava a justiça a contornar os próprios rituais. Por vezes pregava-se à porta da masmorra uma placa gravada com o nome de Deus ou um excerto de salmo, suposto neutralizar qualquer tentativa de feitiço na fechadura.
Alguns prisioneiros, longe de se resignar, orquestraram rituais audazes para escapar. Um grimório crioulo apreendido no Haiti nos anos 1920 – em plena ocupação americana – continha assim « uma oração contra balas, um encanto contra tortura, e um feitiço para garantir a saída da prisão ». Um destes rituais, transcrito mais tarde por um etnógrafo, é impressionante na sua simplicidade: « À meia-noite, recita: “Sésamo, Sésamo, permite-te e abre-te”, e as algemas cairão dos teus pulsos. Ao sair, diz: “Sésamo, fecha-te”. Chegando à porta, se o portão estiver trancado, pronuncia: “Pastoo, Vidoo, Agrimento. Agrippa, liberta-me deste leão que quer tirar-me a vida. Tudo cede ao teu Nome, todos os joelhos se dobram diante de ti. Mane Thecel das três Marias – Agrippina, Mariannie e Farres – sejam meus guias e condutores. Amém.” ». Aqui, a mistura das referências bíblicas (o Mane Thecel da escrita na parede na Bíblia) e das palavras de poder esotéricas (Agrippa, em eco ao grande ocultista) ilustra bem a criatividade sincrética da magia prisional. O detido, sozinho na escuridão, invoca ao mesmo tempo a palavra mágica da caverna de Ali Babá (« Sésamo, abre-te ») e uma ladainha pessoal de nomes protetores. O que importa é a fé inabalável posta no ato: os relatos locais contam que alguns iniciados viram efetivamente as suas correntes soltarem-se e encontraram a sua masmorra aberta ao amanhecer.
A bruxaria do confinamento expressa-se também em pequenos gestos quotidianos. Um prisioneiro oculto pode alimentar um inseto familiar, uma aranha ou um rato, considerado seu mensageiro espiritual: confia-lhe palavras para transmitir para fora, ou envia-o como batedor para fora da cela.
Assim, por trás do martelo do juiz, outras forças podem estar em ação...






























































































































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