A vela ocupa um lugar especial nas artes mágicas e nas tradições espirituais há milénios. Ao mesmo tempo fonte de luz e instrumento ritual, serve de ponte entre o mundo material e o mundo espiritual. Exploração e usos.
Usos antigos
O uso das velas remonta à Antiguidade. As primeiras formas de velas consistiam em tochas rudimentares: os antigos egípcios mergulhavam juncos em gordura ou cera para criar lâmpadas primitivas. Os romanos aperfeiçoaram a técnica desenvolvendo a vela à base de cera de abelha, mais pura e menos odorífera que a gordura animal. Estas velas antigas eram usadas não só para iluminação, mas também em ritos religiosos: os gregos acendiam círios em cerimónias dedicadas a Ártemis (deusa da lua e da luz) e os romanos ofereciam velas às divindades domésticas.
Na Índia e na Ásia, usavam-se sobretudo lâmpadas de óleo (os diyas de barro) nos rituais sagrados, mas a intenção era a mesma: honrar o divino pela chama. De facto, quase todas as civilizações reconheceram na chama um poder místico: queimar é transformar e purificar. Acender uma vela é invocar uma mudança ou chamar uma presença espiritual.
Símbolo divino na Idade Média
Na Idade Média europeia, a vela assume uma dimensão espiritual central, especialmente no contexto do cristianismo. A luz tremeluzente dos círios encarna a presença de Deus: cada chama representa simbolicamente a «luz de Cristo» ou o sopro do Espírito Santo que ilumina as almas. As igrejas medievais, nomeadamente as catedrais góticas, eram iluminadas por círios durante as missas e cerimónias, tornando a vela um objeto sagrado. Obter círios de qualidade (em cera de abelha, fornecida pelos mosteiros) era mesmo uma arte artesanal, dada a forte procura para o culto.
Paralelamente aos usos litúrgicos, o povo e os praticantes de magia popular também incorporam as velas nos seus costumes. Nas tradições europeias, atribuem-se às velas poderes de adivinhação e protecção. Observava-se a forma como a chama queimava para ler presságios: a direcção do tremeluzir podia anunciar bom tempo ou tempestade, uma chama clara e estável augurava sorte, enquanto uma chama que vacila ou projeta sombras invulgares podia ser interpretada como um sinal nefasto ou o anúncio de uma morte. Na Bretanha ou na Escócia, um costume dizia que se uma vela se apagasse sozinha, isso significava a presença de um espírito na divisão. Muitas superstições medievais ligavam assim intimamente a pequena chama ao mundo invisível.
Ritos de luz e protecção
Várias tradições europeias ilustram o papel protector e sagrado das velas. A festa da Candelária (2 de fevereiro) é emblemática: originária de ritos de purificação romanos e depois cristianizada, esta festa da « Apresentação no Templo » é marcada pela bênção dos velões. As velas benzidas da Candelária eram antigamente guardadas com cuidado em casa como verdadeiros talismãs. Acendiam-se em grandes perigos para invocar a protecção divina. Da mesma forma, no campo, estes velões sagrados serviam para benzer as sementes na primavera para garantir boas colheitas, ou ainda para vigiar os doentes e os moribundos, rodeando-os de luz sagrada.
A vela também desempenha um papel na magia popular de desfeitiço e maldição. Menos conhecido, os mesmos velões benzidos podiam ser usados em rituais de bruxaria. Um costume relatado na Bigorre (sudoeste de França) no século XIX mostra como a fronteira entre devoção e feitiço era ténue: mulheres enganadas pelos maridos espetavam alfinetes em forma de cruz numa vela da Candelária, depois iam queimá-la à meia-noite numa encruzilhada. Pensava-se que, à medida que a cera derretia sob a chama, o marido infiel definhava por sua vez, vítima de um feitiço de vingança. Inversamente, acreditava-se que acender velas benzidas ao redor da cama de um doente podia absorver a sua doença – a chama carregando todos os males antes de se apagar, marcando então a cura esperada.
Do grimório às tradições populares
Na Renascença e na época moderna, a simbologia da vela enriqueceu-se ainda mais. Os grimórios de magia cerimonial dos séculos XVII e XVIII detalham o uso de velas específicas nos rituais: aí encontra-se a receita da sinistra Mão de Glória. Este talismã europeu consistia na mão cortada de um enforcado, usada como castiçal para uma vela feita com a gordura do mesmo condenado. A lenda afirma que, quando acesa, imobilizava todas as pessoas presentes exceto o portador, facilitando roubos noturnos, e que só podia ser apagada com leite.
Além disso, ao longo dos séculos, acender velas manteve-se um gesto ritual enraizado na vida quotidiana. Pensemos nas velas de aniversário: este costume europeu tem as suas origens na Grécia antiga (homenagem a Ártemis) ou em práticas medievais, e perdura hoje em dia sob a forma de um pequeno ritual de desejo (faz-se um pedido ao soprar a vela). Da mesma forma, acender uma vela no peitoril da janela na noite de Todos os Santos (véspera do Dia dos Mortos) era, nas Ilhas Britânicas, uma forma de guiar as almas errantes – uma tradição que evoluiu mais tarde para a lanterna de abóbora do Halloween.
Tipos de velas e formas rituais
Existem muitos tipos de velas, tanto pela sua forma como pela sua função, e cada uma encontrou o seu lugar nas práticas mágicas ou espirituais europeias ao longo do tempo. Aqui estão as principais categorias e os seus usos tradicionais:
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Círio de altar e vela clássica: o círio é a vela longa de cera de abelha, não tingida (branca ou marfim), usada tradicionalmente nas igrejas. A sua queima lenta e a chama clara fazem dela o símbolo da oração contínua. Para além da Igreja, as velas clássicas eram aquelas usadas antigamente para iluminar as casas. Na magia popular, uma vela nova podia representar uma pessoa ou servir de suporte neutro para qualquer tipo de feitiço. Os grimórios medievais recomendavam frequentemente o uso de círios em “cera virgem” (ou seja, novos e em pura cera de abelha) para garantir a pureza do ritual.
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Velas votivas e velas de presença: são pequenas velas, contidas num copo ou recipiente. Na tradição católica, acendem-se por um santo ou pelos falecidos (daí o nome “vela de presença”, pois simbolicamente vela pela alma). No esoterismo, as velas votivas são valorizadas para rituais de curta duração ou para dedicar a uma intenção específica. Geralmente queimam em poucas horas.
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Velas de novena: maiores que as velas de vigília, são velas vertidas num grande copo colorido ou decorado com a imagem de um santo, feitas para queimar durante cerca de nove dias consecutivos. Muito presentes no culto católico popular (novenas aos santos, orações à Virgem, etc.), também foram adotadas na magia contemporânea. A sua queima prolongada faz delas um suporte ideal para pedidos que exigem perseverança. Derivada da devoção cristã, a vela de novena tornou-se assim uma ferramenta mágica versátil, usada tanto pelos fiéis como pelos praticantes de feitiçaria que a carregam com intenções protetoras ou curativas ao longo do tempo.
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Velas tingidas em massa rituais: tornou-se fácil tingir a cera e fabricar velas de todas as cores. Isso permitiu o desenvolvimento de uma magia das velas baseada nas correspondências de cor. Historicamente, os magos ou bruxas tinham de ser astutos: podiam, por exemplo, tingir superficialmente uma vela (com tinta natural ou envolvendo-a num tecido da cor desejada) para integrar a simbologia das cores nos seus feitiços.
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Velas figurativas (dagydes): na magia tradicional, por vezes utilizam-se velas com uma forma particular para reforçar a ligação com o alvo ou a intenção. Uma dagyde é uma efígie mágica que representa uma pessoa – pode ser feita de cera. Fabrica-se então uma pequena figura humana em cera, que se acende como uma vela para agir sobre a pessoa visada (este processo é semelhante à famosa boneca vaudou, exceto que aqui a efígie é consumida pelo fogo). Relatos de julgamentos por feitiçaria mencionam bruxas que moldavam imagens em cera das suas vítimas para as amaldiçoar, fazendo-as derreter lentamente. Estas velas figurativas concentram o símbolo e permitem uma magia de simpatia muito direta: o que é feito à figura (derreter, queimar, espetar com alfinetes,…) atinge o alvo real por efeito mimético.
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Velas com secções ou com múltiplos pavios: algumas tradições usam velas particulares como a vela de sete nós (uma vela longa com nós dividida em sete segmentos) ou a vela com vários pavios. A vela de sete nós, popular sobretudo nas práticas afro-caribenhas e sul-americanas (vaudou, Santería, hoodoo), consiste em queimar um nó por dia acompanhando a combustão com orações específicas – é uma variante numerada da novena, o número 7 sendo mágico.
Cores das velas e as suas correspondências simbólicas
Um dos aspetos mais conhecidos da magia das velas é a atribuição de significados às cores. Cada cor emite uma vibração particular e está associada a certas energias, emoções ou áreas da vida. Desde o final da Idade Média, os feiticeiros e curandeiros europeus usavam elementos de cores simbólicas – aparecem em algumas receitas menções a velas brancas ou pretas conforme o objetivo: a branca para rituais benéficos, a preta para conjurações ou banimentos. Mais geralmente, a simbologia das cores aplicou-se naturalmente às velas quando a técnica permitiu colorir-las.
Aqui estão as grandes famílias de cores e as suas correspondências geralmente aceites na prática das velas mágicas (nomeadamente na Europa):
| Branco | Cor da pureza, do sagrado e da luz espiritual. Uma vela branca serve para qualquer ritual de purificação, paz, elevação espiritual ou oração. É também uma cor neutra e versátil: uma vela branca pode substituir qualquer outra se não houver disponível, pois contém em si o espectro completo das cores. Tradicionalmente, acende-se para invocar a proteção divina, a sinceridade, a verdade. (Na Igreja, todas as velas do altar são brancas ou marfim para simbolizar Cristo). |
| Preto | Ao contrário do que se pensa, o preto nem sempre é “maléfico” na magia, mas está associado ao mistério, à absorção e ao banimento das energias. Uma vela preta serve para afastar a negatividade, quebrar um feitiço (daí o seu uso em desfeitiçoamento), ou para trabalhar a sua sombra (explorar os seus medos, os seus bloqueios). Também pode, em certas tradições, facilitar a comunicação com o além ou os espíritos (pois o preto representa o véu noturno entre os mundos). |
| Vermelho | Cor do sangue, do fogo, da vida – é o tom da paixão e da força vital. A vela vermelha é indicada para trabalhos relacionados com o amor carnal, sexualidade, fertilidade ou simplesmente para insuflar coragem e energia. Na magia ocidental, o vermelho simboliza também a vitória, o triunfo (fala-se de magia vermelha para rituais de amor ou dominação passional). Atenção, o vermelho sendo muito poderoso, é usado para estimular e não para acalmar: não se escolhe para um ritual de paz ou cura suave. Historicamente, o vermelho vivo era uma cor cara – reservava-se o seu uso para coisas importantes, daí a sua forte associação simbólica ao poder e ao amor ardente. |
| Rosa | Variante mais suave do vermelho, o rosa está ligado ao amor romântico e afetuoso, à doçura, à amizade, à reconciliação. Uma vela rosa serve para atrair uma relação harmoniosa, favorecer a ternura num casal ou trabalhar a autoestima e o amor universal. Tradicionalmente, o rosa também evoca a feminilidade (no seu aspeto amoroso e protetor). Usa-se frequentemente em orações ou feitiços para amolecer uma situação conflituosa ou para curar feridas emocionais. |
| Azul | Cor do céu e da água, o azul está associado à serenidade, cura e verdade. As velas azuis (especialmente o azul claro) acendem-se para favorecer a paz interior, a meditação, a cura física ou emocional e a proteção tranquila. Um azul profundo pode também ser usado em assuntos jurídicos ou administrativos, simbolizando a justiça e a sinceridade. |
| Verde | Símbolo da natureza, do crescimento, da abundância. Uma vela verde é a ferramenta privilegiada para rituais de prosperidade financeira, sucesso material ou fertilidade (crescimento das colheitas, gravidez desejada). Usa-se para atrair dinheiro, melhorar a carreira ou ainda para favorecer a cura do corpo (na magia das cores, o verde é a cor da cura física porque representa o equilíbrio natural). Nas zonas rurais da Europa, o verde era a cor dos espíritos da vegetação: queimar uma vela verde era uma oferenda às forças da terra para que fossem generosas (colheitas, gado,...). |
| Amarelo / Ouro | Cores solares por excelência. O amarelo e o dourado simbolizam o sucesso, a glória, a criatividade mental. Uma vela amarelo vivo serve para estimular o intelecto, a comunicação, a alegria de viver. Escolhe-se para trabalhos relacionados com o sucesso em exames, obtenção de emprego (o amarelo está ligado ao domínio profissional e a Mercúrio, planeta da inteligência e do comércio), ou simplesmente para atrair sorte. As velas douradas (cor ouro) são ainda mais poderosas no plano espiritual: representam a bênção divina, a riqueza e a iluminação. Em algumas práticas esotéricas, o ouro é a cor da conexão ao divino (por analogia ao Sol, fonte de vida). Acender uma vela dourada é um pouco como “colocar todas as hipóteses do seu lado” e invocar as forças celestes para que apoiem o nosso pedido. |
| Cinzento / Prateado | O cinzento é uma cor de neutralidade e transição. Uma vela cinzenta pode servir para rituais de banimento moderado ou de calma após a tempestade. Diz-se que ajuda a dissipar o mal sem agressividade, a neutralizar as energias negativas suavemente. O prateado, por sua vez, está associado à Lua: uma vela prateada é usada para clarividência, intuição psíquica, trabalho com sonhos, ou apoio às orações (considera-se uma cor “receptora” que amplifica os pedidos feitos aos espíritos). Em certos rituais, acende-se uma vela prateada em complemento a outras velas para acelerar a realização do desejo no domínio espiritual. |
| Roxo / Púrpura | Estas tonalidades, outrora reais e sagradas, estão ligadas à espiritualidade, sabedoria e poder psíquico. Uma vela roxa favorece a meditação profunda, a cura kármica, a conexão com planos superiores. Usa-se para desenvolver as capacidades intuitivas, para pedir conselhos aos guias espirituais, ou para reforçar a autoridade (sobre si próprio ou sobre uma situação). O roxo combina o fogo do vermelho e a espiritualidade do azul, por isso é frequentemente recomendado para tudo o que envolve a transmutação de uma situação negativa em experiência positiva. Historicamente, o roxo sendo a cor litúrgica da penitência e do mistério (usada durante o Advento e a Quaresma na Igreja), o seu uso mágico reveste-se de uma conotação de seriedade e profundidade. |
| Castanho | Cor da terra bruta, associa-se o castanho à estabilidade, à proteção do lar e dos bens materiais. Acender uma vela castanha pode ajudar a encontrar objetos perdidos (existe esta tradição em algumas zonas rurais de que o castanho “enraíza” a intenção e permite fazer regressar o que falta). Usa-se também para animais domésticos e para a casa: é uma cor de ancoragem, de ligação à terra mãe. Em alguns grimórios, uma vela castanha servia para feitiços destinados a resolver problemas domésticos ou fundiários (vendas de terrenos, fertilidade do gado,...), tudo o que toca ao património concreto. |
Obviamente, existem muitas variações (alguns praticantes distinguem o azul celeste do azul real, o vermelho do bordô,...). Mas as correspondências acima cobrem os grandes eixos simbólicos reconhecidos. Deve notar-se que estas correspondências de cores, embora difundidas, não são dogmáticas: segundo as tradições locais ou pessoais, podem existir diferenças.
Preparação ritual das velas: unção, gravações e consagração
Uma vela não é um simples objeto inerte no contexto mágico: considera-se que antes de a acender, deve prepará-la e consagrá-la para a carregar de energia e ligá-la à intenção perseguida. Os grimórios antigos, assim como as práticas modernas, insistem neste tempo de preparação que multiplica a eficácia do ritual.
A purificação inicial
Tradicionalmente, usa-se sempre uma vela nova para um dado ritual, para que nenhuma influência anterior interfira. Antes de a trabalhar, pode purificá-la simbolicamente – passando-a pela fumaça de um incenso purificador (incenso pontifício, sálvia, benjoim,...), ou aspergindo-a com um pouco de água benta. Isso equivale a “apagar” toda energia residual e a declarar que esta vela servirá doravante a um propósito sagrado.
A unção (ou “preparação” da vela)
A unção consiste em untar a vela com óleo consagrado ou com um óleo apropriado à intenção. Este gesto tem um forte valor simbólico: ungir é abençoar e carregar o objeto, como se faz com uma pessoa (pensa-se na unção dos reis ou dos sacerdotes). Na magia das velas, usam-se óleos de unção compostos por misturas de óleos essenciais, plantas maceradas,..., possuindo virtudes correspondentes ao ritual. Para proceder corretamente, deve esfregar a vela com o óleo numa direção precisa que reflita a intenção:
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Se se quiser atrair algo para si (amor, prosperidade, sucesso, ...), unte-se a vela de cima para baixo. Isso significa começar pelo topo da vela (lado do pavio) e descer até à base, como para fazer “descer” sobre nós as bênçãos ou concretizar na terra o desejo formulado.
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Se se quiser banir ou afastar uma influência (doença, má sorte, entidade negativa, ...), faz-se o contrário: unte-se de baixo para cima, da base para o pavio, para repelir o mal para fora, para cima e fora da nossa esfera.
Concretamente, pode-se colocar uma gota de óleo na palma da mão ou nos dedos e massajar a vela no sentido desejado. Alguns recomendam usar a mão direita para ungir do centro para cima, e a mão esquerda do centro para baixo para impregnar bem toda a superfície. O essencial é visualizar durante esse tempo que se “enche” a vela com a nossa energia e a intenção desejada. A unção tem como objetivo consagrar a vela a um propósito específico.
As gravações e inscrições
É comum gravar símbolos, sigilos, palavras ou números na cera da vela antes de a acender. Mais uma vez, a ideia é personalizar e focar a energia. Pode-se usar uma ponta (punção, agulha, athamé,...) para escrever o nome de uma pessoa na vela (útil se a vela representar alguém no ritual), ou para traçar símbolos (pântaculos, pentagrama, cruz, signos do zodíaco, sigilos mágicos). Nas tradições hoodoo e vodu, grava-se o pedido ou o desejo diretamente.
Em algumas práticas europeias, escreve-se o pedido num pequeno pergaminho de papel que depois se cola na vela ou se insere dentro da cera. Um método tradicional consiste, se a vela for suficientemente larga ou se se fizer a vela em casa, em desenrolar a folha de cera (para velas de cera enrolada) e escrever o desejo no interior antes de a voltar a enrolar. Isso “esconde” simbolicamente a intenção no coração da vela que, ao queimar, libertará essa intenção no universo.
A carga e a consagração
Uma vez que a vela está ungida e gravada, está pronta para ser carregada. A carga consiste em insuflar nela a sua energia mental e espiritual. O mais simples é segurar a vela entre as duas mãos, fechar os olhos e concentrar-se intensamente no objetivo. Em certas tradições, abençoa-se a vela com os quatro elementos: passa-se pelo incenso (Ar), deixa-se cair água benta sobre ela (Água), passa-se pela chama de outra vela sagrada ou toca-se com um carvão ardente (Fogo), e esfrega-se com sal ou toca-se na terra (Terra). Estes rituais de consagração variam, o importante é considerar que a vela já não é um simples círio decorativo, mas sim um instrumento mágico dedicado.
A acção ritual
A forma de acender a vela também é importante. Tradicionalmente, usam-se fósforos de madeira em vez de um isqueiro moderno, por respeito pelo elemento fogo (o enxofre do fósforo também traz um toque de purificação). Pode-se também acender uma vela piloto (um círio) e usá-la para acender as outras velas do ritual, em vez de riscar vários fósforos.
Consoante a situação, por vezes acendem-se as velas numa ordem precisa (nomeadamente nos rituais onde várias velas de cores diferentes são dispostas segundo os pontos cardeais ou os elementos). É importante manter a concentração e o respeito pelo fogo: em certas tradições, considera-se a chama como uma manifestação de um espírito do fogo (uma salamandra, ou o Espírito Santo na visão cristã). Por conseguinte, evita-se “profaná-la” com gestos bruscos ou irreverentes.
A extinção
Uma regra de ouro na magia das velas: nunca soprar para apagar uma vela ritual. De facto, soprar com a boca é interpretado como uma falta de respeito pelo elemento Fogo, e sobretudo como o risco de dispersar a energia mágica que acabou de ser projetada. Apagar a vela com um sopro poderia “afastar” o espírito ou anular o trabalho realizado. Prefere-se, portanto, usar um apagador (pequeno cone numa haste) para cobrir a chama até que ela se apague por falta de oxigénio, ou beliscar o pavio entre dois dedos molhados para o esterilizar. Aliás, em muitos rituais recomenda-se deixar a vela consumir-se completamente em vez de a apagar, especialmente se for uma vela pequena. Deixar a vela queimar até ao fim significa que o trabalho foi concluído e que a oferta foi totalmente entregue às forças invocadas. Se a vela tiver de ser apagada (por segurança ou porque é de longa duração), faz-se isso sem sopro.
Interpretar a chama ou a piromancia das velas
Entre as artes divinatórias ligadas às velas, a leitura da chama ocupa um lugar especial. Já na Antiguidade praticava-se a licnomancia (divinação pela chama de uma lâmpada de óleo). Com as velas, esta prática tornou-se acessível a todos e foi transmitida. Observar o comportamento da chama de uma vela durante um ritual ou oração pode fornecer indicações sobre as influências presentes e o sucesso potencial da operação. Aqui estão algumas interpretações tradicionais comuns na piromancia das velas:
| Chama estável e clara | Se a chama queima direita, sem oscilar e sem fumo, geralmente é um bom sinal. Interpreta-se como uma validação da intenção. O caminho está livre, a energia circula bem. Em linguagem de bruxa: a sua intenção está alinhada, a energia responde positivamente. A chama estável significa muitas vezes que a presença invocada (anjo, santo, espírito) é favorável e ouve a oração. |
| Chama que oscila ou dança constantemente | Uma chama que se move em todas as direções, mesmo sem uma corrente de ar notável, sugere que há agitação no plano invisível. Diz-se que uma entidade (espírito, falecido,...) pode estar presente e reage ao chamado. Isto pode ser interpretado de duas formas dependendo do contexto: ou o espírito está a ajudar e manifesta-se pela chama que dança, ou há uma instabilidade no pedido (emoções contraditórias, ou obstáculos energéticos). De qualquer forma, uma chama muito móvel indica que “algo” está a acontecer para além do visível. |
| Chama que oscila apenas por momentos | Se a vela brilha calmamente e por vezes a chama começa a tremer ou a inclinar-se fortemente, deve-se observar o momento exato pois provavelmente é uma mensagem pontual. |
| Chama alta e viva, que cresce | Quando a chama está claramente mais alta do que no início, parecendo crescer em intensidade, é considerado um sinal muito favorável que indica uma forte presença mágica. Isso significa que a energia invocada está realmente presente e apoia fortemente o ritual – o seu pedido tem grandes hipóteses de se concretizar rapidamente, impulsionado por esta chama vigorosa (diz-se por vezes que a chama “devora” avidamente os obstáculos). |
| Chama fraca ou pequeno ponto incandescente | Pelo contrário, se a chama for muito pequena, custa a acender ou reduz-se a uma brasa no pavio sem realmente subir, é porque o momento não é propício. A resposta pode ser negativa ou atrasada. Recomenda-se nesse caso apagar a vela (respeitosamente) e reiniciar o ritual noutro momento, pois uma chama fraca indica ou falta de energia (não está suficientemente concentrado ou o ambiente é desfavorável), ou uma resposta de recusa por parte das forças invocadas. |
| Chama que oscila e emite ruídos (estalidos, crepitar) | Uma chama que estala fazendo pequenos ruídos sugere que há resistência. Diz-se na tradição que isso expressa “interferências” ou emoções intensas não controladas. Se fizer um ritual de proteção e a chama estalar muito, pode ser um sinal de que uma energia negativa está a tentar opor-se ou que a pessoa a proteger está rodeada de muitas perturbações. Não é necessariamente mau, mas indica que o trabalho está em curso de limpeza ativa. |
| Presença de fumo excessivo | Se a vela soltar muito fumo (fumo negro que sobe do pavio) no início, pode significar que há energias negativas a serem expulsas – o fumo negro representa esse mal que se dissipa. Por outro lado, se a vela começar a soltar fumo no meio do ritual sem razão, isso às vezes é interpretado como uma mensagem. |
| Vela que se apaga sozinha | Este é provavelmente o sinal mais claro. Se, apesar de todas as precauções (sem corrente de ar, pavio com comprimento correto), a vela se apagar antes de se consumir totalmente, isso indica que o ritual termina abruptamente. Existem duas interpretações principais: ou “a mensagem foi bem recebida” pelas forças invocadas, e por isso a vela se apaga porque não é necessário queimar mais (caso favorável), ou, pelo contrário, a ação mágica está bloqueada ou recusada, e a chama que morre simboliza um fracasso ou uma rejeição. Para saber de que lado se está, é preciso confiar na intuição e no contexto. |
Claro que a interpretação da chama é uma arte subtil. Não se trata de cair em superstições exageradas por qualquer tremor. É antes uma leitura simbólica, um diálogo com o invisível. Muitos fatores físicos (qualidade do pavio, corrente de ar, composição da cera) podem influenciar a chama, por isso é preciso ter discernimento.















