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Do uso do sal na magia

Do uso do sal na magia

NO ÍNDICE...

 

1. O sal na magia e bruxaria europeia
2. O sal na magia xintoísta
3. O sal no Vodu haitiano e no Hoodoo (conjuração afro-americana)
4. O sal na Santería (Cuba) e no Candomblé (Brasil)


Desde sempre, o sal é uma das ferramentas mais poderosas usadas na magia. Ao mesmo tempo protetor, purificador e por vezes até destruidor, atua como uma barreira natural contra o que é nocivo. Simples na aparência, contém uma força bruta que os praticantes sabem reconhecer e colocar ao serviço dos seus rituais. Um tour pelo mundo dos seus usos.

1. O sal na magia e bruxaria europeia

Na magia europeia tradicional, o sal ocupa um lugar central como agente de purificação e proteção. Várias formas de sal são usadas; o sal grosso (sal marinho não refinado) é preferido para traçar círculos de proteção ou realizar rituais de banimento, enquanto o sal-gema (cristais de sal de rocha) é valorizado em rituais mais profundos pela sua pureza simbólica. Desde a Antiguidade, atribuem-se ao sal virtudes purificadoras e apotropaicas, daí o seu uso difundido nas tradições europeias. Era aconselhado levar consigo alguns grãos de sal grosso e lançar uma pitada sobre o limiar da porta para impedir que um feiticeiro mal-intencionado entrasse na casa. Da mesma forma, na Bretanha, fazia-se levar aos recém-nascidos um saquinho contendo um número ímpar de grãos de sal marinho, para os proteger do Maligno e garantir-lhes felicidade e prosperidade.

As intenções associadas ao uso mágico do sal na Europa são principalmente a proteção contra o mal, a purificação de pessoas ou lugares, bem como o banimento de influências nefastas. Assim, era comum depositar uma pitada de sal em cada canto de uma divisão antes de um ritual, primeiro na Europa, e que foi mesmo transmitido às tradições afro-americanas posteriormente. Por precaução, tocar no sal podia proteger do mau-olhado ou da feitiçaria: «as qualidades purificadoras do sal são conhecidas desde a Antiguidade… dispersam-se algumas pitadas no limiar das portas para impedir [o feiticeiro] de entrar, e leva-se sal consigo para tocar em caso de encontro suspeito». Em meio rural, traçava-se um círculo de sal em redor de uma cama ou de uma casa para criar uma barreira contra espíritos ou malefícios. Derramar sal por acidente era, por outro lado, visto como um mau presságio – daí o hábito bem conhecido de lançar uma pitada de sal por cima do ombro esquerdo para afastar o diabo que lá pudesse estar.

Do uso do sal na magia


Várias receitas tradicionais envolvem o sal. Nas zonas rurais europeias, fabricava-se água lustral misturando sal bento com água benta, criando assim uma água sagrada usada para benzer e purificar (este costume católico deriva das lustrations greco-romanas com sal). Os banhos de purificação com sal também são atestados há muito tempo: lavar-se com água salgada ou em fontes salinas era considerado capaz de remover a má sorte e as impurezas invisíveis. Ainda hoje, muitos praticantes neopagãos ou bruxos modernos aconselham o banho ritual com sal grosso para limpar a aura e dissipar energias negativas. Uma preparação notável é o sal negro de bruxa, uma mistura de sal com cinzas ou carvão. Originário do hoodoo afro-americano, este sal negro integrou-se na bruxaria europeia contemporânea: serve para afastar o mal ou proteger o lar quando se polvilha o limiar, podendo até ser usado em rituais de devolução ao remetente.

Por fim, a simbologia do sal na magia europeia é ambivalente: se protege o justo, atormenta o maléfico. Esta crença reflete-se em lendas onde lançar sal nas costas de uma bruxa a impediria de voar, ou onde os demónios não suportam a pureza incorruptível do sal. Assim, o sal europeu representa a pureza incorruptível (impede a podridão) e a sabedoria divina, qualidade que «absorve e seca» o mal.

2. O sal na magia xintoísta

Na tradição Shintō do Japão, o sal é um elemento ritual fundamental, associado à purificação (harai). Os sacerdotes xintoístas consideram, de facto, que o sal, a água e o fogo são os principais agentes purificadores durante as cerimónias. O sal usado é tipicamente sal marinho natural (frequentemente sal grosso não refinado chamado shio), em consonância com a importância espiritual do mar na cultura japonesa. Também se encontra sal-gema em algumas regiões, mas é o sal marinho puro que simboliza a limpeza ritual. O shiobana (sal oferecido) e o morishio (sal amontoado em cone) são manifestações comuns.

As intenções ligadas ao sal xintoísta são quase exclusivamente a purificação e a proteção contra impurezas (kegare) e maus espíritos. Antes das cerimónias, é costume proceder ao shubatsu, uma aspersão de sal purificador. Durante os funerais, os participantes aspergem-se a si próprios com sal purificador (kiyomé-shio) antes de regressar a casa, para afastar os maus espíritos da morte e não trazer impureza funerária para o lar. Este gesto mantém-se praticado no Japão contemporâneo, mesmo por pessoas não particularmente religiosas, tal é a sua enraizamento nos costumes. Da mesma forma, no sumo (desporto impregnado de ritual xintoísta), os lutadores lançam sal no círculo sagrado (dohyō) antes do combate para o purificar e afastar qualquer influência nefasta. O praticante xintoísta realiza estes ritos para recriar a pureza original necessária ao contacto com o divino (os kami).

Do uso do sal na magia

Círculo sagrado dohyō. Fonte: Japan Treasure

Os usos específicos do sal no Shintō são numerosos. O mais visível é a prática do Morijio (ou mori-shio, literalmente «monte de sal»). Pequenos cones de sal branco são colocados à entrada das casas, lojas tradicionais, restaurantes ou mesmo locais de entretenimento. Segundo a lenda, este costume teria origem numa história chinesa que chegou ao Japão na época Heian: um imperador deslocava-se numa carruagem puxada por bois que paravam voluntariamente diante das estalagens que tinham sal à porta, o que foi interpretado como um presságio de prosperidade para esses estabelecimentos. Hoje em dia, os montículos de sal colocados de cada lado de uma porta têm uma dupla função: atrair boa sorte (fazer vir clientes) e sobretudo afastar impurezas e infortúnio do limiar. Um morijio fresco e imaculado na entrada é visto como sinal de que se cuida para manter o espaço saudável e purificado para os visitantes. Também se encontra sal nas oferendas no altar doméstico (kamidana), ao lado do saké e do arroz, simbolizando a purificação da oferenda.

Entre as receitas rituais, destacam-se os banhos de sal (shio-buro) e as abluções salgadas. Algumas práticas inspiradas no shintō consistem em tomar um banho quente no qual se dissolveu sal marinho, ou melhor, em banhar-se diretamente na água do mar para se purificar corporal e espiritualmente. O sal, combinado com a água (dois elementos purificadores por excelência), absorve as energias impuras «como uma esponja» e restaura a pureza original. Assim, o fiel pode fazer uma simples lavagem das mãos com água salgada antes de rezar, ou queimar uma mistura de sal e plantas sagradas para fumigar um espaço e afastar o mal. Estas práticas persistem: muitas famílias japonesas mantêm o hábito de colocar uma pequena tigela de sal na entrada ou de se purificar com sal após eventos ligados à morte (hospitais, funerais).

3. O sal no Vodu haitiano e no Hoodoo (conjuração afro-americana)

Nas tradições afro-caribenhas e afro-americanas, o sal manteve um papel igualmente crucial, herança tanto das influências europeias como africanas. No Vodu haitiano, o sal é ambivalente: é símbolo de vida consciente e humanidade, tanto que nas tradições haitianas conta-se que um zumbi (morto-vivo enfeitiçado) recuperará a alma ao provar sal. O sal é visto como antídoto contra encantamentos maléficos – a ausência de sal na alimentação das vítimas supostamente mantém-nas num estado de submissão zumbi. Mais amplamente, os praticantes do Vodu usam o sal pelas suas virtudes de proteção espiritual. Encontra-se em algumas oferendas aos loa (divindades vodu) e sobretudo nos banhos rituais chamados banhos de ervas ou banhos de descarga (despojo em crioulo), onde se adiciona frequentemente sal grosso e plantas para purificar uma pessoa das más influências. O sal pode também ser espalhado no limiar da casa ou nos quatro cantos de uma divisão durante um rito de limpeza espiritual. Estes usos são próximos dos observados na África Ocidental (ritos do sal entre os Yorùbá, por exemplo) e no catolicismo (água benta salgada), refletindo o sincretismo do Vodu haitiano.

Do uso do sal na magia


O Hoodoo integrou o sal de forma muito sistemática. Herdeiro das tradições congolesas, yoruba e europeias, o hoodoo usa o sal para proteção, desfeitiçamento (uncrossing) e quebra de feitiços. Catherine Yronwode, especialista em hoodoo, nota que «o sal – seja sal de mesa, sal marinho ou sal kosher – tem uma longa história nos rituais de purificação, proteção mágica e bênção». Uma prática comum entre os rootworkers (conjuradores) consiste em colocar uma pitada de sal em cada canto da divisão antes de realizar um trabalho espiritual. Para os banhos de desfeitiçamento, mistura-se quase invariavelmente uma mão cheia de sal grosso na água do balde, com outros ingredientes protetores como salitre, pimenta preta ou ervas específicas. Lavar-se durante nove dias seguidos com um banho de água salgada e plantas, e depois deitar a água ao nascer do sol, constitui uma receita clássica para livrar-se de um feitiço lançado (trick).

No hoodoo, o sal serve também em pós e gris-gris. O famoso pó Hot Foot destinado a afastar um inimigo contém sal misturado com pimenta vermelha, enxofre e azul de metileno. Esta combinação ardente e salgada tem o poder de «pôr fogo nos pés» da pessoa visada e expulsá-la de perto de si. Pelo contrário, para proteger o lar, usa-se o sal sozinho: pode traçar-se uma linha de sal à frente da porta, ou colocar uma pitada nos peitoris das janelas para criar um escudo invisível contra os malefícios. O sal negro é também muito usado no hoodoo, chamado “Voodoo Salt” ou “Drive-Away Salt”. Fabricado misturando sal com cinzas, carvão vegetal ou restos de fogueira, este sal negro serve para banir pessoas indesejadas ou para devolver o mal. A sua popularidade espalhou-se para além do hoodoo, tornando-se um ingrediente clássico da bruxaria moderna e da Santería (onde é chamado sal negra).

Por fim, nas tradições afro-diaspóricas encontram-se receitas de pós da sorte contendo sal. Uma preparação latina chamada «sal de cascavel» (Rattlesnake Salt) incorpora sal misturado com pele de serpente seca e moída; diz-se que traz longevidade e protege o comércio ou a casa. Da mesma forma, muitos limpadores espirituais contêm sal diluído em água com vinagre ou amoníaco, para limpar energeticamente um local. A omnipresença do sal nestas práticas mostra a sua importância multissecular: é um elemento barato, naturalmente purificador e carregado de uma poderosa simbologia de preservação da vida, cujo poder de afastar o mal é reconhecido tanto pelos sacerdotes vodu como pelos feiticeiros hoodoo.

4. O sal na Santería (Cuba) e no Candomblé (Brasil)

Nas religiões afro-caribenhas e afro-brasileiras que são a Santería (ou Regla de Ocha) em Cuba e o Candomblé no Brasil, encontra-se também o uso ritual do sal, embora nuançado pelo contexto tropical e pela cosmologia yoruba. Estes cultos, derivados em grande parte da religião yorùbá e do catolicismo, consideram o sal como um elemento a manusear com precaução. De facto, alguns orisha (divindades) apreciam oferendas salgadas, enquanto outros as recusam – na Santería cubana, Yemayá (deusa do mar) está ligada à água salgada e às oferendas marinhas, enquanto Oshún (deusa da água doce) prefere o doce e rejeita o sal.

No entanto, o sal é globalmente visto de forma positiva como símbolo de pureza e força vital proveniente do mar. A tradição yorùbá atribui ao sal uma importância central nos rituais para se proteger e libertar das energias negativas, exaltando a sua capacidade de absorver vibrações indesejadas como um escudo natural contra qualquer feitiço maléfico. Assim, no Brasil, é muito comum tomar banhos de sal grosso (banho de sal grosso) para descarregar o mau-olhado ou o encosto (espírito grudado). Um banho típico de Candomblé ou Umbanda consiste em dissolver uma mão cheia de sal marinho na água do balde, com ervas de purificação como arruda ou alecrim, e enxaguar o corpo de cima para baixo com esta preparação, para “cortar” as energias negativas. Este ritual, ainda praticado hoje, insere-se na continuidade dos banhos sagrados africanos (onde se usavam folhas maceradas, água – por vezes do mar – e orações). Da mesma forma, os objetos rituais do culto (colares de contas, ferramentas dos orisha) podem ser purificados em água salgada antes de serem consagrados, para eliminar qualquer influência anterior.

As intenções do sal nestas religiões são a proteção do praticante, a purificação do corpo e dos objetos, e a oferenda às entidades ligadas ao mar. Na Santería, prepara-se o omiero, uma água consagrada às ervas, por vezes adicionada de um pouco de sal e sumo de limão, que serve para batizar os colares sagrados e benzer os altares. No momento de algumas iniciações, o iniciado sofre banhos rituais onde o sal intervém (nem que seja através da água do mar ou da água salgada usada). É notável que nos rituais de Ifá e Santería se pede aos iniciados que observem um período sem consumir sal após a iniciação – para manter um estado de pureza e evitar “fixar” vibrações indesejadas no corpo ainda vulnerável. Este tabu temporário do sal mostra que o consideram potencialmente demasiado “ancorante” ou “carregado” em certos momentos, enquanto noutros é protetor.

Na prática corrente, um fiel do Candomblé pode também recorrer a gestos simples herdados do catolicismo: traçar uma cruz de sal diante da sua porta, ou deixar um pratinho de água salgada debaixo da cama para neutralizar um feitiço. Estas hibridações resultam do sincretismo – o sal bento do padre católico mistura-se com os cultos africanos. Além disso, as cerimónias do mar, muito populares no Brasil (oferendas a Yemanjá a 2 de fevereiro ou 31 de dezembro), encenam oferendas salgadas: lançam-se no oceano alimentos salgados, joias e champanhe para a “mãe das águas”. O próprio mar salgado é considerado uma entidade purificadora: banhar-se nas ondas na noite de Ano Novo, entre flores brancas, é implorar a Yemanjá que nos limpe dos males do ano passado e nos traga a sua proteção. Aqui encontra-se o motivo universal da água salgada purificadora, que se harmoniza com a visão yoruba onde a água do mar e o sal são dádivas de Olokun/Yemayá para a bênção dos vivos.

Quanto às receitas, destaca-se o pó quente do Palo Monte (Cuba) à base de sal, pimenta e outros ingredientes, usado para expulsar espíritos perturbadores – semelhante ao “hot foot” do hoodoo. Além disso, algumas águas espirituais vendidas nas botánicas (lojas esotéricas latinas) combinam sal e amoníaco: a preparação chamada Espanta Muerto (afasta-mortos) contém sal, vinagre e amoníaco diluídos, usada para limpar casas assombradas. Por fim, nas oferendas afro-caribenhas, coloca-se frequentemente um pequeno prato de sal no altar ao lado de um copo de água – o sal e a água formam juntos um poderoso vetor de purificação (isto lembra a água benta cristã).

Ao longo dos séculos e das culturas, o sal impõe-se como um elemento incontornável nas práticas espirituais e mágicas. Por trás da sua simplicidade aparente, encarna um poder discreto mas incontestável, capaz de purificar, proteger e ligar o humano às forças invisíveis. A sua presença constante nos rituais testemunha a importância universal dada à pureza, à preservação e à salvaguarda contra o que ameaça o equilíbrio dos seres e dos lugares.

Olivier d’Aeternum
Par Olivier d’Aeternum

Apaixonado pelas tradições esotéricas e pela história do oculto desde as primeiras civilizações até ao século XVIII, partilho alguns artigos sobre estes temas. Sou também co-criador da loja esotérica online Aeternum.

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