Se há uma obra a conhecer em magia, são as Clavicules de Salomão (ou Clavicula Salomonis no seu título original). Este conjunto de 120 a 130 manuscritos é atribuído ao rei Salomão, reputado pela sua sabedoria e competências em magia. Estes textos, cujas origens remontam à Idade Média, compilam uma série de rituais, encantamentos, fórmulas mágicas e pentáculos criados para invocar espíritos, comandar forças sobrenaturais e obter diversos efeitos mágicos. O impacto das Clavicules de Salomão na magia é considerável, pois influenciaram grande parte da tradição mágica ocidental, sendo consideradas o texto de referência para muitos ocultistas e magos, principalmente aqueles que praticam talismania. Apresentação.
1. Quem foi o rei Salomão?
O rei Salomão é uma figura bíblica, amplamente reconhecida pelo seu reinado próspero sobre o reino de Israel no século X a.C. Filho do rei David e de Bate-Seba, Salomão é o terceiro rei de Israel, sucedendo ao seu pai. O seu reinado é frequentemente descrito como a idade de ouro de Israel, marcado pela paz, prosperidade e realizações arquitetónicas notáveis, sendo a mais famosa a construção do primeiro Templo de Jerusalém, que se tornou o centro espiritual do povo judeu.
Na Bíblia, Salomão é apreciado pela sua grande sabedoria. Um dos relatos mais famosos sobre essa sabedoria é o julgamento de Salomão, onde ele resolve uma disputa entre duas mulheres que alegavam ser a mãe do mesmo filho, propondo dividir a criança ao meio, revelando assim a verdadeira mãe pela sua reação.

Para além da sua sabedoria e do seu papel como construtor, Salomão está também envolto numa aura mística e esotérica. Segundo as tradições judaica, cristã e islâmica, Salomão possuía conhecimentos ocultos que lhe foram transmitidos pelo próprio Deus. Por exemplo, era capaz de comunicar com espíritos, animais e até de comandar demónios. Este domínio das artes místicas está frequentemente associado ao famoso Selo de Salomão, um anel mágico que, segundo a lenda, lhe conferia esses poderes sobrenaturais.
2. O selo de Salomão
Também chamado Estrela de Salomão, é representado sob a forma de uma estrela de seis pontas (hexagrama), constituída por dois triângulos equiláteros entrelaçados. Segundo a lenda, este selo estava gravado num anel que Salomão usava, permitindo-lhe dominar essas entidades sobrenaturais e realizar atos mágicos. É descrito nomeadamente no Testamento de Salomão, onde Salomão usa o selo para escravizar demónios e obrigá-los a construir o Templo de Jerusalém.
Diz-se que o anel está na tumba do rei Salomão, cujo local é ainda desconhecido (ou foi para sempre perdido).
3. As origens entre mito e realidade
Embora estes relatos sejam largamente míticos, as Clavicules de Salomão são mencionadas pela primeira vez em textos medievais, nomeadamente a partir do século XII, período durante o qual estes manuscritos aparecem como compilações de práticas mágicas codificadas. Segundo a tradição esotérica, Salomão terá compilado estes grimórios para transmitir o seu saber aos seus sucessores ou descendentes.

Existem, de facto, várias versões das Clavicules de Salomão, cada uma resultante das diferentes interpretações tradicionais e linguísticas. Entre as mais conhecidas estão as versões latina, hebraica e italiana, cada manuscrito apresentando variações no conteúdo dos rituais e dos pentáculos. A versão latina, que terá sido compilada por volta do século XIII ou XIV, foi amplamente difundida na Europa. Estas diferenças entre as versões explicam-se pelas adaptações feitas pelos copistas e ocultistas ao longo dos séculos, que frequentemente integraram elementos locais de magia e ocultismo, modificando assim o original para o adaptar ao seu próprio contexto cultural e espiritual.
É também importante saber que esta compilação é parte de uma obra mais extensa dedicada à magia. Enquanto as Clavicules de Salomão se concentram na magia cerimonial e na invocação de espíritos, existem também O Testamento de Salomão (mais narrativo, sobre a demonologia e a forma como Salomão escravizou demónios para realizar tarefas terrenas) e A Pequena Chave de Salomão (uma compilação posterior, mais focada na magia demoníaca, especialmente com o livro Goetia).
4. A estrutura e o conteúdo da obra
As Clavicules de Salomão apresentam-se como um manual prático de talismania, estruturado em várias secções ou livros, cada um tratando de diferentes aspetos da magia e das práticas ocultas. Embora as versões do texto possam variar, a maioria dos manuscritos organiza-se geralmente em dois livros principais:
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O Livro I (geralmente dividido em duas partes) é dedicado às preparações necessárias para realizar os rituais mágicos. Descreve em detalhe as diferentes etapas de purificação do mago, a elaboração das ferramentas rituais (como espadas, pentáculos planetários, incensos) e as condições a respeitar para que as operações mágicas sejam eficazes. Este livro aborda também a criação e consagração dos círculos mágicos, que servem de proteção contra as forças invocadas.
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O Livro II, por sua vez, concentra-se nas invocações e nas fórmulas mágicas propriamente ditas. Contém instruções precisas sobre como invocar, obrigar e banir os espíritos, sejam eles angélicos ou demoníacos. Este livro inclui também uma série de pentáculos, cada um associado a espíritos específicos ou a objetivos particulares, como proteção, riqueza ou cura.
5. A astrologia e a magia planetária
Se planeia estudar esta obra, notará que a maioria dos selos está ligada aos planetas. De facto, na Idade Média e no Renascimento, a astrologia era considerada uma ciência sagrada que revelava as influências dos corpos celestes na vida terrestre. Cada planeta governa certos aspetos da vida humana, emoções, eventos e até forças espirituais. Os planetas são assim vistos como mediadores entre o mundo divino e o mundo terrestre, e a sua influência era considerada determinante na prática da magia.
As Clavicules de Salomão apresentam assim 44 selos, pentáculos (ou mais exatamente pentáculos) ligados a um planeta específico.
6. Os talismãs famosos
Por vezes, os selos desta obra estão diretamente associados a demónios. Embora, de facto, uma parte esteja associada à Goetia, não se trata de uma compilação de talismãs maléficos, mas sim de selos para ajudar a alcançar uma intenção.
6.1. O Primeiro Pentáculo de Saturno

O Primeiro Pentáculo de Saturno é um dos pentáculos mais poderosos das Clavicules de Salomão. Este pentáculo está gravado com um hexagrama central rodeado por nomes divinos, incluindo "YHVH" (o Tetragrama sagrado) e "Adonai". Este pentáculo foi concebido para proteger contra perigos e para afastar espíritos malévolos. Saturno está frequentemente associado à proteção e à estabilidade, e este pentáculo é usado para reforçar a segurança espiritual do praticante.
6.2. O Pentáculo de Marte
O Pentáculo de Marte é outro talismã importante. É usado para invocar o poder de Marte, o deus romano da guerra, e para conferir ao portador força, coragem e proteção nos conflitos. Este pentáculo está gravado com símbolos de Marte, bem como nomes divinos, e é frequentemente usado em rituais destinados a vencer inimigos ou superar obstáculos importantes.
6.3. O Selo de Salomão

Como mencionado acima, o Selo de Salomão (o hexagrama) aparece frequentemente nos pentáculos e talismãs das Clavicules. É usado como símbolo de poder e controlo sobre os espíritos, e aparece frequentemente nos círculos mágicos traçados no chão durante os rituais.
6.4. O Círculo Mágico

O círculo mágico, tal como é usado hoje como círculo de proteção, não foi criado por Salomão, mas as Clavicules de Salomão o codificaram amplamente. Tradicionalmente, é traçado no chão com símbolos sagrados, nomes ou sigilos, formando uma barreira protetora entre o mago e as forças invocadas.
6.5. O Terceiro Pentáculo do Sol
O Terceiro Pentáculo do Sol é usado para obter favores reais, glória e fortuna. Está associado ao poder solar e é gravado com nomes sagrados, bem como com símbolos solares. Este pentáculo é frequentemente usado em rituais destinados a atrair reconhecimento público e a ter sucesso em empreendimentos ambiciosos.
7. De onde vem a tradução atual das Clavicules de Salomão?
As Clavicules de Salomão começaram a circular sob a forma de manuscritos na Idade Média. Naquela época, os textos eram copiados à mão por monges, escribas e eruditos. Estas cópias encontravam-se principalmente em latim, embora existam também versões em hebraico e italiano. Os manuscritos foram frequentemente modificados, complementados ou reorganizados por aqueles que os copiavam, o que levou à existência de múltiplas versões do texto.
Um dos nomes mais associados à tradução e à difusão moderna das Clavicules de Salomão é o de Samuel Liddell MacGregor Mathers, um ocultista britânico. Mathers é sobretudo conhecido pelo seu papel na fundação da Ordem Hermética da Aurora Dourada, uma sociedade secreta (mas famosa) dedicada ao estudo do ocultismo.
Em 1889, Mathers publicou uma tradução em inglês das Clavicules de Salomão sob o título The Key of Solomon the King. Esta versão, baseada em vários manuscritos latinos e franceses, foi uma das primeiras traduções a tornar o texto acessível a um público anglófono. Embora Mathers tenha por vezes reinterpretado ou acrescentado alguns elementos para alinhar o texto com os ensinamentos da Golden Dawn, a sua tradução manteve-se uma referência importante para os ocultistas.
Note-se, no entanto, que estudos e análises continuam a ser realizados para interpretar ou atualizar este texto o mais próximo possível das suas origens.
E aqui fica esta apresentação de um texto fundamental para todos aqueles que se interessam pelas raízes e pelos textos fundadores. Espero que este artigo vos tenha despertado o desejo de explorar mais profundamente estes famosos selos, talismãs e pentáculos!
















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