Ignorar e passar para o conteúdo
AeternumAeternum
Nas origens pagãs da Páscoa

Nas origens pagãs da Páscoa

NO ÍNDICE...

 

1. O equinócio de Ostara ou quando a noite cede ao dia
2. As festas greco-romanas: de Cibele à ressurreição de Átis
3. Uma assimilação progressiva pelo Cristianismo
4. Morte e ressurreição nas religiões antigas
5. Símbolos (quase) intactos
6. E o chocolate nisso tudo?


Cada ano, a Páscoa marca a chegada da primavera com os seus ovos decorados e tradições familiares. Esta festa, associada à ressurreição de Cristo, parece ter origens bem definidas. Contudo, ao olhar mais de perto, vários dos seus símbolos e costumes recordam celebrações muito mais antigas. Por trás dos sinos e dos coelhos de chocolate esconde-se uma história mais vasta, onde se celebra o renascimento.

Se este tipo de tema lhe interessa, pode ler os nossos artigos sobre as origens pagãs da Candelária e as origens pagãs da Epifania.

1. O equinócio de Ostara ou quando a noite cede ao dia

Nas tradições germânicas e anglo-saxónicas, o equinócio da primavera simboliza um momento de equilíbrio onde a luz retoma a vantagem sobre a sombra. Este período de transição está associado a uma divindade chamada Eostre, por vezes grafada Ostara. Conhecida através de fontes medievais, é descrita como uma deusa do renascimento, da fertilidade e do despertar da natureza. O seu nome terá dado origem à palavra inglesa Easter, usada para designar a festa da Páscoa.

O monge Beda, o Venerável (monge e erudito inglês que participou, entre outras coisas, nos cálculos das horas litúrgicas), nos seus escritos do século VIII, menciona que os anglo-saxões celebravam uma festa em honra de Eostre durante o mês que lhe era dedicado, Eosturmonath. Já percebeu, este período podia variar de ano para ano, pois os antigos calendários germânicos e anglo-saxónicos eram lunares ou lunissolares, e não gregorianos como hoje.

Este período correspondia à chegada da primavera, quando a terra aquecia e a vegetação renascia após o inverno. Embora as informações sobre esta divindade sejam limitadas, a sua ligação à fertilidade e ao renascimento atravessou o tempo.

Nas origens pagãs da Páscoa

A chegada da primavera

A lebre está originalmente associada a Eostre. Animal lunar e símbolo de fecundidade, representa o ciclo da vida e do renascimento primaveril. A sua associação com a deusa e a festa do equinócio poderá explicar a sua presença nas tradições modernas da Páscoa. O ovo, outro elemento recorrente, encarna a gestação e a promessa de uma nova estação próspera. Rituais consistiam em pintar ovos e oferecê-los em oferenda para favorecer a fertilidade das terras e das famílias.

2. As festas greco-romanas: de Cibele à ressurreição de Átis

Os povos mediterrânicos também atribuíram grande importância aos ciclos naturais e ao renascimento da primavera. Em Roma, o culto de Cibele, grande deusa da natureza e da fertilidade, era acompanhado por celebrações marcadas por ritos de purificação e procissões. O seu companheiro Átis, cujo mito evoca a morte e o retorno à vida, estava no centro destas festividades. Todos os anos, no equinócio, cerimónias evocavam a sua ressurreição, anunciando assim a vitória da vida sobre a sombra do inverno.

Segundo a lenda, Cibele apaixona-se por Átis, um mortal de beleza excecional. Contudo, Átis é infiel e apaixona-se por uma ninfa ou por uma mortal (consoante as versões). Furiosa e tomada pelo ciúme, Cibele atinge-o com loucura. No seu delírio, Átis mutila-se e esvazia-se do seu sangue aos pés de um pinheiro, antes de morrer. Tomada de remorsos, Cibele arrepende-se do seu ato e, como reparação, obtém de Zeus que o seu amado volte à vida todas as primaveras, simbolizando assim o retorno da fertilidade após o inverno.

Nas origens pagãs da Páscoa

Representação de Átis. Fonte: Honor the Gods

As festividades dedicadas a Cibele e Átis decorriam durante vários dias, nas Hilaria. Começavam com períodos de luto e lamentações, seguidos de rituais que simbolizavam o renascimento. Os iniciados participavam em ritos de purificação, usando água e sangue para significar um renascimento espiritual e físico.

Existe um paralelo interessante entre estes mitos e o de Perséfone, cujo tempo nos Infernos e o regresso ao mundo dos vivos ilustram a passagem do inverno para a primavera. Todos os anos, a sua ascensão do reino dos mortos anunciava o despertar da vegetação, marcando assim o renascimento tão esperado.

3. Uma assimilação progressiva pelo Cristianismo

Quando o cristianismo se impôs na Europa, absorveu e transformou as celebrações pagãs que marcavam as estações. A Igreja procurou dar um novo significado às festas existentes em vez de as abolir completamente, facilitando assim a transição para a nova religião. A Páscoa, que celebra a ressurreição de Cristo, integrou vários elementos provenientes de ritos mais antigos ligados ao retorno da luz e à fertilidade primaveril.

Mas como Ostara nunca teve uma data fixa, a Páscoa também segue um calendário móvel. O concílio de Niceia, em 325, cuja missão incluía fixar o primeiro calendário litúrgico, estabeleceu que a Páscoa deveria ser celebrada no primeiro domingo após a lua cheia que segue o equinócio da primavera. Esta escolha baseia-se num compromisso entre diferentes tradições e visa distinguir a Páscoa das festas judaicas, respeitando o simbolismo do renascimento primaveril.

Este modo de cálculo ecoa as antigas práticas pagãs, onde as celebrações estavam ligadas aos ciclos lunares e solares. Em muitas culturas, o retorno da primavera era marcado por ritos dependentes da posição dos astros e não de uma data fixa. A escolha da lua cheia para determinar a data da Páscoa recorda esses sistemas tradicionais onde a luz crescente do astro noturno anunciava o fim do inverno e o retorno da abundância.

4. Morte e ressurreição nas religiões antigas

A ideia de um deus que morre e renasce não é exclusiva do cristianismo. Muitas civilizações desenvolveram mitos onde uma divindade sofre uma morte simbólica antes de voltar à vida, ilustrando o ciclo perpétuo da natureza.

Já vimos isso acima com Átis. Este padrão encontra-se também no mito de Osíris no Egito e no de Dionísio na Grécia, duas figuras ligadas ao renascimento da vegetação.

Nas origens pagãs da Páscoa

Ressurreição de Cristo

O relato da ressurreição de Cristo insere-se nesta continuidade. Simboliza a vitória da vida sobre a morte, uma mensagem que ecoa as antigas crenças onde o renascimento primaveril era visto como um "milagre" cíclico. Foi isso que fez da Páscoa uma das mais importantes festas cristãs da Semana Santa (o Domingo de Ramos que comemora a entrada de Jesus em Jerusalém, a Quinta-feira Santa que recorda a Última Ceia, a Sexta-feira Santa que evoca a crucificação de Cristo, a Vigília Pascal que celebra a ressurreição, o Domingo de Páscoa e a Segunda-feira de Páscoa).

5. Símbolos (quase) intactos

O que é interessante é que a Páscoa retoma quase palavra por palavra os símbolos pagãos de Ostara e, mais geralmente, da primavera. O ovo foi particularmente sacralizado, nomeadamente proibindo o seu consumo durante a Quaresma (o jejum rigoroso de 40 dias antes da Páscoa).

Nas origens pagãs da Páscoa

Símbolos da Quaresma

As famílias guardavam então os ovos postos e, para evitar que estragassem, cozinhavam-nos ou decoravam a casca. No final da Quaresma, esses ovos eram partilhados e oferecidos como presente durante as festividades pascais.

Um acréscimo diz respeito ao cordeiro pascal. No judaísmo, está associado à Páscoa judaica (Pessach), que comemora a libertação dos hebreus do Egito. No cristianismo, Jesus é comparado a um cordeiro imolado. É chamado "o Cordeiro de Deus" (Agnus Dei), em referência ao seu sacrifício para redimir os pecados dos homens.

6. E o chocolate nisso tudo?

O chocolate é uma adição relativamente recente às tradições da Páscoa e não tem origem nas celebrações pagãs da primavera. A sua introdução nesta festa resulta principalmente da evolução dos hábitos alimentares e das mudanças nas práticas religiosas.

Nas origens pagãs da Páscoa


O cacau foi introduzido na Europa a partir do século XVI, graças aos exploradores espanhóis que o trouxeram do continente americano. Na altura, o chocolate era consumido primeiro sob a forma de bebida quente, reservada às elites europeias devido ao seu custo elevado. Ao longo dos séculos, o seu uso democratizou-se, e a sua transformação em confeitaria tornou-se mais comum.

Foi entre os séculos XVIII e XIX que o chocolate começou a ser associado à Páscoa. Como produto raro e requintado, era particularmente apreciado para grandes ocasiões festivas. Tornou-se então um presente valorizado para assinalar o fim das privações da Quaresma.

Olivier d’Aeternum
Par Olivier d’Aeternum

Apaixonado pelas tradições esotéricas e pela história do oculto desde as primeiras civilizações até ao século XVIII, partilho alguns artigos sobre estes temas. Sou também co-criador da loja esotérica online Aeternum.

Deixe um comentário 💬

O seu endereço de email não será publicado.

Junte-se à comunidade Aeternum no nosso grupo do Facebook: conselhos, dicas, rituais, conhecimentos, produtos num ambiente acolhedor!
Vou a caminho!
Carrinho 0

O seu carrinho está pronto para receber as suas maravilhas!

Descubra os nossos produtos