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Nas origens pagãs da Candelária

Nas origens pagãs da Candelária

NO ÍNDICE...

 

1.  As Lupercais e a Festa Candelarum
2. As influências celtas do Imbolc
3. A cristianização das festas pagãs
4. A simbologia das crepes


Aqui na Bretanha, tudo o que está ligado à crepe tem naturalmente uma importância muito especial. Por isso, depois de termos visto as origens da Epifania, focámo-nos obviamente nas origens (pagãs, depois cristãs) da Candelária, que sucede ao sabbat do Imbolc. Apresentação.

1. As Lupercais e a Festa Candelarum

Para encontrar as origens da Candelária, é preciso mergulhar nas tradições romanas marcadas por rituais de purificação e celebrações da fertilidade, em resposta ao ciclo natural das estações. Entre essas tradições, as Lupercais e a Festa Candelarum são particularmente importantes.

As Lupercais, que tinham lugar em meados de fevereiro, constituíam uma festa romana em honra a Fauno, o deus dos rebanhos e das florestas, também conhecido como Pã na mitologia grega. Esta celebração era organizada em torno do Luperco (um aspecto de Fauno), protetor dos rebanhos e dos pastores. Os sacerdotes, chamados Luperci, participavam em rituais numa gruta sagrada, o local onde a loba teria amamentado Rómulo e Remo, os fundadores míticos de Roma.

Nas origens pagãs da Candelária

Fonte: Herodote

Pequena pausa para melhor compreensão: segundo a mitologia romana, Rómulo e Rémulo eram filhos do deus Marte e de Réia Silvia, uma vestal que tinha feito voto de castidade. No seu nascimento, o tio Amúlio, usurpador do trono de Alba Longa, ordenou que os abandonassem no Tibre para eliminar qualquer ameaça ao seu poder.

As águas do rio teriam levado os gémeos até ao pé do Palatino, onde uma loba, atraída pelos seus choros, os encontrou e acolheu. Ela alimentou-os com o seu leite e protegeu-os numa gruta, o Lupercal. Mais tarde, um pastor chamado Faustulo descobriu as crianças e criou-as como seus próprios filhos.

Rómulo, depois de matar o irmão Rémulo numa disputa, tornou-se o primeiro rei da cidade que baptizou de Roma. A gruta do Lupercal, onde a loba cuidou dos gémeos, tornou-se assim um local sagrado.

Paralelamente às Lupercais, a Festa Candelarum destacava outra dimensão simbólica, a da luz. Dedicada a Proserpina, a deusa do renascimento e da primavera, e a Ceres, deusa da agricultura, este evento celebrava o regresso da luz no ciclo sazonal. Os romanos, num gesto metafórico, organizavam procissões de tochas que iluminavam as ruas e os campos. Estas tochas simbolizavam a esperança de uma estação fértil, o fim da escuridão do inverno e a chegada da renovação primaveril.

2. As influências celtas do Imbolc

O Imbolc, celebrado por volta de 1 de fevereiro, marcava para os celtas um momento crucial do ano, a transição entre o inverno e a primavera. Esta festa era dedicada à deusa Brígida, figura tutelar associada à luz, à purificação e à fertilidade. Brígida, venerada como guardiã dos lares e das fontes, encarnava também a inspiração poética e as artes manuais.

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As celebrações do Imbolc incluíam rituais de purificação das terras, considerados essenciais para garantir a fertilidade dos campos e dos rebanhos. Estas práticas, frequentemente acompanhadas de procissões com tochas, visavam invocar a luz e dissipar as trevas do inverno. Os fogos e as chamas, omnipresentes nas cerimónias, eram vistos como manifestações tangíveis da renovação e do poder de Brígida. Os lares domésticos eram purificados e renovados em honra da deusa, sublinhando assim a interligação entre os ciclos da natureza e os da vida quotidiana.

Para saber mais, pode consultar o nosso artigo dedicado ao Imbolc.

3. A cristianização das festas pagãs

A transformação das festas pagãs em celebrações cristãs foi um processo estratégico conduzido pela Igreja para integrar populações ainda ligadas às suas crenças. Entre essas transformações, a Candelária desempenhou um papel representativo.

A institucionalização da Apresentação de Jesus no Templo a 2 de fevereiro foi um dos meios de "assimilar" as tradições pagãs, ancorando-as num relato bíblico. Este evento, relatado no Evangelho segundo Lucas, simboliza a entrada de Cristo na comunidade dos crentes e a luz divina que ilumina o mundo. Ao retomar a temática da luz, tão importante nos rituais pré-existentes, a Igreja conseguiu criar uma continuidade com as antigas celebrações. As procissões com velas, outrora destinadas a invocar proteção e fertilidade, foram reinterpretadas como uma celebração da luz de Cristo. Estes cortejos luminosos que atravessavam aldeias e igrejas ajudaram a manter um vínculo tangível com as práticas populares, reforçando ao mesmo tempo a sua dimensão espiritual cristã.

Nas origens pagãs da Candelária

Fonte: Vatican News

Outro aspeto desta cristianização encontra-se na bênção dos círios, uma tradição diretamente inspirada nos usos antigos ligados às tochas e às fagulhas. Estes círios abençoados, conservados nos lares, eram vistos como símbolos de proteção contra provações e forças maléficas. Este gesto de santificação permitiu à Igreja perpetuar o uso das velas, integrando-o numa teologia centrada em Cristo, luz do mundo. É também esta tradição que deu nome a esta festa da Candelária (do termo latino candelarum, que significa "velas").

4. A simbologia das crepes

A tradição das crepes, hoje indissociável da Candelária, tem origem em práticas agrícolas e rituais antigas. A forma circular e a cor dourada das crepes recordam o disco solar, um símbolo universal de luz e renovação. Nessas culturas, as crepes representavam uma homenagem ao astro solar, visto como fonte de vida e fertilidade.

Nas origens pagãs da Candelária


Para além do seu aspeto simbólico, a confeção das crepes participava também em rituais destinados a garantir a prosperidade. A farinha, o leite, os ovos eram considerados um dom sagrado da terra. Transformá-los em alimentos circulares constituía uma oferta prática e simbólica, destinada a invocar a abundância das colheitas futuras. Embora associada em França à Bretanha, a crepe tem na realidade equivalentes em todo o mundo (as tagenites entre os gregos, as alita dolcia entre os romanos, as chapati entre os indianos, etc).

Uma anedota histórica conta que um papa terá contribuído para reforçar a ligação entre as crepes e a Candelária. Embora os detalhes exatos variem, menciona-se o Papa Gelásio I (492-496), que terá distribuído bolos aos peregrinos que chegavam a Roma para celebrar a festa da Apresentação de Jesus no Templo.

Olivier d’Aeternum
Par Olivier d’Aeternum

Apaixonado pelas tradições esotéricas e pela história do oculto desde as primeiras civilizações até ao século XVIII, partilho alguns artigos sobre estes temas. Sou também co-criador da loja esotérica online Aeternum.

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