Ignorar e passar para o conteúdo
AeternumAeternum
O que é uma conjuração?
Qu'est-ce qu'une conjuration ?

Os Cadernos de Aeternum

O que é uma conjuração?

4 min de leitura

A palavra «conjuração» ressurge assim que a fala assume autoridade. Vem do latim conjuratio, «juramento prestado em conjunto», e depois desliza para dois campos complementares: a palavra que adverte em nome de um poder sagrado e a ordem que afasta uma ameaça invisível. Explicações.

Definição de conjuração

No latim clássico, conjuratio designa primeiro um juramento coletivo e, por extensão, uma «conspiração». No uso corrente, «conjurar» significa afastar um mal. Nos textos religiosos, a conjuração é uma palavra de autoridade que ordena a uma entidade que obedeça e se retire. Nas práticas mágicas, serve para chamar, enquadrar e constranger forças. A invocação pede, a adjuração ordena, o exorcismo expulsa; a conjuração é o núcleo verbal que sustenta essa autoridade. Este estatuto de «ato de fala» explica o seu lugar central nos rituais em que tudo se organiza em torno de uma voz legítima, de um texto fixo e de um dispositivo preciso.

Nas origens: tabuletas, papiros e tigelas

Na Mesopotâmia, grandes conjuntos rituais como Maqlû reúnem séries de textos para «queimar» a ação maligna e proteger uma pessoa doente durante uma vigília. O desenrolar prevê palavras, fumigações e gestos que acompanham a ordem verbal. No Egito greco-romano, os Papyri Graecae Magicae reúnem hinos, nomes divinos e injunções que «cingem» o poder visado. No mundo greco-romano, tabuletas de chumbo chamadas defixiones servem para «prender» um alvo sob a arbitragem de divindades infernais. Na Babilónia tardia, tigelas de encantamento em aramaico envolvem uma escrita protetora para desviar demónios e doenças. Em cada caso, a conjuração apresenta-se como uma ordem dirigida ao mal, com nomes de autoridade e um enquadramento material.

Uma palavra regulada pela liturgia

No cristianismo, «conjurar» significa falar em nome de Cristo para impor um limite ao mal ou reservar algo para um uso sagrado. Este gesto atravessa vários ritos, entre os quais se inclui o exorcismo, mas não resume o conjunto.

No batismo, a liturgia prevê uma oração breve chamada «exorcismo simples». Pede proteção e liberdade para a pessoa que vai receber a água. Conforme os casos, é acompanhada de uma unção com o óleo dos catecúmenos ou da imposição das mãos, seguindo-se a renúncia ao Maligno e a profissão de fé. O sentido é claro: estabelecer um antes e um depois, entrar numa vida nova, colocar a pessoa sob a proteção de Cristo. A conjuração também está presente nas bênçãos e nos sacramentais. A água e o sal recebem uma palavra que os destina a proteger e purificar.

O grande exorcismo situa-se noutro nível. Responde a uma situação excecional e requer um mandato do bispo. Segue um livro oficial, com etapas e fórmulas mais longas. A conjuração assume aí uma forma forte, sem deixar de estar presente na vida quotidiana da Igreja, no batismo e nas bênçãos.

Na magia ritual medieval

Os grimórios medievais e renascentistas estruturam operações em que a conjuração desempenha o papel principal. A Clavicula Salomonis e o Heptameron organizam a sessão em torno de uma proclamação de autoridade, de uma injunção, de uma ameaça gradual e de uma licença de partida. O Lemegeton, ou a Pequena Chave de Salomão organiza os espíritos segundo nomes, sinais e selos; a conjuração serve aí para estabelecer uma relação de obediência controlada por círculos, horas correspondentes e «nomes de poder».

A conjure na América afrodescendente

Na área afro-americana, o inglês conjure e o rootwork descrevem práticas de proteção, cura e devolução do mal no Hoodoo. A palavra conserva aí uma função de ordem, apoiada por salmos, orações cristãs populares e objetos investidos de valor ritual. A historiografia acompanha esta herança entre contributos africanos, cristianismo vernacular e o contexto social das Américas. Mais uma vez, a conjuração entende-se como uma palavra eficaz no seio de uma tradição local.

Por que «funciona»: a palavra como ação

Já o sentiu num rito ou numa oração: no momento em que a fórmula é dita pela pessoa certa, no contexto certo, a palavra não permanece um simples grupo de palavras, passa a fazer parte de uma ação que visa um resultado preciso. Não é a magia de uma frase isolada, é o conjunto que a rodeia que lhe dá peso: a autoridade de quem fala, um texto reconhecido que proporciona clareza e continuidade, um lugar e um momento previstos para esse fim, e uma comunidade que compreende o que está em jogo. Quando estes elementos se articulam, dizer «eu te adjuro» ou «eu te devolvo» não serve para explicar uma ideia, serve para estabelecer um limite, pedir proteção e desencadear uma resposta.

A forma do texto é importante porque organiza a palavra: palavras precisas, uma ordem estável, um tom que não se desvia. A autoridade é importante porque a palavra não age em nome de uma pessoa isolada, apoia-se numa tradição viva que sustenta essa voz e a legitima. O contexto também é importante, com os seus gestos, silêncios e respiração, pois orienta a assembleia, torna a ação compreensível e insere a palavra numa sequência de sinais que apontam todos no mesmo sentido. Em conjunto, estes elementos transformam um enunciado num ato: um mal afastado, um objeto reservado a um uso sagrado, uma pessoa colocada sob proteção.


É por isso que a conjuração conserva o seu lugar no centro dos ritos. Não se baseia no efeito estilístico nem na ênfase, faz aquilo que anuncia: proteger, libertar, repor a ordem.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.

Junte-se à comunidade Aeternum no nosso grupo do Facebook: conselhos, dicas, rituais, conhecimentos, produtos num ambiente acolhedor!
Vou a caminho!
Carrinho 0

O seu carrinho está à sua espera.

Descubra os nossos produtos
Pagamento em 3/4 prestações sem custos