Quer descobrir uma Paris secreta, carregada de símbolos e histórias estranhas? Este circuito é feito para si. Levamo-lo num passeio pedonal de um dia pelo Marais e arredores, à procura dos vestígios deixados pelos alquimistas, hermetistas e interessados pelo oculto. Prepare-se para levantar os olhos, observar as pedras, arrepiar-se um pouco... e, sobretudo, ver Paris de outra forma.
Partida recomendada: 9h30
Tome um bom pequeno-almoço, calce uns bons sapatos e deixe para trás a Paris dos postais. O que o espera hoje é uma Paris velada, um pouco esquecida, que lhe sussurrará segredos a cada esquina.
1. A Casa de Nicolas Flamel

51 rue de Montmorency, 3.º arrondissement
Gratuito
Começamos em grande. À primeira vista, esta casa de pedra não parece diferente dos outros edifícios antigos do Marais. E, no entanto, está diante da casa mais antiga de Paris que ainda se mantém de pé, construída em 1407. Com três andares, distingue-se pela fachada em pedra aparelhada de aspeto rugoso, rasgada por janelas estreitas e, sobretudo, pelas inscrições gravadas em francês antigo na verga da porta. Nelas lê-se uma oração dedicada a Deus, mas alguns também veem uma mensagem alquímica codificada. Não é de admirar: foi habitada pelo famoso alquimista Nicolas Flamel.
Atualmente, a casa é ocupada por um restaurante, mas o simples facto de a observar dá a sensação de entrar em contacto com uma faceta esquecida da magia parisiense.
2. A Torre Saint-Jacques

Jardim da Torre Saint-Jacques, 4.º arrondissement
Duração: 45 minutos – Entrada: 12€
Informações e visitas
Ergue-se sozinha, no meio de um jardim, como saída de um sonho gótico. Esta torre de 52 metros era outrora o campanário da igreja de Saint-Jacques-de-la-Boucherie, destruída durante a Revolução. Mas não é apenas um vestígio religioso: encontramos nela elementos ligados à geometria sagrada e à alquimia. Repare nas gárgulas, nos relevos esculpidos... não são apenas decoração. Outrora um ponto de referência para os peregrinos de Santiago de Compostela, tornou-se mais tarde um ponto de referência para os alquimistas e os mestres construtores. E, se reservar o seu lugar atempadamente, poderá subir a escada em caracol até ao topo para desfrutar de uma vista panorâmica deslumbrante sobre Paris. Uma subida que provoca tanto vertigens como clareza interior.
3. A livraria L’Inconnu

117 rue de la Verrerie, 4.º arrondissement
Gratuito (exceto se fizer algumas compras...)
Entra-se aqui como num templo. As estantes vergam sob o peso de grimórios, tarots, pêndulos, frascos e velas rituais. O cheiro a papel antigo mistura-se com o do incenso. Se gosta de livros que falam às entranhas e à intuição, está no lugar certo. Por vezes, uma obra salta-lhe para as mãos como se estivesse à sua espera. Não hesite em conversar com os livreiros: são apaixonados, discretos e estão sempre prontos a partilhar um conselho ou uma referência pouco conhecida.
4. Pausa para almoço: recarregue o corpo e o espírito

O Potager du Marais
24 rue Rambuteau – Cerca de 18€ por pessoa
Depois deste mergulho no esoterismo parisiense, é tempo de uma merecida pausa vegetal. O Potager du Marais é um pequeno restaurante sem pretensões, mas cheio de charme. Aqui, tudo é biológico, vegetariano e confecionado com cuidado. A sua famosa sopa de cebola vegana é uma bênção. Os pratos são simples, mas reconfortantes, e o ambiente acolhedor permite-lhe fazer um balanço das descobertas da manhã. Não tenha pressa, saboreie, respire. Está numa das zonas mais animadas do Marais, mas, lá dentro, tudo é tranquilo.
5. A igreja de Saint-Merri

76 rue de la Verrerie, 4.º arrondissement
Duração: 30 minutos – Gratuito
Informações e visitas
Colada a uma parede de betão um pouco triste, esta pequena igreja gótica do século XVI passa quase despercebida. Mas, uma vez lá dentro, é outro mundo. As suas abóbadas esguias, as colunas finas, o vitral central colorido e os recantos um pouco sombrios criam uma atmosfera estranha e íntima.
Aproxime-se da fachada: rostos estranhos, motivos florais complexos e até aquilo que parece uma salamandra esculpida… tantos símbolos que alguns associam à alquimia e ao hermetismo. É o lugar perfeito para se sentar por alguns instantes, respirar e deixar a sua intuição falar.
6. O Museu de Cluny – Termas de Lutécia

28 rue du Sommerard, 5.º arrondissement
Duração: 1 hora – Entrada: 12€
Informações e visitas
Mudamos um pouco de cenário, mas continuamos entre símbolos. O Museu de Cluny é um mergulho na Paris medieval. Está instalado num edifício excecional: uma antiga mansão particular gótica, encostada aos vestígios de antigas termas romanas, que podem ser visitadas no interior. O lugar é carregado, intensamente.
As coleções expostas são fascinantes: estátuas religiosas, objetos rituais, relicários, mas também obras evocando a condição humana, as estações do ano e os elementos (nomeadamente o Pilar dos Nautas, que representa Cernunnos, entre outros). A Dama e o Unicórnio, com as suas seis tapeçarias monumentais, deixa-nos sem palavras. Cada painel ilustra um sentido… mas, por detrás desta leitura clássica, sentem-se camadas simbólicas muito mais subtis. Se é sensível à arte antiga, prepare-se para se sentir profundamente tocado.
7. Um lanche bem merecido: uma pausa rodeado(a) de livros

O Café Livres
10 rue Saint-Martin – Cerca de 7€ por pessoa
Depois de tantas imagens, símbolos e lugares habitados, é tempo de uma pausa tranquila. Este café é simples, acolhedor e está cheio de livros. O lugar ideal para se sentar com uma chávena de chá e uma fatia de bolo fofo. O ambiente é calmo, intimista e propício à rêverie. Encontram-se aqui estudantes, leitores discretos e clientes habituais que regressam pela energia tranquila do lugar. Deixe os seus pensamentos divagarem, releia as suas notas ou tire discretamente uma carta de tarot… aqui ninguém o julgará.
8. A Passage Jouffroy

Passage Jouffroy, 9.º arrondissement
30 a 40 minutos (e mais, se gostar de passear sem pressa) – Gratuito
Esta passagem coberta do século XIX é uma pérola de arquitetura e ambiente. Longa e estreita, com um chão de mosaico, montras de madeira esculpida, uma claraboia de época e uma atmosfera intimista. Passeia-se por aqui devagar, observam-se as placas antigas, as lojas de brinquedos antigos, bengalas e livros raros.
Ao fundo, o Musée Grévin ergue-se com uma fachada semelhante à de um teatro: colunas caneladas, espelhos, frescos coloridos… O próprio local é um jogo de ilusões. E mesmo sem entrar, sentirá a força deste espaço, entre espetáculo, efígies e duplos. Uma verdadeira transição simbólica antes da última refeição do dia.
9. Jantar Belle Époque: e terminamos em grande

Bouillon Chartier
7 rue du Faubourg Montmartre – Cerca de 20€ por pessoa
Bem-vindo à Paris de antigamente. Esta grande brasserie, com tetos altos ornamentados, espelhos imensos, bancos de couro vermelho e luminárias de época, permanece congelada no tempo desde 1896, em plena moda da Arte Nova. Sentamo-nos a uma mesa (por vezes ao lado de desconhecidos, é a tradição), consultamos a ementa escrita à moda antiga… e deliciamo-nos.
Blanquette, ovos com maionese, andouillette, couves com chantilly… tudo é simples, generoso e terrivelmente eficaz. O serviço é rápido e o pessoal usa sempre a bata branca. Vai terminar este dia em grande, de barriga cheia e com os olhos cheios de estrelas.
10. E quanto ao orçamento, em que ponto estamos?
Se seguir o circuito completo proposto, conte com cerca de 69€ por pessoa para o dia inteiro. Este valor inclui as duas visitas pagas (a subida à Torre Saint-Jacques e a entrada no Museu de Cluny), um almoço vegetariano no Potager du Marais, uma pausa para um lanche no Café Livres e um jantar generoso no Bouillon Chartier. É um orçamento muito razoável para uma experiência tão rica, entre lugares mágicos, ambiente parisiense e bons pratos. Evidentemente, se saltar uma ou duas etapas, ou se tiver um tarot que lhe diga para comprar um grimório antigo numa livraria, o preço pode variar ligeiramente… mas, no geral, preveja uma sessentena de euros para viver Paris de outra forma, com estrelas nos olhos.
11. Um último conselho
Antes de regressar a casa, reserve algum tempo para encerrar este dia como se encerra um ritual. Não à pressa, mas com intenção. Encontre um banco discreto, um parque tranquilo ou permaneça de pé, com o coração um pouco mais aberto do que à chegada.
Recorde os três lugares-chave deste passeio:
– A Casa de Nicolas Flamel
– A Torre Saint-Jacques
– A Igreja de Saint-Merri
Estes três pontos formam um verdadeiro triângulo no mapa de Paris, quase equilátero. E, se se encontrar no interior deste espaço, no coração do Marais, entra naquilo a que poderíamos chamar uma zona energética (tanto mais que Paris é atravessada por várias linhas telúricas).
É aí, no interior deste triângulo, que pode dedicar alguns minutos a fazer uma pergunta ao seu pêndulo, tirar uma carta ou formular um desejo. O que conta é a presença, a intenção e o eco interior que sente.
Escolha um canto tranquilo entre a Rue de Montmorency, o Square de la Tour e as ruas em redor de Saint-Merri. Feche os olhos. Respire. E liberte o que tiver de libertar. É um momento seu, num Paris que talvez o escute um pouco mais do que é habitual. Quando voltar a abrir os olhos, levará consigo este triângulo.






























