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1. Origens e herança histórica do solstício de verão |
O sol de junho atinge o seu zénite durante o solstício de verão, e com ele chega Litha, uma das grandes festas anuais da tradição pagã. Litha – também chamada de Midsummer pelos anglófonos – celebra o dia mais longo do ano, esse momento em que a luz triunfa antes de iniciar o seu lento declínio rumo ao inverno. Desde muito tempo, o meio do verão é saudado como um período abençoado de vitalidade e abundância. Muitas civilizações viram nele uma fase crucial do ciclo natural, propícia a celebrações espirituais e à ligação entre o homem e a natureza. Apresentação.
1. Origens e herança histórica do solstício de verão
Muito antes de o sabbat de Litha fazer parte da Roda do Ano wiccana, o solstício de verão já era motivo de festividades em muitas culturas. Os antigos povos do norte da Europa marcavam o meio do verão com fogueiras rituais e vigílias ao amanhecer. Mais perto de nós, aqui na Bretanha, os Celtas acendiam grandes fogueiras ao pôr do sol na véspera do solstício, deixando-as arder até à noite seguinte. Em torno dessas brasas realizavam-se danças e cânticos comunitários. Dançava-se em círculo e saltava-se sobre as chamas ardentes como um rito de purificação e coragem, pois esses fogos sagrados afastavam os maus espíritos e protegiam as colheitas e os rebanhos. Noutras regiões, levavam tochas acesas em volta dos campos e do gado para afastar o azar.
As tradições europeias estão repletas de costumes ligados ao Dia de São João (24 de junho), festa cristã baseada na época do solstício. Apesar da cristianização, o espírito ancestral da celebração persiste através das famosas fogueiras de São João acesas um pouco por toda a Europa nesta época. Este sincretismo testemunha a importância que o solstício de verão sempre teve para as comunidades rurais: era não só o sinal do sol no seu auge, mas também um marco para o calendário agrícola e social. Em algumas lendas, diz-se que neste dia o Sol para por um instante para se casar com a Lua, imagem poética que ilustra a união do masculino solar e do feminino lunar no coração do verão. Dois símbolos opostos – a água e o fogo – estão particularmente associados a esta data. Por um lado, os fogos solsticiais ardiam nas colinas para celebrar a luz e afastar as forças nocivas; por outro, as fontes e o orvalho da manhã eram investidos de virtudes mágicas. Aliás, em algumas zonas rurais, colhem-se ao amanhecer do solstício as ervas medicinais banhadas em orvalho, que depois se usam para preparar uma água de plantas com a qual se lava o rosto e as mãos, para obter saúde e proteção para o ano que vem.
O próprio nome «Litha» merece uma menção histórica. Este termo provém do antigo anglo-saxão, mencionado pelo cronista Beda, o Venerável (monge cuja missão era criar as celebrações cristãs) para designar os meses de verão em torno do solstício. Segundo algumas interpretações, Līða significaria «suave» ou «navegável», em referência às brisas amenas e aos mares calmos da bela estação.
2. Práticas e celebrações de Litha
No coração de Litha está a homenagem ao sol triunfante. Em todo o lado, o fogo é o elemento chave desta festa. Ao cair da noite do solstício, erguem-se fogueiras, eco dos antigos fogos que iluminavam a noite mais curta do ano. Dançar em volta das chamas sob o céu estrelado de verão mantém viva a presença do astro do dia, como forma de lhe agradecer a generosidade e deter um pouco a sua inexorável corrida para o inverno. O calor da fogueira reúne a comunidade numa atmosfera de partilha alegre. Cânticos, música e contos acompanham estas vigílias do solstício. Mesmo quando o tempo está instável, a chama vacilante de uma vela no altar basta para representar o sol e recordar o seu poder benéfico.

Litha é também um momento privilegiado para a comunhão com a natureza no seu auge. A terra está verdejante e generosa no final de junho: os jardins transbordam de flores, os campos ondulam com trigo verde, as árvores estão cobertas de folhas densas e frutos a nascer. A tradição bruxa diz que as ervas colhidas ao amanhecer do solstício têm eficácia aumentada. Ao nascer do sol de Litha, parte-se para a colheita de plantas selvagens e medicinais, ainda cobertas de orvalho, para fazer reservas mágicas. Hipericão, artemísia, sabugueiro, tomilho, camomila, verbena… todas estas ervas de São João são tradicionalmente colhidas nesta altura e secas para uso posterior em poções, infusões ou saquinhos de proteção. Também se fazem bouquets de flores de verão para decorar a casa e o altar, como símbolo da beleza efémera do verão em flor. Esta prática da colheita sagrada remonta a tempos antigos: no País de Gales, o dia do solstício era antigamente chamado Gathering Day, o «dia da colheita», em honra destas colheitas rituais de ervas benéficas.
A noite de Litha é também envolvida por uma atmosfera encantada: a fronteira entre os mundos visível e invisível torna-se cada vez mais ténue em torno dos solstícios. Tal como em Samhain no outono, o solstício de verão é um momento propício para sentir a presença dos espíritos da natureza e do Pequeno Povo feérico. Antigamente, contava-se que as fadas saíam para dançar nas clareiras na véspera de São João, sendo costume deixar leite, mel ou flores como oferendas aos espíritos da terra. Da mesma forma, a prática da adivinhação está associada a Litha. Pode sentar-se junto ao fogo de Litha e observar as suas chamas dançantes para receber visões ou intuições sobre os meses vindouros – uma forma de piromancia natural. Na Cornualha, até ao século XVIII, observava-se até o número e a forma das fogueiras distantes nas colinas na noite do solstício para ler presságios para o futuro. Litha convida assim a abrir a mente aos sinais e às energias subtis que nos rodeiam no coração do verão.
Algumas tradições ligadas ao amor e ao compromisso florescem também em torno do solstício de verão. Na Wicca, é costume que os casais que se handfastaram (unidos simbolicamente) na primavera durante Beltane, há «um ano e um dia», aproveitem Litha para oficializar ou renovar os seus votos. O meio do ano aparece então como um momento favorável para celebrar as uniões e a fertilidade sob o olhar do sol. De modo geral, os temas do matrimónio sagrado e da fertilidade estão omnipresentes em Litha. A mãe terra está neste ponto fértil e portadora de vida – os animais deram à luz na primavera, os frutos estão em formação, as colheitas aproximam-se – e essa vitalidade reflete-se nos ritos. Litha exalta assim a união do humano e do natural, do masculino e do feminino, num grande impulso de vida.
Finalmente, é também um período propício à proteção espiritual. Os talismãs de plantas confeccionados nos dias que antecedem Litha são consagrados passando-os sobre o fogo de São João. A fumaça purifica e carrega a amuleto, que poderá depois ser guardado consigo ou em casa para afastar as energias negativas durante o resto do ano.
3. Símbolos, correspondências e significados de Litha
Litha é rica em símbolos fortes que falam tanto aos sentidos como à alma. O primeiro deles é obviamente o sol em si, no auge do seu brilho. O astro do dia impregna toda a festa com a sua presença: é em sua honra que brilham os fogos, que dominam as cores quentes e que florescem as flores da estação. A sua luz é sinónimo de vida – celebra-se a gratidão pelas colheitas futuras e saúda-se porque no dia seguinte começará a diminuir. O elemento tradicionalmente associado a Litha é, sem surpresa, o Fogo, princípio de luz, calor e transformação. Cada chama acesa nesse dia, desde a vela mais modesta até à maior fogueira, é um microcosmo do sol que se coloca simbolicamente no centro do rito. O fogo purifica, protege e revitaliza, assim como os raios do sol nutrem a terra e afastam a escuridão.
A paleta das cores de Litha reflete a dualidade da estação: encontra-se o amarelo dourado, o laranja e o vermelho das brasas e do sol incandescente, mas também o verde intenso das florestas no pleno verão e o azul do céu claro ou do oceano estival. Decorar o altar ou o lar com estas cores reforça a harmonia com a energia do sabbat. Toalhas verdes, fitas douradas, velas amarelas ou vermelhas vibrantes adornam a celebração. Do mesmo modo, as flores e plantas ocupam um lugar de honra nas correspondências de Litha. O carvalho, árvore real do verão, é um emblema maior – simboliza força e longevidade, e é a ele que se pensa na lenda do Rei Carvalho que reina sobre a parte crescente do ano. Pendura-se de bom grado folhas de carvalho ou dispõe-se no altar como sinal de poder solar. O hipericão, pequena flor amarela brilhante apelidada de erva de São João, é uma planta quase inseparável do solstício de verão: é reputada por afastar as trevas e os demónios, e é tradicionalmente colhida em Litha pelas suas virtudes protetoras e medicinais. Entre outras plantas associadas a esta estação estão a artemísia (planta da clarividência cuja coroa colocada na cabeça na noite de Litha favorece as visões), o visco sagrado que, segundo alguns relatos, deveria ser colhido pelos druidas durante os solstícios, assim como o lúpulo e o sabugueiro que amadurecem nesta altura. As flores silvestres de cores vivas – papoila vermelha, margarida branca, girassol virado para o sol – trazem a sua beleza simples aos altares de Litha. Tecem-se coroas de flores da estação e ramos folhosos para usar na cabeça ou deixar em oferenda à natureza, em sinal de júbilo. Cada planta traz uma energia: a rosa evoca o amor e a amizade partilhada no verão, a lavanda purifica e acalma, o lírio branco encarna a luz espiritual no meio do ano, e assim por diante.

Quanto às pedras e cristais, as correspondências de Litha incluem tudo o que lembra o brilho solar ou o verde da terra. As antigas tradições druidas associam a Litha gemas como o , a citrino amarelo alaranjado, o olho de tigre, o diamante ou ainda a esmeralda verde, símbolo da deusa terra nutridora. O jade, a aventurina verde ou o quartzo solar são também mencionados em alguns grimórios para captar a energia deste período. Colocar estas pedras no altar ou usá-las como talismãs durante o solstício permite alinhar-se com as vibrações sazonais: coragem, alegria de viver, prosperidade e amor radiante.
No plano mitológico e teológico, Litha é um momento de equilíbrio dinâmico entre forças complementares. É o ponto culminante do domínio do Deus sol, conceptualizado como um Rei ou um Cornífero, face à Deusa terra que, por sua vez, encarna a fertilidade contínua do ciclo. No sabbat de Litha, a Deusa Mãe é tradicionalmente representada grávida, pois é ela quem carrega a criança divina a nascer no solstício de inverno seguinte (em Yule). O Deus, seu consorte solar, está no auge da sua força, simbolizando o sol no ponto mais alto do céu de verão. Esta união sagrada entre a Mãe e o Pai divinos insufla à natureza a sua exuberância do momento – a gestação é celebrada em vista das futuras colheitas que se anunciam prósperas, evocando a terra cheia de vida e promessas neste meio do ano. Contudo, no auge desta glória já se esconde a semente da mudança: o Deus solar sabe que agora vai perder força à medida que os dias encurtam. Esta noção encontra-se no mito celta do Rei Carvalho e do Rei Azevinho, querido dos pagãos. O Rei Carvalho, mestre benevolente da metade ascendente do ano, triunfa em Litha – mas a partir desse dia inicia a sua rendição e transmite progressivamente o seu poder ao seu alter ego, o Rei Azevinho, que reinará na metade descendente até Yule. Litha marca assim a passagem entre estes dois reis simbólicos: um vai declinar enquanto o outro vai crescer. É um instante de viragem, um ponto de inflexão do ciclo cósmico.
Litha é o sabbat da abundância, da luz e da gratidão, mas também da consciência dos ciclos. Celebra-se a generosidade da terra e do sol – agradece-se ao astro solar pelo calor, crescimento e fertilidade que trouxe desde a primavera. As colmeias estão cheias de mel, as árvores frutíferas começam a curvar-se sob os frutos em maturação, os campos de cereais estão verdes e a promessa das colheitas desenha-se. Esta opulência estival alegra o coração: é tempo de saborear a vida, festejar ao ar livre, sentir-se em sintonia com a natureza no seu pleno florescimento. Mas simultaneamente, Litha ensina a humildade perante a grande ordem natural, pois assim que o sol atinge o seu ponto mais alto, inicia a sua retirada. A roda do ano gira inexoravelmente – após a expansão vem a retração, após a luz crescente vem a sombra crescente. Os celebrantes de Litha sabem bem disso. Em vez de verem nisso uma triste fatalidade, integram este ritmo como uma sabedoria profunda: cada auge contém em si a semente da mudança, e aceitar essa transição faz parte da celebração. Litha oferece assim uma dupla leitura espiritual. Por um lado, é um festival de alegria, calor humano, ligação direta aos prazeres simples do mundo material (o sol na pele, a comida abundante, o amor partilhado). Por outro, é um rito de passagem para a introspeção que virá, uma preparação suave para a descida progressiva para a parte sombria do ano onde se colherá e se recolherá.
Vivendo plenamente este solstício de verão, os pagãos procuram captar a energia do momento para a levar dentro de si como uma reserva de luz interior. Litha convida a brilhar de dentro para fora em harmonia com o sol do céu. É um momento propício a meditações ou orações de gratidão durante o dia do solstício, aproveitando o meio-dia solar (quando o sol está no ponto mais alto) para encher-se de vitalidade e recordar as bênçãos recebidas desde o início do ano. É uma forma de fazer uma pausa no turbilhão da vida, para apreciar o caminho percorrido e preparar-se para iniciar a segunda metade do ano com força e clareza.
Assim, Litha é um sabbat rico e completo, que mistura estreitamente o carnal e o espiritual, a história e o presente, a terra e o céu. O tom desta celebração é ao mesmo tempo pedagógico e profundamente humano: cada um pode encontrar nela um sentido pessoal – seja para celebrar a alegria de estar vivo durante os dias bonitos, agradecer ao divino sol, ou meditar sobre a necessidade das mudanças que se iniciam. Litha ensina-nos a acolher a luz no seu auge enquanto abraçamos a sombra nascente, numa dança eterna de equilíbrio.
Fontes :
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Delphine Kermelo, « Litha, uma maravilhosa celebração », Productions Nouvelle Lune, 2021.
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Boston Public Library, « The Origins and Practices of Litha », BPL Pagan Archives




























































































































