A Santería faz parte daquelas tradições de que se ouve falar sem realmente saber o que abrangem. Por vezes associa-se a tambores, oferendas, crenças africanas ou santos católicos. Mas entre ideias pré-concebidas e imagens vagas, é difícil perceber a sua realidade. Ao olhar mais de perto, descobre-se uma religião coerente, rica em símbolos, rituais e história. Uma tradição forjada na adversidade, e ainda muito viva no quotidiano de muitos crentes em Cuba e além. Exploração.
1. O berço Yoruba
A Santería tem as suas raízes na religião tradicional do povo Yoruba da África Ocidental. Muito antes da sua chegada às Caraíbas, esta fé ancestral florescia nos reinos do sul da atual Nigéria e Benim. No centro da cosmologia yoruba está um deus criador único, Olodumare, fonte de toda a energia espiritual, que delega aos orishas – divindades intermédias ligadas às forças da natureza – a tarefa de guiar o destino dos homens. Cada orisha encarna um aspeto do mundo natural: assim, Shango governa o trovão e o fogo, Yemayá os oceanos, Ochún as águas doces e o amor, para citar apenas alguns exemplos. Estes orishas protegem os mortais e asseguram que cada um cumpra o destino (ori) que lhe foi atribuído. Se se desviar, a alma do falecido poderá, segundo a tradição, regressar à terra através da reencarnação para completar o seu cumprimento. Rica em mitos, danças e cânticos, a religião yoruba transmite-se de geração em geração de forma oral, ritmada pelos tambores bata e pelas saudações rituais aos orishas.

Representação dos Orishas
No século XVI, a história desta religião muda. Os Yorubas, conhecidos pela sua rica cultura, são violentamente arrancados das suas terras natais pelo tráfico negreiro transatlântico. Milhares de homens e mulheres são reduzidos à escravidão e enviados para as plantações do Novo Mundo. Entre as colónias de acolhimento, Cuba recebe muito cedo cativos yorubas: trazidos para a ilha desde o século XVI, e depois em vagas sucessivas até ao século XIX, trazem nas suas memórias a língua, os cânticos e os deuses da sua terra africana. Amontoados nos navios, estes exilados levam consigo um tesouro imaterial – as suas crenças e rituais – que sobreviverão contra todas as adversidades no solo cubano.
2. Da África a Cuba, o nascimento de um culto sincrético
Do século XVII ao XIX, Cuba torna-se um dos grandes centros do tráfico de escravos nas Caraíbas. Nas plantações de cana-de-açúcar e nas casas coloniais, os escravos iorubás (chamados Lucumí em Cuba) misturam-se com outras etnias africanas deportadas, como os Congos ou os Carabalís. Esta coabitação forçada gera uma mistura religiosa: longe da sua terra, privados dos seus templos, os cativos de várias nações africanas veem as suas tradições respetivas convergir e entrelaçar-se. Nasce um culto afro-cubano original onde predominam as práticas iorubás, incorporando, porém, alguns elementos de outros ritos africanos presentes em Cuba. Mas o grande desafio para estes devotos é preservar a sua fé sob o olhar de um mestre colonial católico e intolerante para com o que considera «idolatrias pagãs».
Oficialmente, apenas a religião católica é permitida na colónia espanhola. Os escravos têm, por isso, de ser astutos para continuar a honrar os seus orishas. À noite, nos barracões ou protegidos pelas florestas, cantam em voz baixa os louvores a Ochún ou a Babalú Ayé. Ao domingo, são obrigados a assistir à missa: observam os santos da igreja e, em segredo, identificam cada um com um dos seus deuses. Santa Bárbara, vestida de vermelho e armada com uma espada, torna-se assim a máscara do poderoso Shango, senhor das tempestades. A Virgem da Caridade, santa padroeira de Cuba, está associada à doce Ochún, deusa dos rios e do amor. São Lázaro, o mendigo coberto de feridas, evoca Babalú Ayé, divindade das doenças e das curas. Pouco a pouco, tece-se uma verdadeira equivalência simbólica entre o panteão católico e o panteão iorubá.

Altar santero
Segundo a tradição oral, os escravos Yoruba fingiam venerar os santos para melhor disfarçar o culto dos seus orishas por trás dessas figuras cristãs. Na noite de São Bárbara, acendiam velas vermelhas não só para a mártir cristã, mas sobretudo para Shango, seu alter ego africano, invocando secretamente o deus do trovão. Esta astúcia permitia-lhes celebrar as suas festas ancestrais sob o disfarce das festividades católicas. No entanto, pesquisas históricas sugerem que o sincretismo foi também ativamente encorajado pela própria Igreja colonial. Confrontadas com a persistência dos cultos africanos, as autoridades eclesiásticas teriam optado por canalizá-los em vez de os erradicar totalmente. Um sínodo papal de 1687 recomendou aos padres que « ajustassem as crenças africanas às práticas católicas », e um édito real de 1792 chegou a ordenar às confrarias de escravos (os cabildos africanos) que adorassem oficialmente um santo católico equivalente a cada orisha. Ao impor estas substituições, a Igreja obrigava os escravos a baptizar os seus deuses com nomes cristãos. Certamente, construir capelas dedicadas a tal santo padroeiro de tal grupo de escravos custava caro e os espanhóis relutavam em tais despesas. Mas, essencialmente, esta política visava dar uma fachada cristã às devoções africanas, esperando torná-las mais aceitáveis na sociedade colonial.
Foi neste caldeirão de opressão e engenho que nasceu a Santería. Os espanhóis, surpreendidos por verem estes escravos atribuírem tanta importância aos santos (santos em espanhol), tinham apelidado com ironia o seu culto de “santería”, ou seja, o «culto dos santos». O termo tinha uma conotação pejorativa, como para zombar dessa devoção considerada supersticiosa. Porém, por trás da imagem piedosa das estatuetas da Virgem ou de Santo António, os escravos continuavam a rezar aos seus orishas africanos. Eles preferiam chamar à sua religião Regla de Ocha (a «regra dos orishas») ou simplesmente Lukumí, pelo nome da sua nação de origem. De qualquer forma, com o passar do tempo, desenvolveu-se em Cuba um verdadeiro sincretismo afro-católico: sem renegar a fachada católica imposta, os antigos escravos integraram os santos no seu universo espiritual, enriquecendo os seus rituais em vez de os abandonar.

Estátua de São Lázaro
Desde meados do século XIX, quando a escravatura estava a chegar ao fim (foi abolida em Cuba em 1886), a Santería firmou-se solidamente na cultura popular cubana. Irmandades de ajuda mútua de africanos libertos – agrupados por «nação» de origem – serviam de refúgio a estas práticas. Em Havana, Matanzas ou Santiago, os cabildos de Yoruba, autorizados na época colonial para supervisionar os escravos, tornaram-se após a emancipação sociedades culturais onde persistem os cânticos em iorubá, as danças rituais e o culto aos orishas por trás dos santos. Oficialmente, a Cuba republicana do início do século XX continuava a ser um país católico, e a elite olhava de cima para estas cerimónias que qualificava de brujería (feitiçaria). No entanto, muitos cubanos modestos – descendentes de escravos ou mestiços – continuavam a recorrer a elas para solicitar a proteção dos orishas no seu dia a dia. A Santería permanecia então largamente clandestina ou confinada ao âmbito doméstico, transmitida discretamente de pais para filhos, de padrinhos espirituais para afilhados.
3. Um culto oprimido e depois afirmado em Cuba
Com a chegada ao poder de Fidel Castro em 1959, Cuba entra numa era de ateísmo de Estado onde toda expressão religiosa é suspeita. Durante as primeiras décadas do regime revolucionário, a Santería, tal como a Igreja Católica, sofre uma repressão difusa: o novo poder associa estes cultos a «superstições» contrárias ao espírito científico do socialismo. As cerimónias afro-cubanas, já marginalizadas, são relegadas ainda mais para a sombra. No entanto, a fé dos santeros não desaparece por isso. No segredo das casas, continua-se a consultar as conchas divinatórias e a oferecer cocos aos orishas. O governo comunista, que procurava sobretudo quebrar a influência da Igreja Católica, tolera a meio termo estas práticas populares que não percebe como uma ameaça política imediata. Assim, apesar da desaprovação oficial, a Santería sobrevive na intimidade dos lares cubanos ao longo das décadas de 1960-70.
Uma viragem ocorre na década de 1990. Cuba, confrontada com a crise económica pós-URSS, abre-se paradoxalmente mais no plano religioso. O regime flexibiliza a sua ideologia: em 1992, retira da Constituição a referência a um Estado ateu para laicizar o país. Esta abertura beneficia as religiões afro-cubanas. A Santería sai progressivamente da sombra e ganha visibilidade. Formam-se oficialmente sociedades religiosas, como a Associação Cultural Yoruba de Cuba. Sacerdotes santeros começam a viajar para o estrangeiro, e as cerimónias outrora secretas exibem-se em eventos culturais. O próprio governo acaba por reconhecer a Santería como parte integrante do património nacional cubano. Nos anos 2000, a promoção da Santería ultrapassa o âmbito religioso: o Estado cubano destaca-a em festivais, turismo cultural e exposições, como símbolo da cubanidad autêntica. Este culto outrora perseguido é agora valorizado como componente essencial da identidade cubana, ao mesmo nível da música salsa ou da cozinha crioula.

Casal de cubanos em traje tradicional santera
Paralelamente, dentro da própria comunidade santera, observa-se um fenómeno de reafricanização. Alguns sacerdotes e adeptos, preocupados com a legitimidade, reivindicam um regresso às origens africanas da fé. Insistem na pureza da tradição iorubá transmitida pelos ancestrais, purificando os ritos de certas influências católicas ou ocidentais que se tinham enraizado ao longo do tempo. Reuniões de babalawos (sacerdotes adivinhos) estabelecem protocolos mais rigorosos, e escritos começam a codificar o que se transmitia essencialmente por via oral. Este processo de « ortodoxização » da Santería permanece, no entanto, limitado: não existe uma Igreja centralizada nem um dogma fixo. Cada ilé ou « casa de santo » conserva as suas particularidades rituais, herdadas do seu fundador. O saber permanece em grande parte detido pelos anciãos iniciados, transmitindo-se durante longas cerimónias de aprendizagem. Por exemplo, para se tornar sacerdote (santero ou babalawo), um aspirante deverá seguir um longo caminho de formação: estudo da teologia orisha, aprendizagem autodidata da língua iorubá – nenhuma escola a ensina em Cuba, é preciso aprender « no terreno » – e domínio dos tambores sagrados, tudo isso guiado por um padrinho espiritual exigente. « Não se torna sacerdote da noite para o dia, são precisos anos de estudo e dedicação », confidencia Yasser, um babalawo de Havana, que passou um ano vestido de branco como noviço e depois quatro anos a estudar antes de oficiar. Esta rigorosidade não impede que a Santería atraia cada vez mais adeptos: hoje, a maioria dos cubanos, de todas as origens, pratica de alguma forma um rito herdado das religiões afro-cubanas (mais de 70% da população segundo algumas estimativas). Longe de ser uma curiosidade marginal, a fé santera permeia profundamente a sociedade cubana contemporânea, desde a vida quotidiana dos bairros populares até às expressões artísticas nacionais.
4. Os rituais emblemáticos da Santería
Apesar das suas origens orais e da ausência de textos sagrados escritos, a Santería possui um corpo ritual rico e estruturado. Cada cerimónia é uma experiência tanto estética quanto espiritual, onde se entrelaçam música, dança, adivinhação e oferendas sagradas, com o objetivo de honrar os orishas e solicitar a sua ajuda.
4.1. A consulta pelos búzios divinatórios (diloggún)
A Santería atribui um lugar central à divinação, esta arte de comunicar com o mundo espiritual para obter conselhos e esclarecimentos. O médium privilegiado é um jogo de dezasseis conchas de cauris (chamados diloggún), consagrados durante um ritual prévio. Quando chega o momento da consulta – por exemplo para guiar um fiel perante um problema familiar ou uma decisão importante – o sacerdote ou sacerdotisa (santero ou santera) senta-se frente ao consulente, diante de uma esteira ritual. Depois de invocar os orixás com orações na língua lucumí, segura as conchas com as mãos unidas, concentra-se e depois lança-as com um golpe seco sobre o tapete. As conchas rolam e algumas caem com a face aberta para cima, outras com a face fechada.

Leitura do oráculo por um sacerdote santero. Fonte: Cubania
O padrão formado pelas conchas assim dispostas – por exemplo 4 abertas e 12 fechadas, ou 7 abertas e 9 fechadas,... – corresponde a sinais chamados odu na tradição divinatória iorubá. Existem 256 combinações possíveis de odu, cada uma contendo um conjunto de lendas, conselhos e avisos que o sacerdote deve conhecer de cor. Um santero experiente vai então « ler » a mensagem das conchas interpretando o odu que saiu, frequentemente complementado por um segundo lançamento para afinar o significado. O veredicto da consulta indicará se as energias do momento são favoráveis (Iré) – promessa de sucesso, saúde, prosperidade – ou, pelo contrário, deficientes (Osogbo) – sinalizando obstáculos ou desequilíbrios a corrigir. Neste último caso, o oráculo geralmente prescreve remédios sob a forma de oferendas rituais a realizar para restabelecer a harmonia. Em Cuba, estas sessões de adivinhação com conchas fazem parte do quotidiano: antes de um casamento, para escolher uma data propícia, ou após um sonho perturbador, vai-se « fazer a carta » com um santero para conhecer a vontade dos orixás e atrair a sua benevolência.
4.2. As oferendas e sacrifícios aos orixás
Na Santería, como na maioria das religiões afrodescendentes, a relação com o divino baseia-se numa troca de dons e atenções. As oferendas – chamadas ebo ou addimú – são a forma pela qual os fiéis honram os orishas e obtêm em troca as suas graças. Estas podem assumir várias formas: alimentos cozinhados, frutas, flores, charutos, bebidas alcoólicas, e em ocasiões importantes, sacrifícios de animais. Cada orisha tem as suas preferências e símbolos. Ochún aprecia, por exemplo, o mel, as laranjas e a canela, oferendas doces que refletem a sua doçura. Changó prefere o galo (de cor vermelha de preferência) que pode ser-lhe sacrificado, assim como a mandioca, as bananas-da-terra grelhadas ou o rum forte e picante – pratos robustos à sua imagem ardente. Yemayá receberá melancias, peixes e vinho branco seco na orla marítima. Quanto a Babalú Ayé (sincretizado com São Lázaro), é comum oferecer-lhe milho torrado, tabaco ou um pequeno animal (como um frango ou um pombo) como sacrifício expiatório. O sacrifício ritual de animais ocupa, de facto, um lugar essencial nas cerimónias principais: longe de ser um ato de crueldade gratuita, é visto como um dom de vida aos orishas, uma forma de alimentar as divindades com a energia vital (ashé) do sangue derramado. Uma cabra, um galo ou uma pomba, abatidos segundo um ritual preciso e consagrados pela oração, tornam-se assim a ponte entre o humano e o divino. A carne é geralmente cozinhada e depois partilhada entre os participantes, depois de reservar uma parte simbólica para o orisha no altar. Este gesto reforça o vínculo comunitário ao mesmo tempo que manifesta a gratidão para com a divindade invocada. Note-se, e isto é importante, que a Santería ensina um grande respeito pelo animal sacrificado: trata-se o animal com consideração, e o sacrifício só é realizado quando necessário, por sacerdotes formados. Aliás, fora dos sacrifícios, as oferendas não sangrentas são muito comuns: coloca-se um prato de frutas frescas, doces, ou acende-se uma vela e incenso diante do altar doméstico para saudar todas as manhãs o orisha protetor da casa.
4.3. O rito do tambor (toque de santo) e o transe espiritual
A Santería é, acima de tudo, uma religião de ritual vivo, onde a música e a dança desempenham um papel sagrado. Entre as celebrações mais espetaculares está o bembé ou toque de santo, a « festa do santo », durante a qual se invoca publicamente um orisha pelo tambor e pelo canto. Imaginemos uma tarde quente na periferia de Matanzas: é o aniversário de um orisha ou a conclusão de uma iniciação, e uma família santera organiza um tambor comunitário. Três tambores sagrados esculpidos em madeira – os batá – são afinados e colocados diante do altar, cada um segurado por um percussionista experiente. Assim que as mãos batem na pele esticada, um ritmo enche o espaço. Os cantores entoam em coro cânticos litúrgicos em iorubá, transmitidos de memória há séculos. A cada orisha corresponde um ritmo específico e palavras particulares. Os participantes presentes, vestidos de branco ou com as cores do seu orisha tutelar, começam a dançar em círculo. O suor escorre nas testas enquanto o ritmo acelera – é muito mais do que um concerto, é uma oração coletiva em linguagem de tambor. Segundo a tradição, estes instrumentos são entidades consagradas, capazes de falar e chamar os deuses. Através da cadência, implora-se ao orisha que desça do céu e participe na festa.

Rito do tambor. Fonte: Wikipédia
Pouco a pouco, a atmosfera atinge um ponto de intensidade. Os dançarinos mais próximos dos tambores – os anciãos ou os iniciados de alto escalão – executam os passos próprios do orisha celebrado, pois cada divindade tem a sua gestualidade característica. Para Changó, levantam-se os braços como se segurassem um machado e imita-se o trovão que se desencadeia; para Yemayá, ondulam-se os braços como ondas, para dar apenas dois exemplos. De repente, uma das dançarinas solta um grande grito e cai convulsionando no centro do círculo. Imediatamente, os tambores modulam o seu ritmo e os cantores redobram a energia: o orisha tomou posse de um corpo. Diz-se que o santo “montou o cavalo” – o fiel é comparado a um cavalo cujo espírito do orisha se torna o cavaleiro. A pessoa em transe entra então num estado alterado: os seus olhos reviram-se e cobrem-se de um branco leitoso, a sua expressão muda, e ela encarna de repente a personalidade do orisha descido. Se for Changó, talvez levante um machado e peça fogo; se for Ochún, rirá com coqueteria enquanto distribui mel. Pela sua boca, considera-se que é a própria divindade que se expressa. Os outros fiéis aproximam-se respeitosamente para receber a bênção do orisha encarnado: inclinam a cabeça, apresentam objetos para que ele os toque e consagre, ou fazem perguntas para obter um conselho direto. Entretanto, os tambores não param de tocar, para manter o orisha presente. O transe pode durar longos minutos, por vezes mais de uma hora, até que a entidade decida retirar-se do corpo do possuído. Esta experiência de transe mediúnico está no coração da espiritualidade santera: materializa, durante uma dança, o encontro tangível entre o mundo dos humanos e o dos orishas. É um momento de fervor intenso onde a fé sai do domínio do invisível para se viver corporalmente, perante todos. Uma vez terminada a cerimónia, agradece-se aos tambores com oferendas e partilha-se uma grande refeição festiva, pois estas festas dos santos são também momentos de convívio: serve-se abundantemente porco assado, arroz congrí, bananas-da-terra fritas e outros pratos cubanos, prolongando assim a celebração num registo mais terreno mas igualmente sagrado à sua maneira.
4.4. A iniciação e o “nascimento” de um santero
Para além dos rituais pontuais, a Santería é estruturada por um percurso iniciático rigoroso. Tornar-se adepto – e a fortiori sacerdote – não se resume a uma adesão intelectual: é um verdadeiro renascimento espiritual, marcado por cerimónias complexas e altamente simbólicas. A iniciação maior, chamada “fazer o santo” (em espanhol hacerse santo), consagra um recém-chegado na religião ao instalar um orisha protetor na sua vida. Tudo começa geralmente por uma consulta divinatória que revela qual orisha tutelar reclama essa pessoa como filho ou filha. Um jovem impulsivo e corajoso poderá ser chamado por Changó, enquanto uma mulher doce e artista poderá ser escolhida por Ochún. Uma vez identificado o orisha guardião, organiza-se a cerimónia central do kariocha (palavra de origem iorubá que significa “pôr o orisha na cabeça”), também chamada asiento (a “assenta”) ou coronación (a “coroação”). Este ritual iniciático, que decorre durante vários dias, é mantido em segredo para os não iniciados e realizado a portas fechadas na casa-templo do padrinho espiritual. O momento culminante vê o iniciado – com a cabeça rapada e purificada – ajoelhar-se diante do altar, enquanto o obba (sacerdote que oficia a iniciação) invoca o orisha tutelar e simbolicamente o “fixa” na cabeça (ori) do noviço através de cânticos sagrados, unções e imposição ritual das mãos. Diz-se então que o orisha “nasce” nessa pessoa, que se torna desde então um iyawó, um recém-nascido na fé.
O iyawó inicia um período de um ano durante o qual deverá respeitar regras estritas de conduta e purificação. Deve vestir-se exclusivamente de branco da cabeça aos pés todos os dias, para simbolizar o seu renascimento puro e a sua devoção aos orishas. Evitará locais barulhentos, abster-se-á de certos alimentos, não poderá ser tocado em público e usará ao pescoço colares de contas (os elekes) nas cores dos seus orishas protetores. Este tempo de prova e disciplina permite ao iniciado libertar-se das influências negativas da sua vida passada e fortalecer a sua ligação com o seu orisha. É uma espécie de retiro espiritual no meio da vida quotidiana: durante doze meses, o mundo vê um indivíduo vestido de branco, humilde e reservado, enquanto o iniciado vive interiormente uma transformação profunda. Após este ciclo, realiza-se uma cerimónia de encerramento – chamada saída do iyawó ou cerimónia de ebó (oferta de conclusão) – durante a qual, rodeado pela sua comunidade, o iniciado deposita as suas roupas brancas e recebe a confirmação final do seu estatuto. É então proclamado omo-orisha, “filho do orisha”: omo Changó se o seu guardião for Changó, omo Yemayá para Yemayá, etc. A partir desse momento, é considerado um santero a todos os efeitos, membro da comunidade dos iniciados, com a possibilidade mais tarde de formar novos adeptos. A iniciação na Santería não é apenas um rito de passagem, é a pedra angular em torno da qual se articula toda a transmissão desta religião. É graças a ela que, de geração em geração, a chama dos orishas permanece acesa, cada novo iniciado tornando-se o elo vivo de uma cadeia espiritual ininterrupta desde os ancestrais africanos.
5. De Cuba para o mundo: a Santería na diáspora
Se a Santería nasceu na ilha de Cuba, a sua influência ultrapassou largamente as fronteiras cubanas graças às migrações e ao interesse que suscita. Já nas décadas de 1940-50, trabalhadores e músicos cubanos fizeram conhecer os ritmos dos tambores bata em Nova Iorque e Miami. Mas foi sobretudo após a revolução cubana de 1959 que a diáspora cubana espalhou a Santería pelas Américas. Nas décadas de 1960-70, dezenas de milhares de cubanos – exilados políticos a fugir do castrismo ou migrantes em busca de oportunidades – instalaram-se na Florida, em Porto Rico, na Venezuela ou em Nova Iorque. Trouxeram nas suas bagagens culturais os seus santos, os seus orishas e os seus altares. Em breve, nos bairros cubanos de Miami, como Hialeah ou Little Havana, começaram a abrir botánicas (lojas esotéricas) que vendiam colares de Santería, velas de santos e ervas sagradas. Casas de culto organizaram-se discretamente em garagens ou quintais, onde os imigrantes continuaram a celebrar Ochún e Obatalá como em Havana. A Santería preencheu assim um vazio espiritual e identitário para estes desraizados, reproduzindo em terra estrangeira a rede de solidariedade das famílias de santos. Pouco a pouco, atraiu também não cubanos curiosos: porto-riquenhos, afro-americanos e até norte-americanos brancos deixaram-se iniciar, seduzidos pela dimensão participativa e transcendental destes rituais afro-cubanos.

Interior de uma botanica. Fonte: Latina Lista
Nos Estados Unidos, no entanto, a religião santera teve de se adaptar a um ambiente legal e cultural muito diferente. Um episódio marcante ilustra a sua afirmação progressiva: em 1992, a comunidade santera de Hialeah (Flórida) decide estabelecer um local de culto oficial, a Igreja Lukumí Babalú Ayé. Em reação, o conselho municipal local tenta proibir o sacrifício ritual de animais no seu território, visando claramente as práticas santeras. Seguiu-se uma batalha jurídica retumbante que terminou em 1993 perante a Suprema Corte dos Estados Unidos. Na sua decisão histórica Church of the Lukumi Babalu Aye v. City of Hialeah, a Suprema Corte deu razão aos santeros: por unanimidade, considerou que as ordenanças municipais de Hialeah visavam especificamente a Santería e violavam o princípio constitucional da livre prática das religiões. Esta vitória judicial consagrou a legitimidade da Santería na América do Norte. No terreno, traduziu-se numa explosão do número de praticantes declarados. Já em meados dos anos 1990, estimava-se que havia cerca de 50 000 a 100 000 santeros só no sul da Flórida (Miami e região), e quase um milhão de adeptos em todo os Estados Unidos. Números impressionantes que incluem não só cubanos de origem, mas também muitos latinos e americanos que adotaram a fé lucumí. Hoje, cerimónias de Santería realizam-se regularmente em Los Angeles, Nova Iorque, Cidade do México, Caracas ou Madrid, impulsionadas pelas diásporas cubanas e seus convertidos. A música dos tambores bata ressoa durante os desfiles multiculturais, os colares multicoloridos adornam os pescoços muito para além do Caribe, e algumas estrelas ou artistas em destaque não hesitam em consultar um babalawo para orientar a sua carreira. A Santería tornou-se assim uma religião mundial, presente em vários continentes.
No entanto, mantém uma ligação e um sabor decididamente cubanos. Havana continua a ser a Meca do culto santero: muitos estrangeiros deslocam-se para lá para serem iniciados por sacerdotes reputados ou para participar em grandes festas patronais. Os santeros cubanos, por sua vez, orgulham-se de deter a herança mais direta da tradição iorubá, que consideram um tesouro cultural nacional. Apesar das distâncias, laços estreitos unem as comunidades de Cuba e da diáspora: trocas de visitas, envio de cabaças sagradas, convites para oficiar em cerimónias. Assim, desde a aldeia nigeriana de onde partiu outrora um escravo para Cuba até à metrópole moderna onde o seu trisneto poderá muito bem ser o babalawo de um grupo de americanos, a cadeia ininterrupta da Santería continua a desenrolar-se, acrescentando constantemente novos elos.
6. Glossário
Encontre aqui as definições dos termos tradicionais usados neste artigo:
-
Ache (ou Aché) : força espiritual transmitida pelos orixás; energia vital presente nos rituais, nos objetos sagrados e nas palavras.
-
Babalawo : sacerdote adivinho especialista no sistema de adivinhação Ifá, formado para interpretar as mensagens dos orixás através dos sinais sagrados.
-
Cabildo : organização religiosa e cultural fundada na época colonial pelos escravos africanos para manter as suas práticas espirituais.
-
Changó (ou Shangó) : orixá do fogo, do trovão, da guerra e da virilidade. É também patrono dos tambores e da dança.
-
Elegguá (ou Eleguá) : orixá mensageiro, guardião dos caminhos e encruzilhadas, que se invoca primeiro em qualquer ritual.
-
Eré : boneca sagrada que representa a criança espiritual de um iniciado; usada em certos rituais como suporte simbólico.
-
Ifá : sistema divinatório complexo de origem iorubá, baseado na interpretação dos sinais (odu) pelo babalawo. É também um caminho espiritual por si só.
-
Iyawó : pessoa recentemente iniciada, sujeita a regras estritas durante um ano após a iniciação (roupas brancas, comportamentos específicos, etc.).
-
Obatalá : orisha da paz, da sabedoria e da criação humana. Representa a pureza e a ordem.
-
Ochún (ou Oshún) : orisha dos rios, do amor, da feminilidade, da beleza e da prosperidade.
-
Orisha : divindade ou força espiritual do panteão iorubá, cada uma com traços, cores, dias e preferências.
-
Ounfó : templo ou casa religiosa onde são celebrados os ritos da Santería.
-
Santo : termo comum para designar um orisha, relacionado com o sincretismo entre santos católicos e divindades iorubás.
-
Santería : religião afro-cubana sincrética nascida da fusão entre as crenças iorubás e o catolicismo.
-
Toque de santo : cerimónia musical ritual com tambores sagrados (tambores bàtá) para chamar e honrar os orishas.
-
Yemayá : orisha do mar, das mães, da gestação e da proteção materna.
Fontes :
-
Brown, David H. Santería Enthroned: Art, Ritual, and Innovation in an Afro-Cuban Religion. University of Chicago Press, 2003.
-
Hagedorn, Katherine J. Divine Utterances: The Performance of Afro-Cuban Santería. Smithsonian Institution Press, 2001.
-
Brandon, George. Santería from Africa to the New World: The Dead Sell Memories. Indiana University Press, 1993.
-
Barnet, Miguel. La Regla de Ocha: El culto de los orichas en Cuba. Letras Cubanas, 1995.
-
Encyclopædia Britannica, “Santería.”
-
Smithsonian National Museum of American History, “Santería and Afro-Caribbean Religions.”
-
Center for Folklife and Cultural Heritage, “Orisha Worship in Cuba.”
-
Entrevista com um babalawo cubano, recolhida no âmbito do projeto Voces del Espíritu, Universidade de Havana, 2018.















