Dizem que é rebelde, perigosa, livre. Lilith aparece no entanto apenas de forma muito ténue nas Escrituras, mas a sua própria ausência alimentou a imaginação. Por vezes temida, por vezes admirada, ela surge onde as regras vacilam, onde a ordem fraqueja perante o que escapa ao controlo. Mas quem é ela realmente? Um demónio expulso do paraíso, uma figura da sombra esquecida pela história, ou a primeira mulher apagada dos relatos oficiais? Exploração.
1. Nas origens mesopotâmicas de Lilith
1.1. A demónia do vento e das tempestades
As primeiras referências a Lilith aparecem na antiga Mesopotâmia, muito antes da sua integração nas lendas hebraicas. O seu nome derivaria do sumério líl que significa « vento » ou « espírito », passado para o acádio sob a forma lilītu (feminino de lilû).
Pequena precisão: o acádio é uma língua antiga que foi falada há mais de 4 000 anos. É uma língua semítica, como o árabe ou o hebraico, mas escrevia-se com caracteres cuneiformes, um sistema de sinais em forma de pequenos pregos, gravados em tábuas de argila. É aliás a primeira língua semítica conhecida a ter sido posta por escrito.
Neste contexto, Lilith não é uma mulher humana, mas um demónio feminino associado às tempestades e aos ventos violentos do deserto. Esta criatura é descrita como estéril e perigosa, incapaz de procriar, procurando antes atormentar os humanos. Os textos acádios mencionam de facto demónios chamados Lilû, Lilītu e Ardat-Lilî, apresentados como espíritos nocivos que vagueiam por locais áridos. As Lilītu femininas e as Ardat-Lilî (literalmente « jovens raparigas fantasmas ») são retratadas como entidades lascivas que seduzem os homens à noite e ameaçam as mulheres grávidas e os recém-nascidos. Elas rondam ao anoitecer, semelhantes a criaturas noturnas, entrando pelas janelas abertas para roubar a vida dos bebés nos seus berços. Diziam mesmo que o leite dos seus seios era envenenado em vez de nutritivo...
1.2. Um nascimento numa árvore lendária?
Mas de onde vem ela? Na mitologia suméria, Lilith aparece numa antiga narrativa ligada à epopeia de Gilgamesh. Um poema sumério chamado Gilgamesh e o Huluppu conta que uma deusa planta uma árvore Huluppu nas margens do Eufrates (uma árvore lendária), no jardim sagrado de Inanna em Uruk. Após anos de crescimento, a árvore é habitada por três intrusos: uma serpente monstruosa na base, um pássaro tempestuoso (Zu) nos seus ramos, e uma demónia instalada no meio do tronco. Este texto usa um termo sumério (transcrito ki-sikil-lil-la-ke) que alguns assiriologistas traduziram por « Lilith ». O herói Gilgamesh vem então em auxílio de Inanna: ele derruba a serpente, afasta o pássaro, e a demónia aterrorizada destrói a sua própria casa antes de fugir para o deserto.
Esta seria a mais antiga menção literária de Lilith como espírito maléfico das regiões selvagens. Contudo, esta identificação é debatida: outros investigadores salientam que a palavra poderia simplesmente designar uma coruja ou um espírito anónimo da noite em vez da Lilith posterior. Seja como for, a imagem de um demónio alado expulso para as regiões desérticas antecipa bem o papel de Lilith como criatura noturna e, sobretudo, indomável.
1.3. Uma assimilação a Lamashtu
Para além dos textos, a Mesopotâmia legou-nos imagens que foram associadas a Lilith, pelo menos simbolicamente. O famoso relevo de Burney, uma placa de barro babilónica datada de cerca de 1800 a.C., mostra uma mulher nua com asas abertas e pés garras, ladeada por duas corujas e empoleirada em leões.

Relevo mesopotâmico chamado «Rainha da Noite» (1800-1750 a.C., British Museum). Fonte: World History Encyclopedia
Descoberto na década de 1930, este painel foi inicialmente interpretado como uma representação de Lilith, devido aos atributos noturnos (asas, corujas) que correspondiam à descrição da demónia. No entanto, o consenso atual vê-o mais como uma deusa importante do panteão mesopotâmico – possivelmente Inanna (Ishtar) ou o seu duplo infernal Éreshkigal – pois a figura usa a tiara com cornos das divindades e apoia-se em leões, símbolos de Ishtar. Mesmo que este relevo provavelmente não seja a própria Lilith, ilustra o tipo de iconografia (mulher alada, criatura meio mulher meio pássaro) que mais tarde foi associada a Lilith no imaginário popular. Além disso, na Mesopotâmia tardia, a figura de Lilith tende a confundir-se com outra demónia chamada Lamashtu. A partir da época médio-babilónica (1600 a 1000 a.C.), os textos assimilam Lilith a Lamashtu, uma temível ogra que mata bebés e faz perecer as mães no parto. Contra estas pragas, os assírios confiavam no demónio protetor Pazuzu (o «rei dos demónios do vento»), cujo nome era invocado para afastar Lamashtu/Lilith do lar. Assim, desde a antiguidade mesopotâmica, encontra-se a ideia de um espírito feminino maléfico que vagueia pelos desertos, inimigo das mulheres e das crianças, e que só rituais ou talismãs podiam manter à distância.
2. Lilith na Bíblia hebraica
Após milénios de existência nos mitos mesopotâmicos, o nome Lilith faz uma aparição discreta na Bíblia hebraica. Na realidade, Lilith aparece apenas uma vez no Antigo Testamento, sob a forma de um hapax (uma palavra usada apenas uma vez). Esta menção encontra-se no livro de Isaías, capítulo 34, versículo 14, no centro de uma profecia que descreve a desolação do país de Edom após a ira divina. O texto hebraico de Isaías enumera as criaturas estranhas que habitarão essas ruínas: animais do deserto, sátiros e a própria Lilith, que aí encontrará um lugar de descanso. Eis como a Bíblia descreve esta cena:
« Os animais do deserto aí encontrarão as hienas, e os bodes selvagens chamar-se-ão uns aos outros. Também aí Lilith descansará e encontrará o seu abrigo. »
A palavra Lilith é aqui traduzida de várias formas nas versões antigas, pois o seu significado preciso suscitava dúvidas. As primeiras traduções da Bíblia para o grego antigo interpretaram Lilith segundo as suas próprias referências culturais. A Septuaginta (a primeira tradução da Bíblia hebraica para o grego, nos séculos III e II a.C.) apresentou Lilith como um onocentauro, uma criatura fantástica meio homem meio burro. Esta tradução curiosa pode ser explicada por uma associação com Lamashtu, representada montando um burro na iconografia acádia. Outro tradutor grego, Symmáquio (século II), optou por substituir Lilith por Lâmia, o nome de uma demónia devoradora de crianças na mitologia grega. Estes equivalentes mostram que os antigos eruditos compreendiam Lilith como um demónio maléfico, mesmo que a nomeassem de forma diferente.

Excerto da Septuaginta. Fonte: Aleteia
Nas traduções posteriores, ainda encontramos interpretações variadas: algumas Bíblias medievais traduziam Lilith por « bruxa », « espectro da noite » ou « coruja », influenciadas por uma etimologia popular que relacionava Lilith com layl (« noite » em hebraico). Só na época moderna os tradutores geralmente mantiveram o nome próprio Lilith tal como está, conscientes de que se trata de um ser mitológico único.
À exceção deste versículo de Isaías, a Bíblia não desenvolve uma história em torno de Lilith. O texto sagrado não a apresenta explicitamente como uma personagem, e nenhuma alusão é feita a uma esposa de Adão antes de Eva no Génesis. Assim, Lilith não figura literalmente no relato da Criação, ao contrário do que é uma ideia difundida. Foi mais tarde, através da exegese e das lendas, que Lilith foi associada ao livro do Génesis – mas a própria Bíblia permanece quase silenciosa sobre ela. A solidão deste nome nas Escrituras provavelmente estimulou a imaginação dos comentadores posteriores, que procuraram preencher o silêncio do texto integrando Lilith na história bíblica da Criação.
3. Lilith na tradição rabínica tardia
3.1. Lilith, a criatura alada
Foram os sábios do judaísmo pós-bíblico que, pela primeira vez, mencionaram Lilith de forma um pouco mais substancial. No Talmude da Babilónia (redigido entre o século III e VI d.C.), Lilith é mencionada precisamente quatro vezes. Embora breves, estas alusões talmúdicas traçam um retrato já muito próximo da Lilith das lendas posteriores. Os rabinos descrevem Lilith como um demónio feminino alado, com cabelos abundantes – uma aparência confirmada por duas passagens talmúdicas. Nomeadamente, ensina-se no tratado Eruvin 100b que uma forma de anomalia no nascimento pode apresentar «a aparência de uma Lilith», ou seja, uma criatura humanoide com asas. Da mesma forma, o tratado Niddah 24b menciona que uma mulher que sofre um aborto espontâneo e expulsa um feto com a aparência de uma Lilith (uma criança com asas) é ainda assim considerada como tendo dado à luz uma criança normal, confirmando que Lilith é vista como um ser de forma feminina, mas alado. E pode pensar que esta segunda interpretação é um pouco contraditória, mas ela torna-se clara quando lida no seu contexto cultural e jurídico.
O tratado Niddah 24b explica que uma mulher que sofre um aborto espontâneo expulsando um feto com a aparência de uma Lilith — ou seja, um ser feminino com asas — é ainda assim considerada como tendo dado à luz uma criança viável, do ponto de vista ritual.
Isso não significa que os rabinos considerem Lilith como uma criança humana “normal” num sentido afetivo ou biológico. O que o Talmud afirma aqui é uma decisão legal. A questão que os sábios colocam não é «É uma criatura estranha ou demoníaca?», mas: «Este nascimento desencadeia as regras de pureza ou impureza ritual?»
Neste caso específico, a resposta é sim: mesmo que o feto tenha uma forma anormal — aqui, uma silhueta feminina com asas, portanto associada a Lilith — isso conta legalmente como um nascimento. É uma forma muito rabínica de raciocinar: pode-se reconhecer que a aparência é estranha, até inquietante, sem excluir o evento do quadro legal habitual.
Portanto: sim, Lilith é vista como uma criatura sobrenatural, inquietante, por vezes demoníaca, noutros trechos do Talmud. Mas aqui, em Niddah, os sábios não se perguntam se Lilith é um monstro, mas sim se um parto deste tipo tem as mesmas consequências legais que os outros. E a resposta é: sim.
Estes detalhes coincidem com as representações nas taças mágicas da mesma época, onde demónios femininos são desenhados com cabelos longos e asas para representar Lilith.
3.2. Lilith, a succuba
O Talmud também alerta para o perigo que Lilith representa para os homens. O sábio Hanina ben Dossa ensinou até que não é aconselhável dormir sozinho numa casa, sob o risco de Lilith vir atacar o homem adormecido. Este aviso, relatado em Shabbat 151b, revela o caráter de
Note-se, no entanto, que, nessas fontes talmúdicas, Lilith ataca tod@s – homens, mulheres e crianças – e não apenas os recém-nascidos, ao contrário de algumas tradições posteriores que a retratam principalmente como uma assassina de crianças.
3.3. As taças de incantação contra Lilith
À margem dos textos eruditos, a cultura judaica tardia produziu muitos artefactos mágicos destinados a proteger contra Lilith. Entre estes, as taças de incantação (ou «taças mágicas») descobertas na Mesopotâmia e no Irão oferecem um testemunho direto dos medos e remédios populares relacionados com a demónia. Estas taças de barro, datadas do século IV ao VI da nossa era, eram enterradas sob o limiar das casas para prender ou afastar os demónios. Muitas taças contêm fórmulas em aramaico invocando a proteção de Deus e dos anjos contra «os Liliths masculinos e femininos». Encontram-se até as primeiras representações visuais de Lilith: um pequeno desenho rudimentar no fundo da taça, representando uma figura feminina com os braços levantados, rodeada pelo texto em espiral da incantação. Numa dessas taças, conservada no Museu Semítico de Harvard, vê-se um demónio com aparência feminina a levantar os braços de forma ameaçadora, o corpo coberto de manchas que evocam a pele de um leopardo – detalhe que, segundo os especialistas, permite identificar Lilith por comparação com outras taças semelhantes. A inscrição que circunda a figura declara a expulsão dos males da casa de um certo Quqai, filho de Gushnaï, e da sua esposa Abi, expulsando todos os espíritos malignos que os atormentam.

Taça de incantação aramaica (cerca de 600 d.C., Museu de Harvard). Fonte: Biblical Archeology Society
Embora o nome de Lilith não esteja explicitamente escrito nesta taça, a tradição considerou que se tratava dela, dada a sua reputação já bem estabelecida. Os textos das taças acusam «a feiticeira» ou «a Lilith» de vaguear à noite para atormentar os que dormem e unir-se a eles ilicitamente. Uma delas menciona «Hoblas, a Lilith, neta de Zarni, a Lilith» a bater em crianças, rapazes e raparigas, e a devorá-las cruelmente. Perante tais ameaças, as conjurações inscritas nas taças tomam a forma de “cartas de divórcio” mágicas: nelas afastam Lilith (ou a lilith quando é considerada uma categoria de demónios mais do que uma demónia em si), repudiando-a e proibindo-lhe por escrito de se aproximar da casa ou da criança a proteger.
Assim, entre o Talmude e as práticas mágicas, Lilith afirma-se na cultura judaica tardia como um demónio bem definido. É uma mulher-demónio alada, lasciva e perigosa, vista como responsável pelos pesadelos eróticos, pelas mortes súbitas de bebés e por uma série de males inexplicáveis. Os sábios discutem a sua existência (alguns, como o erudito medieval Maomé, rejeitarão Lilith como uma superstição infundada), mas o povo toma precauções para o caso. Lilith está agora suficientemente enraizada no imaginário para que lhe sejam dedicados amuletos: encontram-se, por exemplo, medalhões ou pergaminhos antigos com a inscrição «Adão e Eva, Lilith fora», acompanhada dos nomes dos três anjos Senoy, Sansenoy e Semangelof – os únicos capazes, dizem, de a conter. São precisamente estes três anjos que aparecem na lenda de Lilith como primeira mulher de Adão, lenda que ganha forma no início da Idade Média.
4. Lilith, a primeira mulher de Adão
Por volta da Alta Idade Média, a figura de Lilith sofre uma transformação importante: é integrada num relato quase midrashico que a apresenta como a primeira esposa de Adão, precedendo Eva.
Antes de avançar, expliquemos o que é um midrash: quando se fala de um relato quase midrashico, quer-se dizer que o texto preenche um silêncio da Bíblia, cria uma história a partir de uma ausência ou tensão no texto, mas não faz parte oficialmente das coleções de midrashim reconhecidas pela tradição rabínica. Pode vir de um autor anónimo, de um texto marginal, de uma coleção posterior ou de um escrito popular (alguns são muito sérios e jurídicos, outros mais narrativos e imaginativos como esta passagem sobre Lilith). Esta precisão é importante porque, se o cristianismo e o islamismo retomam o relato de Adão e Eva do Génesis, nem um nem outro dão lugar a Lilith, pois não herdaram o midrash. É por isso que ela é sobretudo mencionada nas tradições judaicas.
A origem mais antiga desta história encontra-se num texto anónimo compilado entre o século VIII e o X, conhecido como Alfabeto de Ben Sira. Esta obra (falsamente atribuída ao sábio Shimon Ben Sira) é na realidade uma coleção satírica de fábulas e histórias edificantes compilada na Babilónia ou na Pérsia medieval. É aí, num capítulo dedicado à descendência de Adão, que aparece pela primeira vez o relato completo de Lilith, a mulher rebelde.
Segundo o Alfabeto de Ben Sira, depois de criar Adão a partir do pó da terra, Deus moldou Lilith a partir da mesma terra para lhe dar uma companheira. Lilith é portanto feita do mesmo material e do mesmo momento criador que Adão, o que a torna desde logo igual a ele em natureza e estatuto. Muito rapidamente, no entanto, o casal discute: Adão quer impor a sua autoridade, enquanto Lilith recusa submeter-se. A sua disputa é ilustrada de forma figurada por uma cena da vida conjugal: no momento de terem relações íntimas, Adão exige que Lilith esteja deitada por baixo dele, o que ela não pode aceitar. Lilith exige igualdade:
« Somos iguais um ao outro, pois ambos fomos criados da terra.
Nenhum querendo ceder – Adão recusando-se a deitar por baixo, Lilith recusando-se a deitar por baixo – Lilith, furiosa, pronuncia o Nome Inefável de Deus (Yod, Hé, Vav, Hé, sagrado e impronunciável) e voa para fora do Éden. Ao usar o Nome divino, ela adquire um poder mágico que lhe permite sair do jardim do Éden pelo ar. Ela foge então para o Mar Vermelho, território dos demónios.
Adão, desamparado ao ver a sua companheira partir, implora ao Criador que a faça voltar. Deus então envia três anjos – chamados Senoï, Sansenoï e Samangelof – em perseguição a Lilith para a convencer a regressar a Adão. Os três mensageiros alcançam Lilith à beira do Mar Vermelho, onde a encontram rodeada pelos demónios com quem ela já se unira. De facto, entretanto Lilith teria tomado como amante o «Grande Demónio» chamado Samael (outras versões falam de Asmodeu), e gerado muitas criaturas demoníacas nas águas do Mar Vermelho. Os anjos transmitem a ordem divina: Lilith deve voltar para junto de Adão, caso contrário será morta. Lilith recusa obstinadamente. Em represália, os enviados de Deus ameaçam afogá-la. Lilith propõe-lhes então um acordo: jura que não atentará mais contra a vida dos recém-nascidos humanos desde que estes levem um sinal que os afaste – neste caso, os nomes dos três anjos inscritos numa amuleto. Os anjos aceitam este compromisso: Lilith escapa ao castigo divino prometendo poupar as crianças protegidas por um talismã, mas em contrapartida abandona definitivamente Adão.
É assim que, nesta narrativa, Lilith adquire o papel de demónio errante assassino de crianças, mantendo ao mesmo tempo a sua aura de primeira mulher livre. O Alfabeto de Ben Sira explica de facto que, se Lilith foi a primeira companheira de Adão, a sua partida serve para justificar a presença de dois relatos da criação da mulher no Génesis. O livro do Génesis apresenta de facto duas versões: Génesis 1:27 indica que Deus criou o Homem « homem e mulher ao mesmo tempo » (o que deixou perplexos muitos comentadores), enquanto Génesis 2:22 narra a formação de Eva a partir da costela de Adão. A lenda de Lilith resolve esta aparente incoerência: no primeiro relato bíblico, a « mulher » mencionada seria Lilith, criada à semelhança de Adão, enquanto o segundo relato descreve a criação de Eva, produzida de forma diferente após o desaparecimento de Lilith. Lilith torna-se assim a primeira Eva, aquela que foi formada como Adão do pó, mas que, recusando ser dominada, abandonou o paraíso e deu lugar a outra mulher, Eva, moldada a partir de Adão e destinada, ela sim, a ser « osso dos seus ossos ».
Este mito tardio de Lilith, embora não canónico, teve um enorme sucesso no imaginário judaico e mesmo para além dele. Foi difundido através de versões manuscritas e orais, de tal forma que desde a Idade Média, Lilith a primeira mulher é uma ideia comum para explicar certos mistérios dos textos sagrados. A partir daí, as interpretações foram muitas e variadas. Por exemplo, o erudito do século X Isaac Ben Jacob menciona nos seus escritos que, segundo alguns, « Adão teve uma primeira esposa antes de Eva, mas ela era um espírito maléfico ». Outros comentários posteriores do Génesis referem brevemente esta « primeira mulher rebelde », sem a nomear sempre Lilith, mas percebe-se que se trata dela.
Além disso, o acordo feito entre Lilith e os anjos no Alfabeto de Ben Sira tem repercussões diretas nas tradições populares. A partir da Idade Média, tornou-se comum pendurar acima do berço dos recém-nascidos uma amuleto com a inscrição « Senoy, Sansenoy, Semangelof, Adam ve-H’ava » (« Senoy, Sansenoy e Semangelof, Adão e Eva ») seguida da fórmula « Lilith fora ». Este texto apotropaico (destinado a afastar o mal) recorda explicitamente a promessa de Lilith: ao ver os nomes dos anjos ou os de Adão e Eva, o demónio é obrigado a deixar a criança em paz. Esta prática, atestada por documentos desde o século XIII, testemunha a penetração da lenda de Lilith na vida quotidiana. Lilith, outrora vento do deserto mesopotâmico, está agora integrada na história de Adão e Eva e temida nos quartos das crianças. A sua imagem de mulher demoníaca indomável está firmemente estabelecida no final do primeiro milénio.
5. Lilith na Cabala
5.1. De demónia a rainha
Na época medieval, a figura de Lilith será enriquecida e transformada pela literatura mística judaica, em particular a Cabala nascente (do século XII ao XV). Os cabalistas, procurando desvendar os segredos da criação e a natureza do mal, integram Lilith na sua visão dualista do todo. Ela deixa de ser apenas uma demónia errante: torna-se uma personagem chave na arquitetura espiritual do mal, a contraparte feminina das forças demoníacas opostas ao mundo divino.
Um dos temas desenvolvidos pela Cabala é a ideia de que Lilith terá sido criada não a partir da santidade, mas a partir dos resíduos de impureza deixados durante a criação de Adão. Uma fonte medieval (o Yalqut Reuveni, coleção do século XVII que compila tradições mais antigas) sugere que Lilith foi moldada com « terra impura », ao contrário de Adão formado de argila pura, o que explicaria a sua natureza diabólica desde a origem. Outros textos cabalísticos ligam diretamente o nascimento de Lilith ao de um arcanjo caído, Samael.
Personificação de Samael. Fonte: Wikipédia
Identificado com Satanás na mística judaica, é visto como o « príncipe do mal ». Segundo uma tradição relatada por um dos primeiros cabalistas (Rabbi Isaac ben Jacob ha-Cohen, por volta de 1260, no seu tratado Sobre a Emanação da Esquerda), Lilith e Samael apareceram simultaneamente, emanados um do outro como um casal impuro, espelho invertido do casal sagrado Adão-Eva. Lilith é então descrita como a companheira de Samael, formando com ele o rei e a rainha do império do mal. Juntos, dominam o « lado esquerdo » ou Sitra Ahra (o « Outro Lado »), ou seja, o lado obscuro da existência, oposto ao « lado direito » encarnado por Deus.
Esta conceção dualista, claramente exposta nos escritos de ha-Cohen e depois integrada no Zohar (a grande obra da mística judaica, compilada no século XIII), faz de Lilith a famosa « mulher de Satanás », a rainha dos demónios que partilha o trono infernal de Samael. A partir daí, a missão das forças celestiais no fim dos tempos será destruir este casal demoníaco – condição necessária para a redenção final.
5.2. Uma assassina... ou uma mãe vingativa?
O Zohar está surpreendentemente repleto de passagens sobre Lilith que refinam o seu retrato. Distingue nomeadamente duas Lilith: Lilith a Grande e Lilith a Pequena. A « Grande » Lilith é a esposa de Samael – a mesma que a mulher demoníaca da lenda de Adão, agora elevada ao estatuto de Rainha dos demónios. Conta-se que, após recusar voltar para Adão, Deus a condenou a ver morrer cem dos seus filhos demónios todos os dias, o que a deixou louca de dor. Desesperada, terá tentado suicidar-se, mas os anjos salvaram-na oferecendo-lhe em troca o poder de matar ela própria os filhos dos homens (rapazes até ao oitavo dia, antes da circuncisão, e raparigas até ao vigésimo dia). Assim ficou selado o seu destino de assassina de inocentes. Posteriormente, segundo estes relatos, Lilith encontrou Samael e uniu-se a ele. Samael é também chamado Adam Belial quando forma um casal com Lilith, sugerindo que é o reflexo sombrio de Adão unido a uma mulher perversa. Juntos, geram inúmeros demónios que povoam o mundo inferior. A tradição cabalística afirma mesmo que Lilith vingou-se do casal original: foi ela que, disfarçada de serpente, seduziu Eva e provocou a Queda. O Zohar e outros textos apresentam-na de facto como a serpente tentadora do Éden, combinando as suas forças com as de Samael (por vezes identificado com a própria serpente) para causar a transgressão de Eva e a perda da inocência. Além disso, atribui-se a Lilith o papel de ter incitado o seu filho Caim a matar Abel, insinuando que ela é a origem do primeiro homicídio humano. Após a morte de Abel, a lenda conta que Adão, abatido, separou-se de Eva durante 130 anos – um período durante o qual Lilith voltou a encontrar Adão no seu sono e « desviou a sua semente » para gerar novos demónios em legiões. Estes filhos obscuros, nascidos sem corpo carnal, formam o exército dos espíritos malignos que atormenta a humanidade desde então.
Adão e Eva diante da tentação. Nossa Senhora de Paris.
A « Pequena » Lilith, por sua vez, é por vezes distinguida como outro demónio feminino, subalterno em relação à Grande. Está associada a Asmodeu, um príncipe demónio de grau inferior, e conta-se entre as quatro rainhas demoníacas com quem Lilith partilha o poder infernal (as outras três são Igrat, Mahalath e Naamah). Esta subdivisão em duas figuras permite aos cabalistas explicar as múltiplas facetas de Lilith descritas nos textos: ora esposa de Satanás (Lilith a Grande), ora súcubo que tenta os homens na sua cama (Lilith a Pequena). Em todos os casos, o conjunto destas tradições concorda em fazer de Lilith um pilar da Sittra Achra, o Outro Lado maléfico oposto às forças do Bem. Sim, Lilith é desde então considerada a origem de todos os males... se não os próprios males.
Os relatos cabalísticos integram Lilith até em lendas bíblicas inesperadas. Por exemplo, uma obra do século XV, o Livnat Ha-Sappir de R. Joseph de Agrigento, propõe uma leitura esotérica da história do rei Salomão onde a rainha de Sabá seria na realidade uma manifestação de Lilith vinda para testar o rei sábio. Da mesma forma, este texto identifica Lilith com a prostituta que intervém perante Salomão no episódio do julgamento da criança disputada, o que a tornaria um demónio oculto envolvido nos assuntos do grande rei. Estas interpretações testemunham a ubiquidade de Lilith no imaginário simbólico: para os cabalistas, ela pode infiltrar-se por trás de muitas figuras femininas ambivalentes das Escrituras.
Apesar da importância que estes movimentos místicos lhe atribuem, nem todos os pensadores judeus medievais aderem a estas elaborações. Autoridades rabínicas racionalistas, como Maimónides (século XII) ou o seu continuador Meiri (século XIII), rejeitam explicitamente a realidade dos demónios e das histórias de Lilith, qualificando-as como superstições sem fundamento. Estes sábios negam que Lilith tenha existência real ou papel na teologia judaica. No entanto, a influência popular e esotérica de Lilith era tal que mesmo estas tentativas de desmistificação não conseguiram fazê-la desaparecer. No alvorecer do Renascimento, Lilith estava solidamente instalada como a rainha dos espíritos impuros, a tentadora original e a mãe dos demónios. A sua lenda, transmitida pela Cabala, iria mesmo viajar para além do mundo judeu para inspirar a arte e a literatura dos séculos seguintes.
6. Da lenda à cultura moderna: o legado de Lilith
Figura marginal de textos antigos que se tornou heroína de mitos medievais, Lilith perdurou até à cultura moderna. A sua imagem de mulher demoníaca rebelde fascinou muito para além dos círculos religiosos. Desde a Idade Média cristã, artistas integraram-na nas suas obras: encontramos, por exemplo, Lilith em algumas interpretações da tentação de Adão e Eva, onde a serpente do Jardim do Éden é representada, sem surpresa... com cabeça ou busto de mulher. Esta iconografia, comum na arte europeia a partir do século XII, inspira-se diretamente na tradição que identifica Lilith com a serpente tentadora. O próprio Michelangelo, na sua monumental frescura do teto da Capela Sistina (1508–1512), retratou a serpente da árvore do conhecimento com o torso de uma mulher graciosa enrolada em torno do tronco, sugerindo aos iniciados (como você agora) a presença de Lilith na cena da Queda.
Lilith, primeira mulher de Adão (pintura da Capela Sistina). Fonte : Toysondor
Na época romântica e vitoriana, Lilith torna-se uma musa para muitos artistas e poetas. O poeta Goethe menciona-a na sua Fausto (1808) – « Lilith, a primeira mulher de Adão, cuidado com a sua beleza » diz Mefistófeles – recordando o seu charme... fatal. Os pintores apropriam-se do tema: Dante Gabriel Rossetti pinta « Lady Lilith » (1867), mostrando-a como uma encantadora de longos cabelos, símbolo de sedução narcisista. O seu contemporâneo John Collier realiza em 1887 um famoso retrato de Lilith nua a serpentear em torno de uma árvore, lembrando explicitamente o seu papel de tentadora do Éden que lhe está colado à pele. Estas obras fixam no imaginário coletivo a imagem de uma Lilith sensual e perigosa, encarnação perfeita da mulher fatal.
O nome de Lilith continua a aparecer no século XX em contextos variados. Na psicanálise e na antropologia, autores como Siegmund Hurwitz (em Lilith, a primeira Eva, 1980) ou Raphael Patai (A Deusa Hebraica, 1967) exploraram Lilith como arquétipo do feminino obscuro ou reprimido. Paralelamente, o movimento feminista dos anos 1970 redescobriu Lilith sob uma nova luz: não apenas como um demónio, mas também como um símbolo da mulher indómita perante o patriarcado. A revista feminista judaica Lilith Magazine, fundada em 1976, adotou o seu nome em referência a esta primeira mulher que reivindicou a sua independência. Da mesma forma, o festival musical Lilith Fair (anos 1990) celebrava as artistas femininas invocando esta figura de emancipação. Lilith passou assim do estatuto de monstro ao de ícone para algumas ativistas, prova da versatilidade simbólica desta personagem.
Não, Lilith não se deixa captar num único olhar. Ela escapa mesmo a todas as definições. Ela atravessa as épocas, as crenças e os medos como uma sombra que se recusa a calar. Tentaram apagá-la, aprisioná-la, exorcizá-la. No entanto, ela está sempre presente. Intrusa, demónia, rainha, assassina, dominadora. Ou manipulada, expulsa, ferida. E se o seu nome existe, talvez seja porque nunca deixou de colocar a mesma questão: o que acontece a uma mulher que se recusa a ouvir?
Fontes complementares :















