O Candomblé é uma religião afro-brasileira que tem as suas origens nas tradições espirituais dos povos africanos trazidos para o Brasil durante o período da escravatura. Este sistema religioso sincrético combina elementos de várias culturas africanas, principalmente as dos Yorubas, Bantus e Fons, e integra também elementos do catolicismo e outras crenças locais. O termo "Candomblé" deriva da palavra bantu kandombele, que significa "dançar com os espíritos", pois a dança e a música têm um papel muito importante.
1. Nas origens do Candomblé
1.1. Um nascimento em África
Os Yorubas, os Bantus e os Fons, provenientes principalmente das regiões que hoje correspondem à Nigéria, Benim, Togo e Angola, trouxeram consigo uma rica diversidade de tradições espirituais. Os Yorubas, por exemplo, são famosos pelo seu sistema religioso complexo centrado nos Orixás, divindades que personificam as forças da natureza e os ancestrais. Os Bantus, originários de Angola e do Congo, introduziram práticas relacionadas com os espíritos ancestrais e a natureza, enquanto os Fons contribuíram com as suas crenças sobre os Voduns, entidades espirituais semelhantes aos Orixás.
1.2. Depois, uma adaptação forçada
O tráfico transatlântico de escravos, que durou do século XVI ao XIX, trouxe milhões de africanos para o Brasil, que na altura era uma colónia portuguesa. Forçados a deixar as suas terras natais, estes escravos foram distribuídos por todo o território brasileiro, nomeadamente nas regiões da Bahia, Rio de Janeiro e Pernambuco. Apesar das condições brutais da escravatura e da fragmentação das suas comunidades, os africanos preservaram e transmitiram as suas crenças religiosas, línguas e tradições culturais. Estas práticas espirituais, inicialmente distintas, começaram a fundir-se devido à mistura das populações e à necessidade de se adaptarem a um novo contexto social e religioso.
Este processo de sincretismo deu origem a práticas únicas, onde os Orixás eram frequentemente associados aos santos católicos para disfarçar as práticas africanas sob uma fachada cristã. Por exemplo, Oxalá, o deus supremo de alguns panteões africanos, foi associado a Jesus Cristo, enquanto Iemanjá, a deusa do mar, foi identificada com a Virgem Maria.
A repressão das religiões africanas pelas autoridades coloniais e pela Igreja Católica foi uma constante ao longo do período colonial e mesmo após a independência do Brasil. As práticas do Candomblé eram frequentemente criminalizadas, e os seus adeptos perseguidos, presos ou forçados à clandestinidade. Os terreiros, locais de culto do Candomblé, operavam muitas vezes em segredo para evitar represálias. Apesar disso, estas comunidades conseguiram preservar e transmitir as suas tradições, criando redes de solidariedade e resistência cultural.
1.3. Um reconhecimento oficial

Foi apenas no século XX que o Candomblé começou a ser reconhecido e respeitado como parte legítima do património cultural brasileiro. A partir da década de 1930, intelectuais e artistas brasileiros começaram a valorizar as culturas afro-brasileiras, contribuindo para um renascimento do interesse pelo Candomblé. O fim do período colonial e a ascensão dos movimentos pelos direitos civis também desempenharam um papel crucial neste reconhecimento. Hoje, o Candomblé é não só uma religião respeitada, mas também um símbolo de resistência e identidade para muitos afro-brasileiros. Os terreiros tornaram-se centros culturais importantes, acolhendo cerimónias religiosas, festivais e eventos educativos.
2. As crenças e práticas do Candomblé
O Candomblé assenta numa cosmologia rica e complexa, centrada na crença em divindades chamadas Orixás e no conceito de Axé, uma energia sagrada essencial ao equilíbrio do cosmos. Estes princípios fundamentais orientam a vida espiritual dos adeptos, os seus rituais e as suas interações com o mundo espiritual.
2.1. Los Orixás
Os Orixás são entidades divinas que representam as forças da natureza, as qualidades humanas e os antepassados. Cada Orixá está associado a elementos naturais (como rios, montanhas, fogo), a cores, a animais e a dias da semana específicos. Os crentes veneram os Orixás para obter a sua proteção, orientação e bênção em vários aspetos da vida quotidiana.

As cerimónias em honra dos Orixás são marcadas por oferendas (sementes, alimentos, bebidas, objetos simbólicos), danças e cânticos específicos. Cada Orixá tem as suas preferências em termos de oferendas e música. As danças rituais, frequentemente acompanhadas por percussões, são expressões de devoção e ligação com as divindades. Os cânticos contam as histórias dos Orixás, louvam as suas qualidades e feitos.
| Obatalá | O pai dos Orixás, associado à criação e à pureza. É frequentemente representado de branco e simboliza a sabedoria, a paz e a serenidade. |
| Iemanjá | Deusa do mar e das águas salgadas, considerada a mãe dos Orixás. É protetora dos pescadores e simboliza a maternidade e a fertilidade. |
| Ogum | Deus da guerra, do ferro e das ferramentas metálicas. É o patrono dos guerreiros e dos artesãos, representando a força e a coragem. |
| Xangô | Deus da justiça, do trovão e do relâmpago. Está associado ao fogo e ao poder e é considerado um juiz justo e imparcial. |
| Oxum | Deusa do amor, da beleza e das águas doces. Simboliza a sensualidade, a riqueza e a graça. |
| Oxóssi | Deus da caça e da abundância. É frequentemente representado com um arco e flechas e está ligado à floresta e à natureza. |
| Obaluaiê | Orixá das doenças e da cura. Está associado à terra e aos ancestrais e é venerado pelos seus poderes de cura. |
| Iansã ou Oyá | Deusa dos ventos, das tempestades e dos relâmpagos. É uma guerreira poderosa e está frequentemente associada aos mortos e à transformação. |
| Nanã | Deusa da lama e das águas estagnadas, está associada à sabedoria e à antiguidade. É considerada uma figura materna benevolente mas rigorosa. |
| Exu | Mensageiro dos Orixás e guardião dos caminhos. Exu é um trickster, associado aos cruzamentos e às comunicações. Está também ligado à proteção e à abertura de novos caminhos. |
| Oxumaré | Orixá do movimento e das transformações, frequentemente representado por um arco-íris. Está associado aos ciclos da vida e às mudanças. |
| Logun Edé | Orixá jovem e belo, filho de Oxum e de Oxóssi. Incorpora tanto a beleza, a arte da pesca e da caça. |
| Ibeji | Os gémeos divinos, símbolos da infância e da dualidade. Estão associados à alegria, à proteção das crianças e à sorte. |
| Obá | Deusa da guerra e da fertilidade, frequentemente representada com um gesto de sacrifício. É uma figura de devoção e lealdade. |
| Ewá | Deusa da beleza e da adivinhação, frequentemente associada às águas e às cores mutáveis. Simboliza o mistério e a espiritualidade. |
| Ossain | Orixá das plantas medicinais e da natureza, protetor dos segredos da medicina e da magia das ervas. |
| Orunmila ou Ifá | Orixá da adivinhação e da sabedoria. É o detentor do conhecimento dos oráculos e é venerado pelos seus conselhos esclarecidos. |
2.2. A energia Axé
O Axé é uma energia sagrada fundamental no Candomblé e noutras religiões afro-brasileiras. É considerado uma força vital omnipresente que impregna tudo o que existe, desde os seres vivos aos objetos inanimados, passando pelos elementos naturais. Esta energia divina, proveniente dos Orixás, é essencial para a manutenção do equilíbrio, da saúde, da prosperidade e da proteção, tanto a nível individual como coletivo. O Axé circula através do cosmos e dos indivíduos, influenciando a qualidade de vida e a harmonia das relações humanas e espirituais.
No Candomblé, o Axé pode ser acumulado, transmitido e reforçado por diversas práticas rituais. As cerimónias, as oferendas, os sacrifícios, os cânticos e as danças são formas de gerar e cultivar esta energia. Os locais de culto, chamados terreiros, os objetos sagrados como os colares de contas e as estátuas dos Orixás, bem como as pessoas iniciadas, são todos considerados reservatórios de Axé. Os rituais de purificação, como os banhos rituais, desempenham um papel crucial na eliminação das influências negativas, contribuindo assim para manter um Axé forte e positivo.
O Axé está também ligado à purificação e à proteção. Um Axé forte é necessário para se proteger contra doenças, infortúnios e influências espirituais negativas. Os sacerdotes e sacerdotisas, os Babalorixás e Iyalorixás, são responsáveis pela gestão e distribuição desta energia dentro da comunidade. Eles são formados para canalizar o Axé de forma eficaz, assegurando assim o bem-estar coletivo e individual. Os iniciados aprendem a manipular esta energia através da sua formação e das suas práticas de devoção.
2.4. As celebrações do Candomblé
2.4.1. Festa de Iemanjá (2 de fevereiro)

Celebrada principalmente a 2 de fevereiro, a festa de Iemanjá é uma das celebrações mais emblemáticas do Candomblé. Iemanjá, a deusa do mar e das águas salgadas, é venerada como a mãe dos Orixás e uma protetora poderosa. Nesta ocasião, os adeptos reúnem-se geralmente nas praias para oferecer presentes, como flores, joias e perfumes, que depositam no mar. Estas oferendas são feitas para agradecer a Iemanjá, pedir a sua proteção e expressar desejos para o ano que se avizinha. A festa é marcada por danças, cânticos e rituais, frequentemente seguidos por momentos de celebração comunitária. É um evento de grande importância, atraindo não só os praticantes do Candomblé, mas também muitos curiosos e turistas.
2.4.2. Festa de Ogum (23 de abril)

Ogum, deus da guerra, do ferro e das ferramentas metálicas, é celebrado a 23 de abril, data que corresponde à festa de São Jorge no calendário católico. Ogum é venerado pela sua força e coragem, e as festividades em sua honra incluem sacrifícios de animais, oferendas de comida e danças guerreiras. Os fiéis invocam Ogum para obter proteção, coragem e sucesso nas suas empreitadas. A festa é particularmente popular entre aqueles que trabalham com ferramentas de ferro, como ferreiros, mecânicos e soldados.
2.4.3. Festa de Exu (13 de junho)
Exu é o Orixá dos caminhos, das comunicações e das transições. A sua festa é frequentemente celebrada a 13 de junho, coincidindo com a festa de Santo António. Exu é uma figura complexa e ambivalente, ao mesmo tempo mensageiro dos Orixás e guardião dos cruzamentos. As celebrações em sua honra incluem oferendas de álcool, tabaco e comida picante. Os rituais podem ser mais animados e menos formais do que para outros Orixás, refletindo a natureza travessa e dinâmica de Exu. Esta festa é uma ocasião para os adeptos pedirem proteção e a abertura de novos caminhos nas suas vidas.
2.4.4. Festa de Xangô (29 de junho)
Xangô é o Orixá da justiça, do fogo e do trovão. A festa de Xangô é celebrada por volta de 29 de junho, data que coincide com a festa católica de São Pedro, com quem Xangô é frequentemente associado. As celebrações incluem oferendas de comida, danças e cânticos dedicados a Xangô, bem como representações teatrais dos seus lendários feitos. Os adeptos procuram obter a sua bênção para questões de justiça e verdade. Os rituais desta festa destacam também o poder e a autoridade de Xangô, reflexo do seu papel como juiz e protetor.
2.4.5. Festa de Oxum (8 de dezembro)
Oxum é a deusa do amor, da beleza e das águas doces. A sua festa é celebrada a 8 de dezembro, em associação com a Imaculada Conceição da Virgem Maria. Os rituais incluem oferendas de mel, frutas e joias, simbolizando a riqueza e a doçura associadas a Oxum. As mulheres, em particular, participam ativamente nas celebrações, buscando a bênção de Oxum para o amor, a fertilidade e a prosperidade. As danças e os cânticos da festa expressam a graça e a beleza, características desta Orixá.
2.4.6. Festa de Oxalá (25 de dezembro)

Oxalá é considerado o pai dos Orixás e está associado à criação do mundo e da humanidade. A festa em sua honra, frequentemente celebrada a 25 de dezembro, coincide simbolicamente com o Natal, destacando o sincretismo entre o Candomblé e o catolicismo. As festividades em honra de Oxalá são marcadas pela cor branca, símbolo de pureza e paz. Os fiéis vestem-se de branco, oferecem sacrifícios e oferendas alimentares, e participam em rituais de purificação. A festa é também uma ocasião para refletir sobre os valores de paz e harmonia, procurando promover essas qualidades na vida quotidiana.
3. A organização do Candomblé
3.1. Os Babalorixá e as Iyalorixá

O Candomblé está estruturado em torno de papéis específicos, com uma hierarquia bem definida. Os Babalorixá (sacerdotes masculinos) e Iyalorixá (sacerdotisas femininas) são os líderes espirituais dos terreiros. Possuem um conhecimento profundo dos rituais, dos mitos e das práticas da religião. Guiam as cerimónias, interpretam os sinais divinos e aconselham os fiéis.
3.2. Os Filhos de Santo
Os iniciados, chamados filhos de santo ou iabás, desempenham também um papel crucial nos rituais e cerimónias. Passam por um processo de iniciação que inclui uma formação intensiva e ritos de passagem para estabelecer uma ligação pessoal com um Orixá protetor.
3.3. Os Ogãs
Os Ogãs são homens designados para desempenhar vários papéis de assistência nas cerimónias e na gestão diária do terreiro. Não são possuídos pelos Orixás e não participam nas danças rituais de possessão. Existem três tipos, consoante os papéis atribuídos.
| Jeji Ogã | Responsável por tocar instrumentos musicais sagrados, como os tambores atabaques, durante as cerimónias. A música é um componente essencial dos rituais, pois acompanha os cânticos e orienta os movimentos dos iniciados. |
| Axogun | Responsável pelos sacrifícios rituais. Este papel exige um conhecimento profundo dos ritos sacrificiais, dos animais apropriados e das técnicas sagradas para os oferecer aos Orixás. |
| Alabê | Chefe dos músicos, supervisiona a execução correta dos ritmos e dos cânticos específicos de cada Orixá. |
3.4. As Ekedes
As Ekedes são mulheres que desempenham um papel de apoio e serviço durante as cerimónias. Tal como os Ogãs, não são possuídas pelos Orixás. Ocupam um lugar importante na organização dos rituais e no cuidado dos iniciados possuídos pelos Orixás. As suas responsabilidades podem incluir o cuidado dos iniciados possuídos, a preparação das oferendas e a assistência dos Babalorixás e dos Iyalorixás.
3.4. As Abiãs
Os Abiãs são os membros da comunidade do Candomblé que ainda não foram iniciados como Filhos de Santo, mas que participam ativamente nas atividades e cerimónias do terreiro. O termo "Abiã" vem do iorubá e significa "aqueles que estão sob cuidados" ou "os neófitos". Representam a primeira etapa no compromisso formal dentro da religião do Candomblé e constituem um grupo importante para a perpetuação das tradições religiosas.
O estatuto de Abiã é geralmente temporário, preparando o indivíduo para uma eventual iniciação como Filho de Santo. Durante este período, os Abiãs são observados e avaliados pelos Babalorixás, Iyalorixás e outros membros experientes da comunidade. Podem ser chamados a demonstrar devoção, respeito e compromisso para com a religião e a comunidade do terreiro.
3.5. A organização dos templos (terreiros)

Os locais de culto do Candomblé, chamados terreiros, são espaços sagrados onde decorrem as cerimónias religiosas, as iniciações e outras atividades comunitárias. Cada terreiro é dirigido por um Babalorixá ou uma Iyalorixá (sacerdotisa). Este papel é central, pois estas pessoas possuem um conhecimento profundo dos rituais, dos mitos e das práticas sagradas. Eles ou elas são responsáveis pela direção espiritual e administrativa do terreiro, bem como pela formação dos novos iniciados.
4. A possessão pelos Orixás
Longe do preconceito negativo, a possessão pelos Orixás é aqui um aspeto central do Candomblé, uma experiência espiritual profunda onde as divindades entram temporariamente no corpo de um iniciado para comunicar com a comunidade. Este fenómeno é considerado uma bênção e uma manifestação direta do divino no mundo dos humanos.
4.1. A natureza da possessão
A possessão no Candomblé é um ato sagrado onde um Orixá desce ao corpo de um iniciado durante as cerimónias rituais. Esta experiência é marcada por uma série de sinais físicos e comportamentais, indicando que o espírito do Orixá tomou o controlo. Os iniciados possuídos manifestam movimentos, gestos e expressões características do Orixá em questão, o que permite à comunidade reconhecer a presença divina.
4.2. O processo da possessão
O processo de possessão é iniciado por rituais específicos que incluem cânticos sagrados, danças e ritmos de tambor (atabaques). Cada Orixá tem os seus próprios cânticos e ritmos associados, concebidos para invocar a sua presença. Os iniciados, vestidos com roupas rituais e frequentemente adornados com as cores simbólicas do Orixá, começam a dançar num estado de transe induzido pela música e pelas orações.
A possessão é precedida por preparações rituais, como banhos de purificação e a aplicação de certas substâncias no corpo dos iniciados, que os preparam para acolher o Orixá. Quando o Orixá desce, o iniciado entra num estado de transe profunda, onde perde a consciência do ambiente e do seu próprio ego. Nesse momento, o Orixá usa o corpo do iniciado para comunicar e interagir com os participantes da cerimónia.
4.3. O significado da possessão
A possessão pelos Orixás serve várias funções importantes na religião do Candomblé. Em primeiro lugar, é uma forma de comunicação direta com o divino. Os Orixás, através dos iniciados possuídos, oferecem conselhos, bênçãos e avisos à comunidade. Podem também responder às perguntas dos fiéis e dar orientações sobre aspetos importantes da sua vida quotidiana.
De seguida, a possessão é uma manifestação tangível do Axé, a energia sagrada que atravessa todo o Candomblé. Ela reforça a fé dos participantes e solidifica a sua ligação com o mundo espiritual. Para os iniciados, ser possuído por um Orixá é uma experiência transformadora que fortalece o seu papel dentro da comunidade e a sua relação pessoal com o seu Orixá protetor.
5. A importância dos cânticos e das danças
5.1. Os cânticos
Os cânticos, chamados orikis, são orações cantadas que honram os Orixás. Cada Orixá tem o seu próprio repertório de cânticos que contam os seus mitos, louvam as suas qualidades e pedem a sua bênção. Os orikis são transmitidos de geração em geração, preservando assim as histórias e as tradições orais do Candomblé.
Estes cânticos são executados em língua iorubá ou noutras línguas africanas tradicionais, refletindo as raízes culturais da religião. As palavras dos orikis são frequentemente ricas em poesia e simbolismo, evocando os atributos e os poderes dos Orixás. Os cânticos são acompanhados por percussões, principalmente tambores atabaques, que marcam o ritmo das cerimónias e facilitam a entrada dos participantes num estado de receptividade espiritual.
Os cânticos não são apenas meios de expressão artística; são também considerados orações poderosas que podem invocar os Orixás e canalizar o Axé, a energia sagrada. Os cantores, frequentemente iniciados experientes, desempenham um papel crucial ao guiar os rituais e ao sustentar a atmosfera espiritual das cerimônias.
5.2. As danças
As danças no Candomblé são manifestações corporais da devoção e da presença dos Orixás. Cada Orixá tem uma dança específica, que imita as suas ações mitológicas ou os seus atributos. Por exemplo, a dança para Ogum, o deus da guerra, é enérgica e imita os movimentos de combate, enquanto a dança para Oxum, deusa do amor e da beleza, é mais graciosa e fluida, refletindo a sua natureza doce.

As danças são executadas pelos iniciados, frequentemente em estado de transe ou possessão, o que significa que o Orixá é percebido como presente através dos movimentos do dançarino. Estas danças são, portanto, vistas como atos de comunicação direta com as divindades, permitindo aos participantes sentir física e emocionalmente a presença dos Orixás. Os movimentos e gestos das danças são altamente codificados e simbólicos, expressando aspetos da personalidade e das histórias dos Orixás.
6. Salvador, a capital do Candomblé
Bahia, um estado situado na costa nordeste do Brasil, é amplamente reconhecido como a capital do Candomblé. Esta região, e mais particularmente a sua capital Salvador, é o coração histórico e cultural desta religião afro-brasileira. Bahia alberga uma grande concentração de terreiros, ou templos de culto, e uma rica diversidade de tradições e práticas associadas ao Candomblé. É importante saber que Salvador de Bahia foi um dos principais portos de chegada dos africanos escravizados.

Hoje, Bahia é um centro vibrante da vida religiosa do Candomblé. Os terreiros, espalhados por toda a região, são locais de culto, de reunião comunitária e de transmissão de saberes. Salvador, frequentemente apelidada de "Roma negra" devido à sua importante população afrodescendente, é famosa pelas suas festas religiosas espetaculares e pelas suas cerimónias públicas. As festas em honra dos Orixás, como a festa de Iemanjá e a festa de Santa Bárbara (associada a Iansã), atraem milhares de fiéis e turistas todos os anos.
Bahia é também um centro de investigação e educação sobre o Candomblé. As universidades e os institutos de investigação da região realizam estudos aprofundados sobre os aspetos culturais, sociais e religiosos desta prática. Além disso, Bahia é o lar de muitos Babalorixás e Iyalorixás respeitados, que desempenham um papel crucial na preservação e ensino das tradições do Candomblé. É, portanto, um local de peregrinação para todos os seus adeptos atualmente.















